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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Fátima foi "deserto escuro" num santuário vazio, em noite de velas sem luz /premium

Pela primeira vez, a procissão das velas em Fátima foi feita num recinto às escuras. Houve velas, mas faltaram peregrinos. Irene Dantas foi uma das três a entrar, para representar a multidão ausente.

Irene Dantas organiza peregrinações a Fátima desde 2008. Todos os anos, junta um grupo de peregrinos (não mais de 45, para não se perder a intimidade e a possibilidade de um apoio personalizado) e leva-os a pé de Tires, no concelho de Cascais, até Fátima. Já tem uma rede de contactos bem oleada: o percurso demora cinco dias e os sítios das refeições, das dormidas e das orações já estão definidos. É uma das muitas guias de peregrinações que anualmente, em maio, levam milhares de peregrinos ao Santuário de Fátima, o lugar de culto mais visitado do país.

Este ano, tudo foi diferente. “Em março já tínhamos tudo organizado, mas tivemos o conhecimento de que a pandemia nos estava a assolar. Foi um misto de muita tristeza, qualquer coisa que não tem palavras para podermos explicar a nossa emoção”, conta Irene, numa conversa com o Observador no recinto do Santuário de Fátima, que este ano, de forma inédita, está vazio nos dias 12 e 13 de maio.

Irene Dantas foi uma das três a entrar, para representar a multidão ausente

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Irene é uma das poucas privilegiadas que puderam estar em Fátima nesta peregrinação. Para as celebrações simbólicas num recinto de portas fechadas, por causa da pandemia da Covid-19, os responsáveis do Santuário de Fátima convidaram três pessoas para representarem a multidão que habitualmente ali se reúne. Irene, de 73 anos, foi uma delas.

Recebeu um telefonema do padre Joaquim Ganhão, diretor do departamento de liturgia do Santuário de Fátima, que já a conhecia das vezes que organizou peregrinações. “Olhe, isso seria a maior bênção de Deus para mim, se pudesse estar”, respondeu-lhe a mulher. Na última sexta-feira, recebeu a confirmação: iria mesmo a Fátima para participar de modo simbólico nas celebrações da noite de 12 de maio.

"Em março já tínhamos tudo organizado, mas tivemos o conhecimento de que a pandemia nos estava a assolar. Foi um misto de muita tristeza, qualquer coisa que não tem palavras para podermos explicar a nossa emoção"
Irene Dantas, guia de peregrinos

O grupo de peregrinos que já estava preparado para a caminhada ficou em casa. Mas têm estado em contacto todos os dias, “através do Facebook, através do telefone”. “Tenho várias fotografias aqui no WhatsApp, eles a dizerem “não estamos aí fisicamente, mas estamos aí espiritualmente, Irene, confiamos-te a missão de apresentar os nossos pedidos e os nossos agradecimentos à Mãe”, conta.

Irene veio a Fátima juntar-se a João Coimbra, um jovem de 17 anos natural de Santarém que foi convidado para representar todos os grupos de jovens que habitualmente peregrinam até ao santuário. Estudante de ciências e tecnologias do Liceu Sá da Bandeira, em Santarém, João caminha até Fátima para o 13 de maio desde os 13 anos. A Irene e João somou-se ainda Ricardo Pereira, 35 anos, um funcionário do museu do Santuário que é também peregrino habitual e que esteve presente em representação dos peregrinos da diocese de Leiria-Fátima.

À esquerda João Coimbra, um jovem de 17 anos natural de Santarém. À direita Ricardo Pereira, de 35 anos, funcionário do museu do Santuário.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Os três foram os protagonistas de um dos principais momentos da noite de 12 de maio: foi a eles que o cardeal de Fátima, D. António Marto, lavou os pés durante a celebração à porta fechada que foi transmitida pela televisão e pela internet, recordando não só o episódio bíblico em que Jesus Cristo lava os pés aos discípulos, mas essencialmente a prática do próprio Santuário de Fátima de oferecer a possibilidade de lavagem e massagem aos pés dos peregrinos que chegam ao recinto após longas caminhadas com origem em todo o país.

“É uma grande honra ser eu. Tem um significado muito intenso. Ter o cardeal a lavar o meu pé. É o meu em representação de todos, como Jesus lavou os pés aos seus discípulos”, conta João Coimbra. “É como na chegada dos peregrinos, que tantos quilómetros fazem. Para mim, é um privilégio muito grande”, acrescenta Ricardo Pereira.

“Vamos peregrinar com o coração em vez de peregrinarmos com os pés”, afirma guia de fiéis

O mar de luz transformado em deserto escuro

Mas a participação solitária de Irene, Ricardo e João foi uma das muitas diferenças entre uma noite de 12 de maio normal e a noite excecional que se viveu em Fátima este ano. Os responsáveis do santuário já tinham dito que não queriam que a peregrinação internacional mais importante do ano deixasse de ser assinalada — com tudo o que isso implica, incluindo, naturalmente, a procissão das velas.

A pandemia da Covid-19 levou à necessidade de encerrar o recinto do santuário (pelo meio houve polémicas, comparações com a CGTP e o 1.º de Maio e exigências agressivas dentro da própria Igreja, mas o cardeal de Fátima manteve a sua posição de evitar a todo o custo a possibilidade de contágio). Por isso, a grande diferença foi mesmo o manto humano que, desta vez, não encheu o Santuário de Fátima.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

À hora de almoço desta terça-feira, a GNR e os vigilantes do santuário fecharam os acessos ao recinto de oração de Fátima. Durante 24 horas, ninguém além das poucas pessoas autorizadas poderá entrar no espaço. De fora, ficaram dezenas de pessoas que ainda se deslocaram à cidade de Fátima para manifestar a sua intenção de estar presentes na peregrinação — muitos ficaram mesmo à porta; dois tentaram furar as barreiras quando a celebração se preparava para começar e acabaram identificados e à guarda da GNR.

Segundo explicou à imprensa o próprio santuário, em causa estava um homem — que já havia tentado entrar no recinto durante a tarde e que fora impedido pelos vigilantes do santuário — que furou as barreiras e correu, com um quadro com a imagem de Nossa Senhora nas mãos, para a capelinha das Aparições. Com a confusão que se gerou, uma outra mulher aproveitou para também entrar no recinto. Os dois foram retirados e identificados pela GNR a poucos minutos do início das celebrações.

dezenas de pessoas que ainda se deslocaram à cidade de Fátima para manifestar a sua intenção de estar presentes na peregrinação — muitos ficaram mesmo à porta

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Durante as celebrações da noite, algumas dezenas de pessoas que não puderam entrar no recinto do santuário ajoelharam-se junto aos portões e gradeamentos, com velas acesas, e acompanharam toda a celebração à distância.

No interior do santuário, vários funcionários passaram a tarde de terça-feira a dispor milhares de pequenas velas por todo o recinto, que permitiram recriar parte da atmosfera da procissão. Quando os sinos assinalaram as 21h30, ouviu-se o potente órgão do santuário, acompanhado de um tímido coro (o número de cantores também foi reduzido) a dar início à celebração do terço — que, não fosse a falta de resposta em uníssono de milhares de peregrinos, seguiu todos os ritos das celebrações tradicionais.

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Dali, formou-se uma pequena procissão de velas: em vez da multidão habitual, um grupo de 21 funcionários do santuário transportou 21 velas — uma por cada diocese do país. A multidão de padres e bispos ficou reduzida a quatro bispos (o cardeal de Fátima e os três metropolitas portugueses — Lisboa, Braga e Évora) e ao pequeno conjunto dos capelães mais jovens de Fátima.

A falta de uma multidão levou até à redução do percurso da procissão, que em vez de dar a volta ao recinto se limitou a seguir diretamente da capelinha das Aparições para o altar. Ali, o cardeal D. António Marto falou para os peregrinos “no coração” — como lhes chamou o santuário no processo de preparação desta peregrinação — que ficaram em casa, com uma vela acesa na janela.

O cardeal D. António Marto

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Sim, estais aqui todos os que nos seguis pelos mais diversos meios de comunicação com a luz e o calor acesos da fé que enche os vossos corações”, disse o cardeal, lembrando a noite “simbólica” e inédita que em Fátima se viveu — uma noite “tão diferente daquelas noites inigualáveis de 12 de maio — autênticos mares de luz — e que hoje mais parece um deserto escuro”.

“Quando no dia 5 de abril anunciei com o coração em lágrimas a realização desta peregrinação sem a presença física da multidão de peregrinos, acrescentei: mesmo estando em nossas casas viveremos este momento em espírito de peregrinação. O recinto do santuário estará vazio, mas não deserto. Ainda que separados fisicamente, estaremos todos aqui espiritualmente unidos como Igreja com Maria, de modo intenso, com o coração cheio de fé”, acrescentou o cardeal.

"O recinto do santuário estará vazio, mas não deserto. Ainda que separados fisicamente, estaremos todos aqui espiritualmente unidos como Igreja com Maria, de modo intenso, com o coração cheio de fé"
D. António Marto, cardeal de Fátima

A celebração acabaria cedo, pelas 23h, longe daquelas longas missas que terminam já depois da meia-noite e que antecedem extensas vigílias de oração no recinto que nunca se esvazia verdadeiramente. À saída, eram muitos os peregrinos que continuavam em oração aos portões do santuário. Muitos vieram de longe para estarem presentes no momento central de Fátima e nem o encerramento do santuário os demoveu — até porque o cardeal já havia anunciado que os portões só estariam fechados nestas 24 horas. Na quarta-feira à tarde, poderão voltar a entrar.

Depois da homenagem aos peregrinos que não puderem estar em Fátima, o santuário vai dedicar o dia 13 de maio à homenagem aos profissionais de saúde, aos cuidadores e às forças de segurança: na pequena assembleia que irá estar presente na missa da manhã, estará um grupo de bombeiros, médicos, enfermeiros e profissionais de um lar de idosos, para que a Igreja Católica renda uma homenagem a quem está na linha da frente do combate à Covid-19.

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