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Há uma voz em Portugal que se chama Youtube

"Peperan", "Sake" e Tiago Braga: "youtubers" para intervir, divertir ou cantar. Melhor, para exprimirem, em vídeo, no computador, iPad ou smartphone. As vozes do "novo media" vieram para ficar?

“Hey pessoal! O meu nome é ‘Peperan’ e este vídeo é diferente de todos aqueles que já fiz. Nunca estive tão nervosa para fazer um vídeo. Acho que a partir do momento em que alguém consegue ter alguma voz para mudar as pessoas, como eu sinto que tenho alguma – uma vez que tenho trinta e tal mil subscritores e consigo chegar a muita gente… Acho que quando temos esse tipo de poder, devemos usá-lo para mudar mentalidades para o melhor. E é isso que estou a tentar fazer. Muitos de vocês de certeza que já repararam, mas outros talvez não. Por isso, vou dizê-lo:

O meu nome é Ana Correia, também conhecida por ‘Peperan’, e sou lésbica.”

Youtube, no canal “Peperan”, a 15 de março. E oito segundos de silêncio. Para mais tarde se poder ouvir: “está tudo bem”. Dois meses depois, o vídeo da rapariga de cabelo vermelho com 24 anos conta com 29.662 visualizações, 2.996 gostos e 396 comentários. A exposição da orientação sexual numa rede social de partilha de vídeos surgiu porque Ana Correia queria que a mensagem tivesse “algum significado”, conta. Porque queria ajudar. São oito minutos de palavras que querem chegar mais longe do que um ecrã de computador, de um iPad ou de um smartphone. São oito minutos de palavras de uma youtuber.

A voz e os vídeos são as armas de Ana Correia, a “Peperan”. Mas também são as de Miguel Pessanha – o “Sake” no canal “fhorshaken” -, ou as de Tiago Braga, no canal com o mesmo nome. E não só: “Nurb”, “Kiko is Hot”, “Conguito”, “Annyiscandy” ou a recém-estreada Beatriz Gosta. A nível internacional, parece não haver dúvidas: os youtubers são as novas celebridades. Como Felix Arvid Ulf Kjelberg, ou “PewDiePie”, o nome com que é internacionalmente reconhecido – um jovem sueco que utiliza o Youtube para comentar videojogos.

De acordo com um artigo da Business Insider, “PewDiePie” é o youtuber mais popular da rede a nível mundial, com um total de 8,82 mil milhões de visualizações e 36,6 milhões de subscritores, a 15 de maio. Depois de um sueco, a dupla de comediantes Smosh – Ian Hecox e Anthony Padilla -, com 4,34 mil milhões de visualizações e cerca de 20,4 milhões de subscritores. Em jeito de comparação, a CNN está no Youtube desde 2005 (ano em que nasceu a rede social) e os seus vídeos têm 740,8 milhões de visualizações. O canal é subscrito por mais de 805 mil pessoas.

"[O Youtube] É também dar o nosso ponto de vista. E isso é muito importante, porque nós ouvimos muita gente a falar, mas às vezes também não dizem aquilo que sentem exatamente. E isso é algo que podemos fazer no Youtube"
Ana Correia, também conhecida por "Peperan"

Ana Correia publica vídeos no Youtube desde 2006. Conta ao Observador que começou a fazê-lo porque estava “um bocado aborrecida” com a vida. “Gostava muito de ver Conan O’Brien e tinha esse tipo de influências, como Tina Fey ou Amy Poehler. E depois pensei que podia começar a fazer o meu programinha”, diz. Há sete anos, não existiam youtubers como existem hoje. Mas existia aquela que passou a ser a inspiração de Ana, a Grace Helbig. com o canal Deligracy. “Tornou-se a minha youtuber favorita”, revela.

De seguidora a inspiradora, hoje Ana Correia tem mais de 26 mil subscritores e os seus vídeos totalizam mais de 2,5 milhões de visualizações. Revela que, na altura, não sabia que impacto é que os seus vídeos iam ter, mas sabia que tinha muitas coisas para dizer em voz alta. “Porque não tentar transmitir isto ao mundo e tentar ver o que acham?”, conta. O Youtube tornou-se numa forma de mostrar ao mundo aquilo que Ana Correia é. “É também dar o nosso ponto de vista. E isso é muito importante, porque nós ouvimos muita gente a falar, mas às vezes também não dizem aquilo que sentem exatamente. E isso é algo que podemos fazer no Youtube”, diz.

“Conversas de café”, “Consultório”, “Pep Talks” ou “Survival Guide” – no canal de “Peperan”, há programas para todos os gostos. Para esclarecer dúvidas dos subscritores, falar sobre temas da atualidade ou dar dicas – como ter estilo, como ser fixe nas escolas ou como safarem-se de um rapaz durante a noite. A imagem de “Peperan” já saiu do pequeno ecrã do Youtube e chegou à rua ou à WTF, a marca que a Optimus lançou depois da fusão com a ZON, que se destina a jovens e que utiliza youtubers para comunicar.

Roberto Gomes, fundador da We Can Fly, empresa de marketing de influência multiplataforma, diz que os youtubers são um mercado novo em Portugal, ainda muito ligado à comédia e tecnologia. “Tirando fenómenos isolados como o de Mia Rose, os portugueses com mais números são os de videojogos e comédia. São segmentos que pela abrangência dos temas é dificil que consigam influenciar alguém. São demasiado abrangentes para influenciar comportamentos”, diz. Contudo, ressalva, as marcas já sabem que têm de estar atentas ao Youtube. “É uma pequena revolução que está a acontecer. Leva o seu tempo”, diz.

Ana Correia diz que não se arrepende de nenhum vídeo que publicou e que um dos motivos pelos quais o Youtube tem tanto sucesso é porque as pessoas criam relações com os rostos por detrás dos ecrãs. “Parece que nos conhecem e pronto. A partir daí, começam a levar aquilo que nós dizemos com alguma atenção. E realmente refletem sobre aquilo que dizemos”, adianta. E foi isso que “Peperan” fez no vídeo em que disse à internet inteira que era homossexual.

“Fiquei muito feliz. Até porque depois de pôr o vídeo na internet, tive imensas pessoas a mandarem-me mensagens, a dizer que também estiveram em situações iguais à minha, a pedirem ajuda, conselhos, e eu respondi o máximo que pude. Por isso, acho que a reação foi excelente. Consegui aquilo que queria, que era tentar ter algum impacto nas pessoas que viram o vídeo”, lembra Ana Correia.

“Acho que é um novo media. E um media mais real. Pelo menos mais correto nos dias que correm”
Ana Correia, também conhecida por "Peperan"

Até onde é que Ana Correia gostaria que o Youtube a levasse? “Até ao infinito e mais além”, diz. E dá uma pista: porque não um programa de televisão? Para a jovem do Entroncamento, o Youtube já é “o novo meio de comunicação”, onde cada pessoa pode mostrar o seu “valor”, adianta. “Acho que é um novo media. E um media mais real. Pelo menos mais correto nos dias que correm”, diz.

“Quanto mais fogo, melhor. E ainda vou lá dar uma achega”

Miguel Pessanha e “Sake” são duas pessoas diferentes. Ou duas identidades distintas numa mesma pessoa. Liga o “modo de vídeo” quando se coloca em frente à câmara. E fala de improviso. Diz o que tem a dizer, “sem medo”, explica. A frontalidade já lhe valeu comentários menos positivos de quem o segue. Mas não se importa com isso. “Quanto mais fogo melhor. E ainda vou lá dar uma achega, que assim vem mais gente comentar”, adianta.

O Youtube deu-lhe “muitos amigos” e até alguma fama. É reconhecido na rua e em eventos. E também lhe deu uma namorada. “Tudo aconteceu porque as páginas do Facebook dão para enviar mensagens. Eu fiz um vídeo de gajas e ela veio comentar ‘tu falas, falas, mas gostas!’ Desde então — e isto foi há dois anos — continuámos a falar. Foi logo engate”, brinca. Eram de locais distantes. Ela estava em Lisboa. Ele em Leiria. Só que isso não colocou entraves à relação. De certa forma, o Youtube juntou-os: “Porque se eu não tivesse isto ela nunca tinha vindo parar à minha página.”

Dedicou o vídeo mais recente ao caso da agressão de um jovem na Figueira da Foz. Gravou-o logo após a entrevista que deu ao Observador. Queria mostrar o que achava acerca “da cena”. Só que “humilhar os putos não serve. Aquilo tem a ver com os pais, com as escolas.” Foi um tema que demorou a aparecer. Mais especificamente, dois meses. “Estava exatamente à espera de um tema destes para começar a sentir-me novamente jovem e furioso”, confessa “Sake” no vídeo. Que é como quem diz, algo que o fizesse entrar em modo “besta”.

Uma vez teve medo de sofrer represálias, um certo “receio de sair à rua”. Foi com o vídeo do futebol. Diz que “90% das pessoas que veem futebol são burras”. “É daquelas coisas que eu gosto. Fica logo tudo ‘eh pá, ele está a falar de mim’, mas é mesmo isso que a gente quer. No meio desse vídeo há uma dica a explicar que esses 90% são aquelas pessoas fanáticas, que ficam doidas quando veem futebol.” Ainda assim, Miguel Pessanha não tem problemas “em dizer o que o ‘Sake’ diz, na cara das pessoas”. “Já aconteceu”, acrescenta.

"Se tiver de dizer isto ou aquilo, digo. Sem medo. Porque sou a tal personagem 'Sake'. É essa distinção que algumas pessoas não veem."
Miguel Pessanha, também conhecido por "Sake"

Mas o Youtube não se limita à paródia. “Não é só mandar as gargalhadas lá em casa.” Também pode representar novas oportunidades e experiências. Reais. Fora dos quatro cantos do ecrã. Aconteceu com Miguel Pessanha. “Se eu não fosse youtuber, provavelmente não estava agora a trabalhar. Estou numa produtora de vídeo. Sou [operador de] câmara, editor e realizador”, conta. Graças aos vídeos que foi fazendo, Miguel Pessanha juntou ao currículo “oito ou nove anos de experiência de edição de vídeo”. E mesmo que “não seja nada de especial”, ter experiência “já é genial”. “Uma produtora de vídeo vê logo o que tem aqui, não é?”, diz. E o que é que Miguel já tem? Mais de 85,6 mil subscritores e os seus vídeos contam com mais de 8,5 milhões de visualizações, desde 2006.

Youtuber, mas também músico independente

“Sou o Tiago Braga, tenho 20 anos, moro no Porto e sou um músico português e youtuber independente, que está a tentar ter uma carreira no panorama internacional da música.” Aqui, a palavra-chave é independente. Porque Tiago Braga não tem ninguém “de cima” a dizer-lhe o que pode ou não fazer. “A principal vantagem do Youtube é essa liberdade. É eu fazer o que quero, quando quero e como quero”, diz.

Antes de começar a publicar vídeos em 2010, assistia outros youtubers e canais estrangeiros de música. “Via músicos que hoje em dia têm carreiras mundiais com tanto sucesso como as de artistas agenciados com editoras.” Desanimava. Achava impossível que alguém tivesse tanto sucesso de forma independente. Como Alex Goot, um jovem norte-americano mundialmente conhecido graças aos vídeos que publica na internet desde 2004, e que se tornou, entre outros artistas, numa das grandes influências de Tiago Braga. “Chegava sempre à conclusão de que tinham uma editora ou alguém a ajudá-los”, revela.

Mas não. Esses artistas eram tão independentes quanto ele. “Comecei a pensar: eu tenho uma câmara e um microfone, há tutoriais na net que me ensinam a trabalhar com programas de edição e acho que sei cantar e tocar. Portanto, porque não tentar?”, diz ao Observador. E tentou.

Hoje, os vídeos de Tiago Braga já somam mais de um milhão e quinhentas mil visualizações. Vende os seus covers (e algumas músicas originais) no iTunes. Também disponibiliza tudo no Spotify. Sempre de forma legal, com os vários temas devidamente licenciados. “Existem imensas plataformas que permitem aos youtubers de música — e a qualquer tipo de artista — arranjar licenças para distribuir esses conteúdos, de forma rápida e eficaz”, explica.

Mas no campo dos direitos de autor, todo o cuidado é pouco. Já se viu obrigado a retirar um cover de uma música portuguesa da plataforma. O problema? Não tinha pedido autorização. “A verdade é que existem centenas de outros covers da mesma música no Youtube.” E nenhum desses autores foi intimado a apagar os vídeos. Já o confirmou. “Não percebi porque é que pediram especificamente a mim para o fazer.” “Da próxima vez que quiser fazer um cover de uma música portuguesa, se calhar tenho mais cuidado e penso duas vezes”, desabafa.

"As editoras portuguesas ainda estão um bocadinho atrás do que se passa lá fora. Quase nada está no digital no que diz respeito a conteúdos. É preciso preencher formulários e esperar semanas."
Tiago Braga

Para Tiago Braga, o Youtube “tem-se expandido imenso” e Portugal está a “apanhar as influências lá de fora”. No estrangeiro, ser youtuber já é “um negócio”. “Há pessoas cujo o emprego delas é o Youtube e criar conteúdos” para a plataforma, diz.

Conseguirá o Youtube substituir a televisão convencional? Tiago Braga defende que sim, fundamentando a sua opinião com os “imensos estudos publicados” sobre o tema. É também um “novo media”, como referido por Ana Correia. Miguel Pessanha fala antes de um cruzamento entre ambos: “[No Youtube] Já está a ficar tudo muito ‘televisão’. Muito fake.” Nenhum dos três pensa abandonar a carreira de youtuber, mas anseiam por algo mais. Seja ter um programa na televisão ou na rádio, entrar numa série ou ser-se internacionalmente reconhecido. Até lá, a voz deles é e continuará a ser o Youtube.

(Editado por Diogo Queiroz de Andrade)

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