Uma médica especializada em problemas cerebrais, mãe de dois filhos que leva uma vida aparentemente banal, torna-se em segredo numa das escritoras de thrillers mais bem sucedidas do mundo, sem nunca revelar por completo a sua identidade. Com algumas mortes violentas e reviravoltas escabrosas à mistura, esta podia facilmente ser a premissa de um dos best sellers de Freida McFadden. Mas não, é mesmo a sua vida.
Uma das histórias de sucesso mais fulgurantes dos últimos anos na indústria editorial, a escritora norte-americana é um fenómeno, fruto das histórias de crime e traição que publica a um ritmo alucinante — são já 17 os livros lançados desde 2020 —, construindo uma comunidade de leitores batizados como “McFans”, que compram e leem vorazmente cada thriller que lança e promovem-no nas redes sociais — em particular no Instagram e no TikTok.
Como tal, há livros de McFadden há 95 semanas na lista de Best Sellers do New York Times na secção Paperback Fiction (ou seja, há quase dois anos) e há 84 semanas na secção que junta livros físicos a ebooks. Na Amazon, é figura regular tanto na secção de títulos mais lidos como de mais comprados, assim como nas tabelas do Reino Unido, em Espanha, em França e na Alemanha, sendo este o coroar de quase uma década a recorrer à autopublicação.
Alguns meios apontam que McFadden já terá vendido seis milhões de cópias a nível internacional, enquanto outros sobem a parada para 17 milhões. De qualquer forma, são muitos livros, e Portugal contribuiu indelevelmente para essa cifra. A Criada — o seu mais famoso thriller — foi o livro mais vendido no nosso país no ano passado, segundo os dados da GfK referentes a esse período. Aliás, a autora ocupou cinco lugares do top 10 de vendas em 2024. Tal desempenho fez desta uma aposta mais do que ganha para a Alma dos Livros, que a publica em Portugal. “O sucesso de Freida McFadden representa um marco extraordinário para nós, especialmente por sermos uma editora independente que não faz parte de nenhum grupo editorial”, assume a editora em resposta por email ao Observador.
O fenómeno McFadden promete continuar, sendo que, em outubro de 2024, soube-se que A Criada será adaptado para o cinema pelo estúdio Lionsgate, contando com Sydney Sweeney e Amanda Seyfried nos papéis principais e Paul Feig na realização. Com McFadden envolvida no projeto como produtora executiva, tem estreia marcada nos EUA para 25 de dezembro deste ano, tratando-se do passo seguinte na sua entronização como figura de peso no panorama da cultura popular contemporânea. Uma meta considerável, para quem começou a escrever como um hobby ou um desabafo sobre o quotidiano de uma médica interna, sob anonimato.
Médica durante o dia, escritora à noite
Uma escritora de sucesso internacional cuja identidade é uma incógnita? É quase irresistível a comparação de que McFadden está para o thriller como Elena Ferrante está para a ficção literária. No entanto, ao contrário da misteriosa autora italiana, não só a congénere norte-americana tem salpicado aqui e ali detalhes avulso da sua vida pessoal, como já foi até fotografada em mais do que uma ocasião — para um perfil publicado pelo New York Times, por exemplo — e deu a cara em entrevistas online. Ainda assim, porque as coisas não são o que parecem, a própria deixa subentendido que usa uma peruca e apresenta-se para estas sessões com roupas que não usa no dia a dia, tudo para ocultar ao máximo a sua identidade.
O que se sabe então sobre McFadden? Que está na casa dos 40 e poucos anos, vive em Boston, é casada, tem dois filhos e um gato, e cresceu no seio de uma família de médicos em Nova Iorque. Terá sido isso a influenciar a sua escolha profissional, apesar da opção inicial ter sido Matemática na Universidade de Harvard — esse pensamento analítico, afirmou ao britânico The Times, serve-lhe para construir enredos “como um puzzle, em que a reviravolta é a solução”. Em conversa com o mesmo jornal, revelou também que escolheu o pseudónimo “Freida” porque é um acrónimo de Fellowship and Residency Electronic Interactive Database, uma base de dados que ajuda os estudantes de medicina a encontrar colocação em hospitais. Já McFadden foi porque “queria algo que soasse um pouco humorístico”. “Não sabia que ia ser escritora de thrillers. Isso não estava nos meus planos”, assumiu.
Esse rumo que a vida tomou, ademais, foi causa para manter uma carreira paralela enquanto escritora totalmente separada da ocupação profissional. “Tenho uma vida dupla”, admitiu num artigo de 2022, “ninguém com quem trabalho faz ideia de que publiquei 15 livros na Amazon na última década”. No mesmo texto, ofereceu as razões para tamanho secretismo:
Sou médica e não quero que os meus pacientes saibam. A maioria das pessoas não se importaria que o seu médico escrevesse thrillers psicológicos? Claro, provavelmente. Afinal de contas, não estou a escrever literatura erótica sobre dinossauros (sim, isso existe). Por outro lado, devo dizer que não sei como me sentiria se soubesse que o meu médico escreveu um livro em que os pacientes de um cirurgião são sistematicamente assassinados. Talvez me sentisse um bocadinho nervosa. Por isso, preferi tirar isso da equação.
Como tal, até recentemente, apenas um núcleo apertado de pessoas estava a par da vida literária de McFadden. “É o meu segredo mais profundo e obscuro. As únicas pessoas que sabem são familiares próximos, amigos da Internet ou algumas das pessoas que conheci através de um grupo de escrita que frequento uma vez por mês”, escreveu nesse mesmo artigo há três anos.
Hoje, não é tão reservada — “não é como se eu estivesse num programa de proteção de testemunhas”, brinca — mas continua a não participar em eventos públicos como conferências ou sessões de autógrafos, optando privilegiar meios onde pode mediar o acesso à sua pessoa, como nas redes sociais ou respondendo aos emails que milhares de leitores lhe enviam regularmente. “A maioria das pessoas na minha vida sabe”, diz, mas “gostaria de continuar a trabalhar sem que isso se tornasse numa questão”, assume ao The Times.
Não obstante essa sua vontade, a carreira literária acabou mesmo por virar tema. O problema, aventa, não é a gestão de tempo entre a prática médica e a escrita — “há autores independentes que publicam 24 livros por ano, entra-se num ritmo”, defende —, mas sim o tipo de obrigações comerciais e promocionais que começou a ter quando explodiu de popularidade. Como tal, neste momento apenas dá consultas uma a duas vezes por semana.
De um “demónio a vestir bata” às reviravoltas demoníacas
Traço comum entre escritores, apesar de ter escolhido um percurso profissional afastado das letras, Freida McFadden sempre gostou de ler — cresceu com livros de Mary Higgins Clark, Stephen King ou Robin Cook, também ele médico e autor — e escrever. “Na verdade, nunca quis ser autora! Foi uma daquelas coisas que simplesmente aconteceu. Escrever foi sempre um passatempo para mim — tive todas as aulas de escrita que pude durante a escola, mas nunca considerei seriamente a hipótese de seguir uma carreira. Mas, ao mesmo tempo, desde que me lembro, sempre sonhei em ter um romance publicado”, confessou ao website SheReads.
Depois de escrever romances que nunca abandonaram a gaveta, McFadden ensaiou algumas tentativas durante os anos de faculdade, acabando sempre em rejeição e fracasso. “Entre a faculdade e o curso de medicina, escrevi um romance. A minha mãe ajudou-me a enviá-lo a agentes e, na verdade, consegui um para esse livro, que foi enviado às editoras, mas não deu em nada. Por isso, decidi publicar por conta própria”, revela ao Washington Post. Foi recorrendo a essa opção que começou a levantar ondas e a criar leitores, ajudando o facto de, auferindo um salário como médica, podia investir na promoção online. “Estava a gastar dinheiro no meu hobby. Concentrava-me apenas em divertir-me”, partilhou ao Boston Globe.
Apesar da formação em medicina poder ser encarada como parte da inspiração para os seus thrillers psicológicos, o primeiro livro a ser publicado por McFadden teve uma ligação ainda mais umbilical à sua profissão, ainda que se tratasse de uma comédia. A ideia surgiu ao ler O Diabo Veste Prada, de Lauren Weisberger, que é “sobre como a indústria da moda é difícil”. “Eu pensei: ‘Ser [médico] residente também é difícil’”, contou mesmo jornal. Daí surgiu The Devil Wears Scrubs [não editado em Portugal], publicado em 2013, tratando-se de um livro de memórias ficcionalizado e adaptado de um blogue que mantinha, onde escrevia sobre as dificuldades de manter uma vida ligada à medicina enquanto se tenta constituir uma família.
▲ Os 11 títulos de Freida McFadden publicados em Portugal pela Alma dos Livros
FOTOILUSTRAÇÃO RODRIGO MENDES/OBSERVADOR
“Publiquei-o apenas por diversão. Vendi uns milhares de exemplares e fiquei muito feliz. Pensei que era o fim da minha carreira. No entanto, depois decidi rever um livro que tinha escrito quando andava na faculdade. Publiquei esse livro e depois tive uma ideia para outro, e continuei a fazê-lo porque era divertido. Foi um prazer vender apenas alguns milhares de exemplares”, afirmou ao Washington Post
Foi assim que iniciou um percurso primeiro marcado por mistérios de inspiração claramente médica — com nomes como Suicide Med ou Brain Damage —, mas que rapidamente sofreria uma guinada para o tipo de histórias pelas quais passou a ser conhecida: thrillers protagonizados por mulheres a ter de navegar entre personagens duvidosas e reviravoltas chocantes que desembocam em situações de vida ou morte. “Perceber que os livros precisam de ter um enredo, esse foi o momento em que se fez luz”, admite. Foi com essa fórmula que McFadden chegou ao atual patamar de popularidade, sendo que A Criada demonstra-o na perfeição: uma mulher saída da prisão vai trabalhar para um casal rico como empregada doméstica a dormir no sótão, descobrindo entretanto que a aparente normalidade dos patrões não passa de uma fachada.
Contando já com alguns sucessos menores desde que assumiu este percurso em 2018, McFadden apenas explodiria de popularidade com A Criada — o que esteve para não acontecer, já que a autora considerou seriamente não publicar a obra. “Pensei se isto não era um pouco sombrio demais para mim, por isso guardei-o”, revelou ao New York Times. No entanto, uma confluência de fatores mudou tudo. Em 2021, a Bookouture, uma editora britânica especializada em ebooks, contactou-a com a proposta de publicar um dos seus livros e ofereceu os serviços de um editor para trabalhar em quaisquer problemas narrativos que subsistissem. A escolha recaiu neste livro, guardado desde 2019, tendo sido um sucesso imediato, muito por conta do furor que fez nas redes sociais.
A partir daí, iniciou-se um percurso de total domínio. Depois de entrar no programa Kindle Unlimited, o serviço de leitura de ebooks por subscrição da Amazon, foi à procura de uma editora para os lançamentos físicos, procurando também chegar aos leitores mais casuais. Em 2023, deixou oficialmente a autopublicação ao assinar um acordo de sete livros com a Sourcebooks, um grupo editorial cuja ascensão independente despertou o apetite da Penguin Random House, que o comprou em 2019. A parceria fez sentido não só porque a editora já tinha experiência com autoras de sucesso nas redes sociais, como Elle Kennedy ou Ana Huang, mas também porque inaugurou um período de domínio para McFadden ao começar a reeditar as suas obras, deixando-lhe ainda assim reter os direitos de publicação online.
À conquista de Portugal
Foi já nesta posição de poder que McFadden chegou a Portugal, com a Alma dos Livros a garantir os direitos de publicação em 2023. “Procurávamos reforçar o nosso catálogo de policiais e thrillers, uma das nossas áreas de eleição desde o início da editora, quando descobrimos a sua obra. Na altura, a autora estava a ser lançada em vários países europeus e já se antevia parte do enorme sucesso que veio, entretanto, a confirmar-se”, afirma a fonte oficial da editora ao Observador. “Percebemos rapidamente que as suas histórias tinham um apelo universal, capaz de atrair tanto leitores habituais do género como novos públicos. Apostar nos seus títulos foi uma decisão estratégica, alicerçada na convicção de que as suas narrativas encontrariam eco no mercado português – e assim aconteceu. No entanto, a verdade é que não antecipávamos tamanho impacto”, adianta.
Desde junho de 2023, quando trouxe A Criada para o mercado nacional, a Alma dos Livros têm-se dedicado a publicar o catálogo da escritora ao mesmo tempo que assegura os lançamentos mais recentes. A autora tem já 11 livros publicados em Portugal e dois deles saíram já este ano: Ala D em janeiro e O Acidente em fevereiro, publicado pouco depois do lançamento internacional.
Regressando aos números da GfK com mais detalhe, entende-se esta aposta da Alma dos Livros. É que A Criada foi o livro mais vendido em Portugal no ano de 2024, mas o domínio de McFadden não se fica por aí no mercado editorial português. A escritora norte-americana ocupa cinco das posições do top 10 de vendas do ano passado, com as sequelas A Criada Está a Ver e O Segredo da Criada nas 6ª e 7ª posições, respetivamente, seguidas pelos romances Nunca Mintas e O Recluso no 8º e 9º lugar.
Para a editora, “este sucesso deve-se a vários fatores, a começar desde logo pela combinação de dois pontos fulcrais: a capacidade da autora de criar histórias viciantes, com várias reviravoltas e desfechos surpreendentes, e o forte investimento da editora no lançamento dos seus livros, online e nos pontos de venda”. Quanto ao primeiro, a própria, numa entrevista à revista Sábado, arriscou sugerir que o sucesso dos seus livros explica-se porque “todos procuramos emoção nas nossas vidas. Pessoalmente, enjoo em montanhas russas e não tenho intenção de saltar de um avião, por isso um livro é a forma mais segura para me aproximar desse tipo de thrills e de adrenalina”.
Outro, é o tipo de reviravolta que é capaz de prender leitores às páginas. Esse é, admite, o grande gancho e por vezes a principal preocupação que tem ao escrever. “O que me limita não são as ideias ou o tempo de escrita, mas as boas reviravoltas. Num thriller, é preciso ter uma nova reviravolta. Passo muito tempo a planear livros. Quando começo a escrever, posso avançar muito rapidamente. Além disso, estou muito consciente de que não me posso esgotar”, afirmou ao Washington Post.
No entanto, a dependência de fórmulas tem gerado acusações online — não só no Reddit, como no mesmo Tiktok onde se popularizou — de repetir-se ou de copiar premissas de outras obras. “Freida McFadden vendeu 6 milhões de cópias dos seus thrillers. Como é que os ‘McFans’ os conseguem sequer distinguir?” escreve Laura Miller na revista Slate. Outros sugerem que, mesmo que a própria já tenha admitido que, para escrever assim, teve de colocar a carreira médica em “banho maria”, tal produtividade só é possível recurso a escritores fantasma ou ferramentas de Inteligência Artificial.
McFadden recusa liminarmente todas essas sugestões. “Porque é que eu havia de contratar um escritor fantasma para fazer algo que adoro fazer?”, afirmou ao Washington Post. “É difícil, porque com tudo o que se faz um pouco mais sob escrutínio, alguém vai sempre aproveitar alguma coisa e ficar zangado”, disse, por sua vez, ao New York Times. “Estou apenas a tentar entreter-vos. Não estou a tentar escrever o Guerra e Paz”, atira.