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▲Póster com o rosto de Vladimir Putin na província de Donetsk

AFP via Getty Images

▲Póster com o rosto de Vladimir Putin na província de Donetsk

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Donbass. A região "historicamente russa" para Putin que pode abrir caminho a uma nova invasão se a Ucrânia a perder

Trump pressiona Zelensky a aceitar perda do Donbass, uma região tem uma "faixa fortaleza" que protege Ucrânia de novos ataques. Putin não cede, evoca Lenine e diz ser uma zona "historicamente russa".

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“O Donbass é uma região historicamente russa. É uma região importante.” As palavras são do Presidente da Rússia, Vladimir Putin, que, esta terça-feira, voltou a usar um argumento que tem repetido desde 2014, ano em que irrompeu uma guerra civil naquela zona do leste da Ucrânia. Para o chefe de Estado russo, o Donbass — composto pelas províncias ucranianas de Donetsk e Lugansk — pertence culturalmente à Rússia e o país deve usar qualquer meio para o conquistar, mesmo que seja através da força militar.

Numa altura em que estão em curso negociações de paz mediadas pelos Estados Unidos da América (EUA), a cedência deste território em concreto tem sido o assunto que tem gerado mais discórdia. Deve o Donbass ser integrado na Federação Russa? Na primeira versão do acordo de 28 pontos, estava plasmado que a região pertenceria de facto à Rússia — e a administração Trump reconhecê-lo-ia como controlada por Moscovo. No entanto, a Ucrânia tem rejeitado sempre a possibilidade de ceder território. Ainda para mais porque a província de Donetsk ainda não foi totalmente conquistada por forças russas, apesar de a zona de Lugansk estar integralmente controlada pelo Kremlin.

Culturalmente, Vladimir Putin insiste que o Donbass é uma região russa. Este argumento é sustentado pela tese de que a maioria da população fala russo e não ucraniano, ao contrário do restante país. Mas há mais motivos do que os culturais. O Donbass tem preciosos recursos naturais e, acima de tudo, uma localização conveniente: perto da Crimeia (outra região que a Rússia insiste em manter) e próxima do restante território ucraniano.

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▲ Mapa pintado com as regiões ucranianas ocupadas pela Rússia

AFP via Getty Images

Tendo apostado numa guerra de atrito que já dura há quase quatro anos, Vladimir Putin precisa também de apresentar algum tipo de vitória à população russa. A anexação do Donbass — e a aceitação pelos Estados Unidos e pela generalidade da comunidade internacional — seria um triunfo que o Presidente da Rússia poderia apresentar à opinião pública, consolidando o seu legado na história do país. Em cima da mesa, dos esboços de acordos de paz, também está a manutenção de parcelas das províncias de Kherson e Zaporíjia.

Rússia controla 80% de Donetsk — e quer conquistar o Donbass até à primavera de 2026 (mas deverá falhar)

A administração norte-americana parece disposta a aceitar que o Donbass seja anexado pela Rússia. Em sentido inverso, os europeus e a Ucrânia recusam esse cenário. “Não temos que ceder o que quer que seja — seja sob as nossas leis, seja sob o direito internacional, seja sob a lei moral”, afirmou recentemente eo Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, acrescentando: “A Rússia está, claro, a insistir para que cedamos território. Nós não queremos desistir de nada — é precisamente por isso que estamos a lutar”. 

Segundo números da Reuters, a Rússia controla mais de 80% da região de Donetsk. É certo que as tropas russas estão na ofensiva e estão a avançar no terreno — mas de forma lenta. Ao New York Post, George Barros, do think tank Instituto para a Guerra, aponta que, na melhor das hipóteses, Moscovo apenas controlará a província toda em dezembro de 2026. O líder das secretas ucranianas militares, Kyrylo Budanov, estipulou, numa entrevista, que a finalidade do Kremlin é ocupar o Donbass até à próxima primavera, mas diz que o objetivo se afigura “irrealista”.

epa10648098 Members of the 10th Separate Mountain Assault Brigade 'Edelweiss', a unit of the Ukrainian Ground Forces, fire a mortar at an undisclosed location in the Bakhmut direction, Donetsk region, eastern Ukraine, 23 May 2023, amid the Russian invasion. The frontline city of Bakhmut, a key target for Russian forces, has seen heavy fighting for months. Russian troops on 24 February 2022, entered Ukrainian territory, starting a conflict that has provoked destruction and a humanitarian crisis.  EPA/OLEG PETRASYUK

▲ Rússia demorará ainda alguns meses para conquistar o Donbass na íntegra

OLEG PETRASYUK/EPA

Washington acredita que é uma questão de tempo até o Donbass ser controlado pela Rússia e que mais vale cessar as hostilidades já, entregando mesmo as parcelas de Donetsk que não estão conquistadas por Moscovo. Nos últimos dias, o Presidente norte-americano, Donald Trump, tem pressionado o homólogo ucraniano a aceitar um acordo de paz, explicando que a Ucrânia “está a perder” a guerra. “Ele vai ter de começar a aceitar coisas”, reiterou o líder norte-americano, esperando que até ao Natal se chegue a uma solução. Caso não haja acordo, existe sempre a hipótese de que os Estados Unidos cessem a venda de armas pela NATO e a partilha de informações confidenciais com Kiev.

Mas para a Ucrânia, a cedência do Donbass seria interpretada como um duro golpe para o país. Seria uma derrota política para Volodymyr Zelensky (que pode ir a eleições em meses), um desperdício de anos de um custoso esforço de guerra e milhares de pessoas que fugiram do Donbass teriam de mudar de nacionalidade ou resignar-se e viver noutra parte da Ucrânia. Além disso, num eventual cenário pós-guerra, as autoridades ucranianas temeriam ser novamente atacadas — a Rússia ficava numa posição geográfica vantajosa para levar a cabo uma nova invasão.

Sem a “faixa fortaleza” da Ucrânia, a Rússia ficaria com a via livre para uma nova invasão

Em agosto deste ano, Volodymyr Zelensky salientou que a Ucrânia não pode “abandonar o Donbass”. “Para os russos, é um trampolim para uma futura ofensiva”, avisou. Os bastiões ucranianos que restam em Donetsk estão fortemente fortificados, servindo como uma espécie de escudo para o restante território ucraniano e impedindo novos eventuais avanços russos. Ao longo dos últimos anos, as tropas de Kiev foram compondo uma “faixa fortaleza” de 50 quilómetros de extensão em Donetsk, aumentando as suas capacidades defensivas.

“Faixa fortaleza”. A última linha ucraniana que Putin não consegue conquistar pela força e quer ganhar nas negociações

Com a Rússia a controlar a “faixa fortaleza” montada pela Ucrânia, o risco de uma nova invasão aumentaria exponencialmente. Em agosto, Volodymyr Zelensky já alertava: “Nada garante que uma nova guerra não vá começar amanhã e que Putin não vai tentar ocupar pelo menos Dnipro, Zaporíjia e Kharkiv“. Como explicou à Economist Nico Lange, antigo chefe de gabinete do Ministério da Defesa da Alemanha, ao controlar totalmente o Donbass, a Rússia conseguiria “abrir uma rota operacional na retaguarda da cidade de Kharkiv, na direção da cidade de Dnipro, nas margens de rio Dnipro e, assim, até à Ucrânia Central”.

Segundo a Deutsche Welle, sem esta fortaleza — que é composta por cidades industrializadas como Kramatorsk, Sloviansk e Kostyantynivka — a Ucrânia ficaria numa posição vulnerável para sofrer uma nova invasão, dado que geograficamente o centro de território ucraniano é composto essencialmente por vastas planícies. Não existem nem montanhas, nem rios que serviam como barreiras naturais — e, assim, seria muito mais difícil para Kiev resistir a avanços russos.

No meio de tudo isto, as intenções de Vladimir Putin em relação à Ucrânia nunca foram totalmente conhecidas. O Presidente russo começou a “operação militar especial”, esperando conquistar Kiev em pouco tempo, algo que não aconteceu. Ao longo de três anos e dez meses de conflito, a Rússia avançou principalmente em redor do Donbass, de Zaporíjia e de Kherson. Estas regiões foram, aliás, anexadas à Federação Russa num referendo cuja validade internacional foi questionada. Moscovo ainda tentou capturar a província de Kharkiv e de Sumy no início da invasão, mas falhou.

epa12555598 Russian President Vladimir Putin speaks during a meeting with participants of the Young Scientists Forum at the Kremlin in Moscow, Russia, 28 November 2025.  EPA/ALEXANDER NEMENOV / AFP / POOL

▲ Vladimir Putin nunca foi claro sobre as suas intenções territoriais na Ucrânia

ALEXANDER NEMENOV / AFP / POOL/EPA

Perante a mobilização da população ucraniana e do apoio que vários líderes ocidentais foram dando à Ucrânia, o Presidente russo parece ter ido ajustando as ambições territoriais no país vizinho. Vladimir Putin continua, não obstante, a afirmar que os objetivos da “operação militar especial” passam por “desmilitarizar” e “desnazificar” o território ucraniano — o que pode dar azo a uma futura invasão. Um cessar-fogo agora pode, assim, levar a Rússia a ganhar tempo para eventualmente atacar o país vizinho num futuro próximo.

Para a Europa, e também para a Ucrânia, mesmo que até nem haja uma nova invasão, entregar o Donbass seria a recompensa da invasão para a Rússia. No que configura uma violação do Direito Internacional, Moscovo conseguiria alterar à força as fronteiras, o que poderia abrir um precedente em todo o mundo: travar uma guerra de atrito pode gerar dividendos. E isto acontece numa altura em que Moscovo tem feito várias ameaças à Europa — Vladimir Putin disse recentemente que a Rússia “está pronta” para uma guerra contra os europeus.

A união com a Crimeia, os benefícios económicos e a questão nacionalista

Em termos estratégicos, a Rússia tem mais a ganhar se mantiver o Donbass sob seu controlo. Existe outra região que Moscovo vê como sua e que mantém uma postura inflexível quanto a qualquer cedência: a península da Crimeia, anexada em 2014. Mas a região está geograficamente interligada ao Donbass, assim como às províncias de Zaporíjia e de Kherson. Ao conquistar integralmente a região de Donetsk, a Crimeia pode ser mais facilmente defendida de qualquer eventual ataque ucraniano.

▲ O mapa da linha da frente

Com o controlo consolidado do corredor terrestre através do Donbass, Zaporíjia e Kherson, a Crimeia aumenta a autonomia estratégica e fica ligada por terra às restantes regiões ucranianas atualmente ocupadas pela Rússia. A península torna‑se também relativamente menos dependente da ponte de Kerch — a gigantesca infraestrutura que liga a Crimeia a territórios russos e que já foi alvo de ataques ucranianos no passado.

O Donbass, para além da sua importância estratégica, é também um dos principais polos industriais e económicos da Ucrânia. Em declarações à Al Jazeera, Mark Cancian, do think tank Center for Strategic and International Studies, recorda que o Donbass foi uma região “altamente industrializada” em meados do século XX , ainda com a União Soviética. Tem também recursos minerais — como carvão e ferro — e os terrenos agrícolas são dos “melhores do mundo”.

Adicionalmente, existe outro motivo que leva a Rússia a não desistir do controlo do Donbass: as questões culturais e étnicas. Esta terça-feira, Vladimir Putin voltou a insistir no assunto. “É um território histórico nosso, absolutamente. A Rússia foi criada de uma maneira e o Donbass foi sempre parte da Rússia; não há dúvida sobre isto. É uma coisa natural, um facto histórico”, garantiu o líder russo num evento em que participou esta terça-feira, em que também recordou eventos históricos que levaram à dissociação do Donbass da Rússia.

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▲ Uma mina de carvão abandonada no Donbass

Anadolu via Getty Images

“Durante a fundação da União Soviética, houve uma disputa. O Donbass tornou-se parte da República Socialista Federativa Soviética Russa, mas depois Vladimir Ilyich [Lenin] decidiu mudar a decisão. E foi o que ele fez. O Donbass foi dado à Ucrânia. Foi como tudo aconteceu”, lamentou Vladimir Putin. Apesar disso, para justificar a invasão, o Presidente russo disse que o fez pelas pessoas “que não aceitaram o golpe de Estado” na Ucrânia em 2014, numa referência aos protestos do Euromaidan e à renúncia de Viktor Yanukovytch, o ex-Presidente pró-russo.

As pessoas do Donbass “começaram a lutar” contra os ucranianos com “artilharia, equipamentos pesados, tanques e aeronaves”: “Foi como tudo começou. Estamos a tentar terminar isto. Somos forçados a fazer isto pela força das armas. E vamos, claramente, trazer este assunto a uma conclusão lógica até que o objetivo da operação militar especial seja concluído”.

As declarações de Vladimir Putin mostram que também há um importante valor simbólico na conquista do Donbass. O primeiro motivo tem precisamente a ver com a questão linguística e cultural — o Presidente vê a região como uma parte da Federação Russa, mesmo que tenha feito parte da Ucrânia (ou da República Socialista Soviética da Ucrânia) durante mais de cem anos.

"É um território histórico nosso, absolutamente. A Rússia foi criada de uma maneira e o Donbass foi sempre parte da Rússia; não há questão sobre isto. É uma coisa natural, um facto histórico."
Vladimir Putin, Presidente da Rússia

No século XIX, ainda assim, o Donbass era uma região sem grande importância até ter começado um processo rápido de industrialização. “Durante esse período, o uso público do ucraniano foi suprimido no Império Russo e o russo foi instituído como a língua franca. Muitos camponeses russos vieram para esta região industrial”, disse à Deutsche Welle o historiador Guido Hausmann.

Essa tendência voltou a verificar-se durante a época soviética. E é por isso que tantos russos vivem no Donbass — e falam essa língua. “No entanto, as pessoas do Donbass também sempre falaram ucraniano e a maioria ainda tem uma forte ligação à Ucrânia”, ressalva Guido Hausmann, que ilustra que, durante a guerra civil que irrompeu em 2014, também se falava russo em batalhões leais à Ucrânia.

Com fixação em certos pormenores da História e focado em recuperar a grandeza da Rússia, Vladimir Putin não vai desistir do Donbass por motivos geopolíticos, económicos e culturais. O Presidente da Rússia sabe que não pode terminar esta guerra — por muito custosa que esteja a ser para a população e para a economia do país — sem apresentar uma vitória. E a região que integra o Donetsk e Lugansk seria um triunfo importante para o Kremlin arrecadar: mostrava que todos os confrontos que ocorreram desde 2014 valeram a pena e não caíram em saco roto.

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▲ Controlo do Donbass justificaria em parte a guerra na Ucrânia

POOL/AFP via Getty Images

Ciente dos perigos que corre, a Ucrânia não vai aceitar que o seu adversário leve a melhor numa região que, segundo a Constituição ucraniana e os tratados internacionais, lhe pertence desde o final da Guerra Fria. Ceder o Donbass à Rússia aumentaria também a influência de Moscovo sobre Kiev, que ficaria mais vulnerável a chantagens de uma nova possível invasão.

Desejando uma paz rápida, os Estados Unidos podem acabar a dar uma grande vantagem estratégica à Rússia. A administração Trump está a encontrar resistência dos dois lados, mas parece inclinada a que o Donbass seja cedido a Moscovo sob a condição de conceder garantias de segurança à Ucrânia. Mas serão estas alguma vez fortes o suficiente para travar o revisionismo histórico e as tendências imperialistas de Vladimir Putin?

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