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Eduardo Gageiro
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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Eduardo Gageiro (1935-2025): o fotógrafo da "difícil arte de ser português"

Transformou o 25 de abril em imagens, retratou inúmeros ilustres, captou misérias e registou ataques terroristas. Um dos mais importantes fotojornalistas portugueses de sempre, morreu aos 90 anos.

É pouco provável que não nos tenhamos cruzado com a fotografia de Eduardo Gageiro em algum momento. Pode ter sido a emoção partilhada entre militares e civis no agitado 25 de Abril de 1974, os rostos endurecidos de operários e camponeses num país ainda sob o peso do Estado Novo, as crianças que calcorreavam os bairros humildes de Lisboa ou os muitos retratos de figuras que marcaram a história de Portugal e do mundo. As imagens de Gageiro estão gravadas na memória coletiva – não apenas como testemunhos de uma época, mas como expressão viva daquilo a que poderíamos chamar “identidade portuguesa”. E, com elas, fica também inscrita a memória daquele que foi um dos mais reconhecidos fotojornalistas portugueses. Eduardo Gageiro morreu esta quarta-feira, 4 de junho, aos 90 anos.

Ao longo de décadas, foi através da fotografia que Eduardo Gageiro contribuiu decisivamente para enriquecer a cultura visual portuguesa e uma perspetiva histórica construída através da imagem. Nos momentos-chave dos últimos (mais de) 50 anos, a câmara esteve sempre presente – com um olhar atento, humano e implacável. Revelou o Portugal salazarista, esteve na linha da frente da Revolução dos Cravos e do PREC, captou o atentado terrorista nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, entre muitos outros episódios que o tempo transformou em marcos históricos.

A história de Gageiro – assim como a do país que documentou desde os 12 anos, quando pegou pela primeira vez numa máquina fotográfica – é hoje inseparável da história coletiva. Um percurso que se fez em paralelo com o do próprio país, e que se multiplicou em imagens. Numa entrevista concedida ao Expresso em 2017, resumia assim a sua missão: “Um fotojornalista deve estar todos os dias atento ao mundo que o rodeia. Ando sempre com uma máquina, porque há sempre qualquer coisa que me sensibiliza, justa ou injusta, e eu disparo”. Ao revisitar o percurso que fez, revela-se uma vida inteira dedicada à fotografia.

Uma vida entre artistas e operários

Eduardo Antunes Gageiro nasceu a 16 de fevereiro de 1935, em Sacavém. Os pais eram proprietários de uma modesta casa de pasto, onde se vendia bacalhau e se aqueciam as marmitas dos trabalhadores da Fábrica de Loiça, situada em frente, local onde viria a trabalhar a contragosto, obrigado pelo pai, a partir dos 12 anos. Nessa altura — contava na mesma entrevista — já a escola ficara para segundo plano, mas não o interesse e a curiosidade pelo saber. O jovem começara amiúde a fotografar com uma Kodak Baby, emprestada pelo irmão.

Ao longo desses anos, convive diariamente com pintores, escultores e operários fabris, que o influenciam na decisão de seguir o fotojornalismo, começando a captar momentos da vida urbana em Lisboa. É também nesse período que conhece o escultor Armando Mesquita, trabalhador da fábrica, que lhe dá aulas de arte e composição.

Atraído pela fotografia de Henri Cartier-Bresson, começa a publicar em revistas como O Século Ilustrado, Eva, Almanaque e Match Magazine. Em 1962, na sequência da fotografia “Viúva da Nazaré”, capa d'O Século Ilustrado e amplamente premiada, é preso pela PIDE. Considerado incómodo pelo Estado Novo, é libertado após pressão de correspondentes da Associated Press junto do ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Patrício.

Aos poucos, com o salário que recebia, vai pagando em prestações a sua primeira máquina fotográfica. Com as primeiras imagens, aventura-se em inúmeros concursos nacionais. “Acontece que ganhei logo três primeiros prémios e dois segundos”, recordou ao Expresso em 2017. Num tempo marcado por um lóbi restrito de fotojornalistas portugueses, Gageiro é aceite no jornal Diário Ilustrado, primeiro como técnico de laboratório, depois como fotojornalista. A grande oportunidade chega quando, num dia em que tinham falhado todos os fotógrafos disponíveis, a direção lhe entrega a primeira reportagem.

“Era necessário fotografar o [escritor e pintor] Mário Dionísio e não havia quem o retratasse. E lá vou eu, muito nervoso por ser o meu primeiro trabalho. Nessa altura, as entrevistas eram feitas de forma básica, só com o entrevistado a gesticular enquanto falava. Eu fiz umas fotografias interessantes com ele a fumar cachimbo. Esmerei-me, claro. E fui chamado imediatamente ao diretor. Fui elogiado e ficou decidido que, a partir daquele momento, ficaria responsável pelas fotografias do Suplemento Literário”, recordou.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 3.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui e o segundo aqui.]

Um fotógrafo incómodo ao regime

Atraído pela fotografia de Henri Cartier-Bresson, começa a publicar em revistas como O Século Ilustrado, Eva, Almanaque e Match Magazine. Em 1962, na sequência da fotografia “Viúva da Nazaré”, capa d’O Século Ilustrado e amplamente premiada, é preso pela PIDE. Considerado incómodo pelo Estado Novo, é libertado após pressão de correspondentes da Associated Press junto do ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Patrício.

Gageiro recordaria esse estranho período de prisão, que o fez compreender como a fotografia também podia ser uma arma contra a ditadura. “Chegaram a perguntar-me: ‘Porque é que você só fotografa pessoas humildes e não fotografa paisagens? Nós temos paisagens tão bonitas.’ E eu respondi-lhes: ‘Mas eu não gosto de fotografar paisagens. Eu gosto de fotografar pessoas. Os rostos das pessoas'”, contou. A partir daí, começou a tomar precauções que manteria até à Revolução Portuguesa. Lá fora, torna-se num dos poucos fotojornalistas a retratar os terroristas do grupo Setembro Negro, que sequestraram e assassinaram 11 atletas israelitas e um polícia durante os Jogos Olímpicos de Munique, em 1972.

▲ Eduardo Gageiro fotografado na Cordoaria Nacional, em janeiro de 2024, quando fazia ao Observador uma visita guiada na grande retrospetiva que ali lhe foi feita, a propósito dos 50 anos do 25 de Abril

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Em entrevista ao Observador, recordou o momento: “Havia muitos polícias à paisana, parecia um filme de cowboys. A delegação portuguesa estava no 16.º andar. Vou para esse prédio e vejo os elevadores avariados. Subo 16 andares a pé e vejo árabes sentados. Tinham aquilo controlado. Fui para a varanda. Já sabia que havia negociações e que iam buscar os tipos de helicóptero.” Embora considerasse que as fotografias não tinham a melhor qualidade — até pela falta de condições —, foram publicadas nos jornais portugueses. A grande repercussão mediática, porém, ficou reservada às televisões que captaram o terror vivido em Munique ao longo de muitas horas que o mundo parou para ver.

Momento da projeção internacional

De regresso a Portugal, a sua obra fotográfica ganharia projeção internacional em 1974, com as icónicas imagens da Revolução dos Cravos. Ao contrário da célebre pergunta de Baptista Bastos — tantas vezes feita a diversas personalidades — sobre onde cada um estava no 25 de Abril, com Eduardo Gageiro basta rever as fotografias que correram mundo. Todos sabemos por onde andava.

Nesse dia, graças aos seus contactos, foi avisado bem cedo do que se passava na capital. “O Século [Ilustrado] tinha uma célula política muito ativa e muito bem informada. Telefonaram-me às seis da manhã a dizer: vai para o Terreiro do Paço, porque hoje é que é. Já tinha havido umas ameaças. Foi assim que apareci às seis em frente a uma pessoa que não conhecia chamada Salgueiro Maia”, contou ao Observador.

Acompanha o jovem capitão do MFA, regista os acontecimentos junto ao Quartel do Carmo e, de forma inequívoca, os anos que se seguiriam até à consolidação da democracia portuguesa. Ganha prémios internacionais – como um segundo lugar no World Press Photo, em 1974, com uma imagem do General Spínola – e mantém-se fiel ao preto e branco.

Famoso retratista, dele recordamos a imagem de José Cardoso Pires sentado, José Régio na cama, as mãos de Ferreira de Castro, Amália à porta de um carro em Alfama, Sophia de Mello Breyner na janela a escrever, Raul Solnado a espreitar de um bueiro na estrada, Jean Marais no camarim, Orson Welles no Guincho, o perfil iluminado de Lopes Graça, ou ainda Rubinstein ensaiando no Coliseu dos Recreios como um vulto furtivo de Hitchcock.

Legado e reconhecimento

Entre as retrospetivas que a obra foi motivando, recorda-se a mais recente, Factum, no torreão nascente da Cordoaria Nacional, em Lisboa, onde se apresentaram 169 imagens, três das quais inéditas. Condecorado em 2004 com o título de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique pelo presidente Jorge Sampaio e, em 2005, com a medalha de ouro para melhor fotografia a preto e branco na 11.ª Exposição Internacional de Fotografia Artística da China, Eduardo Gageiro será sempre recordado como o fotógrafo da realidade e das gentes.

A 25 de Abril de 1974, graças aos seus contactos, foi avisado bem cedo do que se passava na capital. “O Século [Ilustrado] tinha uma célula política muito ativa e muito bem informada. Telefonaram-me às seis da manhã a dizer: vai para o Terreiro do Paço, porque hoje é que é. Já tinha havido umas ameaças. Foi assim que apareci às seis em frente a uma pessoa que não conhecia chamada Salgueiro Maia”, contou ao Observador.

Já este ano, Gageiro organizou a sua derradeira exposição, ‘Pela Lente da Liberdade’, inaugurada a 25 de Abril, na Galeria Municipal de Torres Vedras, município que recentemente adquiriu o acervo do fotógrafo, que já se mantinha à sua guarda e conservação.

Na entrevista concedida ao Observador por altura da exposição, em janeiro de 2024, recordou um percurso que muitas vezes o afastou da vida familiar e durante o qual colecionou histórias e algumas polémicas — como a que teve com o fotógrafo Alfredo Cunha, acusando-o de lhe ter roubado rolos tirados no 25 de Abril. Quanto ao seu legado, permanece espelhado nas imagens que nos deixa – e no muito que sobre ele se escreveu – como nas palavras que José Cardoso Pires lhe dedicou no livro de fotografias Gente:

“Através dele, reconhecemos que a fotografia vê o que o olhar não abrange, aquilo que a nossa atenção visual deixa escapar. E isso, às vezes, é muito. É o inventário das nossas singularidades, a contribuição para nos definirmos a nós, portugueses — estas criaturas tão pouco meditadas pelo mundo e tão sobrecarregadas de História, de viagens, invernais. Só realmente o amor e a vivência, e uma certa densidade do olhar, podem fotografar um país com tamanha verdade e introduzir-nos, como Gageiro, na ‘Difícil Arte de Ser Português’.”

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