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Eduardo Carqueja é diretor do serviço de Psicologia do Hospital de S. João, no Porto

Eduardo Carqueja é diretor do serviço de Psicologia do Hospital de S. João, no Porto

Diretor do serviço de psicologia do São João: “Liguei a uma mãe para dizer que a filha estava bem, mas na televisão davam-na como morta"

Eduardo Carqueja, diretor de Psicologia do São João, fala dos efeitos da pandemia no luto, nos afetos e no futuro, dos erros de comunicação do Governo e do preconceito dos médicos em pedir ajuda.

É diretor do serviço de Psicologia do Hospital de S. João, no Porto, desde novembro de 2019, altura em que essa área e se tornou autónoma. Ainda sem gabinete e computador próprios, começou a lidar com os efeitos da pandemia junto de doentes, familiares e profissionais de saúde. Hoje coordena uma equipa de 30 pessoas que se dedica a ajudar os que não sabem lidar com as emoções.

Em entrevista, Eduardo Carqueja recorda a culpa de uma viúva de 80 anos que infetou o marido, a revolta de alguém a quem um amigo não lhe contou que estava doente, o desespero de uma mãe que pensava que a filha tinha morrido ou a fé de outra que espera reencontrar o filho que se suicidou aos 13 anos. Pós graduado em luto e mestre em ciências religiosas, o médico explica que a morte, o luto e as despedidas mudaram, mas garante que ainda é cedo para análises ou conclusões.

Habituado a trabalhar em cuidados paliativos, sublinha o poder da palavra, o perigo da solidão e o medo como algo que também pode ser positivo. Compreende a fadiga pandémica, acredita que ela é fruto dos erros de comunicação do Governo e da falta de reconhecimento de alguns comportamentos. Espera que o vírus não vulgarize a doença mental, mas revela a importância da intervenção psicológica na vida de todos.

Eduardo Carqueja fala do preconceito que muitos profissionais de saúde têm em pedir ajuda e da necessidade de essa ajuda estar cada vez mais próxima deles. Por isso, a partir do dia 1 de fevereiro o serviço de urgência do S. João contará com um psicólogo permanente. Eduardo Carqueja não acredita que no futuro os afetos desapareçam ou que a forma de socializar mude radicalmente, mas admite que nas gerações mais novas as marcas sejam mais profundas e deixa conselhos para sobreviver a mais um período de confinamento.

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“Há enfermeiros que entravam na sala e já sabiam que seriam os últimos a ver aquela pessoa viva”

O serviço de psicologia foi apenas formalizado há um ano. Porquê?
O serviço surge após um despacho do atual presidente do conselho de administração em 2017, que propunha que todos os serviço de psicologia do SNS, tanto a nível hospitalar como nos cuidados de saúde primários, fossem serviços autónomos. No Hospital de S. João, até novembro de 2019, a unidade de psicologia estava incluída no departamento de psiquiatria e saúde mental, mas com esta implementação somos considerados serviços de apoio clínico.

Na prática muda muita coisa?
Muda muito a gestão e a dinâmica do que se pode incutir. Há dimensões em que a psiquiatria tem um determinado olhar e faz uma estratégia muito mais ligada à doença, sobretudo à doença mental, e que a psicologia tem de estar inserida nisso. Quando implementamos este serviço, verificamos que cerca de 70% da atividade dos psicólogos era feita com doentes oncológicos, de cuidados paliativos, com obesidade ou reumatologia. Ora, estando sob a alçada da psiquiatria era mais difícil chegar a estes doentes.

Como está organizado o serviço?
Neste momento temos 30 profissionais a trabalhar em quatro áreas distintas: adulto e idoso, infância e adolescência, neuropsicologia e um núcleo de investigação e formação. Acabamos por complementar outros serviços e estamos distribuídos um pouco por todo o hospital, onde chegamos através das consultas internas. Se alguém quiser uma consulta de psicologia no hospital, terá que ter primeiro uma consulta médica de psiquiatria e só depois o médico pode reencaminhar, durante este processo perde-se muito tempo e temos vindo a lutar contra isto.

Tomou posse em novembro de 2019 e o vírus chegou a Portugal poucos meses depois.
Sim, estruturamos a nossa ação numa base psicológica de prevenção, muito ligada aos doentes, às famílias e aos profissionais de saúde.

OCTAVIO PASSOS/OBSERVADOR

Percebeu logo a gravidade desta situação?
No dia 13 de março, que foi uma sexta-feira e nunca me hei de esquecer, não tínhamos gabinete, uma estrutura, o meu computador era o meu telemóvel. Foi assim a nossa  gestão até maio, altura em que ganhámos um espaço físico com três gabinetes. Por vezes as pessoas dizem que não têm condições, mas, havendo vontade, consegue-se sempre fazer as coisas. Nessa altura, definimos logo uma estratégia — não sabíamos bem o que iria acontecer, mas sabíamos que era grave. Pedimos a cinco colegas do núcleo de investigação para verem intervenções num contexto como este. Uma coisa é um terramoto ou um incêndio, que são focos e sabemos que vamos para o local e atendemos uma determinada população, mas isto estava completamente espalhado, então começámos por intervir junto dos médicos e enfermeiros do serviço de urgência.

De que forma?
Inicialmente, criámos uma linha de apoio aos profissionais de saúde das urgências, que depois se alargou a todos os que contactassem ou não com doentes Covid-19, pois a qualquer momento as pessoas eram chamadas para atuar com esses pacientes e, antes de serem chamados, já sentiam medos e receios. Fornecemos vários números de telefone, alguns deles mesmo pessoais da minha equipa, mas numa primeira fase não tivemos muitas chamadas, apenas uma meia dúzia de pedidos de ajuda de pessoas já tinham alguma ansiedade. Era tudo novo para todos e existia muita aquela vontade de “eu vou conseguir”. Em abril, elaborámos uma mensagem personalizada a todos os profissionais do serviço de urgência a informar que cada um deles tinha um psicólogo de referência. Em maio, criámos o modelo de resiliência, totalmente novo e baseado numa auto monitorização. Este método está relacionado com a graduação do estado emocional de cada profissional, nas estratégias que cada um tem para lidar com estas situações e de que forma pode abordar isso com outros colegas. Numa altura em que os profissionais estão tão danificados, exaustos fisicamente e emocionalmente, é importante sentirem que têm recursos pessoais e humanos para continuar. Até agora, já acompanhámos entre 50 a 60 profissionais de saúde.

Que feedback receberam dos que precisam de ajuda psicológica para lidar com a pandemia?
As principais dificuldades eram essencialmente a incerteza que sentiam quando contactavam com alguém positivo e não sabiam o que fazer, não sabiam se tinham que ir para casa ou se podiam continuar a trabalhar. A maioria dos profissionais separou-se da família completamente, recordo-me de um enfermeiro que tinha sido pai uma semana antes de a pandemia chegar e deixou de ver o bebé a crescer. A angústia direcionada à ausência e à solidão foi muito evidente. Depois, o medo daqueles que achavam que podiam ir a casa, mas tinham medo de infetar os pais ou as pessoas mais velhas.

Que orientações foram dadas?
Sobretudo muita escuta, o que, por vezes, é difícil. É importante acolher e ao mesmo tempo devolver uma compreensão empática daquilo que estão a viver. Nestas situações, não há muito a dizer, não interessa dizer “você é forte e consegue” porque a pessoa já sabe que é forte. Muitas vezes, os profissionais precisam de ter um espaço para ventilar as suas emoções e Portugal não tem muito essa cultura, ou somos daqueles que andam sempre a queixar-se ou somos os chamados heróis que aguentam tudo. O que estes profissionais sentiam era perfeitamente normal, não era sinónimo de serem mais fracos ou mais vulneráveis, era um sinal de serem pessoas e precisavam de alento e compreensão.

Fala-se de um stress pós traumático em profissionais de saúde superior ao da guerra. Isto é uma realidade?
Ainda não há um stress pós traumático avaliado, mas existe algo que nos perceciona que pode vir a acontecer. Desde março que os profissionais saúde pouco ou nenhum descanso tiveram. Será importante que quando isto terminar percebamos o que vai acontecer a seguir e o que será dado a estes profissionais. Entre março a maio do ano passado houve uma disponibilidade muito grande, mesmo para profissionais que não estavam ligados aos cuidados intensivos e foram alocados para lá. Numa fase mais calma da pandemia, regressaram aos seus serviços de origem e os que estavam na área cirúrgica tiveram que contribuir para encurtar as listas de espera e o seu volume de trabalho aumentou. Uns meses depois, aparece uma nova vaga e regressa todo o cansaço físico e emocional.

"Quando acabamos o curso, sentimo-nos heróis porque podemos salvar vidas, mas quando se lida com a morte diariamente é difícil. Somos nós que estamos com o doente até ao fim, neste hospital muitos morreram, sem dúvida, mas serão muito poucos aqueles que morreram completamente sozinhos, havia sempre um profissional de saúde presente."

Estes profissionais são treinados para lidar com a dor e o sofrimento, mas depois ouvimos relatos desesperados e casos de burnout.
Os profissionais de saúde são treinados tecnicamente, mas na faculdade devia aprender-se a gerir emoções. Quem trabalha na área dos cuidados paliativos e lida diariamente com a morte foi confrontado com uma realidade muito mais sequenciada e intensa. Por um lado, há que salvar vidas, é essa a nossa missão. Por outro, a verdade é que não estamos a conseguir salvar vidas. O problema é a impotência que se sente perante isso. Quando acabamos o curso, sentimo-nos heróis porque podemos salvar vidas, mas quando se lida com a morte diariamente é difícil. Somos nós que estamos com o doente até ao fim, neste hospital muitos morreram, sem dúvida, mas serão muito poucos aqueles que morreram completamente sozinhos, havia sempre um profissional de saúde presente.

Mas a morte é um ato de solidão.
Sim, talvez o ato mais solitário, porque quando nascemos temos alguém que nos recebe, mas quando morremos não sei se temos alguém à nossa espera, espero que sim. Estes profissionais estão com os doentes até ao fim e isso faz diferença. Temos relatos de enfermeiros que entravam na sala e já sabiam que seriam os únicos e os últimos a ver aquela pessoa viva, mas depois muitos não conseguiam falar disto com ninguém quando terminam o turno, chegavam a casa e não tinham ninguém com quem falar, ou tinham mas preferiam não contar mais tragédias para as pessoas não ficarem ainda mais aflitas. Neste momento, nós, os psicólogos, iremos também aos locais onde estes profissionais atuam, para sentirem que têm ali alguém disponível com quem trabalhar este tipo de emoções.

Como o pretendem fazer?
A partir do dia 1 de fevereiro vamos ter a presença física de psicólogos no serviço de urgência do hospital para o acompanhamento imediato de doentes, famílias e profissionais de saúde. A ideia não será tanto atuar em doentes do foro psiquiátrico, mas em situações delicadas como um acidente grave em que a família precisa de suporte quando alguém morre. No caso dos profissionais, uma coisa é termos um número de telefone gravado, outra coisa é pegar no telefone e ligar. Por vezes, acha-se que se resolvem as coisas indo tomar um café ou fumando um cigarro. Percebemos que temos mesmo de estar presentes para prestar este apoio psicológico. As palmas aos profissionais de saúde foram muito bonitas, mas se não houver um olhar diferente da população em relação ao que fazem, tudo ficará igual.

Nos últimos meses, muitos não aguentaram a pressão e foram mesmo para casa?
Sim, muitos não aguentaram, não tiveram estrutura psicológica, não encontraram provavelmente recursos para lidar com tudo isto. Sabemos que apesar de precisarem, muitos profissionais recusam ter apoio psicológico. Recordo-me de uma médica que ligou para a linha de apoio, onde perguntamos o nome, a idade e a função por uma questão de registar e contextualizar o que fazemos. A pessoa queria ajuda, mas recusou dar esses dados com medo de ser rotulada de alguma coisa.

Existe esse preconceito?
Sim, ainda existe. É também por sabermos isso que temos tido uma presença muito grande nas áreas mais sensíveis da medicina. Não há outra forma se não deslocarmo-nos até às pessoas, dizer-lhes que estamos aqui, que somos mais um no grupo. Apesar de não podermos obrigar ninguém a falar connosco, é fundamental estarmos presentes.

Há quem antecipe a medicina de catástrofe, onde os profissionais têm que escolher os doentes a tratar. Isso já representa uma preocupação acrescida?
Essa questão está sempre subjacente às boas práticas da medicina. Temos que perceber o investimento que é feito e se é feito de uma forma adequada às necessidades do doente e à sua realidade clínica. Não é um modelo de seleção e de escolha, isso são nomes muito intensos e que as pessoas não vão compreender e vão ficar ainda mais magoadas emocionalmente, mas trata-se de avaliar as condições clínicas de cada doente. Além disso, nunca pode ser uma decisão exclusiva de um médico ou de uma médica, mas de uma equipa. Se isto ficar centrado numa pessoa só, dói muito e as decisões éticas são decisões coletivas. Penso que esta é mesmo uma questão que está presente nas práticas do dia a dia dos profissionais.

Que marcas pode esta pandemia deixar no exercício de uma profissão tão exigente e tão importante?
Se não houver um reconhecimento — e não tem que ser necessariamente monetário, mas também pode passar por aí —, as marcas serão muito maiores. A consequência desse quase desprezo pelo que fazem será termos profissionais desmotivados, despersonalizados sobre aquilo que é a sua atividade e isso terá certamente repercussões nos cuidados de saúde que virão a seguir. É importante pensarmos que quando tudo isto acalmar e retomar uma certa normalidade, não podemos fechar uma porta e abrir outra. Os profissionais de saúde irão precisar de tempo para acomodar e assimilar todas estas experiências emocionais, não apenas para descansar do desgaste físico, mas para integrar tudo o que viveram durante meses. Tivemos relatos de médicos que num sábado saíam de um serviço e na segunda começavam noutro, não pode ser. Será necessário pensar no tempo que vamos ter para que estas pessoas se possam reorganizar, reerguer e reestruturar.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Os doentes “têm um sentimento de culpa e de revolta”

Que tipo de intervenção fizeram com doentes Covid-19?
As pessoas eram informadas de que existia este acompanhamento e a maioria aderia, mesmo as pessoas mais velhas. Contactámos sempre telefonicamente, evitávamos ao máximo ir ao quarto porque conhecíamos a escassez do material de proteção. Durante a primeira vaga, atendemos cerca de 600 doentes, entre os que ficavam internados e os que faziam cá o teste mas depois eram acompanhados no domicílio. Neste momento, estes doentes já não são referenciados por nós, vão para casa e são acompanhados pela saúde pública. Há, de facto, uma linha de apoio psicológico no SNS24, que já atendeu mais de 50 mil pessoas, é algo importante, mas funciona como um funil, ou seja, atendem muitas pessoas, mas só fazem um atendimento. Esta linha não serve para seguir o doente, serve para acomodar pedidos em situações de emergência, mais agudas, não existe depois um acompanhamento permanente. Posso dizer-lhe que nos cuidados de saúde primários há 250 psicólogos em Portugal. Como é que possível? O pretendido seria, em média, ter um psicólogo para cinco mil habitantes. Se já não conseguíamos dar resposta antes, agora, com a pandemia, a situação agravou-se.

Atualmente, quantos doentes são seguidos pelo vosso serviço?
Neste momento, temos um número bastante mais reduzido, quer pela gravidade dos sintomas dos doentes internados, quer por não acompanharmos infetados que estão em casa. Atualmente acompanhamos cerca 50 pessoas internadas em enfermaria ou em cuidados intensivos. Nos cuidados intensivos é mais complicado, porque os doentes encontram-se numa situação mais debilitada, muitos estão ventilados, e nesses casos a equipa médica pede que acompanhemos as famílias. Em enfermaria também é difícil, pois há internados que estão a receber oxigénio e seu cansaço impede que exista uma interação comunicacional fluida.

O que sentem estes doentes?
Medo de tudo o que é novo, do futuro e de morrer. Têm um sentimento de culpa e de revolta, até. Lembro-me de um senhor que tinha sido infetado por alguém que sabia que já estava infetado e não lhe disse nada. Hoje sabemos que a proteção é fundamental, mas no início não. Os doentes internados muitas vezes nos pediam para ligar para a família para perceber como é que estavam, ouvia coisas do género: “Eles dizem que estão bem em casa, mas devem estar tristes e preocupados”. Ainda seguimos doentes da primeira vaga, que apesar de já não estarem infetados, sabemos que se os abandonarmos o acesso a uma consulta de psicologia será muito mais difícil.

"Lembro-me de um dia telefonar à mãe de uma adolescente com 16 anos de Santa Maria da Feira a informar que a filha estava bem, tinha acabado de sair dos cuidados intensivos, mas ela chamou-me de mentiroso porque estava a ver na televisão que a filha tinha morrido, o que era mentira. Foi doloroso."

Que tipo ação tiveram junto das famílias?
Sempre privilegiamos a comunicação com as famílias, seja por vídeochamadas, seja com visitas, por vezes até infringindo algumas normas. Todos sabemos que é difícil telefonar para a central de um hospital, são centenas de pessoas a fazer o mesmo, então estabelecemos contactos diários com a família, onde passamos, em articulação com os enfermeiros de cada serviço, a informação clínica de cada doente.

Alguma vez teve que comunicar uma morte a um familiar?
Não, isso são sempre as equipas assistenciais a fazer. Lembro-me de um dia telefonar a uma mãe para dizer que a filha estava bem, mas na televisão davam-na como morta.

Como assim?
Liguei à mãe de uma adolescente com 16 anos de Santa Maria da Feira a informar que a filha tinha acabado de sair dos cuidados intensivos, mas ela chamou-me de mentiroso porque estava a ver na televisão que a filha tinha morrido, o que era mentira. Foi doloroso.

Os sentimentos da família são comuns às do doente?
Sim. Recordo-me de uma senhora de 80 anos em que o marido, também com uma idade avançada, tinha várias doenças crónicas e já não saía de casa. Ela tinha de sair para ir às compras ou à farmácia, protegia-se, não deixava ninguém visitá-los, mas acabou por testar positivo e passar ao marido. Ele esteve internado e veio a falecer, então a mulher ficou sozinha, com os seus 80 anos, sem poder ter ninguém em casa, e a chorar a morte do marido. Por vezes, não se trata apenas de acompanhar uma pessoa que tem Covid-19, mas alguém que tem a doença, que está sozinho e que perdeu alguém. São danos bem mais complexos.

Como foi feito o acompanhamento nesse caso concreto?
Ligávamos diariamente e havia o compromisso de agendar uma hora específica e de definir um tempo de duração da conversa, que pode ir dos 45 aos 50 minutos. É um desafio fazer o nosso trabalho à distancia, mas devemos sempre privilegiar o contacto pessoal. Os telefonemas, o WhatsApp e a vídeochamada têm que ser encaradas como exceções.

Esta doença é sentida de forma muito diferente por adultos e jovens?
Nas crianças, depende muito do estado de desenvolvimento que estamos a falar, mas normalmente adaptam-se muito melhor do que os adultos, que são mais rígidos e resistentes à mudança. As crianças lidam com isto de uma forma absolutamente natural, sabem que há um vírus que não se vê, mas que é perigoso e vão-se ajustando a ele. Claro que há uma necessidade em socializar na adolescência, os grupos são muito importantes para a modelação da própria personalidade, e desde março que isso vindo a ser sacrificado. Nos adultos, as dificuldades estão mais relacionadas com a perceção do risco, até porque não basta saber que existe um risco. Quem não sabe que o tabaco mata e provoca cancro? Toda a gente sabe, mas uns fumam e outros não, exatamente porque uns têm a perceção de que aquele risco é menor, seja porque é saudável, porque pratica desporto ou tem uma boa genética. A desvalorização que damos ao risco vai fazer com que possamos adotar ou não determinados comportamentos. Nesta pandemia acontece a mesma coisa, quando se passa a imagem de que ela só afeta as mais velhos e são eles quem mais morre, os adultos pensam que são saudáveis, não têm problemas cardíacos, não são obesos e por isso nada os afetará.

ESTELA SILVA/LUSA

“Pensarmos que podemos morrer ajuda-nos a viver melhor”

Apesar da banalização dos números, a morte continua a ser um tabu?
Sem dúvida. Uma coisa é o acontecimento, que está vulgarizado e quantificado enquanto morte, outra coisa é falar da morte, que é também falar da vida. As despedidas, por exemplo, têm de ser diárias e têm de ser feitas em vida. Se tenho coisas para resolver, tenho de o fazer no meu dia a dia, o problema é que as pessoas acham que nunca vão morrer. É importante pensarmos que podemos morrer, isso ajuda-nos a viver melhor. No entanto, também não podemos pensar sempre que vamos morrer, porque isso também se torna uma obsessão.

Mas despedirmo-nos dos mortos é, culturalmente, uma coisa importante.
Sim e deve ser feito, pois a despedida tem um simbolismo associado. Desde março que as despedidas foram adiadas ou feitas de uma forma diferente. Temos relatos de pessoas que se queriam despedir dos pais, mas não podiam porque estavam positivas e, por isso, não podiam sair de casa, ou relatos de pessoas cujos familiares foram cremados e guardaram as cinzas para as enterrar um dia mais tarde. A despedida é algo que tem de ser trabalhado, principalmente o velório, que tem um carácter social muito importante. Mesmo antes da pandemia, as pessoas viam o velório como um reconhecimento da pessoa que morreu. “Tenho tantas saudades do meu tio, mas nunca vi um funeral tão grande como o dele”, oiço isto muitas vezes. Estamos a falar de um cerimónia que é recompensadora de alguma forma. Hoje não poder acontecer isto, terá consequências no futuro.

O luto pode agravar-se nestas circunstâncias?
Temos neste momento uma linha de investigação nessa área para tentar perceber se a existência ou não da despedida vem alterar o processo de luto, ou seja, se isso vai provocar um luto mais prolongado. Ainda é cedo para avaliarmos isto, só nos próximos anos teremos uma noção. Pessoalmente não sei se teremos lutos mais complicados, porque uma coisa é sermos a única pessoa que não se pode despedir de um familiar, outra coisa é ninguém se ter despedido dele. Quando temos a perceção de que não é uma coisa exclusiva minha, mas sim algo coletivo, talvez isso não tenha um efeito tão nefasto.

As despedidas por telefone são recomendáveis?
Depende de quem parte a motivação e a iniciativa. Normalmente é sempre algo positivo para a família e para o doente, desde que não seja uma violência para o próprio doente. Estamos muito próximos daquilo que são os cuidados paliativos e nestes contextos é fundamental para as pessoas dizerem o quanto gostam de alguém, o quanto aquela pessoa foi importante na sua vida. Muitas vezes o que fica são mensagens implícitas e é importante dizer, porque o que fica é efetivamente aquilo que é dito. Nos processos de luto a dúvida e a culpa têm um peso muito grande.

O luto de alguém que morre com Covid-19 é diferente do luto de alguém que morre por outra doença qualquer?
Ainda não lhe sei dizer, é cedo para termos essa avaliação. No geral, não me parece que existam grandes diferenças, a não ser nessas dimensões de despedida e de enterro. Tivemos situações de pessoas que foram colocadas nuas num saco e para os seus familiares era essencial serem enterradas vestidas, aliás há quem escolha a sua roupa para a hora da morte. Houve uma altura em que os doentes eram todos cremados e as agências funerárias não faziam mesmo a sepultura. Ouvi pessoas a dizerem que os seus familiares não queriam ser cremados, tivemos que trabalhar muito com isto, ou seja, naquilo que é ajustamento destas vivências e experiências. Não é só o deixar de despedir de quem gostamos, é contrariar o desejo de alguém que morreu.

A lógica é sempre ouvir?
Ouvir e reformular. Neste caso em concreto da cremação, temos que ajudar na reinterpretação do significado da perda com uma pergunta simples: “Se o seu pai estivesse aqui e lhe fosse questionado que, por uma questão de saúde publica e de segurança para os outros, teria que ser cremado, o seu pai aceitava? Quem era o seu pai? Pensaria nos outros?” Isto obriga as pessoas a reinterpretarem significados que têm e elevar a pessoa que acabou de perder.

"As despedidas, por exemplo, têm de ser diárias e têm de ser feitas em vida. Se tenho coisas para resolver, tenho de o fazer no meu dia a dia, o problema é que pessoas acham que nunca vão morrer. É importante pensarmos que podemos morrer, isso ajuda-nos a viver melhor. No entanto, também não podemos pensar sempre que vamos morrer, porque isso também se torna uma obsessão."

Que poder pode ter a fé neste processo?
Depende, há circunstâncias em que quem acredita encaixa mais facilmente, outras vezes que não. Vou-lhe dar um exemplo engraçado que aconteceu connosco: a comunidade hindu tem 13 dias de orações ritualizadas depois da morte de alguém, e vimos que conseguiram fazer isso online, após a cremação. Disseram-nos que foi uma coisa positiva, porque existiam familiares que estavam fora do país e que provavelmente não poderiam vir cá e desta forma conseguiram estar presentes de alguma forma. Portanto, até nestas culturas aparentemente mais rígidas esta limitação trouxe outras possibilidades.

Mas ter algum tipo de fé ajuda efetivamente?
Diria que, à partida, sim. O que acontece perante a morte é essencialmente o medo do desconhecido. Eu morro e depois, o que me acontece? Para quem fica pode passar pelo reencontro numa reencarnação e isto aparentemente baixa a angústia de nunca mais poder ver aquela pessoa. Recordo-me de uma mãe que tinha perdido o filho de 13 anos por suicídio e um dia perguntei-lhe diretamente se alguma vez tinha pensado em terminar a sua vida mais cedo e ela disse-me que não, que não fazia com que a sua vida terminasse mais rápido, mas ficava muito contente por cada dia que passasse, porque era menos um dia que faltava para estar com o seu filho novamente. Ela encontrava na fé o esbater do sofrimento e isso é importante para que algumas pessoas possam continuar a viver.

Getty Images

“A forma como socializamos não vai mudar”

A fadiga pandémica é real?
Sim, a partir de um momento em que isto é uma corrida que não sabemos quando irá terminar, tudo tem efeitos acumulativos. A luz ao fundo do túnel também existe, posso vê-la ou não, mas ela existe. Este túnel pandémico não é reto, tem muitas curvas, seja a mutação inglesa ou os surtos, mas a luz está lá e a luz será provavelmente quando toda a população estiver vacinada. Temos que ter a certeza de que a luz existe, porque se duvidarmos disso será o fim da fadiga, será a morte antecipada.

Como se gere a expectativa de uma vacina?
É saber que existe algo que nos pode ajudar, mas que vai demorar o seu tempo e que naturalmente é mais uma medida e não a medida que nos vai salvar. Logo após as primeiras doses chegarem a Portugal criou-se, mais uma vez, uma falsa perceção do risco. Há quem já esteja a sofrer com essa expectativa de a vacina não poder chegar amanhã. Temos que ver isto de forma realista e não como uma tábua de salvação a que preciso de me agarrar, pois até chegar a ela preciso de saber boiar ou nadar para não ir ao fundo. Se pensarmos que a tábua de salvação vai chegar e só temos que esperar por ela sem fazer mais nada, então vamos morrer afogados.

Como se combate o cansaço pandémico?
O primeiro grande combate é aceitar que ele pode acontecer, normalizá-lo, e sentir que há razões para estarmos cansados. Dentro disto, é necessário acreditar que tudo isto tem um sentido. Veja-se nos campos do Holocausto, as pessoas sobreviviam porque encontravam um sentido para poderem viver durante mais algum tempo, aqui é semelhante. Precisamos de encontrar um sentido para isto, seja ele qual for. Infelizmente há uma banalização de tudo, até da própria experiência da doença e da perceção que temos dela.

Isso pode explicar a resistência das pessoas em cumprir de novo as regras?
Este aumento do número de casos não é da inteira responsabilidade das pessoas, mas está relacionado com algo que vivemos e do qual estamos efetivamente cansados. Quando isso acontece, as nossas decisões são mais diluídas na componente emocional. Imagine um filho que pede insistentemente a um pai para sair e o pai diz sempre que não, dias e dias seguidos, claro que ao fim de um tempo é provável que diga que sim. Aqui é a mesma coisa. As pessoas sabem que não podem sair de casa, mas ao fim de algum tempo não querem saber, naturalmente baixam a guarda da capacidade de discernir o adequado do menos adequado.

Onde ficou o medo que sentimos em março?
Em março, a Covid-19 era uma coisa vinda da China, completamente nova. Hoje o vírus está cada vez mais perto de nós, todos conhecemos alguém infetado, mas ao mesmo tempo não existe tanto a perceção do risco, tendo muitas vezes uma falsa sensação de controlo desta realidade, porque o vírus continua ativo. “Eu até uso a máscara”, “até lavo às mãos”, diz-se. Por outro lado, as próprias medidas adotadas causam confusão. Primeiro confinamos, fechou-se tudo, depois podemos ir à praia e devemos incentivar a economia, recusando um novo confinamento. Com certeza que o primeiro-ministro, quando diz isto, é o que ele pensa efetivamente, mas as palavras ficam. Quando dizemos estas coisas temos de ter muito cuidado.

Há erros na comunicação?
Existem erros tremendos. Até posso ter uma boa decisão, mas ao comunicá-la de forma completamente desastrosa isso faz com que a medida não tenha a eficácia ou os efeitos pretendidos. Desde o início da pandemia que não tem existido uma boa comunicação. Eu não posso comunicar com um adolescente da mesma forma que comunico com um idoso, aqui as mensagens são para todos e isso gera confusão, insegurança e desconfiança. A fadiga pandémica existe e temos que trabalhar nela, mas a comunicação tem falhado.

Em que poderia ser diferente?
Temos de pensar no destinatário, na forma que podemos chegar até ele e com que objetivo o fazemos. Passa por uma questão de canal. O Instagram, por exemplo, não é um canal fantástico para os jovens? Porque não se comunica lá coisas especificas só para os mais novos? A televisão para os mais idosos, as rádios para outro público. Devia pensar-se um pouco nisto.

Ter medo é mesmo necessário?
O medo é uma sensação boa que nos ajuda à própria sobrevivência. Se olho para um precipício, tenho de ter medo de cair porque senão morro. Por outro lado, não posso ter comportamentos a funcionar de determinada maneira devido ao medo, mas sim da perceção que tenho de aquele ser o comportamento mais adequado naquele tempo. A mudança de comportamento só se faz se eu entender que a mudança faz sentido e tem significado para mim e para os outros. Porque temos muita dificuldade em assumir o confinamento? Eu fico em casa e o que acontece? Evito a propagação de contágios, mas alguém sabe disso? Há reconhecimento do impacto da minha atitude? O meu comportamento tem ou não influência objetiva na vida das outras pessoas ou em mim próprio? Enquanto isto não for objetivamente passado, as pessoas vão diluir porque pensam que se ficarem em casa são apenas mais um e isso não tem grande importância naquilo que depois vai acontecer. Temos que nos sentir importantes nas medidas que são tomadas, pelo medo não sou importante, fico em casa simplesmente porque sou obrigado.

"A forma como socializamos penso que não irá mudar, está na matriz ontológica do seu humano, é recuperável. Não deixamos de poder comunicar, comunicamos é de outra forma."

Que consequências pandémicas iremos viver?
Ainda não consigo adivinhar o futuro, mas com certeza viveremos um normal diferente. Espero que daqui a uns anos, quando estivermos com gripe ou constipados, coloquemos uma máscara, por exemplo, para não passar aos outros. Vão existir alterações de comportamentos, penso que o toque e a proximidade irão voltar, não igual ao que conhecíamos, mas muito próximo disso. Vai depender muito de quanto tempo a pandemia se mantiver — quanto mais tempo ela se mantiver, mais tempo estaremos a cristalizar determinados comportamentos e atitudes que depois se tornarão mais difíceis de retomar e reaprender. A forma como socializamos penso que não irá mudar, está na matriz ontológica do ser humano, é recuperável. Não deixamos de poder comunicar, comunicamos é de outra forma. Nas gerações mais jovens poderá haver situações mais marcantes, pois se um adolescente passa muito tempo em que o contacto físico é proibido, então depois não lhe podemos pedir que seja muito próximo fisicamente anos mais tarde.

Esta pandemia demonstrou a importância da intervenção psicológica e tornou a saúde mental num tema. Isto é positivo?
Claro que a pandemia não trouxe apenas coisas negativas, houve um reconhecimento da importância que a ciência psicológica tem na vida das pessoas e na própria organização do sistema de saúde. Há que normalizar os problemas mentais, mas não vulgarizando-os. Posso não ter uma doença mental, uma depressão ou uma ansiedade, mas posso estar psicologicamente afetado, andar mais triste, mais pensativo, menos ativo, e se não tiver uma intervenção psicológica, posso vir a ter mesmo uma doença. Isto é algo a que temos de estar muito atentos. Quando a doença acontece, já muito sofrimento houve naquela pessoa.

Que conselhos dá para sobreviver a um novo confinamento?
Em primeiro lugar, confinar e depois entender que o confinamento significa um bem maior para todos. Devemos pensar que a minha atitude, por mais singela que seja, tem um impacto grande, um efeito nacional e talvez europeu, mesmo que não vejamos isso traduzido num reconhecimento direto, pois ninguém irá a nossa casa dar-nos os parabéns. Depois, é importante tentar manter rotinas, como a hora de deitar e levantar, dividir o tempo de trabalho e das horas prazerosas, é essencial descobrir momentos de prazer dentro de casa e dentro destas limitações. Evitar beber em excesso, consumir drogas para adormecer e acordar, e não fazer algum tipo de atividade física. Podemos não poder ir passear à beira-mar, mas podemos dar uma volta no jardim mais perto de casa, subir as escadas em vez de chamar o elevador, devemos encontrar esse equilíbrio. Por fim, pensar que o que não posso mudar, não me tem de preocupar, porque não é de mim que vai depender a mudança. E, se psicologicamente me sentir alterado, pedir ajuda — é fundamental.

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