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Durante hora e meia, o moderador Chris Wallace teve de elevar a voz várias vezes para impedir que os candidatos falassem ao mesmo tempo

Getty Images

Durante hora e meia, o moderador Chris Wallace teve de elevar a voz várias vezes para impedir que os candidatos falassem ao mesmo tempo

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Fact Check. Pandemia, recessão e violência policial. Seis momentos em que o debate Trump-Biden fugiu à verdade /premium

Donald Trump foi quem mais vezes mentiu ou usou argumentos enganadores — mas Joe Biden também fugiu à verdade em alguns momentos. Seis fact-checks ao primeiro debate das presidenciais americanas.

No primeiro de três debates entre Donald Trump e Joe Biden com vista à eleição presidencial de novembro, o Presidente dos Estados Unidos recorreu com frequência a argumentos falsos e enganadores — e, por várias vezes, mentiu abertamente para criticar o candidato democrata. Joe Biden, por sua vez, usou quase sempre argumentos com fundamentação científica, embora, em alguns momentos, também ele tenha recorrido a informações falsas e descontextualizadas para atacar Trump.

Num debate caótico, marcado por insultos pessoais e acusações diretas e praticamente sem discussão de ideias concretas, Biden chegou mesmo a chamar “mentiroso” a Donald Trump e a classificar tudo o que o Presidente disse como “mentira”. A imprensa norte-americana verificou grande parte dos factos mencionados por ambos os candidatos durante o debate e concluiu que foi Donald Trump quem mentiu mais vezes.

Insultos e acusações marcam primeiro debate entre Donald Trump e Joe Biden

Por exemplo, a plataforma Politifact, especializada em fact-checking e membro da International Fact-Checking Network (IFCN), de que o Observador também faz parte, analisou 24 afirmações do debate que não corresponderam à verdade. Dezoito foram ditas por Donald Trump (a maioria falsas ou enganadoras, outras descontextualizadas ou sem provas) e seis por Biden (todas parcialmente falsas ou a precisar de contexto).

[Pode rever aqui o debate desta terça-feira na íntegra]

Donald Trump recuperou 700 mil empregos na indústria?

A frase:

“Diziam que era preciso um milagre para trazer de volta a indústria. Trouxe de volta 700 mil empregos. Eles não trouxeram nada de volta”

Donald Trump

O Presidente dos EUA argumentou que, durante a sua presidência, o número de postos de trabalho na indústria norte-americana aumentou em 700 mil. Porém, isto não é verdade, nem mesmo olhando aos números antes da pandemia da Covid-19, como escreve o The New York Times — que lembra que, após uma subida na ordem dos 500 mil, o número de empregos na indústria caiu em cerca de 200 mil devido à pandemia.

Também não é a primeira vez que Donald Trump usa este argumento. Na semana passada, num discurso no Ohio, o Presidente norte-americano já tinha dito o mesmo, referindo-se à sua promessa eleitoral de recuperar 700 mil empregos na área da indústria.

Contudo, de acordo com a CNN, até fevereiro, o número de empregos na indústria tinha aumentado em 483 mil — portanto, abaixo dos 700 mil referidos por Trump. A pandemia da Covid-19 veio provocar uma profunda recessão que levou à queda abrupta neste número e, de acordo com as estatísticas de agosto, havia já menos 237 mil empregos na área da indústria do que no início do mandato de Trump.

Segundo a NBC, durante a presidência de Barack Obama — com Joe Biden como vice-presidente — os Estados Unidos perderam cerca de 1,4 milhões de empregos na área da indústria.

CONCLUSÃO

É falso que, durante a administração Trump, os Estados Unidos tenham recuperado 700 mil empregos na área da indústria, como o Presidente norte-americano afirmou no debate. Na verdade, após uma subida de 483 mil, o número de empregos no setor caiu devido à pandemia.

ERRADO

Biden deixou a Trump uma economia em grande crescimento?

A frase:

“Quando eu era vice-presidente, herdámos uma recessão, foi-me pedido que a consertasse, foi o que fiz, deixámos-lhe uma economia a crescer e ele causou a recessão.”

Joe Biden

O candidato democrata, Joe Biden, argumentou que Donald Trump é responsável pela crise económica em que os Estados Unidos estão mergulhados, uma vez que, quando terminou o mandato na Casa Branca, em 2016, a administração Obama deixou uma economia em grande crescimento — a expressão usada foi “booming“.

Na verdade, há aqui dois erros de argumento. Em primeiro lugar, a economia norte-americana não estava em grande crescimento: de acordo com o The New York Times, em 2016, a economia norte-americana tinha visto o seu crescimento descer até valores abaixo dos 2%.

Joe Biden disse que foi Donald Trump quem causou a recessão atual nos EUA

AFP via Getty Images

Sob a Presidência de Donald Trump, a economia norte-americana continuou a crescer até este ano, altura em que a pandemia da Covid-19 causou uma profunda recessão nas contas dos EUA. Embora Joe Biden tenha vindo a criticar repetidamente a forma como Trump lidou com a pandemia, a verdade é que a crise económica não é diretamente atribuível ao Presidente dos EUA.

Com efeito, apesar da multiplicidade de estratégias adotadas em todo o mundo para reagir à pandemia da Covid-19, praticamente todos os países do globo estão a sofrer fortes recessões por causa da paragem forçada da atividade económica durante a primavera.

CONCLUSÃO

É errado que a economia norte-americana estivesse num grande crescimento — classificável como “booming” — no final do mandato de Obama e Biden. A economia dos EUA registava, nessa altura, um crescimento tímido. É também errado que Donald Trump tenha causado a recessão atual. A causa da recessão foi a paragem da atividade económica motivada pela pandemia da Covid-19.

ERRADO

As crianças não são vulneráveis à Covid-19?

A frase:

“Não sabíamos nada sobre a doença. Agora, sabemos que os mais idosos, os que têm problemas de coração, diabetes e outros problemas, são muito, muito vulneráveis. Aprendemos muito. As crianças não são — nem os mais jovens. Aprendemos muito.”

Donald Trump

A evidência científica tem evoluído consideravelmente nos últimos meses no que diz respeito à forma como a Covid-19 afeta pessoas de diferentes idades e com diferentes condições físicas anteriores. Ainda assim, uma coisa é certa: embora, na generalidade, as crianças infetadas com a Covid-19 sofram formas mais leves da doença (a maioria são mesmo assintomáticas), não é verdade que não sejam vulneráveis à infeção, como afirmou Donald Trump.

Dados recentes da Associação Americana de Pediatria citados pela CBS davam conta de que pelo menos 624 mil crianças já tinham testado positivo para a Covid-19, só nos Estados Unidos.

Estudos recentes têm apontado, inclusivamente, para a possibilidade de as crianças terem um papel mais relevante na transmissão da doença do que inicialmente se pensava, por transportarem uma carga viral mais elevada — embora os cientistas mantenham a cautela na interpretação dos dados, uma vez que o conhecimento sobre o comportamento da doença é ainda incipiente.

Covid-19. Três crianças positivas morrem em Nova Iorque com síndrome de Kawasaki

Aliás, a Covid-19 em crianças já foi associada a uma reação inflamatória rara que ocorre maioritariamente nos mais novos e que se manifesta com sintomas semelhantes aos da doença de Kawasaki, como manchas na pele, inflamações e problemas cardíacos. Nos EUA, pelo menos três crianças morreram infetadas com a Covid-19 e com sintomas semelhantes àquela doença. Em Portugal, foi registado um caso em maio — e a preocupação com esta realidade levou o Centro Europeu de Controlo de Doenças a realizar um levantamento em vários países para avaliar o impacto da doença nas crianças mais novas.

Também neste caso, não foi a primeira vez que Donald Trump tentou usar este argumento para justificar as suas decisões. Em agosto, numa entrevista à Fox News, tinha afirmado que as crianças são “quase imunes” à Covid-19 — e a plataforma de fact-checking Politifact já tinha classificado o argumento como falso.

CONCLUSÃO

Ao contrário do que o Presidente Donald Trump afirmou no debate, não é verdade que as crianças não sejam vulneráveis à Covid-19. Embora não sejam consideradas um grupo de risco (como os idosos e os portadores de doenças crónicas), as crianças podem contrair a doença e, em alguns casos, de forma grave. As crianças também têm um papel relevante na disseminação da doença, razão pela qual tem sido uma prioridade avaliar as políticas públicas que lhes são aplicadas — designadamente, no que toca à decisão de reabrir escolas e infantários.

ERRADO

O xerife de Portland apoia Trump?

A frase:

“Portland. O xerife veio ontem e disse: ‘Apoio o Presidente Trump’. Acho que você não tem [o apoio de] nenhuma força de segurança. Nem pode dizer as palavras força de segurança, porque, se disser essas palavras, vai perder todos os seus apoiantes da esquerda radical.”

Donald Trump

A violência policial e o racismo sistémico nos Estados Unidos foram um dos principais temas do debate desta terça-feira. A dada altura, o moderador, Chris Wallace, falou dos confrontos que têm assolado a cidade de Portland, no estado do Oregon, ao longo das últimas semanas — entre grupos anti-racistas e manifestantes de extrema-direita.

Os dois candidatos debateram durante hora e meia em Cleveland, Ohio

Getty Images

O Presidente dos EUA, Donald Trump, sugeriu várias vezes mobilizar a Guarda Nacional e criticou as autoridades locais e estaduais, classificando-as de incompetentes para devolver a paz às ruas da cidade. Trump chegou mesmo a afirmar que acabaria com a violência em 30 minutos se os responsáveis locais seguissem as suas ordens.

Durante o debate, o moderador perguntou a Joe Biden se em algum momento das últimas semanas havia contactado as autoridades locais e estaduais (tanto o presidente da câmara da cidade como o governador do estado são do Partido Democrata) no sentido de os sensibilizar para a necessidade de terminar com a violência na cidade.

Foi nesta parte do debate que Donald Trump assegurou que tem o apoio do xerife — chefe da polícia — de Portland, aproveitando o argumento para atacar Biden por, supostamente, não reunir apoios nas forças de segurança.

A informação foi prontamente desmentida pelo próprio xerife. Através do Twitter, Mike Reese, o xerife da polícia do condado de Multnomah — onde se localiza a cidade de Portland —, assegurou que não apoia nem apoiará Donald Trump.

“No debate presidencial desta noite, o Presidente disse que o ‘xerife de Portland’ o apoia. Enquanto xerife do condado de Multnomah, nunca apoiei Donald Trump e nunca o irei apoiar”, escreveu Mike Reese numa mensagem publicada no Twitter.

“Donald Trump tornou o meu trabalho muito mais difícil desde que começou a falar de Portland, mas nunca achei que tentasse virar a minha mulher contra mim”, acrescentou Reese num segundo tweet.

CONCLUSÃO

De acordo com o próprio Mike Reese, é errado que o xerife da cidade de Portland tenha declarado o seu apoio ao Presidente Donald Trump.

ERRADO

O crime violento desceu com Obama e subiu com Trump?

A frase:

“O facto é que o crime violento desceu 17%, 15% na nossa administração e subiu no turno dele”

Joe Biden

O candidato democrata usou diferentes estatísticas para ilustrar o argumento de que os EUA se tornaram num país mais violento e dividido durante a Presidência de Donald Trump.

Para defender a primeira parte da afirmação, Biden recorreu a dados do FBI sobre o número de crimes violentos por 100 mil habitantes nos Estados Unidos, que entre 2008 e 2016 (o mandato de Barack Obama e Joe Biden na Casa Branca) caiu cerca de 16%.

Já para afirmar que a violência aumentou durante o mandato de Trump, Biden usa as estatísticas relativas aos primeiros sete meses de 2019, que mostram que o número de homicídios subiu 26%.

Contudo, embora os dois dados estejam certos, há um problema: Biden está a comparar métricas diferentes e períodos diferentes. Na verdade, se olharmos a taxa de homicídios no mandato de Obama e Biden, ela manteve-se nos 5,4 por 100 mil habitantes ao longo daqueles oito anos. Já o número de crimes violentos tem baixado durante a Presidência de Donald Trump.

CONCLUSÃO

Embora Joe Biden use números corretos, faz uma comparação abusiva ao colocar lado a lado métricas e períodos temporais diferentes, o que faz com que o argumento seja enganador.

ENGANADOR

Os democratas querem acabar com as vacas?

A frase:

“Eles querem acabar com as vacas.”

Donald Trump

Num dos últimos segmentos do debate, o tema foram as alterações climáticas, com o Presidente Donald Trump a ser questionado sobre os seus posicionamentos — por vezes anti-científicos — relativamente ao assunto. O tema serviu de pretexto a mais um conjunto de acusações de Trump contra os democratas, nomeadamente contra o Green New Deal — a proposta apresentada por alguns democratas, embora não subscrita por Biden, para aumentar a ambição dos Estados Unidos em termos de sustentabilidade.

Donald Trump usou diversos argumentos falsos ou enganadores durante o debate

Getty Images

Donald Trump tem usado uma série de argumentos falsos para descredibilizar a proposta, como o Politifact já apontou — incluindo, por exemplo, a ideia de que o plano pretende banir o transporte aéreo e, até, construir uma ponte entre o continente americano e o Havai. Esta terça-feira, Trump revisitou um argumento que já tinha utilizado num comício no Wisconsin: o de que o plano pretende acabar com as vacas.

De acordo com o Politifact e com o The New York Times, não existe, no plano apresentado pelos democratas (designadamente pela congressista Alexandria Ocasio-Cortez e pelo senador Edward Markey) qualquer referência a uma eliminação da produção de carne de vaca nos Estados Unidos.

O tema surgiu na sequência de um texto publicado pela congressista Ocasio-Cortez no seu blogue. Nesse artigo, a democrata afirma que o Green New Deal pretende que os Estados Unidos se livrem das emissões causadas pelas vacas — mas o artigo foi removido da internet e a equipa da congressista disse que o texto não era a versão final e que não devia ter sido publicado.

É verdade que a produção de gado, nomeadamente o gado bovino, é uma dos principais fontes de gases poluentes entre os vários setores da atividade humana. De acordo com a Associated Press, o metano emitido pelas vacas é responsável por cerca de 5,5% dos gases com efeito de estufa com origem na atividade humana.

CONCLUSÃO

É errado que, como diz Donald Trump, o Green New Deal tenha como objetivo a eliminação da produção de carne de vaca nos Estados Unidos, embora o plano inclua diversas propostas com o objetivo de tornar a agricultura e a agropecuária mais sustentáveis.

ERRADO

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