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George Monbiot tem um plano para alimentar o planeta: "Temos de explorar o reino natural dos micróbios"

No livro “Regenesis”, o jornalista e ativista britânico defende que podemos estar na iminência de uma crise alimentar global e explica como podemos combatê-la. Entrevistámos o autor.

Ao fim de seis décadas de vida, George Monbiot ainda não se cansou de dar a voz pelo ativismo ambiental. Analisando o seu percurso, não surpreende: trata-se de um homem que trocou o curso de Zoologia pelo jornalismo, que foi espancado quando estava a investigar tráfico de madeira ilegal da Amazónia, no estado do Maranhão, e que quase morreu de malária cerebral no decurso de uma reportagem no Quénia.

Além da coluna no The Guardian que mantém desde 1996 e de alguns artigos longos que vai assinando para o mesmo jornal britânico, Monbiot dedica-se a escrever livros: uns detalham alguns dos maiores problemas ambientais do nosso tempo e como (tentar) resolvê-los, outros são concebidos a partir de uma posição assumidamente à esquerda e desafiam o atual sistema político. Em Feral, por exemplo, defende a reflorestação e reintrodução de ecossistemas; já com Out of the Wreckage, critica o que diz ser uma “ideologia tóxica que governa o mundo” de “competição e individualismo” e propõe modelos de cooperação.

Quer num caso, quer noutro, está patente um espírito combativo que não desarma, mesmo perante o desespero. E mesmo que não se concorde com as suas ideias, Monbiot colhe admiração dos diversos quadrantes do espectro político pela profundidade com que se dedica aos temas — aliás, foi o que o levou a vencer o Prémio Orwell na categoria de Jornalismo em 2022.

A prova da sua tenacidade é que o seu mais recente livro Regenesis — Alimentar o mundo sem devorar o planeta — recentemente editado em Portugal pela Editorial Presença — é um dos mais ambiciosos que já escreveu. Monbiot atirou-se a centenas de estudos que apontam para a precariedade do sistema alimentar do mundo para chegar a uma conclusão: estamos perto do abismo no que toca ao que comemos e nada estamos a fazer para impedir de cair.

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Ao Observador, o jornalista e ativista falou sobre algumas das teses centrais de Regenesis, criticou o que apelida serem “ideias românticas” como o “comer local” e a carne de pasto e explicou porque é que o futuro passa por comer micróbios produzidos em laboratório — saibam eles a panquecas ou a salsichas.

A capa da edição portuguesa de "Regenesis — Alimentar o mundo sem devorar o planeta", de George Monbiot (edição: Presença)

Uma das ideias centrais que apresenta no livro é de que o maior perigo para o sistema de alimentação global é o próprio sistema. De que forma?
O sistema de alimentação global, tal como o sistema financeiro internacional ou qualquer outro ecossistema, é um sistema complexo. Isso significa que se auto-organiza de forma espontânea como resultado da junção de milhares de milhões de interações aleatórias. Ou seja, há um nível de organização no setor da alimentação que ninguém planeou ou criou deliberadamente. A questão é que, como todos os sistemas complexos, tem tipping points, pontos de viragem. Dentro de um limite de stress, mantém-se equilibrado, estabiliza-se e auto-regula-se. Mas se o empurrarmos para fora desse limiar, começa a amplificar os choques que recebe, sendo que chega a um ponto de viragem e colapsa num diferente estado de equilíbrio.

Começou por comparar este sistema ao financeiro, algo que também faz no livro ao descrever a resposta à crise financeira de 2008. Porquê?
Porque esse colapso quase aconteceu em 2008, mas foi evitado no último momento através de um resgate global massivo que consistiu em biliões de dólares. A questão é que o sistema alimentar está possivelmente numa situação ainda pior do que aquela que o financeiro atravessava alguns anos antes da crise. Existe uma concentração extrema do poder corporativo. Por exemplo, quatro empresas controlam 90% do comércio mundial de cereais. [O sistema alimentar] perdeu a sua diversidade, tornou-se muito mais homogéneo nas últimas décadas, e perdeu também muita da sua redundância, da sua margem de manobra.

Em que sentido?
Perdeu resiliência ao tornar-se estandardizado por todo o mundo. Vemos que as pessoas a nível global têm dietas muito semelhantes e que são sempre as mesmas empresas a proporcioná-las. São sempre as mesmas cabeças de carris, o mesmo tamanho de contentores, os mesmos navios cargueiros, as mesmas regulações a nível mundial. Tudo isto, diga-se, faz total sentido de um ponto de vista corporativo.

Porque beneficia a produtividade?
Sim, torna o comércio mais fácil e rápido. E, até certo ponto, salvaguarda o sistema alimentar, porque assim podemos obter comida de qualquer parte do mundo. Se as nossas colheitas falharem, estaremos menos sujeitos a passar fome. No entanto, também tornam-no menos seguro porque têm-no levado para esse ponto de viragem. Há cerca de 10 anos que os relatórios científicos alertam para esse destino, mas os avisos não penetraram a atenção pública, não chegam aos media nem à política. É como se os cientistas estivessem a gritar atrás de uma montra e a bater com as mãos contra o vidro mas não os ouvimos. É muito assustador, porque o sistema financeiro foi salvo a horas de cair com os governos a criar dinheiro do futuro através de flexibilização quantitativa. Mas não se pode salvar o sistema alimentar ao criar comida do futuro.

Uma das críticas que faz em Regenesis é justamente essa inação e insuficiência perante uma eventual crise alimentar. Como se o resgate de 2008 tivesse acontecido com os governos a dispensar trocos para salvar os bancos.
A escala da resposta — muito, muito pequena — está completamente desproporcionada à escala do problema, que é massivo. E além da instabilidade estrutural do sistema alimentar, existe todo um conjunto de fatores externos a incidir sobre ele. Além de pressões geopolíticas — a invasão da Rússia à Ucrânia foi uma delas, a pandemia foi outra —, há os choques ambientais cada vez mais frequentes e que podem afetar mais do que uma das zonas de produção alimentar mundial ao mesmo tempo. Temos então estas circunstâncias em que o ponto de viragem pode ser possível porque temos um sistema enfraquecido e todos estes abanões a ocorrer.

"A única coisa pior do que pecuária intensiva é a pecuária extensiva, porque esta, por definição, obriga a usar mais terreno para produzir o mesmo volume de comida. Cada hectare que dispensamos para propósitos de extração é um hectare que não pode ser usado para apoiar ecossistemas naturais."

Um dos exemplos que dá é que se houver uma quebra extrema num país produtor de soja, isso é gerível, mas se forem dois em simultâneo, tal pode desencadear uma reação em cadeia com consequências imprevisíveis. Quais são as probabilidades?
Temos de nos recordar, por exemplo, que a crise financeira internacional foi espoletada por algo muito pequeno no que toca à escala das trocas a nível global. Foi a crise do subprime nos EUA, que funcionou como o bater de asas de uma borboleta que dá origem ao furacão, o empurrão certo na altura certa para precipitar o sistema para o abismo. No caso da alimentação, pode ocorrer esse exemplo de um falhanço simultâneo de produção, mas também pode ser um problema nos transportes. Lembremo-nos: em 2021 o Canal do Suez foi bloqueado pelo navio Ever Given que ficou lá atravessado; já em 2022, os estreitos na Turquia foram fechados devido à invasão da Ucrânia. Se estas duas coisas tivessem ocorrido em simultâneo, teria sido suficiente para desencadear uma crise global. Teríamos certamente centenas de milhares de pessoas a ficar subitamente sem comida e as prateleiras teriam ficado vazias.

Uma das causas que afirma estar a criar essa situação é a quantidade imensa de terreno que dedicamos à agricultura. Aponta que estamos a atingir um limite do que é possível produzir no planeta. O que causou isto e que consequências poderão ocorrer?
Existem duas tendências muito alarmantes, ambas a conduzirem-nos na direção errada. Uma é que em várias partes do mundo já estamos a atingir o limite da produtividade. É a chamada lei dos rendimentos decrescentes: à medida que melhoramos a eficiência das colheitas que plantamos, chegamos a um ponto em que não é possível fazê-la subir ainda mais. Quanto mais perto chegamos a esse ponto, mais esforço fazemos para obter menos retorno. É o que acontece quando se usa fertilizante continuamente: a dada altura, os benefícios já não fazem nada nem aumentam a produtividade. Estamos a chegar a um plateau com as nossas colheitas.

Para simplificar, é como tomar antibióticos a um ponto em que deixam de fazer efeito, certo?
Sim, e isso também está a acontecer, na pecuária! Estamos a empurrar os animais para os limites da sua eficiência. Olhemos para as galinhas modernas, já ultrapassaram esses limiares. Muitas não conseguem suportar o próprio peso e caem para a frente porque os seus peitos ficaram tão pesados que as pernas já não os aguentam. Puxámos e puxámos pelos limites até um ponto do qual não é possível extrair mais. Ao mesmo tempo, expandimos a produção agrícola por vastas quantidades de território. Curiosamente, não foi para aumentar a produtividade, isso tem acontecido ao melhorar as colheitas sempre nos mesmos terrenos — graças a Deus, porque de outra forma já teríamos acabado com o planeta. Ao invés, foi devido à mudança a nível mundial para o consumo de produtos animais. E essa é, provavelmente, uma das coisas mais perigosas que a humanidade já fez, já que um dos maiores problemas que enfrentamos é o aumento do consumo de gado. Diria que é a principal crise ambiental do planeta, mas não só é raramente discutido como tem sido deliberadamente afastado das cimeiras climáticas da COP. É devido à agricultura pecuária que a produção alimentar é a principal causa de destruição de habitats, de perda de vida selvagem, de extinção de espécies, de esgotamento dos solos, de utilização de água doce, de uso de terrenos e de poluição da água e do ar. E é ao mesmo tempo o setor que mais cresce devido à procura crescente a nível global por produtos animais — tem impactos devastadores, porque além da poluição, obriga a uma necessidade desmesurada de colheitas.

Face a isso, algumas pessoas defendem que a solução passa por ter dietas mais sustentáveis, mudar para agricultura orgânica ou alterar a criação de gado para pastoreio extensivo em vez de intensivo. No entanto, afirma que estas não só não são soluções, como podem piorar as coisas. Porquê?
A única coisa pior do que pecuária intensiva é a pecuária extensiva, porque esta, por definição, obriga a usar mais terreno para produzir o mesmo volume de comida. Cada hectare que dispensamos para propósitos de extração é um hectare que não pode ser usado para apoiar ecossistemas naturais. Ora, a maioria das espécies depende destes para a sua sobrevivência. Ou seja, esta moda da carne alimentada a pasto é a pior coisa que podemos fazer, é ainda mais danosa: tem muito pouca produtividade e exige muito terreno para tal. Tem havido uma fetichização desta carne por parte de chefs famosos e escritores da alimentação, mas se já não conseguimos acompanhar a procura por produtos animais neste momento, quanto mais assim.

"Já esgotámos o potencial das plantas e dos animais ao longo de 12 mil anos, mas mal começámos a explorar outros reinos naturais, como os micróbios"

Refere no livro que 40% da população mundial depende de alimentos de outros países.
Essa é outra das falsas soluções, o localismo, a ideia de que a resposta é comer produtos locais. No entanto, os quilómetros que a comida faz são uma componente muito baixa para a pegada total do que comemos. Já fiz as contas: é possível enviar um quilo de feijões secos a dar a volta ao mundo 100 vezes e mesmo assim isso causa menos emissões de gases que contribuem para o efeito de estufa do que um quilo de carne de vaca criado na vizinhança. Além disso, muitas pessoas não podem recorrer à comida local porque não há terreno fértil suficiente para alimentar a concentração de população onde vivem. Saiu um artigo na revista Nature Food que demonstra como a distância mínima em média para alimentar a população mundial é de 2200 quilómetros. Ideias como essa são de um romantismo que nos afasta da resolução dos problemas. São coisas que as pessoas apoiam porque gostam de como soam e parecem, achamo-las boas porque são antiquadas. Acho que enquanto sociedade somos muito neofóbicos, temos medo do novo e preferimos o antigo, mesmo que nem um nem outro sejam necessariamente bons ou maus. No entanto, é assim que o debate na alimentação tem sido conduzido, as pessoas querem as imagens e as histórias bucólicas e confortáveis, mas não olham para os números. Não querem perceber o que é necessário para alimentar oito mil milhões de pessoas, não só agora como daqui a 100 anos.

Uma das ideias mais arrojadas que propõe para alimentar todas essas pessoas é passarmos as nossas fontes alimentares da agricultura para a fermentação. O que é que isso significa?
Antes de mais, precisamos de reduzir o consumo de animais, mas sei que as pessoas não estão preparadas para seguir a minha dieta. Como muito feijão, tofu e vegetais. Cozinho muito e sou um vegan feliz porque gosto disso, mas esta alimentação requer mais esforço e tempo para ser bem feita. A maior parte das pessoas não está para isso, mesmo que tenham a vontade e o talento, não têm o tempo. Por isso, estar a dizer que deviam alimentar-se como eu não vai funcionar. Precisamos de melhores substitutos para os produtos animais e as plantas não são um bom ponto de partida porque têm um perfil proteico diferente, menos concentrado, e têm muitos componentes secundários que usam para se defender e que têm um travo forte. É por isso que são agradáveis de comer, têm sabores interessantes. Mas se forem usadas para substituir produtos animais, esses sabores vão interferir. Por isso é que a maior parte dos substitutos que temos hoje, à base de plantas, não são muito bons — aliás, muitos são particularmente maus, como os hambúrgueres e as salsichas vegan. São altamente processados, têm muito sal, não são saudáveis nem sabem bem e têm texturas erradas. Só veremos uma transição se tivermos substitutos melhores e mais baratos, porque muitos destes produtos são mais caros do que aquilo a que querem ser alternativa. Ora, já esgotámos o potencial das plantas e dos animais ao longo de 12 mil anos. Temos de explorar outro reino natural: o dos micróbios. É um terreno vasto, há milhões e milhões deles, sendo que muitos são altamente nutritivos.

Sendo que, como menciona, em vários casos já fazem parte da nossa alimentação quotidiana. O que muda então?
Temos comido micróbios desde que iniciámos a nossa evolução porque a nossa comida está cheia deles. Não só cada prato está coberto de micróbios, como nós introduzimos certas espécies deliberadamente em alguns alimentos: bactérias no iogurte e no queijo, leveduras na cerveja e no pão, e depois há coisas como kimchi e sauerkraut e outras comidas fermentadas. Mas o que não fizemos ainda foi focar-nos nos micróbios para serem eles a nossa fonte de alimentação, sendo que alguns deles são altamente propícios a isso. Por exemplo, visitei recentemente um laboratório em Amesterdão onde estão a trabalhar com bactérias cor de rosa que sabem e cheiram exatamente a salsichas. Para transformá-las nisso, é necessário processá-las bem menos do que acontece com as salsichas à base de porco. Estas bactérias podem facilmente ser testadas para controlo alimentar — e têm de o ser, tudo tem de ser corretamente regulado — e, além disso, reforço que são altamente nutritivas. Algumas delas são compostas entre 60 e 70% de proteínas.

"Algo que as pessoas que defendem a agroecologia ou a agricultura regenerativa às vezes omitem: falam sobre reduzir a pegada ambiental, mas não sobre sustentar a produtividade, porque se esta segunda não acontecer, as pessoas vão morrer à fome."

Que impacto é que esta mudança para comida fermentada teria?
Uma das principais é que podemos relocalizar a comida. Aliás, é a única forma de o fazer, porque não depende de terrenos férteis, do clima ou de água. Podemos produzir estes alimentos em qualquer sítio, desde que tenhamos uma fonte de energia — e repara que as zonas mais famintas do globo são das que têm mais incidência solar, o que permite a produção de hidrogénio e metanol sem necessidade de importação. Tudo isso leva-nos à redução da dependência alimentar das nações mais vulneráveis do planeta e permite-nos começar a desligar este sistema tão perigosamente hiperconectado.

Um dos problemas, porém, relacionados com este tipo de soluções é que quem as propõe acaba muitas vezes a falar apenas para os convertidos. Não é um exagero considerar que muitas pessoas vão achar esta comida microbial, no mínimo, indesejável. Como se lida com isso?
Todas estas coisas são culturalmente mediadas. Se eu chegasse ao início da história humana e dissesse que devíamos comer animais como comemos, as pessoas ficariam horrorizadas. “Vamos pegar nestes mamíferos, juntá-los e alterar radicalmente as suas características, vamos castrá-los, cortar-lhes os cornos e os dentes, enchê-los de comida e depois levá-los para uma fábrica chamada ‘matadouro’ onde os atordoamos, cortamos as suas gargantas e cortamos a sua carne em bocados.” As pessoas ficariam absolutamente enjoadas com isso, e com razão. Ao invés, o que estou a propor é algo que é muito mais limpo, não envolve crueldade, não afeta nenhum ecossistema e produz comida muito mais confiável do que a pecuária e sem o risco de espalhar doenças. É muito menos nojento, mas é uma questão de medir as expectativas das pessoas.

Correndo o risco de ser abusivo, o que diz é que a nossa alimentação até tem de se tornar mais industrializada, apenas não da forma como o encaramos atualmente.
As pessoas dizem “eu não quero comida que vem de uma fábrica”, mas quase tudo o que comemos passou, pelo menos, por uma fábrica antes de chegar até nós. Mesmo algumas coisas que compramos nos mercados de produtores passaram por um processo assim, mesmo que seja uma instalação mais pequena. E a verdade é que odiaríamos ver como é que a maior parte da comida que consumimos passou por fábricas, nós viramos costas deliberadamente. Seja em Portugal ou no Reino Unido, a maioria dos produtos animais está em fábricas desde o início da cadeia de produção: crescem em condições horrorosas, depois vão para matadouros e as suas carcaças vão para unidades de embalagens, sendo que depois disso ficam em armazéns até chegarem às lojas. Temos de parar de ser infantis e reconhecer que a nossa comida é industrializada. Do que precisamos então? De melhores fábricas, que produzam micróbios em vez de animais.

O que isto acaba por significar é a substituição dos terrenos agrícolas por zonas renaturalizadas. No entanto, não defende o fim da agricultura e propõe algumas soluções. Quais são?
Temos de continuar a produzir cereais, fruta e vegetais. Aliás, devíamos comer mais fruta e vegetais, mas temos de encontrar formas de reduzir o seu impacto ambiental sem diminuir as colheitas. Isto é algo que as pessoas que defendem a agroecologia ou a agricultura regenerativa às vezes omitem: falam sobre reduzir a pegada ambiental, mas não sobre sustentar a produtividade, porque se esta segunda não acontecer, as pessoas vão morrer à fome. É cada vez mais frequente ver que nos querem levar para uma época em que produzíamos bem menos comida que hoje. Quando nasci, em 1963, viviam 3,2 mil milhões de pessoas no planeta e havia muito mais fome do que hoje, 60 anos depois, com 8,1 mil milhões de habitantes. É algo extraordinário — obrigou a um custo elevado, mas temos de reconhecer que é espantoso, especialmente quando as previsões eram catastróficas, ia haver fome sem precedentes. Só que tal não aconteceu porque as colheitas dispararam: entre 1961 e 2014, a população humana cresceu 134% enquanto que a produtividade das culturas de cereais subiu 280%. Foi muito além do crescimento da população, o que explica em parte porque é que a fome baixou massivamente a nível global.

Temos de manter as colheitas elevadas e por isso temos de procurar sistemas que têm baixo impacto e alta produtividade. Não há muitos ainda, mas já temos bons exemplos. Falo sobre o caso de Iain Tolhurst no livro e a sua abordagem notável, que podemos apelidar como “Agroecologia de Grandes Colheitas”. É um bom ponto de partida, mas para lá chegar temos de conhecer muito melhor o nosso solo. Não podemos continuar a enchê-lo de químicos, porque a dada altura deixa de funcionar e só criamos mais problemas ambientais. Estamos a colapsar a estrutura do solo porque quando mais nitratos despejamos, mais as bactérias eliminam o carbono que lá está e que é o seu cimento: quando desaparece, vai tudo atrás. Se atingimos esta grande produtividade ao longo de 60 anos através da química dos solos, agora precisamos de mantê-la com biologia do solo, perceber como mudá-la gentilmente para obter melhores colheitas com menos interferência.

"Temos de continuar a produzir cereais, fruta e vegetais. Aliás, devíamos comer mais fruta e vegetais, mas temos de encontrar formas de reduzir o seu impacto ambiental sem diminuir as colheitas"

O livro começa desde logo com uma espécie de constatação de que não compreendemos nada sobre o solo do qual dependemos para sobreviver. Qual é a dimensão do problema?
Não sabemos do que se trata, pura e simplesmente. Tem propriedades que o tornam diferente de qualquer outro sistema na Terra, comporta-se de uma forma completamente peculiar devido às suas propriedades materiais, químicas, estruturais e biológicas. Foi publicado um artigo em 2020 que sugere que o solo responde alterações de forma coletiva, como se fosse um superorganismo. Mas é apenas uma hipótese. Quando publicaram estes resultados, os autores disseram “achamos que já sabemos do que é que o solo se trata”. Dois anos depois, encontrei-me com eles e perguntei-lhes como estava a investigação nesse momento e a resposta foi “perante novos dados de pesquisa, podemos afirmar que não fazemos porra de ideia do que se trata o solo!” Além da complexidade, o problema é que os orçamentos para estudar o solo são mínimos, mesmo sendo este responsável por produzir 99% das calorias que consumimos. A nossa sobrevivência depende totalmente dele e, no entanto, tratamo-lo como mera terra. Além disso, é difícil de estudar, é escuro e muito do seu funcionamento depende de como está estruturado, ou seja, quando se cava um buraco destrói-se essa estrutura. Por um lado, é inerentemente complicado de investigar; por outro, o interesse tem sido nulo. Não há institutos de ecologia do solo neste planeta nem um tratado global do solo. São omissões extraordinárias e o tema nunca foi visto como algo glamouroso ou sexy que um político vá colocar no seu manifesto.

Frisa ao longo do livro que todas estas soluções são altamente complexas e dependem de muitos fatores, desde vontade política até mais desenvolvimentos tecnológicos. Tudo isto requer tempo, o que é algo de que não dispomos. Como é que esta mudança é fazível?
Precisamos de um programa super acelerado. Os governos têm-nos dito que não podem fazer mais. “Somos inúteis, não podemos fazer mais. Do que estão à espera que façamos, governar?”, dizem-nos. Mas no entanto, quando querem mudar as coisas, conseguem fazê-lo rápida e eficientemente. O exemplo clássico foi o que aconteceu quando os EUA entraram na II Guerra Mundial com uma mobilização incrivelmente rápida da sua população e transformação total da sua economia. Foi gasto mais dinheiro federal entre 1942 e 1945 do que entre 1789 e 1941. Tudo foi alterado e fizeram aquilo que parecera impossível, até mesmo o Roosevelt considerou um milagre o que conseguiram. Mas não foi, tratou-se apenas de bom planeamento e capacidade de decisão. É disso que precisamos hoje em todos os aspetos desta crise ambiental. Claro que conseguimos fazê-lo, só falta a vontade política.

Vou recorrer a uma citação de um artigo seu, em que reconhece que “a comida tem a capacidade extraordinária de tornar reacionárias até as pessoas mais progressivas. Pessoas que aceitariam um sem-número de mudanças políticas e sociais respondem com fúria se lhes propuserem mudar as dietas”. Como é que milhões podem ser convencidos a mudar os hábitos alimentares, especialmente aqueles de países em desenvolvimento que só agora começaram a colher os frutos da globalização?
Estamos sempre a tentar convencer-nos de que somos altamente conservadores quanto à comida que consumimos. Mas quando perguntamos às pessoas “qual é a tua dieta tradicional?”, elas listam coisas que só comeram no Natal passado ou assim. Quase nunca comem o que afirmam ser a sua dieta, já que todos nós mudámos radicalmente o que comemos. Podemos dizer “mas eu sou desta parte de Portugal”, ou “eu moro em Itália”. Não interessa. Tu comes o mesmo que toda a gente do teu escalão de rendimentos na Terra come. Mudámos para uma dieta global estandardizada, o que é muito perigoso no que toca à estabilidade do sistema devido à perda de diversidade. A nossa comida tornou-se localmente mais diversa, mas globalmente mais homogénea. Houve uma alteração fundamental desde os tempos da minha avó, sendo que aquilo que comemos hoje seria irreconhecível para ela. Não consideraria comida quase nada do que como, mas no entanto a minha dieta é melhor, mais saudável e tem um menor impacto ambiental que a dela teve. Estamos sempre a mudar e temos de reconhecê-lo, não estamos tão presos quanto imaginamos — o que é muito bom.

"As ações radicais são muito importantes. Quando olhamos para campanhas bem sucedidas do passado — sejam de movimentos de independência, anti-apartheid, direitos civis, direito de voto para as mulheres, direitos LGBT —, todas elas foram extremamente radicais e disruptivas. Esse é um aspeto muito importante do ativismo."

Ações como a que propõe enfrentam oposição política, económica e ideológica. Refere, por exemplo, como alguns dos maiores atores não só não estão prontos para a mudança, como a têm combatido. Como é que este fosso pode ser ultrapassado?
É o mesmo que se passa como todos os outros aspetos da nossa crise ambiental, no combate à indústria dos combustíveis fósseis e tudo mais. Temos indústrias bem estabelecidas com grandes investimentos e lucros gigantes que podem ser em parte canalizados para lobbying político para contrariar a mudança. A maior ameaça à democracia é o poder do dinheiro na política e todos aqueles que acreditam nela deviam lutar contra isso e garantir que a vontade e a voz das pessoas é mais poderosa. Esse é o grande desafio, não há uma fórmula mágica nem soluções rápidas, apenas um enorme reavivar do interesse e da atividade democrática.

Quanto a isso, o ativismo ambiental já existe há décadas, mas está a tornar-se mais notório e, dirão alguns, mais disruptivo. Acredita que estamos a chegar a um ponto de rutura?
Espero que sim, que estejamos a entrar num ponto de viragem. Voltando ao início da conversa, a sociedade é outro sistema complexo que também tem pontos de viragem. E agora sabemos quando é que estes acontecem, é quando 25% das pessoas se dedicam a uma nova ideia ou programa político. Quando isso ocorre, o que antes parecia impossível torna-se inevitável. E já vimos isto acontecer em muitos momentos da história. Na mudança de atitudes quanto à homossexualidade, ao nascimento ilegítimo, aos direitos das mulheres, a fumar, a lista continua. Tudo coisas que pareciam não poderem mudar até que, boom, mudam. E depois olhamos para trás e pensamos “qualquer que mudaram, como não?”

No entanto, existe um número significativo de pessoas, até à esquerda, que consideram as atuais táticas empregadas pelos ativistas como contraproducentes ou até repelentes para o público. Se não for através de ações radicais, o que é que o comum cidadão pode fazer?
Acho que, na verdade, as ações radicais são muito importantes. Quando olhamos para campanhas bem sucedidas do passado — sejam de movimentos de independência, anti-apartheid, direitos civis, direito de voto para as mulheres, direitos LGBT —, todas elas foram extremamente radicais e disruptivas. Esse é um aspeto muito importante do ativismo. No entanto, há muitas outras coisas que temos de fazer — por cada pessoa que vai para a rua, precisamos de 100 a trabalhar na mesma campanha, mas de formas completamente diferentes, agregando diversas ferramentas para a mesma causa.. Todo o ativismo é um ecossistema.

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