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Até o próprio candidato a primeiro-ministro na Gronelândia ficou surpreendido.“Não esperávamos que esta eleição tivesse este desfecho. Estamos muito felizes”, reconheceu Jens-Frederik Nielsen, líder do partido Demokraatit (Democratas, em português). A força partidária de centro-direita venceu com cerca de 30% dos votos as eleições gerais gronelandesas e obteve o seu melhor resultado de sempre, numa cena política dominada pela esquerda há décadas. Numa breve análise aos resultados, aquele será muito provavelmente o novo líder indicou que as “pessoas desejavam mudança” e deixou claro que não vai ceder aos Estados Unidos.
Essa “mudança” ocorre numa altura em que cada vez mais gronelandeses pretendem que a Gronelândia, atualmente uma região autónoma controlada pela Dinamarca, se torne independente. Nesse sentido, o Demokraatit defende efetivamente um referendo, ainda que a longo prazo. No entanto, nos últimos tempos, existe outra variável que mexeu com estas eleições — e que pode ajudar a explicar os resultados surpreendentes: o Presidente norte-americano, Donald Trump, declarou que quer anexar a ilha e integrá-la nos Estados Unidos da América (EUA).
Ainda no seu discurso perante o Congresso na passada terça-feira, Donald Trump garantiu que os Estados Unidos vão “ter a Gronelândia de uma forma ou outra”. No início deste ano, o Presidente norte-americano até admitiu o uso da força para controlar a ilha, que é a maior do mundo e que é rica em recursos minerais. Ressuscitando uma promessa do primeiro mandato, o chefe de Estado está empenhado nesta missão — e o filho, Donald J. Trump, até visitou recentemente a Gronelândia.
▲ Donald J. Trump visitou a Gronelândia no início de janeiro de 2025
EMIL STACH/EPA
Este interesse norte-americano não cativa os gronelandeses. Uma sondagem publicada no final de janeiro mostra que 85% da população é contra a ideia de uma possível anexação aos Estados Unidos. E isso verificou-se nas urnas: em segundo lugar, com 25% dos votos, ficou o partido populista Naleraq — que defende a autonomia face à Dinamarca o mais rapidamente possível, fazendo desse tópico a sua principal bandeira política.
Contrariamente aos restantes partidos, que sempre mantiveram um discurso crítico de Donald Trump, o Naleraq (Ponto de Orientação, em português) até propõe um acordo de livre associação com os EUA. Mas a anexação pelos EUA? Está fora de questão. “Ele [Trump] pode sonhar, mas nós queremos ter o nosso país. Nem pertencer à Dinamarca, nem à América. Queremos ser a Gronelândia e gronelandeses”, afirmou CT Sigmundsen, pertencente ao partido Naleraq.
Como a economia foi o tópico que motivou estas eleições — e como isso está relacionado com a independência
O Demokraatit é um partido social liberal, conhecido pelos seus posicionamentos a favor da livre iniciativa e da desregulação da economia. Fundado em 2002, entre os membros era comum haver uma certa simpatia em relação à ideia de a Gronelândia integrar a Dinamarca; contudo, a força partidária foi-se tornando pró-independência ao longo anos. Mas sempre com cautela: a organização de um referendo deve ser planeada com ponderação, salvaguardando o bem-estar económico da população.
????????⚡️ Demokraatit Party leader Jens-Frederik Nielsen on whether he will lead the new government in Greenland.
"We'll see if I can create a majority for it." pic.twitter.com/5z4zV0nc3S
— TabZ (@TabZLIVE) March 12, 2025
O partido do centro-direita soube explorar o argumento de “é necessário moderação antes de avançar para um referendo”. Ao mesmo tempo, existiu uma penalização dos partidos que até aqui governavam nestas eleições. Os dois partidos de esquerda defendem, grosso modo, os mesmos moldes do que o Demokraatit no caminho para a independência — mas, contrariamente ao centro-direita, foram fortemente castigados nas urnas.
Em terceiro lugar, ficou o partido de esquerda (de cariz socialista-democrático) Inuit Ataqatigiit (em português, Comunidade das Pessoas), do primeiro-ministro cessante da Gronelândia, Múte Bourup Egede. A força partidária sofreu uma queda acentuada e perdeu 16 pontos percentuais em comparação com 2021. Em quarto lugar, ficou o partido social-democrata Siumut (em português, Para a Frente), que também desceu 16 pontos percentuais face há quatro anos.
Os dois partidos faziam parte da coligação que governou a Gronelândia nos últimos anos. Os maus resultados revelam que houve uma vontade de alternância política. À televisão estatal dinamarquesa DR, Ulrik Pram Gad, pertencente ao Instituto Dinamarquês de Estudos Internacionais, explicou que o Inuit Ataqatigiit e o Siumut foram “responsáveis pela construção do estado autónomo” desde o fim do colonialismo em 1953: “As promessas que fizeram era que o país deveria ser menos dinamarquês e mais gronelandês e que o bem-estar social deveria estar no topo da agenda”.
▲ Primeiro-ministro cessante Múte Bourup Egede saiu derrotado das eleições
MADS CLAUS RASMUSSEN/EPA
“Tentaram criar o ‘Estado social’ gronelandês, mas não tiveram sucesso”, apontou Ulrik Pram Gad como motivo do mau resultado da esquerda, dando um exemplo que ilustra as dificuldades que a população sente: “Quando se está numa localidade e o médico se mudou para uma cidade maior ou o médico é dinamarquês… Os gronelandeses não acham [que o Estado social] funciona”. Perante este falhanço de o Estado não funcionar de forma independente da Dinamarca, a alternativa, segundo o especialista, é “queimar tudo e começar de novo com o Naleraq ou tentar dar um novo impulso ao modelo do Demokraatit”.
Não dando resposta aos anseios da população em termos sociais, os partidos de esquerda que governam a Gronelândia saíram prejudicados nas urnas. Esta questão foi ainda mais importante tendo em conta o referendo que maioria da população deseja que se convoque. Sem um um Estado social forte e eficaz, os gronelandeses não se sentem prontos para se tornarem independentes da Dinamarca. E é esse novo impulso que explica o bom resultado dos dois partidos mais votados, acredita Dwayne Ryan Menezes, diretor do think tank Polar Research and Policy Initiative.
“O sucesso do Demokraatit e do Naleraq indica que muitos na Gronelândia querem independência, mas também se importam com assuntos da ordem social, como os cuidados de saúde, cuidados infantis, educação e emprego”, referiu Dwayne Ryan Menezes à CNN internacional, acrescentando que a “principal diferença” entre os dois partidos reside na maneira como procuram a independência política.
“Para o Naleraq, a independência é o objetivo principal, enquanto para o Demokraatit é mais um objetivo final”, distinguiu Dwayne Ryan Menezes, que acredita que a “abordagem” com que a Gronelândia pode avançar com a independência — mais rápida ou mais lentamente — depende do partido que saiu vencedor eleições e que tem agora a iniciativa para formar uma coligação.
Apesar de ter vencido as eleições, o Demokraatit ficou muito longe de obter uma maioria absoluta no Parlamento da Gronelândia, elegendo dez deputados. Para obter uma maioria, serão precisos 16. Por conseguinte, o partido de centro-direita tem de coligar-se ou com os populistas do Naleraq ou com a esquerda. Jens-Frederik Nielsen está disponível para o diálogo “com todos os partidos”. “Estamos à procura de união. Especialmente com o que se está passar no mundo”, afirmou o provável futuro primeiro-ministro.
Se a pressa para realizar um referendo pode complicar a viabilização de uma aliança com o Naleraq, existem algumas diferentes ideológicas em relação aos partidos de esquerda. Há um tópico que é particularmente sensível: a extração de urânio, que foi suspensa pelo último governo de esquerda por questões ambientais. “O Demokraatit opôs-se à proibição de extração de urânio imposta pelo antigo governo. É demasiado cedo para dizer se vão tentar reverter [a medida] e isso vai depender de com que partido vão formar coligação”, destacou ao Politico o professor da Danish Royal Defense College Jon Rahbek-Clemmensen.
Unir-se aos EUA? Nenhum partido no Parlamento quer ouvir falar dos planos de Trump
Na base de qualquer eventual coligação, está a oposição do Demokraatit à possibilidade de os EUA anexaram a Gronelândia. Na festa eleitoral desta terça-feira, após serem conhecidos os resultados, o líder do partido de centro-direita deixou a garantia: “Não queremos ser dinamarqueses. Não queremos ser norte-americanos. Queremos ser gronelandeses. Queremos a nossa própria independência no futuro. E queremos construir o nosso país por nós mesmos”.
Para além disso, o líder Jens-Frederik Nielsen defende que a independência da Gronelândia deve estar no centro de todas as decisões políticas: “Se uma decisão nos afasta mais do objetivo da independência, então é uma decisão errada que não devemos seguir”, defendeu o político de 33 anos.
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Nestes dois tópicos, existe praticamente um sentimento de unanimidade em todo o Parlamento. A única exceção é o partido Atassut (Coesão, em português), que pretende manter os laços com a Dinamarca — se bem que também não defenda uma anexação pelos EUA. No entanto, a força partidária elegeu apenas dois deputados e obteve um resultado na ordem dos 7,4%, obtendo um resultado marginal e ficando longe de integrar qualquer coligação.
Assim sendo, Donald Trump não tem nenhum aliado no Parlamento gronelandês. Tal como já demonstravam as sondagens, a Gronelândia não quer integrar os EUA e esse sentimento deverá prevalecer no futuro. Em parte porque o líder do centro-direita nunca demonstrou qualquer simpatia face ao Presidente norte-americano — e deixou críticas à atuação dos norte-americanos antes das eleições.
Em causa está uma chamada do consulado norte-americano em Nuuk (capital da Gronelândia), em que foi pedido aos principais líderes políticos para explicarem o seu posicionamento em relação aos EUA. Jens-Frederik Nielsen recusou dar a sua opinião e veio a público denunciar uma “tentativa de interferir nas eleições gronelandesas”, uma vez que o consulado pode estar a “tentar influenciar os partidos a serem mais amigáveis face aos EUA”. “Não penso que seja apropriado, antes de uma eleição, fazer este tipo de influência — especialmente dada a retórica vinda dos EUA”, reforçou.
Mesmo assim, o Demokraatit considera que não se deve virar as costas à influência norte-americana, e antes atuar na base de um “diálogo honesto e respeitoso”. “Os EUA são o único parceiro realista além da Dinamarca”, lia-se no programa eleitoral do partido que venceu as eleições, que até concedeu que possa haver “negociações” com Washington, se isso mostrar proveitoso para a “jornada em direção à independência”.
▲ Jens-Frederik Nielsen acusou Donald Trump de interferir nas eleições da Gronelândia
AL DRAGO / POOL/EPA
A maior ilha do mundo, que procura a independência, possui reservas de petróleo, gás natural e é rica em minerais. E também possui explorações de terras-raras: os metais sobre os quais Donald Trump pretende fazer um acordo em território ucraniano. Estes recursos são uns dos motivos que levam ao Presidente dos EUA a desejar anexar a Gronelândia, sendo que o partido vencedor das eleições até nem se opõe a fazer acordos que dêem vantagens económicas às empresas norte-americanas.
Porém, Donald Trump quer mais — ambiciona obter dividendos da localização geográfica da Gronelândia. “Precisamos da Gronelândia para a segurança nacional e até para a segurança internacional”, frisou o chefe de Estado no Congresso norte-americano na passada semana. Apesar de os EUA terem uma base militar na ilha, o líder norte-americano pretende aumentar a influência de Washington na região do Ártico, onde tem a competição da Rússia e da China.
“A Gronelândia é um sítio excelente. É necessária para nós, é necessária para a segurança internacional. Há barcos russos em todo o lado, há barcos chineses em todo o lado — navios de guerra”, sublinhou Donald Trump, insistindo que os EUA “precisam” da ilha para ficarem mais fortes face a outros concorrentes no seio da comunidade internacional.
A vontade de Donald Trump em anexar a Gronelândia é conhecida, mas os habitantes da ilha opõem-se a essa ideia — e os resultados destas eleições demonstram-no. No panorama política gronelandês, o Presidente norte-americano vai continuar a ser olhado com muita desconfiança. Sempre sob a sombra da ameaça de Washington, o Parlamento deverá centrar-se agora em garantir a independência face à Dinamarca, para os gronelandeses construirem o seu próprio futuro.