Quem vos escreve é um cliché ambulante deste género de situações: não canto sem desafinar nem a ladainha do abecedário e acho que compor uma canção está num grau de dificuldade semelhante a operar uma cirurgia a um joelho. E lá diz o ditado cínico, quem é frustrado por não saber fazer dá em crítico.

O festival da canção está renascido, mas está mais confuso ao palato auditivo que a sandes de chocolate e sardinha que fui obrigada a comer num acampamento durante a adolescência. É trendy, mas é clássico. É hipster, mas é deja vú. É uma competição, mas toda a gente diz que não está nem aí para ganhar. Em muitos casos nota-se, tal é a pouca garra e o desafinanço patológico.  Mas é no mínimo uma declaração de intenções estranha, de pessoas que acham que o importante é mostrarem-se sem rivalidade apesar de uma quantidade significativa de cantores já ter passado por programas de talentos nos quais a concorrência é a alma do negócio.

Sónia Araújo, uma das apresentadoras, pergunta a Júlio Isidro, presidente de júri, se não há festival sem polémica. Na verdade, as polémicas que marcam este certame não são orquestradas – é um pueril anjinho quando comparado com a estreia de “Secret Story 7” que se dá uns canais ao lado. Sejam bananas transformadas em bolo alimentar em directo, seja uma bronca na contagem de votos da semifinal anterior (temos de parar de contratar pessoas de Humanidades), nada disso foi pensado — como não foi o fenómeno Salvador Sobral, verdade seja dita.

E porquê? Porque na sua génese este é mesmo um programa de televisão muito aborrecido, no qual bons cantores com o carisma de uma colcha de edredon e a capacidade de lidar com os nervos de um gato que levou com um balde de água fazem pela vida e tentam provar que é possível um relâmpago cair duas vezes no mesmo sítio. Há um ASS (Antes de Salvador Sobral) e um DSS (Depois de Salvador Sobral) e o caminho trilhado por ele é doce para quem assiste, mas amargo para quem tem que o tentar repetir, ali indeciso na bifurcação que separa a originalidade da tentação de repetir a “fórmula de não ter fórmula”. O importante são as canções, sim, mas só me lembro de um chefe que tive e que me dizia “eu quero é que inventes coisas que são sempre um sucesso, como os Beatles”.

Não vi a primeira semifinal, pelo que não posso comparar com esta. Leio na Facebook e no Twitter que a de hoje foi mais fraca, o que na verdade me faz só mergulhar numa autocomiseração egoísta: como é que eu vou escrever este texto sem parecer uma sociopata que odeia tudo e todos? Eu, que aprecio muitos dos presentes e até conheço alguns deles? Mas se a maioria das concorrentes parece ter vergonha de ali estar, se o público em estúdio parece estar numa enorme paragem de autocarros à espera do 702 para a Serafina e se as redes sociais escorrem o fel do costume, quem sou eu para tentar ser a Miss Universo?

“Bandeira Azul”

Tito Paris/Maria Inês Paris

Logo para animar, o técnico de som era provavelmente um canalizador de Fernão Ferro a fazer um biscate por ter um primo na produção. É estranho que um programa que consiste basicamente num rol de cantigas tenha consistentemente um som que não lhes faz justiça, mas é um problema que vem pelo menos desde o ano passado. Um início de música meio Santana, uma progressão a lembrar as origens cabo verdianas dos intervenientes, uma boa voz e uma questão fundamental a inquietar-me o tempo todo: se a Marina Inês é sobrinha do compositor Tito Paris, como é que ele diz que a descobriu no The Voice? A mesa nos jantares de Natal é assim tão grande que os familiares nem conversam?

“Arco Íris”

Miguel Ângelo/Dora Fidalgo

Esta música seria absolutamente incrível se fosse um sketch humorístico. Não sendo, a coisa fica mais difícil. O autor, Miguel Ângelo, mostra que não é cá pessoa de ler Dan Browns e diz-se inspirado por Assim Falava Zaratustra, do filósofo Nietzsche. O resultado é uma letra bizarra e a lembrança que o mesmo título deu nome ao tema de abertura do “2001 – Odisseia No Espaço” – e também eu, qual macaco, me apetece atirar coisas ao televisor. E fez aquela cantora backing vocals numa das mais míticas músicas de sempre deste certame, “O Conquistador” dos Da Vinci.

“All Over Again”

Xinobi/Sequin

Intérprete e autor conheceram-se no Lux e nota-se: com uns vodkas no bucho e euforia de estar em grupo talvez este tema soasse bem. É a primeira em inglês, o que só lhe dá um ar mais genérico de “eu ouvi isto no Alive? Ou foi no anúncio novo da Pantene?”. Por outro lado, a cantora fez maravilhas pela minha autoestima, porque se isto é cantar no tom então eu sou a Whitney Houston de Mem Martins e não fazia ideia.

“Canção Do Fim”

Diogo Piçarra

Esta música entrou logo como vencedora por um motivo muito simples: Diogo Piçarra é a conjugação perfeita para esta ocasião. Alia estar habituado a palcos com estar habituado a câmaras de televisão – e talvez por isso parece-me o único que não tem um pingo de vergonha com estar ali. Ele enche concertos, ele passa na rádio, ele ganha o Ídolos, não é uma Sónia Araújo e uma Tânia Ribas de Oliveira que lhe estragam o ramalhete de coolness. O momento é quase cinematográfico, com fumo e cordas. A música para mim é demasiado baladona de dor de corno (e em que momento da história é que as canções deixaram de ter refrões orelhudos?), mas o momento em si resultou. Um sério candidato à vitória final, que uma hora depois do directo ter terminado já tinha 12 mil visualizações no Youtube (quase tanto quanto os outros concorrentes todos juntos).

“Amor Veloz”

Francisco Rebelo/David Pessoa

Tema soul, com um toque jingão do intérprete que quase soa a brasileiro. É das poucas músicas que cresce um pouco no refrão, mas de resto podia ser o tema do genérico da nova telenovela da SIC.  Um autêntico vestido preto com o qual ninguém se compromete.

“Sobre Nós”

Capicua/Tamin

Imagine o leitor que abre a despensa e dá de caras com um pacote de bolachas bem guloso, daqueles de fazer a Organização Mundial de Saúde emitir um mandato de captura. E imagine que quando o abre afinal ele tinha lá dentro peixe cozido. Foi assim que eu me senti com esta música. Adoro a Capicua, mas a letra não tinha rasgo, a música não tinha atitude e a interpretação estava ao nível de banda de bar de hotel.

“O Jardim”

Isaura/Cláudia Pascoal

Foi a minha preferida da noite, a única que me causou mais que um bocejo ou um encolher de ombros e a única que consegui continuar a cantarolar depois de ter passado. É uma bonita canção de despedida a uma avó – e a prova de que se calhar afinal não sou o insensível balcão de inox de um talho que acho que sou. O refrão “agora que não estás quem me leva ao jardim?” é desconcertante e a interpretação, apesar de se dar a comparações às Florence + The Machine da vida, foi genuína – e terminou em lágrimas comovidas. Alguma desafinação nalguns momentos, mas pelos vistos devia fazer parte das regras deste ano.

“Patati Patata”

Paulo Flores/Minnie e Rhayra

Uma canção que se ama ou odeia, cometeu pelo menos a proeza de ter sido a única a trazer descomplexadamente festa, numa espécie de santos populares mulatos e poliglotas. É o “Umbadá” de Jorge Fernando para a geração Easy Jet e Airbnb. As roupas estavam entre a Floribella e a dama de honor num casamento Pinterest.

“Anda Daí”

João Afonso/Rita Ruivo

Uma vez tomei um anti-histamínico que me deixou a dormir 18 horas seguidas. Esta canção pareceu-me ainda mais potente para esse efeito.

“Mensageira”

Aline Frazão/Susana Travassos

Uma canção repleta de melancolia, que não causa grande estrilho e que só convence com uma escuta repetida. Esta última característica prejudicou o tema, que tem só ali os três minutos da praxe para que o imperador meta o polegar para cima ou para baixo.

“O Voo Das Cegonhas”

Armando Teixeira/Lili

Todos os temas da semifinal foram introduzidos por um vídeo no qual o autor explicava qual ter sido a sua inspiração. Neste caso falaram-se de contos fantásticos e do modo diferente como nórdicos e lusitanos olham para o mar. OK, fiquei curiosa. Arranca o instrumental e é de um “soturno dançável” muito interessante. Mas depois começa-se a cantar e é preciso força de vontade para não mudar de canal. Há um artificialismo batido, uma Kate Bush de marca branca que não convencem.

“Para Lá Do Rio”

Daniela Ónis

Sabem quando no mítico “Um, Dois, Três” os concorrentes estavam doidos para ganhar um carro mas acabavam por vezes por ganhar uma máquina de fazer sumos daquelas que sujavam imenso e acabavam por estar guardadas 90 por cento do tempo? Pois concorrer a este festival da canção foi a máquina de fazer sumos de Daniela Ónis: um prémio que ela não sabia que queria e que não pareceu receber com grande entusiasmo. A intérprete e compositora veio parar ao certame por ser selecionada numa Masterclass da SPA e da Antena 1, mas a própria admite que não sabia que o Festival poderia ser uma consequência do curso. O resultado final é uma música de fazer chorar as pedras da calçada e que soa a um bar cheio de fumo em Paris – não no bom sentido, vá.

“Sunset”

Peter Serrado

E se o “Lado Lunar” do Rui Veloso, a voz do Jack Johnson e os tiques dos Maroon 5 tivessem um filho? Saía este sonho molhado de qualquer director de rádio mainstream, uma canção sem grande história mas que soa tanto a playlist que se torna inevitável. Foi a canção da noite com maior discrepância entre voto do júri (um singelo ponto) e o voto do público (oito pontos) e faz todo o sentido que assim tenha sido.

E pronto, foi por isto que eu não vi a estreia do Goucha no “Secret Story 7”. No próximo domingo é a final, voltamos todos a dizer que é tudo péssimo, caímos novamente na esparrela de proclamar “aquilo não é música de festival” e se entretanto sair dali o próximo fenómeno europeu dizemos que éramos fãs desde pequeninos. Não há festival sem dizer mal, cambada.

Susana Romana é guionista e professora de escrita criativa