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Em apenas sete dias a Apple perdeu várias caras na equipa de liderança. Se há saídas para a reforma, também há quem deixe a companhia para ir trabalhar para outras tecnológicas, como a Meta e a OpenAI.
A situação chamaria à atenção em qualquer empresa com o mediatismo da Apple. Porém, neste caso há mais um reforço — o historial da companhia pautado por poucas mexidas na equipa de executivos. Desde que chegou ao cargo de CEO, em 2011, Tim Cook tem mantido um elenco estável. Agora, a imprensa norte-americana apelida mesmo o caso de “êxodo”.
São pelo menos quatro as partidas anunciadas este mês, que terão efeito entre dezembro deste ano e o final de 2026. A primeira saída a ser comunicada, a 1 de dezembro, foi a de John Ginnandrea, vice-presidente de aprendizagem automática e estratégia de inteligência artificial (IA) da Apple. Ginnandrea estava na Apple desde 2018, sendo o principal responsável pela estratégia de IA e implementação de tecnologias críticas. A Apple anunciou que o executivo vai abandonar o cargo e que se irá manter como conselheiro até à reforma, prevista para a primavera de 2026.
Três dias depois, mais um comunicado sobre “transição de executivos”. Kate Adams, conselheira geral da Apple desde 2017, deverá reformar-se no fim de 2026 e será substituída por Jennifer Newstead, a diretora jurídica vinda da Meta. Na mesma nota, foi anunciado que Lisa Jackson, a vice-presidente de iniciativas ambientais, políticas e sociais, vai reformar-se no fim de janeiro de 2026. As funções de Jackson vão transitar temporariamente para Kate Adams.
Quando Adams sair da Apple, a área de iniciativas ambientais e sociais passará para o pelouro de Jennifer Newstead que, no fim de 2026, ficará com um título que combine as duas áreas — conselheira geral e temas governamentais. Os temas ambientais passarão para o diretor de operações Sabih Khan, que assumiu funções em julho de 2025.
▲ Lisa Jackson, até aqui responsável por políticas ambientais e sociais da Apple, vai reformar-se no início de 2026
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Pelo meio, a Bloomberg avançou mais uma saída: a de Alan Dye, o vice-presidente de design e interface da Apple. Desta leva de saídas, Dye é o único que não se vai reformar, tendo como destino a Meta. Dye estava na Apple desde 1999 e assumiu mais responsabilidades quando Jony Ive, responsável pelo design do iPhone e do iMac, saiu da empresa em 2019. “Vou passar para um novo cargo focado no futuro de produtos inteligentes e experiências”, revelou Alan Dye numa publicação no LinkedIn, onde deixou de fora o nome do futuro empregador. Dye foi contratado para liderar um novo laboratório dentro da Meta, onde vai ter a companhia de Billy Sorrentino, outra saída recente da Apple.
A lista de saídas cresce se recuarmos uns meses. Em novembro, o diretor de operações Jeff Williams, que estava há 27 anos na empresa, reformou-se. No início do ano, Luca Maestri, o diretor financeiro da Apple, também saiu do cargo.
Este “êxodo” acontece num momento em que, apesar de as vendas do iPhone continuarem em alta, a gigante mantém desvantagem na inteligência artificial (IA).
“É uma altura de preocupação para a Apple porque quando se perde tanto talento… A pessoa principal de design saiu, o líder da área de inteligência artificial (IA) também. São posições muito estratégicas”, admite ao Observador Ben Wood, analista-chefe da consultora britânica CCS Insight e que acompanha a Apple há vários anos.
“Sem dúvida, 2025 tem sido um ano com uma rotação de funcionários como não me lembro de ver”, admite. Mas não vê “qualquer tipo de crise” nestas movimentações. “Algumas pessoas que estavam há muitos anos na empresa quiseram reformar-se, o que é natural.” Mas também “há quem esteja a ser abordado por empresas como a Meta e a OpenAI, particularmente na área de IA e design”, reconhece. Segundo uma análise do Wall Street Journal, a Apple já terá perdido dezenas de funcionários para a OpenAI e para a Meta nos últimos meses, entre especialistas de áudio, robótica e design.
Francisco Jerónimo, vice-presidente de dados e análise da consultora IDC, tem uma opinião diferente: “Ao fazer todo este tipo de reorganização na liderança, a Apple está claramente a tentar posicionar a próxima equipa para uma década que vai ser bastante desafiante”.
“Os desafios futuros não são, necessariamente, o tentar descobrir qual é o próximo iPhone que vai revolucionar a empresa. O desafio mais importante é a nível da implicação de IA no negócio da Apple, porque é a tecnologia que, efetivamente, pode multiplicar o valor da empresa. Ao mesmo tempo, se não o fizerem bem, também pode ter um impacto bastante negativo na empresa”, realça o mesmo responsável da IDC.
“Há uma necessidade clara de a Apple conseguir acompanhar a explosão da IA que vai ditar as próximas décadas das nossas vidas como consumidores”, sublinha. Mas, logo a seguir, completa que este é um desafio mais amplo na indústria. “Nenhuma empresa, incluindo a Apple, conseguiu traduzir ainda os benefícios da IA nos seus produtos”, diz o especialista.
▲ Tim Cook assumiu o cargo de CEO em 2011. Em novembro, completou 65 anos
Getty Images
Aos 65 anos, Tim Cook não é obrigado a reformar-se. Mas planos para sucessão ter-se-ão “intensificado”
Certo é que as mudanças na casa da maçã também deram novo fôlego às conversas sobre a sucessão de Tim Cook. A 1 de novembro, o executivo completou 65 anos. No mesmo mês, meios como o Financial Times (FT) e a Bloomberg avançaram que a Apple estaria a intensificar os planos de sucessão. Segundo o FT, os estatutos da Apple não ditam a obrigação de reforma e desligava, também, estes esforços da situação da empresa no mercado. Porém, o jornal britânico avançou que a saída poderia acontecer já em 2026.
Publicamente, o CEO não dá sinais de pensar em afastar-se. Entre os analistas ouvidos pelo Observador não há consenso sobre o futuro de Cook. A saída de tantos executivos “sinaliza que vai haver uma transição de liderança em breve”, diz Francisco Jerónimo, da IDC. “Se é no próximo ano ou no ano seguinte, é incerto.”
“Tim Cook está há 14 anos no cargo, portanto pode querer passar o bastão a alguém provavelmente mais novo”, equaciona. “Toda esta movimentação [de executivos] claramente indica que não é só uma decisão à volta do CEO, mas uma decisão à volta da equipa de liderança.”
Ben Wood tem outra perspetiva. “Acho que não podemos estabelecer imediatamente uma relação entre a saída de executivos e a de Tim Cook.” Ainda assim, reconhece que poderá chegar o momento “em que Tim Cook comece a olhar à volta e a pensar ‘bem já conquistei quase tudo’”.
Nesse sentido destaca, por exemplo, a forma como Cook recebeu a ‘herança’ do iPhone e “fez crescer a empresa para um negócio de biliões de dólares”. “Em algum momento” Cook decidirá sair da Apple e “ficará para a história como um dos mais bem sucedidos CEO, que criou um valor tremendo para os acionistas”.
Steve Jobs, que morreu em outubro de 2011, apenas quatro meses após a nomeação de Cook, regressou à Apple em 1997 e lançou pelo menos dois sucessos de vendas: o iPod e o iPhone. Mas foi com Cook que a Apple assegurou quatro marcos de capitalização bolsista, tornando-se numa das empresas mais valiosas do mundo. Quando Tim Cook assumiu funções, a Apple valia 350 mil milhões de dólares. Em 2018, chegou ao primeiro bilião de dólares em bolsa e, já este ano, ao quarto bilião — mesmo com a pedra no sapato da IA.
Apple juntou-se ao clube dos quatro biliões impulsionada pelas vendas do iPhone
Dan Ives, analista da Wedbush, é o único a apontar uma janela temporal para a continuidade de Cook. “Acreditamos que Tim Cook continuará a ser o CEO da Apple pelo menos até ao fim de 2027 para supervisionar esta transição de uma tecnologia-chave de IA em Cupertino.”
Apesar da agitação, Ben Wood, da CCS Insight, não considera que as saídas de executivos possam vir a mexer com os eventuais planos de Tim Cook para uma saída. “Acho que a Apple terá um plano muito claro sobre o que quer fazer. A história mostra que Tim Cook é uma das pessoas mais organizadas e estruturadas, com um foco incansável em planear e controlar tudo”, diz. “É impensável que não tenha pensado de forma cuidadosa qual é a melhor altura [para sair] e quem lhe possa suceder.”
Já Francisco Jerónimo, da IDC, admite que o executivo possa estar a “reorganizar a casa” e “só quando as pessoas estiverem confortáveis nas novas funções é que sairá”. Acredita que o CEO já tenha colocado “um quadro temporal” para a sua eventual saída e que, mesmo com “toda esta movimentação”, já “terá discutido internamente” o tema com a equipa. Independentemente da altura, Jerónimo não acredita que Cook “deixe completamente a empresa”, sugerindo uma posição de “chairman do board para continuar a dar apoio à empresa”. Arthur D. Levinson, o atual chairman da Apple e também CEO do laboratório de biotecnologia Calico, tem 75 anos.
A haver sucessão, “é muito provável que seja candidato interno.” Quem pode constar da lista?
Não é de agora que se fala de uma possível lista de candidatos a ocupar o lugar de CEO da Apple. Nas listas feitas pela imprensa especializada, figuram os nomes de vários executivos da tecnológica. Francisco Jerónimo, da IDC, considera ser “muito provável que a solução seja um candidato interno”.
A ser uma solução interna, “com forte conhecimento da empresa, provavelmente manter-se-á durante uma década facilmente” no cargo. “Se não for, há sempre o risco de não conseguir perceber a cultura da empresa e não durar tanto tempo”, acrescenta.
▲ John Ternus, diretor de hardware, durante a apresentação WWDC de 2022
dpa/picture alliance via Getty I
Francisco Jerónimo nota que John Ternus, o atual líder de engenharia da Apple e que é um dos candidatos, “é muito provável que seja um sucessor de Tim Cook”. Com 50 anos surgiu como “sucessor mais provável” na notícia do Financial Times e também no topo da lista do Wall Street Journal.
Ternus é vice-presidente de engenharia de hardware e está na Apple desde 2001. Curiosamente, tem a mesma idade que Cook tinha quando foi nomeado CEO. Supervisiona as equipas que trabalham em produtos como o iPhone, iPad, Mac e AirPods. Quando chegou à Apple, juntou-se à equipa de design de produto e foi escalando degraus até chegar em 2013 à vice-presidência de engenharia de hardware.
Segundo o perfil na página da Apple, Ternus “foi um líder de destaque na transição em curso do Mac para os Apple silicon”, os processadores próprios desenvolvidos pela Apple. Esta transição ditou a independência da Apple em relação à Intel.
▲ Craig Federighi, vice-presidente de software, é um dos possíveis nomes na lista de candidatos possíveis a CEO
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Mas há outros nomes apontados, como Craig Federighi, de 56 anos, uma presença habitual nos eventos da Apple. É o vice-presidente sénior de engenharia de software, reportando diretamente a Tim Cook. É um executivo que já saiu da Apple, passou cerca de uma década na empresa de comércio eletrónico Ariba, e regressou à dona do iPhone em 2009. Na altura, para liderar a engenharia do sistema operativo do macOS. Em 2012, já com Cook, acrescentou a responsabilidade do iOS à lista de tarefas. Hoje em dia, supervisiona todo o software que faz mexer os produtos da Apple.
“Federighi tem um trabalho duro porque está a supervisionar todo o software — que é onde está a ação hoje em dia”, diz Ben Wood, da CCS Insight. Este analista duvida que Federighi “queira o stress” da função. “Seria só pela glória, mas quanto é que vale a glória de ter o stress de suceder a alguém que teve tanto sucesso? Não estou convencido de que seja a pessoa que vá assumir. Também pode ser alguém de fora”, nota.
▲ Eddy Cue, responsável de serviços da Apple, era um dos nomes próximos de Steve Jobs
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O Wall Street Journal coloca mais dois nomes “históricos” na lista de possibilidades internas, mas, ambos com 61 anos, poderão significar um reinado não muito longo. Eddy Cue, responsável pelo mundo de serviços da Apple, é descrito como um ávido negociador, que supervisiona um mundo crescente de serviços — o Apple Music, Apple News, Apple Podcasts, Apple TV e também áreas como o Apple Pay, o iCloud e a área de anúncios.
Cue está na empresa desde 1989, na qual começou por ser um líder de engenharia. Teve um papel de destaque no lançamento da loja online da Apple, em 1998, e já em 2003, na loja iTunes que permitiu alimentar o iPod. Em 2008, assumiu outro desafio de relevo na tecnológica: o projeto da App Store, a loja de aplicações da Apple. Era um dos nomes próximos de Steve Jobs.
▲ Greg Joswiak, vice-presidente de marketing da Apple, completará em 2026 quatro décadas na empresa
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Em 2026, Greg “Joz” Joswiak completará 40 anos de trabalho na Apple. O diretor de marketing global da tecnológica, que costuma dar a cara em conferências sobre temas mais difíceis, também é um dos nomes da lista. Apesar de estar ligado ao marketing, Joz tem uma licenciatura em engenharia informática.
É descrito pela Apple como tendo um “papel fundamental” no desenvolvimento e lançamento de produtos como o iPod e o iPhone originais. Porém, os primeiros passos na empresa foram dados noutro segmento: no mundo dos computadores Macintosh e no apoio à comunidade de programadores.
A Apple perdeu terreno na IA, mas sangue novo pode reacender a estratégia
“Há uma visão de que a Apple está um pouco atrás na IA, a própria empresa admite isso”, diz Ben Wood, da CCS Insight. O caso mais flagrante é a Siri, a assistente digital da empresa, que continua a ser alvo de críticas. Tanto que, em entrevista ao WSJ, Craig Federighi e “Joz” Joswiak até fizeram um mea culpa pelos atrasos na estratégia de IA.
Mas, por agora, a situação ainda não é irreversível, assegura o analista, dado que as prioridades dos consumidores ainda são outras. “A pesquisa de mercado que temos avança que a IA é algo que está crescentemente na cabeça das pessoas, mas que ainda não é realmente o que faz alguém comprar um telefone.” Continuam a pesar mais fatores como o desempenho da câmara ou a bateria.
▲ As funcionalidades de IA da Apple têm desapontado o mercado
Anadolu via Getty Images
“A Apple tem um caminho ainda muito grande a trilhar na IA”, completa Francisco Jerónimo, da IDC. Com o responsável de IA a reformar-se, a Apple já anunciou um sucessor. Escolheu Amar Subramanya, investigador de IA que vem da Microsoft e passou mais de 15 anos na DeepMind, o laboratório de IA que pertence à Google. Na Apple, vai reportar diretamente a Craig Federighi, o líder da divisão de software.
Mesmo descrevendo a estratégia de IA da Apple “como o elefante na sala”, uma “estratégia invisível de IA quando tem a maior base de consumidores instaladas, com 2,4 mil milhões de equipamentos e 1,5 mil milhões de iPhone”, Dan Ives, analista da Wedbush, vê como vantajosa a contratação de Subramanya. “Finalmente [a Apple] passou à ofensiva”, resume, prevendo que “2026 seja finalmente o ano em que a Apple entrará à séria na revolução da IA.”
“A Apple está finalmente a olhar para uma parte mais ofensiva ao adicionar mais talento de IA ao ecossistema da Apple para impulsionar as capacidades da Apple Intelligence no próximo ano”, referindo-se à área de ferramentas de IA da empresa. “Subramanya representa a contratação certa, na altura certa, com o relógio a andar na estratégia de IA”, afirma o analista. Ives considera que a empresa precisa “de contratações externas para melhorar a estratégia de IA, com uma nova cultura e ADN a fim de impulsionar estes esforços em Cupertino”.
Ives não doura a pílula e considera que a “inovação que está a sair do Apple Park tem sido, até agora, muito desapontante”. “É tempo de continuar a trazer talento em IA de fora do Apple Park, mesmo que a Apple tenha de pagar bem para ter executivos de tecnologia que mudem a cultura de inovação de IA.” A chegada de sangue novo “será um enorme reinício para a empresa”, que a poderá “colocar no caminho certo para preparar a empresa para a Siri com IA”.
Com êxodo ou não, Ben Wood, da CCS Insight, continua a destacar a “posição invejável da Apple” do ponto de vista financeiro. “É uma empresa com um balanço tão forte e com uma base de utilizadores enorme para quem queira testar nova tecnologia.” E onde os recursos parecem não ser problema — no fim do ano fiscal, terminado em setembro, a empresa teve lucros de 112 mil milhões de dólares e ativos de 359,2 mil milhões de dólares. “Tem recursos quase ilimitados — a Apple tem mais dinheiro do que alguns países pequenos, portanto é muito capaz de trabalhar em projetos novos”, graceja. Até este ponto do ano, as ações da Apple registam uma valorização de 9%.