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"Governo de Costa está a governar com base nas decisões de Passos Coelho" /premium

Weber está na corrida para ser o candidato do PPE a presidente da Comissão Europeia. Em entrevista ao Observador, em Lisboa, desvalorizou feitos de Costa, elogiou Passos e disse respeitar Centeno.

O alemão Manfred Weber diz que é um homem com raízes, do povo, e que se sente melhor na Baviera do que junto ao centro de poder, em Bruxelas. Mas é lá que tem feito a sua carreira política nos últimos 14 anos, tendo sido eleito pela primeira vez eurodeputado em 2004. Há mais de quatro anos que é o líder da bancada do Partido Popular Europeu (PPE), a maior do hemiciclo. Agora, Weber é candidato a candidato do PPE (no jargão europeu, Spitzenkandidat) e quer ser próximo presidente da Comissão Europeia. Por isso, veio a Portugal encontrar-se com Rui Rio e Assunção Cristas para lhes pedir o apoio para a sua candidatura, depois de já ter colecionado apoios importantes, como o de Angela Merkel.

Se o PPE continuasse a ser a principal força política no Parlamento e Weber ganhasse a eleição, que ocorre no próximo Congresso do PPE, em Helsínquia, a probabilidade de ser o próximo presidente da Comissão Europeia era maior (foi, aliás, o que aconteceu com Jean-Claude Juncker). O PPE é da família política de PSD e CDS, por isso cada voto dos portugueses nestas forças nas próximas europeias é um voto em Weber ou em Alexander Stubb, o outro candidato a candidato a candidato do PPE em Helsínquia.

[Veja o vídeo com os pontos-chave da entrevista:]

Foi neste contexto que Manfred Weber concedeu uma entrevista ao Observador em Lisboa, onde garante já ter vindo várias vezes e onde promete voltar se for eleito. A entrevista foi em Belém. Lá perto, mora um modelo de político que parece querer seguir. Próximo dos eleitores, dos afetos. Para Weber, o presidente da Comissão Europeia deve ser próximo das pessoas, e deve ir, por exemplo, aos locais dos incêndios, após uma tragédia, para falar com as pessoas.

O partido de Weber, a CSU, é o partido irmão da CDU de Merkel na Baviera. Diz que, por ser, da Baviera está mais próximo de Milão do que de Berlim. Mas, em 2016, defendeu numa carta enviada a Juncker que a comissão não devia deixar de pressionar os países incumpridores com sanções. Agora, explica que o fez por uma questão de contexto. Diz que respeita Mário Centeno, mas não diz se o queria como vice-presidente da sua comissão. Diz ainda que o atual sucesso de Portugal não se deve “tanto” ao trabalho do Governo de António Costa, mas a decisões tomadas pelo Governo de Passos Coelho. Diz ainda que o défice atingido por Centeno é bom, mas o crescimento é fraco.

Um dos maiores problemas com o qual vai ter de lidar se for nomeado presidente da Comissão europeia é o Brexit. Está optimista quanto à existência de um acordo entre o Reino Unido e a União Europeia?
Não diria que estou otimista, porque o que vemos em Londres é uma situação política caótica. Theresa May não consegue garantir uma maioria na Casa dos Comuns para que haja acordo bem sucedido [com a União Europeia]. O desfecho mais previsível é que a Europa fique unida numa só posição porque os 27 estados-membros sabem exatamente o que querem e Londres continue com uma posição confusa. A minha mensagem principal é que a Europa olhe para o Brexit e perceba que deve ficar junta, caso contrário cada um dos Estados-membros irá criar muitos problemas.

Quais são as consequências para a Europa se não houver um acordo para o Brexit com o Reino Unido?
Danos enormes. Danos económicos, em primeiro lugar, e depois danos para os cidadãos. Não se esqueçam que há 3 milhões de cidadãos da União Europeia a viver no Reino Unido. Para nós, no Parlamento Europeu, a prioridade é criar certeza para estas pessoas, para as suas famílias, para os seus filhos: podem ficar lá? têm o direito de ficar lá? Temos de criar estabilidade, primeiro. Depois, o que também está no topo das prioridades é a fronteira com a Irlanda do Norte. Sempre foi uma fronteira de muitos conflitos, de muita violência, as pessoas estão com medo de que essa violência possa voltar. Tendo isto em mente, temos de fazer tudo o que pudermos para evitar uma “hard border“. Há dois pontos principais: garantir os direitos dos cidadãos europeus [que vivem no Reino Unido] e a questão da “hard border“. E devo dizer que estou muito desapontado com o facto de estarmos a falar outra vez de criar fronteiras na União Europeia. Há situações dramáticas por detrás disso. Por isso, o meu apelo é para não seguirmos fenómenos populistas e nacionalistas, eles levam-nos para uma direção diferente daquela em que vamos querer viver no futuro.

É pior para o Reino Unido ou para a União Europeia, um não-acordo?
É mau para os dois lados. Mas a União Europeia tem 440 milhões de habitantes, somos fortes, e o Brexit mostra que continuamos unidos em muitos sentidos. Haverá danos nos dois lados, mas o Reino vai sofrer muito.

"Na crise do Euro, provavelmente não nos preocupámos muito com os aspetos sociais, com o impacto na sociedade, especialmente nas gerações mais jovens. Isso provavelmente levou ao sucesso dos fenómenos populistas, por exemplo em Itália."

Falou em fenómenos populistas, o governo de Itália está sob um forte escrutínio, acha que podemos estar perante um Italexit? É uma possibilidade no futuro?
Depois do Brexit tudo pode acontecer, por isso é que o meu aviso é para as pessoas levarem as eleições a sério, incluindo as eleições Europeias. Levem a sério, não deem vantagem aos extremistas. Há governos que estão no poder na Europa que  nos questionam, mas temos de os respeitar. Eles foram eleitos. É por isso que cada vez que há eleições temos de falar uns com os outros. Eu sou um homem de diálogo, faço a minha campanha para a presidência da Comissão Europeia, sou um construtor de pontes, quero manter a Europa unida. Não há Europa do norte, do sul, do leste ou oeste, há apenas europeus. A coisa mais importante na luta contra os populismos e egoísmos é resolver os problemas das pessoas. Na crise do Euro, provavelmente não nos preocupámos muito com os aspetos sociais, com o impacto na sociedade, especialmente nas gerações mais jovens. Isso provavelmente levou ao sucesso dos fenómenos populistas, por exemplo em Itália. É por isso que temos de ser mais mente aberta quando falamos de política europeia.

Se for eleito, quais vão ser as suas prioridades? Itália? As migrações? Quais vão ser os grandes desafios do próximo presidente da Comissão Europeia?
Para ser sincero, espero que possamos ultrapassar a ideia de que a União Europeia só gere crises. É isso que desejamos. Falamos do Euro, das migrações, temas que dominaram os últimos dez anos. E fizemos muito nesses campos. O anterior governo aqui em Portugal mostrou que com reformas e orçamentos estáveis podemos conseguir resultados positivos. O governo atual está a beneficiar do trabalho do governo anterior, sendo que já ultrapassámos a crise do euro. Temos hoje crescimento, défices baixos, estamos hoje melhor do que os americanos em vários indicadores. Podemos ficar orgulhosos daquilo que conseguimos alcançar em conjunto, como europeus. Quero acabar com as conversas sobre migrações, quero dar perspetivas para a próxima década. O que significa entender que hoje os europeus são um gigante económico. Conseguimos ver isso quando Donald Trump e Jean-Claude Juncker se sentam numa sala e Donald Trump percebe que a UE é um gigante e não brinca connosco, não nos dita regras, porque somos poderosos como europeus. No nível político, não somos um gigante, somos um gnomo. Somos fracos. Olhem para a Síria, não tivemos nenhum papel na questão da Síria. Olhamos para as cimeiras de Putin e Trump, mas nós não tivemos lugar em nenhuma delas. Quero fazer da União Europeia um gigante político. É isso que precisamos para defender o nosso modo de viver europeu, num mundo globalizado a mudar muito rapidamente.

"Hoje os europeus são um gigante económico. Conseguimos ver isso quando Donald Trump e Jean-Claude Juncker se sentam numa sala e Donald Trump percebe que a UE é um gigante e não brinca connosco, não nos dita regras, porque somos poderosos como europeus. No nível político, não somos um gigante, somos um gnomo. Somos fracos. Quero fazer da União Europeia um gigante político.

As políticas de Angela Merkel sobre migrações são as mais corretas?
Desde 2015 que tivemos esta grande onda de migrações, faz agora três anos, e eu acho que a coisa mais importante, que é uma pré-condição para todas as conversas sobre migração, é o controlo da nossa fronteira externa. Houve muitos erros em 2015, não havia controlo. Deixem-me ser claro e franco, quando se trata de uma luta contra a máfia dos mares do Mediterrâneo, ou os problemas na fronteira entre a Grécia e a Turquia, temos de estar prontos para dar todos os passos necessários. E eu estou disponível para fazer alguma coisa. E os políticos na Europa têm de estar preparados para fazer alguma coisa. Temos de defender as nossas fronteiras, mas, por outro lado, não devemos fechar-nos a receber pessoas na UE. Por isso, defendo um programa em que as Nações Unidas vão as campos a Síria e selecionem pessoas que realmente precisam de ajuda e trazê-las para a Europa. Mantemos a solidariedade europeia, mas controlamos os nossos Estados. Nós decidimos quem chega à Europa. Por isso, não é preciso andarmos de conferência em conferência sempre a discutir o que fazer, pois já sabemos o que devemos fazer.

"Se não fecharmos o debate sobre a imigração na presidência austríaca, até ao final do ano, e ficarmos uns contra os outros, isso alimentará os extremistas e nacionalistas nas próximas eleições Europeias"

No Partido Popular Europeu (PPE) existem duas visões, a de Merkel e a de Orbán, podíamos dizer que a sua está algures no meio?
Orbán é garantidamente um político que defende a Europa. Eu não gosto de todas as mensagens dele e não teria tomado atitudes que ele tomou, mas ele estava preparado para defender a Europa se fosse necessário. E Angela Merkel é a face humanitária deste continente, ela mostra-nos que temos uma responsabilidade. Quando falo com as pessoas na ruas, digo-lhes que têm um político que lhes garante uma fronteira protegida, sem imigração ilegal, mas que por favor estejam preparadas para ajudar as pessoas que vêm da Síria de uma forma organizada e estruturada. E as pessoas dizem: ok, vamos fazer isso. Estamos preparados para isso, somos um continente rico, podemos contribuir para os problemas do mundo e isso é o que se deve fazer agora. Se não fecharmos o debate sobre a imigração na presidência austríaca, até ao final do ano, e ficarmos uns contra os outros, isso alimentará os extremistas e nacionalistas nas próximas eleições Europeias. Há aqui uma grande responsabilidade para os líderes europeus em encontrar um entendimento comum sobre a resposta ao desafio da imigração para a União Europeia.

Falamos do controverso primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, e ainda recentemente recebeu o apoio dele à sua candidatura. Está orgulhoso disso?
Tenho muitos apoiantes e estou orgulhoso de todos os apoios. Todos os líderes do PPE que fazem parte do Conselho Europeu declararam oficialmente que me apoiam. O jovem Leo Varadkar da Irlanda, um jovem primeiro-ministro, Andrej Plenkovic da Croácia, um primeiro-ministro jovem, o presidente Anastasiades, do Chipre, por exemplo, que numa fase muito precoce disse que eu era o candidato dele, Angela Merkel, Sebastian Kurz. Todos os líderes do PPE estão a apoiar-me oficialmente, o que me honra, é uma grande responsabilidade, e tomo este como o ponto de partida para uma campanha, como líder. Peço aos membros do meu partido que são de Portugal, mas também de toda a Europa, para me darem um mandato para formalizar e identificar as promessas-chave do PPE, para os votantes saberem que se votarem no PPE vão ver aquelas promessas realizadas. O que procuramos é um programa do PPE. E termos, pela primeira vez, na história deste continente, uma campanha continental. Angela Merkel a ter a mesma abordagem que Rui Rio, a terem a mesma mensagem. Porque eu quero chegar a uma verdadeira democracia europeia e sei que esse é um longo caminho, não me interpretem mal, mas temos de diminuir o fosso entre os cidadãos e o processo de decisão europeu. Discutimos e decidimos tanto ao nível europeu sobre questões do seu dia-a-dia, proteção de dados na internet, por exemplo. Temos de fazer com que as pessoas se sintam envolvidas. Não burocratas, não elites a decidirem, mas políticos eleitos. Isto para que consigamos, no próximo ano, pela primeira vez na história deste continente, um membro do Parlamento Europeu possa ser presidente da Comissão Europeia.

"Todos os lideres do PPE estão a apoiar-me oficialmente, o que honra e uma grande responsabilidade e tomo este como o ponto de partida para uma campanha, como líder (...) O que procuramos é um programa do PPE. E termos, pela primeira vez, na história deste continente, uma campanha continental. Angela Merkel a ter a mesma abordagem que Rui Rio, a terem a mesma mensagem"

Concorda que representa uma linha mais suave relativamente ao primeiro-ministro húngaro, em vez de uma abordagem mais dura que defende que ele devia ser posto fora do PPE?
É uma discussão muito séria, porque estamos a falar dos princípios fundamentais do nosso continente e não há discussão possível sobre estes princípios. Devo dizer que ouvir inúmeros conselhos sobre como lidar com Viktor Orbán dentro da família. É fácil dar conselhos, mas é difícil de decidir. Há algumas semanas houve um debate no Parlamento Europeu sobre ativar o artigo sétimo [do Tratado da União Europeia] e esse artigo reprime fortemente em favor dos princípios fundamentais. Tivemos uma discussão intensa e eu e a maioria do meu grupo votámos finalmente a favor de ativar um procedimento legal contra um país da União Europeia e eu estou preparado para isso. Eu fiz isso. Não há dúvida que o PPE, mesmo quando se tratam de assuntos de família — que nunca são fáceis — não há tratamentos especiais na defesa dos valores fundamentais. E quero ser claro, há dois pontos de preocupação: um é que a Universidade Centro-Europeia não pode continuar a trabalhar como no passado e a liberdade científica é um princípio da União em que ninguém pode tocar; o segundo ponto é sobre as Organizações Não Governamentais da Hungria, eu acredito que numa sociedade moderna precisamos de uma sociedade civil viva, ONG’s vivas. As duas coisas são necessárias na Europa e é por isso que Viktor tem de mudar o seu caminho, tem de mudar a sua legislação.

O discurso que ele fez em Estrasburgo não foi propriamente convincente, quanto à abertura a fazer essa mudança.
Não foi um discurso de compromisso, foi até provocador, porque ele estava a misturar questões legais com questões de imigração. Ele disse publicamente que estávamos aqui a puni-lo porque ele estava a defender a construção de uma cerca. Ninguém estava a discutir isso, estávamos a falar dos dois casos que já referi e dos princípios fundamentais. Mas, mais uma vez, quando estou preparado para dialogar com Conte [primeiro-ministro italiano] ou Di Maio [vice-primeiro-ministro de Itália], que podem estar à beira da próxima crise do Euro — fundamental para Portugal, Espanha, França, Alemanha, para todos –, eu tenho de os respeitar porque eles foram eleitos, tal como tenho de dizer que estou pronto para dialogar com Viktor Orbán porque ele também foi eleito pelos seus. Não há debate, não há desconto e não há tratamento especial nos valores fundamentais, mas há disponibilidade para falarmos uns com os outros.

Alguns dos seus críticos dizem que dentro do PPE, na gestão da crise húngara não conseguiu manter todos alinhados e, por isso, questionam a sua capacidade para gerir um colégio de comissários. Tem uma resposta para isso?
Sim, devo dizer que o PPE votou e que 60% votaram a favor da ativação do artigo 7º e foram votos decisivos para abrir o procedimento disciplinar. Por isso diria que o grupo do PPE assumiu a responsabilidade e estamos agora preparados para o diálogo. E eu falo da responsabilidade do interna do PPE nisto, mas discutimos a questão do Viktor Orbán numa reunião do grupo parlamentar em Estrasburgo por duas horas e cerca de 40 colegas, da Polónia, Alemanha ou Portugal, pediram-lhe que mudasse. Mas houve zero minutos de discussão no Conselho Europeu sobre a Polónia e a Hungria. Zero minutos. Macron está a atacar publicamente Viktor Orbán como um oponente político, está a usar isto para um grande espetáculo mediático, mas quando se sentam juntos não há obviamente tempo para discutirem estes assuntos. E isto não é aceitável. Eu faço o meu trabalho no PPE, o que agora peço é que Costa, Sanchez, Macron, Merkel sejam todos francos e honestos e digam a Kacczynski no caso da Polónia — que ainda é pior que húngaro — que temos de defender os nosso princípios.

"Não há dúvida que o PPE, mesmo quando se tratam de assuntos de família -- que nunca são fáceis -- não há tratamentos especiais na defesa dos valores fundamentais (...) Viktor tem de mudar o seu caminho, tem de mudar a sua legislação."

Pretende conseguir o apoio do PSD à sua candidatura a candidato do PPE a presidente da Comissão Europeia? Já falou com Rui Rio nesse sentido?
Já falámos com os dois partidos, quer o PSD quer o CDS, e eles ainda não decidiram. Por isso ainda estou na fase de campanha. Estou a tentar convencê-los. Aquilo que proponho é, como já disse, um processo de construção de pontes e de uma maior democratização. Esta é a minha principal mensagem.

Está a concorrer contra Alexander Stubb, que é um candidato que tem andado ativamente em campanha. Quais são as vossas diferenças e porque é que considera que é um melhor candidato?
As diferenças devem ser analisadas pelos delegados.

Mas tem certamente uma opinião sobre ele.
Em primeiro lugar, devo dizer que é sempre bom haver concorrência. Acho que é desafiante e eu gosto da competição. É disso que a Europa precisa: debates democráticos. Será uma altura de decisões. Primeiro dentro do meu partido, onde quero vencer e ser nomeado; depois contra os outros candidatos, sejam socialistas ou liberais. É importante que se discutam diferentes ideias para o futuro da Europa. E nós precisamos de uma democratização neste continente.

No caso de Alexander Stubb, vocês vêm da mesma família europeia. Porque é que o PPE deve escolhê-lo a si e não ao seu adversário?
A principal mensagem que quero passar é a de que sou um construtor de pontes e que pretendo trabalhar para uma maior democratização na Europa. Mas provavelmente acrescentaria uma outra ideia: eu sou da Baviera e gosto das minhas raízes. Sinto-me em casa quando estou na minha região. Quando estou a sair de Bruxelas depois de uma semana de trabalho e chego a casa é como uma lufada de ar fresco. Porque a bolha de Bruxelas é difícil para mim. Gosto de quando estou em casa. Vou à igreja e perguntam-me o que estou ali a fazer e trocamos umas ideias. Poder ter esta troca direta de pontos de vista é fundamental para mim enquanto político. E sinto que isso é uma vantagem para mim: gosto de ter as minhas raízes. E acho que é importante discutirmos iniciativas a nível europeu que tenham sempre em perspetiva estes cidadãos comuns da UE.

O que está a dizer é que é um político mais próximo do cidadão comum do que o seu adversário?
O problema está na pergunta. Eu não quero criticar o meu adversário. Eu prefiro enaltecer o meu perfil.

Mas diria que Helsínquia faz mais parte da bolha de Bruxelas do que a Baviera?
Aquilo que diria é que eu gosto de ter as minhas raízes. Essa é a minha mensagem. E penso que temos de perceber que existe demasiado criticismo vindo das elites no debate político. E o PPE tem de perceber isso e tem de mostrar que entendeu. Nós não somos perfeitos. Eu não sou perfeito. Temos de mostrar que nos movemos por ideias, por ambições, por perspetivas de futuro mas também que ouvimos.

O Congresso do PPE vai decorrer em Helsínquia. Isso é uma vantagem para o seu adversário?
Acho que não. Vão estar lá todos os delegados. O debate nessa altura já vai estar muito avançado e muitos partidos já terão anunciado formalmente qual o candidato que pretendem apoiar. Aliás, essa discussão está a acontecer neste momento. O Partido Popular espanhol já anunciou que vai apoiar-me, por exemplo. E isso é positivo.

Mas o seu adversário vai jogar em casa.
Sim, mas não acho que isso tenha influência. A questão é sobre os delegados. E cada um terá a sua região, a sua casa na cabeça. E creio que é assim que eles vão decidir.

Weber quer substituir o companheiro de PPE, Juncker, na presidência da Comissão

AFP/Getty Images

O seu adversário conta com uma experiência governativa no currículo. Isso não pode ser uma vantagem para ele? Isto porque todos os anteriores presidentes da Comissão Europeia foram chefes de governo.
Um terço dos governantes no Conselho Europeu não tiveram quaisquer experiências executivas antes de serem eleitos. Pedro Sánchez é um exemplo disso também. Ele foi líder do partido e líder do grupo parlamentar e agora é primeiro-ministro. No seu caso, a via para chegar a primeiro-ministro passou por fazer o trabalho dentro do partido e no Parlamento. Diria que a meu favor conta o facto de eu estar a trabalhar na política europeia há 14 anos. Conheço bem muitos assuntos que estão atualmente em cima da mesa. Tem sido uma experiência extraordinária. Sobretudo nos últimos quatro anos, desde que me tornei líder do grupo parlamentar do PPE. Permitiu-me viajar muito pela Europa. Estive várias vezes aqui em Lisboa, reuni com o Presidente da República e com vários representantes do Estado. Isso permitiu-me perceber melhor as circunstâncias e os problemas deste país, assim como de outros. Aliás, um dos problemas de antigos presidentes da Comissão Europeia foi o de chegarem a Bruxelas sem qualquer conhecimento sobre os desafios que atravessa, por exemplo, a Eslovénia, a Lituânia ou Portugal. Por isso, posso dizer que uma das vantagem que tenho é a de estar consciente dos vários problemas nos diferentes países da UE. E aprendi imenso nos últimos anos.

"Um dos problemas de antigos presidentes da Comissão Europeia foi o de chegarem a Bruxelas sem qualquer conhecimento sobre os desafios que atravessa, por exemplo, a Eslovénia, a Lituânia ou Portugal"

Jean-Claude Juncker está prestes a terminar o seu mandato. Que análise faz desses cinco anos?
É preciso dizer que Jean-Claude Juncker foi o primeiro presidente da Comissão Europeia a ser eleito por uma maioria no Parlamento Europeu. Isso foi uma mudança importante. Foi um passo importante no caminho para a democratização, que eu defendo. O próximo passo não é apenas ter uma pessoa como candidato mas sim apresentar um programa.

Mas qual a avaliação que faz do mandato de Juncker?
O seu lema era “a última oportunidade para a Europa”. Foi com este título que ele deu início ao seu mandato. E ao olhar para a União Europeia, hoje em dia, creio que ele fez um bom trabalho. Economicamente estamos a atravessar uma situação boa e estável. Provavelmente, a melhor que já tivemos. Ele teve de lidar com uma situação muito complexa como o Brexit, onde todos estamos unidos. Tivemos ainda de superar um aspeto muito problemático da crise migratória nos últimos anos. Neste campo, conseguimos estabilizar embora não tenhamos solucionado o problema em si. Por isso, estou satisfeito com aquilo que foi feito nos últimos cinco anos. Temos de dizer às pessoas que as coisas estão a correr bem. Temos alguns problemas, mas não estamos assim tão mal. Há alguma incerteza, é verdade, mas olhem à vossa volta. Preferiam viver na Rússia, na Turquia ou no norte de África ou até mesmo na América? Não. A Europa não é uma ilha, é uma região positiva. Fizemos um bom trabalho. E isso, para mim, enquanto líder do PPE, é uma boa base para pedir confiança no futuro.

O antigo primeiro-ministro finlandês, Alexander Stubb (o primeiro da direita para a esquerda) é o adversário de Weber. Aqui num Conselho Europeu em 2014, com Merkel, Juncker, Passos e Durão

Getty Images

Mas o que fará de diferente se for eleito presidente?
O mais importante para mim, e vou ter de insistir nisto, é a questão da democratização e de estar mais próximo das pessoas. E, por exemplo, quando houve grandes incêndios na Grécia e em Portugal, que foram ao mesmo tempo, eu acho que os representantes da União Europeia deviam ter estado lá a demonstrar a sua solidariedade. Devem estar próximos das pessoas, onde as coisas acontecem. Há acontecimentos que mexem as pessoas, em toda a Europa, que saem em todos os jornais, em todos os media, e a Europa tem de estar lá mais junto das pessoas. Temos de contrariar a perspetiva tecnocrática [que as pessoas têm da Europa]. Temos de estar mais próximos das pessoas. E é isso que eu quero fazer. E, por outro lado, temos de parar de gerir a crise, temos de começar um novo capítulo, temos de ser ambiciosos. Na Alemanha, nós sabemos isso. Nos anos 1990, o chanceler Helmut Khol disse aos alemães para esquecerem o marco alemão porque íamos aderir ao Euro. Não foi nada popular. Nada popular mesmo. Mas um líder forte disse isso aos alemães para esquecerem o marco alemão e fê-lo porque tinha a certeza que, em 20 anos, os EUA não são mais parceiro comercial mais próximo de nós. Há a Rússia, há a China, que já não é só um país em desenvolvimento, que já está nos dias de hoje a reivindicar uma liderança global. E durante um período de tempo ficámos contentes por ter o Euro, porque economicamente éramos fortes e unidos. E é isso que precisamos uma estratégia ambiciosa para os próximos 20 anos. Para garantirmos, de forma determinada, que continuamos com a nosso estilo de vida europeu nas próximas décadas. Como já disse, deixando de estarmos a gerir crises e passarmos a olhar para uma mais forte e melhor Europa.

"O mais importante para mim, e vou ter de insistir nisto, é a questão da democratização e de estar mais próximo das pessoas. E, por exemplo, quando houve grandes incêndios na Grécia e em Portugal, que foram ao mesmo tempo, eu acho que os representantes da União Europeia deviam ter estado lá a demonstrar a sua solidariedade. Devem estar próximo das pessoas, onde as coisas acontecem."

O seu estilo de liderança é mais próximo do presidente Juncker ou do presidente Barroso?
Eu penso que ambos tiveram que lidar com circunstâncias muito específicas, tiveram de lidar com muitos problemas durante os seus mandatos e ambos o fizeram da melhor forma. Pude conviver com Barroso quando era um jovem membro do Parlamento Europeu e ele também liderou durante períodos muito difíceis, mas conseguiu inovar em algumas coisas. Lembro-me que, durante o seu mandato, nós fizemos todas as reformas relacionadas com as alterações climáticas. E a Europa está hojena linha da frente do combate às alterações climáticas. As principais decisões foram tomadas durante a liderança de Barroso e hoje podemos estar orgulhosos disso. Porque todos estamos a ver que as alterações climáticas são uma realidade e temos de seguir esta linha. Por isso, penso que não é fácil de comparar. Eu quero apresentar-me a mim mesmo, quero dizer: isto é quem eu sou, isto é aquilo em que acredito. E estou à procura de confiança, estou à procura de apoio. E penso que o PPE tem uma boa oportunidade de conseguir esse apoio se estivermos unidos e formos ambiciosos.

Weber é líder da bancada do PPE desde junho de 2014

Quer ter o seu próprio estilo?
Absolutamente.

Quanto ao seu estilo, já o descreveu lembrando que era da Baviera e, por isso, mais próximo de Milão do que de Berlim. Mas em Portugal o seu nome foi muito falado quando escreveu uma carta para o presidente da Comissão a pedir sanções para os países que não estavam a cumprir as regras, nomeadamente as orçamentais, como Portugal e Espanha. Aos olhos dos portugueses isso provavelmente colou-o mais a Berlim que a Milão. Como é que espera ultrapassar essa imagem? Arrepende-se de ter escrito a carta?
Obrigado pela pergunta, porque percebi que isso foi bastante polémico em Portugal. Primeiro que tudo, temos de lembrar o contexto [em que a carta foi escrita], porque estávemos no primeiro ano de um Governo do socialista, que tinha acabado de apresentar uma proposta para o Orçamento do Estado e foi num período crítico. Porque era um período que, o que estava em cima da mesa, era seguir ou não a estratégia do Governo anterior. E seria um erro não a seguir, pois era necessário estabilizar o que o anterior governo tinha conseguido. Nesse contexto, escrevi essa carta a Jean-Claude Juncker para clarificar que ele teria de continuar a ter pulso forte perante os os governos incumpridores. E eu tinha de apoiar completamente isso, porque o que o anterior Governo conseguiu.  E tenho de dizer que este Governo está a governar com base nas decisões anteriores, não tanto das decisões atuais. Estão a beneficiar bastante dessas decisões anteriores, especialmente no que diz respeito à economia. É importante que não nos esqueçamos disto. E hoje tenho de perguntar ao primeiro-ministro [António] Costa, qual é a sua opinião em relação ao que está a acontecer em Itália? Porque é óbvio que o que o Governo italiano está a fazer vai contra todos os acordos que foram feitos na União Europeia e alguém tem de agir. Bruxelas já está a agir, mas convidaria também Sanchez e Costa a fazê-lo porque o Governo italiano decide não afeta só o Governo italiano, também afeta Portugal, também afeta a França e a Alemanha. É por isso que ele tem de atuar e de ser claro. Em família, temos de ser honestos.

"E tenho de dizer que este Governo está a governar com base nas decisões anteriores, não tanto das decisões atuais. Estão a beneficiar bastante dessas decisões anteriores, especialmente no que diz respeito à economia."

O governo de António Costa surpreendeu-o pela positiva, desde o momento em que escreveu a carta até aos dias de hoje, em que o Ministro das Finanças português é ministro do Eurogrupo e o défice está perto do zero?
Eu respeito isso e é uma evolução positiva ao longo dos últimos anos o que Costa conseguiu com a gestão do seu Governo, mesmo que esteja dependente dos partidos de esquerda, conseguiu continuar a cumprir os compromisso com a União Europeia. É uma coisa positiva. A parte mais problemática é o que Portugal terá de fazer para perder essa percentagem [de défice]. Não é má, mas em comparação com o resto da União Europeia, não é muito forte. Eu penso que Portugal está no 20º lugar na lista de países com mais crescimento na União Europeia. E isso é mais um esforço que se pede a nível nacional, ao Governo, é que crie melhores infraestruturas, para captar investimentos estrangeiros. Portugal poderia estar muito melhor do que está hoje e deveria estar à frente de qualquer um outro [país europeu] porque estamos num período de baixos custos com energia, baixas taxas de juro e num período de estabilidade do crescimento a nível global. Mas este tempo parece estar a acabar, se fizermos uma análise global. Por isso não podemos esperar que a situação atual se mantenha para sempre. Mais uma vez, devemos usar o momento atual para investir mais, para conseguir ir mais além, para incrementar a nossa capacidade de investimento para criar um futuro para as gerações vindouras.

"A parte mais problemática é o que Portugal terá de fazer para perder essa percentagem [de défice]. Não é má, mas em comparação com o resto da União Europeia, não é muito forte. Eu penso que Portugal está no 20º lugar na lista de países com mais crescimento na União Europeia."

Mário Centeno podia ser um bom vice-presidente da sua comissão?
É demasiado cedo para especular sobre isso porque ainda estamos numa fase de escolha dos candidatos do PPE, temos de seguir passo a passo.

Mas qual é a sua opinião acerca de Mário Centeno?
Respeito muito o que ele está a fazer enquanto presidente do Eurogrupo. Penso que ele tem uma linha clara de agir, porque conseguiu compreender as últimas crises na zona euro e está a dar todos os passos para que os países cooperem mais com os outros. Essa já foi, aliás, uma melhoria introduzida por Jean-Claude Juncker porque a anterior comissão, Europeia  tinha uma abordagem mais burocrática quando falava de programas. E Jean-Claude Juncker defendeu que se trata de processos políticos e que, por isso, podem existir negociações. Por outro lado, não há outra forma de atuar sem ser implementando as regras fundamentais que, durante décadas, este continente [europeu] defendeu e ajudou a criar.

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