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Sexta-feira, 15 de outubro, Espanha: entrega do Prémio Planeta para romances inéditos escritos em castelhano. Em jogo: um milhão de euros. Vencedor: La Bestia, de Carmen Mola. Aplausos na sala, assobios de apoio… mas afinal quem sobe ao palco são Jorge Díaz, Antonio Mercero e Agustín Martínez. E não, não estamos num déjà vu dos Óscares de 2017, em que “La La Land: Melodia de Amor” foi anunciado como Melhor Filme quando o vencedor era, na verdade, “Moonlight”. Aqui não há enganos. Carmen Mola, que já era um pseudónimo, não é afinal o nome fictício de nenhuma escritora. É, sim, a criação destes três amigos. Quando se levantaram para ir receber o galardão, os aplausos na sala continuaram, entretanto acompanhados por expressões de incredulidade — incluindo do rei Filipe VI.

[o anúncio do Prémio Planeta:]

Até agora, o que se sabia de Carmen Mola estava compactado numa pequena biografia, que ainda pode ser consultada online. “A autora, nascida em Madrid, decidiu manter o anonimato”, pode ler-se no texto que é acompanhado pela foto a preto e branco de uma mulher de costas. Em português só está publicado A Noiva Cigana, uma edição da Suma de Letras que chegou às lojas em maio deste ano. É esse o thriller que inaugura a saga da detetive Elena Blanco, uma “mulher peculiar e solitária que adora grappa [uma bebida alcoólica italiana], karaoke, carros clássicos e relações sexuais em [carros] todo-o-terreno”.

Coincidência ou não, a escolha do nome da protagonista, o mistério em torno da identidade por detrás de Carmen Mola, garantiu-lhe o título de “Elena Ferrante espanhola”. E até aí tudo bem. A crítica e os leitores ficaram agarrados às páginas de A Noiva Cigana. Destacou-se por ser violento e viciante, tendo no centro de tudo os crimes mais macabros. O facto de ser escrito sob um pseudónimo elevou a obra a fenómeno de vendas. Seguiram-se La Red Púrpura, em 2019, e La Nena, em 2020. Somaram-se 400 mil exemplares vendidos, traduções em 11 idiomas. Só que agora, La Bestia, que não faz parte da mesma coleção — passa-se em 1834, durante a epidemia de cólera em Madrid, e tem como mistério o assassinato de crianças pobres —, veio revelar toda a verdade.

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Para perceber melhor esta história, o melhor é começar pelo início. Em 2018 chegou às mãos de María Fasce, editora das editoras Alfaguara Negra e Lumen, o manuscrito de A Noiva Cigana. Era exatamente aquele tipo de thriller que procurava há muito, embora o facto de ser assinado por um pseudónimo fosse o cenário pouco comum. Não se sabe quando é que Fasce teve conhecimento dos três nomes envolvidos, mas o certo é que o livro avançou, foi um sucesso imediato e rapidamente estavam a aparecer por todo o lado entrevistas a Carmen Mola.

“Somos três amigos que certo dia, há quatros anos, decidiram juntar o talento para contar uma história”, disse Jorge Días ao jornal Financial Times. Ao El País, Antonio Mercero deu mais detalhes:

“Tínhamos de escrever algo sobre ela [na descrição da autora presente no primeiro livro]. Então vamos lá. Inventámos que era uma professora de Madrid. Como também podia ter sido degustadora de gin tónico […] Umas vezes dissemos que tinha dois filhos, mas depois esquecemo-nos e passou a ter três… Não temos sido muito rigorosos, não.”

“Decidimos escrever um romance entre os três como uma diversão”, contou Jorge Díaz na entrega de prémios. “Pensávamos que ninguém iria ler um livro onde aparecessem três nomes na lombada. E procurámos um pseudónimo.” Estiveram pouco mais de um minuto a debitar nomes de homens, mulheres e estrangeiros. Um deles disse “Carmen”, outro sugeriu “Mola”. Caso encerrado.

Segundo os agora conhecidos autores, o nome feminino é puro acaso. “Não nos escondemos atrás de uma mulher, mas sim atrás de um nome. […] Não sei se o pseudónimo feminino vende mais que o masculino, não tenho a menor ideia, mas não me parece”, garantiu Mercero ao jornal espanhol.

A capa da edição portuguesa de "A Noiva Cigana", o primeiro volume de uma trilogia com a assinatura Carmen Mola

Cada um dos três já tinha títulos publicados com os verdadeiros nomes ou créditos em projetos televisivos. Jorge Díaz, de 59 anos, foi guionista em “Hospital Central” e “Hermanas”, escreveu Cartas a Palacio e Yo Fui a EGB, entre outros. Antonio Mercero, 52 anos, filho do responsável por “Verão Azul”, também ele chamado Antonio Mercero, foi co-criador de “Hospital Central” e guionista de “MIR”. Agustín Martínez, de 46 anos, é escritor e tem disponível com tradução portuguesa Monteperdido.

“Temos mentido como patifes há quatro anos e uns meses”, admitiu Jorge Díaz ao El País. “Desde o meu último romance passou muito tempo e mais do que uma pessoa me recriminou por não estar a escrever nada, que era um preguiçoso. E eu pensava: ‘Se tu soubesses…’.”

Desde 15 de outubro que já todos sabem. Porém, nem toda a gente ficou impressionada. “Além de usarem um pseudónimo feminino, estes tipos andam há anos a dar entrevistas. Não é só o nome, é o perfil falso com que enganaram leitores e jornalistas. Golpistas”, escreveu no Twitter Beatriz Gimeno, que já dirigiu o Instituto da Mulher. A indignação surgiu porque, em 2020, esse mesmo organismo incluiu um dos títulos de Carmen Mola numa lista de “leituras feministas” ao lado de nomes como Rosa Montero e Margaret Atwood.

Todas as sugestões eram consideradas importantes para “compreender a realidade e as experiências das mulheres em diferentes épocas, contribuindo para uma maior consciencialização sobre os seus direitos e liberdades”. O problema é que nem Carmen Mola existe, nem há nenhuma mulher a escrever por ela.

La Bestía, que venceu o Prémio Planeta, ainda não tem data anunciada de publicação, mas não é preciso ser vidente para adivinhar que os três primeiros livros de Carmen Mola (ou de Jorge Díaz, Antonio Mercero e Agustín Martínez) vão fazer um sprint em direção aos primeiros lugares dos tops de vendas — e, provavelmente, não apenas em Espanha.