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Diabetes e Covid-19: atenção ao controlo glicémico

As pessoas com diabetes estão entre as que podem ter complicações mais graves em caso de Covid-19. Controlar os níveis de açúcar no sangue é agora ainda mais importante, defendem os especialistas.

A diabetes era, até há bem pouco tempo, a pandemia mais falada e uma das mais temidas. O caso não é para menos, já que cerca de 463 milhões de pessoas, entre os 20 e os 79 anos de idade, sofrem desta doença metabólica crónica em todo o mundo, segundo dados da International Diabetes Federation (IDF). No nosso país, os números são igualmente preocupantes, com aquela organização a estimar que 9,8% da população adulta (20-79 anos) em Portugal tem diabetes (na Europa, esta percentagem só é ultrapassada pela Alemanha, com uma prevalência de 10,4%).

Uma epidemia global com inúmeras consequências individuais que, à medida que a doença evolui, se traduzem em problemas graves ao nível do coração, vasos sanguíneos, olhos, rins e sistema nervoso, podendo também contribuir para o desenvolvimento de vários tipos de cancro. Estima-se que, só em 2019, a diabetes e respetivas complicações tenham causado cerca de 4,2 milhões de mortes no mundo, e o panorama não deverá melhorar, já que a IDF estima que, até 2045, o número de adultos com diabetes suba para cerca de 700 milhões globalmente.

E se este cenário já é preocupante, junte-se agora uma outra pandemia, a da Covid-19 — em relação à qual as pessoas com diabetes são consideradas de risco —, e facilmente se percebe como é importante olhar com atenção para esta doença. Com efeito, pouco tempo depois de o novo coronavírus começar a alastrar, as autoridades de saúde passaram a aconselhar maior cautela a estes doentes. Não porque tenham maior probabilidade de contrair a infeção (não existe evidência suficiente nesse sentido), mas porque a Covid-19 pode ser mais grave e difícil de tratar nestes casos.

14 novembro

Assinala-se o Dia Mundial da Diabetes, com o objetivo de sensibilizar para o aumento dos números da diabetes em todo o mundo e para a ameaça que constitui para a saúde. Este ano, o Dia Mundial da Diabetes tem como tema o enorme contributo da enfermagem no apoio às pessoas com diabetes.

Porque é que a diabetes é fator de risco na Covid-19?

Para se perceber porque é que quem tem diabetes pode estar em maior risco no caso de adoecer com Covid-19, sobretudo se tiver mais de 65 anos, importa compreender o que está na origem deste problema de saúde. A diabetes é uma doença metabólica crónica, que pode ter várias causas, e que se caracteriza pelo aumento dos níveis de açúcar no sangue (glicemia). Surge quando o organismo não produz insulina suficiente ou não consegue utilizar eficazmente a insulina que produz, sendo que esta hormona é necessária para que o organismo possa ir buscar aos alimentos a energia de que necessita, proveniente da glicose (açúcar). Se tal não acontecer, passa a verificar-se uma concentração anormalmente elevada de açúcar no sangue, o que se designa por hiperglicemia. De acordo com Davide Carvalho, presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), algumas das situações de hiperglicemia que se verificam entre as pessoas com diabetes “associam-se a alterações da função dos glóbulos brancos, e acabam por levar à diminuição dos mecanismos imunológicos de defesa”, logo, estas pessoas ficam mais vulneráveis do ponto de vista imunitário.

“Tempestade imunológica”

Por outro lado, o especialista lembra que “a diabetes é mais frequente nas pessoas idosas, e a Covid-19 também”, ou seja, “dá-se a convergência de duas epidemias: a epidemia infecciosa e a epidemia da diabetes, particularmente da diabetes tipo 2”.

“A diabetes é mais frequente nas pessoas idosas, e a Covid-19 também”, ou seja, “dá-se a convergência de duas epidemias: a epidemia infecciosa e a epidemia da diabetes, particularmente da diabetes tipo 2”
Davide Carvalho, presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM)

Além disso, sabe-se que “com a idade e com a evolução da doença, as pessoas com diabetes têm mais complicações porque têm mais doença coronária, acidente vascular cerebral ou doença arterial periférica, e também têm mais doença renal”. Com todas estas situações a acontecer em simultâneo, quando à diabetes se junta a Covid-19, verifica-se aquilo que os especialistas designam por “tempestade imunológica”. “Não só o vírus pode diretamente afetar o coração e os pulmões, mas também há libertação de muitas substâncias que acabam por ter um efeito prejudicial sobre o coração, rim, pulmões e, a nível sistémico, em todo o organismo”, conclui o também diretor do Serviço de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo do Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto.

“Não só o vírus pode diretamente afetar o coração e os pulmões, mas também há libertação de muitas substâncias que acabam por ter um efeito prejudicial sobre o coração, rim, pulmões e, a nível sistémico, em todo o organismo”
Davide Carvalho, presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM)

João Raposo, diretor clínico da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal e Presidente da Sociedade Portuguesa de Diabetologia (SPD), reforça que o nível elevado de açúcar no sangue “aumenta o estado inflamatório, o qual impede muitas vezes a nossa resposta correta às infeções”.

“depois de estarem infetadas, calcula-se que as pessoas com diabetes têm um risco seis vezes superior de ficar hospitalizadas e 12 vezes maior de ter formas graves da doença, incluindo a morte por Covid-19”
João Raposo, diretor clínico da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal e Presidente da Sociedade Portuguesa de Diabetologia (SPD)

Apoiado nos dados que têm vindo a ser publicados desde o início da pandemia, sublinha que “depois de estarem infetadas, calcula-se que as pessoas com diabetes têm um risco seis vezes superior de ficar hospitalizadas e 12 vezes maior de ter formas graves da doença, incluindo a morte por Covid-19”.

Como pode a pessoa com diabetes prevenir as complicações da Covid-19?

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  • Continuar a tomar a medicação habitual para a diabetes, sem falhas;
  • Controlar os valores do açúcar no sangue (glicemia), medindo-os, registando-os e adequando a medicação, a alimentação e o exercício se necessário;
  • Contactar o médico assistente para esclarecimento de dúvidas relacionadas com o controlo da diabetes ou outro problema de saúde.

Centers for Disease Control and Prevention

Controlo glicémico é crucial

Devido ao conjunto de situações relacionadas com a diabetes e potenciadas pela infeção pelo SARS-CoV-2, os médicos são consensuais em apelar aos doentes para que mantenham um controlo rigoroso da doença. João Raposo acentua que estas pessoas “devem reforçar as medidas de segurança no sentido de diminuir as hipóteses de infeção”, nomeadamente, proceder à lavagem frequente das mãos, usar máscara e manter o distanciamento físico, mas também “tentar otimizar o mais possível o controlo da doença, para diminuírem o risco de ter formas graves de Covid-19, no caso de serem contagiadas”.

Davide Carvalho entende mesmo que “esta pandemia veio enfatizar a importância de o doente se apoderar do seu tratamento e saber dar respostas concretas”. “É importante que os doentes estejam bem controlados e usem as armas terapêuticas de que devem dispor, as melhores [armas terapêuticas] possíveis, para evitar grandes oscilações”, afirma, referindo-se aos níveis de açúcar no sangue. Ainda que um bom controlo da diabetes passe igualmente por ter atenção aos níveis de colesterol e de pressão arterial, bem como evitar o tabagismo, o também professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto sublinha a importância do controlo glicémico: “Com esse controlo, eu consigo ver em que momento do dia e em que circunstâncias é que a pessoa está bem ou mal controlada e consigo fazer adaptações do tratamento”.

“esta pandemia veio enfatizar a importância de o doente se apoderar do seu tratamento e saber dar respostas concretas”
Davide Carvalho, presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM)

João Raposo explica que este controlo passa por duas vertentes: prescrição de medicamentos que ajudam a baixar os níveis de açúcar no sangue, bem como disponibilização de meios ou dispositivos para que as pessoas possam verificar esses níveis sozinhas.

Tipos de diabetes

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Diabetes tipo 1 — Aparece sobretudo na infância e adolescência, embora possa também ser diagnosticada na idade adulta. Caracteriza-se pela incapacidade de o pâncreas produzir a insulina necessária, como consequência de uma alteração do sistema imunológico. O tratamento é feito através de injeções de insulina ou da utilização de uma bomba de insulina, que consiste num aparelho que fornece a insulina continuamente ao organismo.

Diabetes tipo 2 — É o tipo de diabetes mais comum, afetando cerca de 90% de todas as pessoas que têm a doença. Surge quando o organismo deixa de conseguir utilizar a insulina que produz de forma adequada ou quando já não fabrica esta hormona em quantidade suficiente. O seu desenvolvimento está associado a fatores genéticos e ao estilo de vida. Estão disponíveis diversos tratamentos farmacológicos, havendo também necessidade de fazer uma alimentação saudável e aumentar a atividade física para melhor controlar a doença.

Diabetes gestacional — É o tipo de diabetes que surge pela primeira vez durante a gravidez. O aumento dos níveis de açúcar na grávida pode provocar complicações para o bebé, havendo necessidade de controlo durante toda a gestação. Sabe-se que desenvolver diabetes gestacional representa um maior risco de vir a ter diabetes tipo 2 no futuro.

Hipoglicemia — quando o açúcar baixa demais

Se o controlo glicémico não é assegurado de forma adequada, uma das eventuais consequências é a hipoglicemia, que se verifica quando os níveis do açúcar no sangue descem abaixo do que é normal. Ao contrário do que se poderia pensar, isto não é uma coisa boa e os doentes com diabetes que o digam. “As pessoas sentem-se muito mal quando têm hipoglicemia, começam por ter uma sensação de fome, depois uma sensação de mal-estar, porque o coração começa a bater mais depressa, há uma sensação de desmaio e a visão começa a ficar turva; a pessoa sente que se está a esvair e com uma impressão de morte iminente”, explica João Raposo, também Professor da Nova Medical School em Lisboa. No extremo, a pessoa com hipoglicemia “pode desmaiar, ter crises convulsivas e até morrer”.

“As pessoas sentem-se muito mal quando têm hipoglicemia, começam por ter uma sensação de fome, depois uma sensação de mal-estar, porque o coração começa a bater mais depressa, há uma sensação de desmaio e a visão começa a ficar turva; a pessoa sente que se está a esvair e com uma impressão de morte iminente”
João Raposo, diretor clínico da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal e Presidente da Sociedade Portuguesa de Diabetologia (SPD)

Muitos fatores podem favorecer a ocorrência de hipoglicemias, nomeadamente, a dose de medicação ter um efeito superior ao habitual, a ingestão insuficiente de hidratos de carbono ou a realização de atividade física não planeada. “Se colocarmos isto em vários momentos do dia, temos uma perceção dos riscos associados”, avança o especialista, dando como exemplo o perigo de ter uma hipoglicemia enquanto se conduz ou se realiza um trabalho em altura. Por outro lado, há também a possibilidade de esta descida abrupta dos níveis de açúcar acontecer durante a noite, dando origem às receadas hipoglicemias noturnas.

Além das consequências imediatas da hipoglicemia, o endocrinologista destaca que, se esta situação se repetir com frequência e gravidade, tal pode levar a um “pior funcionamento do sistema nervoso, a alguns problemas de concentração e desempenho de atividades mentais”.

Muito relevante é, frisa João Raposo, que todos os episódios de hipoglicemia sejam relatados ao médico assistente. “Aquilo que temos de perceber é se há um padrão nas hipoglicemias”, indica, sendo que isso só se consegue “através de uma conversa franca e aberta com a equipa de saúde, que leva depois à hipótese de se corrigir e aconselhar um ajuste na terapêutica, na alimentação ou até na atividade física, se for caso disso”.

Quem pode ter diabetes?

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Toda a gente pode desenvolver diabetes tipo 2, fruto de uma alimentação desequilibrada e sedentarismo, mas algumas pessoas estão mais predispostas do que outras. A obesidade é um dos principais fatores de risco, sendo responsável pela resistência à ação da insulina e inflamação vascular, bem como outros distúrbios do metabolismo, como a hipertensão arterial e os lípidos elevados. Mas nem todas as pessoas obesas desenvolvem diabetes, com a hereditariedade a influenciar entre 30 a 70% dos casos. A prevenção tem, pois, um papel muito relevante para impedir o desenvolvimento da doença, passando pela adoção de um estilo de vida saudável, ativo, com uma alimentação equilibrada, sem álcool nem tabaco.

Além dos doentes, também os cuidadores devem ser envolvidos no debate deste tema. Segundo o estudo TALK-HYPO, um estudo multinacional realizado em 2019, que reuniu a experiência de 4.300 familiares de pessoas com diabetes, os familiares reconheceram o impacto que as hipoglicemias podem ter nas suas próprias vidas: 64% sentem preocupação e ansiedade relativamente aos riscos associados à diminuição de açúcar no sangue, realçando o impacto que isto tem na família. O mesmo estudo, demonstra ainda a importância das pessoas com diabetes terem mais conversas sobre as hipoglicemias com a família e com o médico assistente, pois 76% acredita que estas conversas podem levar a melhorias na qualidade de vida das pessoas com diabetes.

Quando procurar um médico?

Sendo necessário manter um controlo rigoroso da doença, é importante que, apesar do maior isolamento a que todos estamos sujeitos nesta altura, as pessoas com diabetes mantenham contacto com o seu médico. De acordo com Davide Carvalho, “é indispensável que os doentes não faltem às consultas”, as quais podem até realizar-se à distância, quer seja por telefone ou videochamada. “Se a pessoa estiver bem controlada, poderá alargar o prazo de consulta; mas se estiver descompensada, deve procurar proativamente o seu médico para melhorar o controlo”, aconselha.

“Se a pessoa estiver bem controlada, poderá alargar o prazo de consulta; mas se estiver descompensada, deve procurar proativamente o seu médico para melhorar o controlo”
Davide Carvalho, presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM)

Para o responsável da SPEDM, além dos médicos, também outros profissionais de saúde merecem relevo, devido ao contributo que dão na boa gestão da diabetes, como é o caso dos enfermeiros, este ano homenageados por ocasião do Dia Mundial da Diabetes. “As equipas de saúde integradas por médicos, enfermeiros, nutricionistas, podólogos e psicólogos constituem, de facto, a base de um tratamento adequado do doente com diabetes”, destaca, acrescentando que “o enfermeiro, não só devido ao seu papel na educação, como também pela proximidade maior e uma certa cumplicidade que mantém com o doente, acaba por ser uma peça-chave desta equipa que se quer multidisciplinar”.

“As equipas de saúde integradas por médicos, enfermeiros, nutricionistas, podólogos e psicólogos constituem, de facto, a base de um tratamento adequado do doente com diabetes”
Davide Carvalho, presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM)

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