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Historiador, pugilista amador e político da direita radical próxima de Donald Trump. Assim se pode definir Karol Nawrocki, o homem que é, a partir desta quarta-feira, o novo Presidente da Polónia. Tomou posse após ter vencido, no início do mês de junho, a segunda volta das eleições presidenciais contra o candidato liberal, Rafal Trzaskowski, autarca da capital Varsóvia.
Mas o novo chefe de Estado, que venceu com 50,89% dos votos, está longe de ser unânime e não é só pela oposição ao partido que o apoiou, o Lei e Justiça (PIS, na sigla polaca). Como conta o Politico, a figura de Karol Nawrocki está envolvida em vários escândalos e polémicas, que vão desde lutas de hooligans, a casos de lenocínio e a acusações de fraude a um idoso e de abuso de poder enquanto esteve à frente do Museu Nacional da Segunda Guerra Mundial — casos que prometem aquecer as relações entre o Presidente e o primeiro-ministro, Donald Tusk.
Aliás, foi o próprio Tusk que trouxe as acusações para a linha da frente da política polaca numa publicação na rede social X em maio, na qual acusou o presidente do PIS, Jarosław Kaczyński, de saber “de tudo” o que o seu candidato tinha feito.
“Sabias de tudo, Jarosław. Das ligações a gangues, de ‘arranjar miúdas’, do apartamento no Museu da Segunda Guerra Mundial, da fraude imobiliária e de outros assuntos que ainda permanecem ocultos”, escreveu então Tusk.
O wszystkim wiedziałeś, Jarosławie. O związkach z gangusami, o “załatwianiu dziewczyn”, o apartamencie miłości w Muzeum II Wojny Światowej, o wyłudzeniu mieszkania i innych sprawach pozostających wciąż w ukryciu. Cała odpowiedzialność za tę katastrofę spada na ciebie!
— Donald Tusk (@donaldtusk) May 8, 2025
Acusações de arranjar prostitutas para hóspedes
O “arranjar miúdas” a que se refere Tusk remete para rumores sobre um período na década de 2000 em que Nawrocki trabalhou na segurança do Grand Hotel de Sopot, um resort na localidade costeira junto ao mar Báltico e a meia hora da cidade natal do novo Presidente, Gdańsk. Uma notícia do portal Onet, citando duas testemunhas, acusa-o de receber dinheiro para levar prostitutas para os hóspedes durante esses tempos.
“Certa vez, durante o turno da noite, Karol perguntou-me se eu não queria ganhar algum dinheiro extra, porque ele e um grupo de seguranças ganhavam dinheiro levando prostitutas para os hóspedes do hotel. Eu receberia uma parte dos lucros”, contou ao Onet um segurança, que era amigo do Presidente desde os tempos da universidade e revelou que este se “gabou” de ter criado essa rede de lenocínio.
▲ Nawrocki trabalhou no Grand Hotel, em Sopot, no início deste século
ullstein bild via Getty Images
Nawrocki negou categoricamente as acusações e anunciou que iria processar civilmente e apresentar uma queixa-crime contra o Onet na rede social X, acusando-os de espalhar “um monte de mentiras e ódio“. Disse ainda que o site, propriedade de uma fusão suíça-alemã, estaria a servir interesses de fora do país.
“Hoje, na Polónia, o problema é a prostituição política, que quer entregar a Polónia em troca de dinheiro estrangeiro“, acusou, apelidando o Onet de “ajudantes mediáticos de Tusk e Trzaskowski”.
Dziś w Polsce problemem jest prostytucja polityczna, która za obce pieniądze chce oddać Polskę. Za ten stek kłamstw i nienawiści pozwę Onet w trybie cywilnym o ochronę dóbr osobistych, a także złożę prywatny akt oskarżenia w trybie karnym. Medialni pomocnicy Tuska i…
— Karol Nawrocki (@NawrockiKn) May 26, 2025
Um passado de rixas nos hooligans do Lechia Gdańsk
Além de Presidente, Karol Nawrocki é também um fervoroso adepto do clube da sua cidade, o Lechia Gdańsk. Entre as suas tatuagens, conta o Onet, estão símbolos dos “Hooligans da Cidade Livre”, um grupo organizado que, segundo a TVP World, tem “ligações ao submundo do crime na área de Gdańsk“, tendo alguns dos seus membros sido presos.
▲ O novo Presidente num jogo do Lechia Gdansk em 2024
Karol Nowacki/X
Os Hooligans da Cidade Livre estiveram envolvidos numa rixa contra grupos de adeptos do Lech Poznan em 2009, na cidade de Rębiechowo, nos arredores de Gdańsk, que pôs 70 adeptos de cada lado a lutar. Um destes, como admitiu a equipa do então candidato presidencial em maio, era Karol Nawrocki. Tinha então 26 anos e trabalhava como funcionário do Instituto da Memória Nacional, que viria a liderar.
“Participei em vários tipos de desportos, em várias lutas nobres, mas nem sempre saí vitorioso“, disse quando questionado pelo político aliado da extrema-direita, Sławomir Mentzen, numa entrevista no seu canal de Youtube antes da segunda volta.
É desta proximidade aos grupos de hooligans do Lechia Gdańsk que surgem referências a “ligações a gangues” mencionadas por Donald Tusk na rede social X.
Numa entrevista ao WP já depois das eleições, o então Presidente eleito admitiu mesmo ter participado nesse incidente e que algumas das pessoas com quem lutou podiam ter cometido “más ações“. Segundo a TVP World, um dos participantes, conhecido por Olgierd L., está atualmente detido por acusações de tráfico de armas, crimes de fogo posto e organização de ataques violentos, e é conhecido por ter gerido uma das maiores redes de lenocínio da região.
26.07.2025????????Lechia Gdańsk – Lech Poznań, at the match, a banner appeared in the Lechia stands reading "Lech Poznań remembers the beating… from the president." This is a reference to a 2009 on fight Lechia Gdańsk vs. Lech Poznań 70×70, win Lechia. One of those fighting was… pic.twitter.com/XLj44Eum7F
— Hooligans.cz Official (@hooliganscz1999) July 27, 2025
“Quando eu lutava com alguém — ressalvo que o fiz sempre com pessoas que queriam — nunca pesquisava sobre essa pessoa nem perguntava sobre o seu cadastro criminal. Certamente havia entre aqueles com quem eu lutava pessoas responsáveis por más ações. Mas isso não significa que elas, de alguma forma, se transferem para mim“, afirmou, recusando ser definido como hooligan.
“Eu não usaria essa palavra. Identifico-me mais como um atleta que torce [pelo seu clube]“, sublinhou.
[Um jovem polícia é surpreendido ao terceiro dia de trabalho: a embaixada da Turquia está sob ataque terrorista. E a primeira vítima é ele. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o terceiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E ouça o primeiro episódio aqui e o segundo aqui]
Os apartamentos e os cuidados prometidos mas não cumpridos
Segundo o Politico, Nawrocki enfrenta ainda várias acusações relativas a apartamentos em Gdańsk. Primeiro, há o caso que envolve a compra de um segundo apartamento que, segundo o Onet, não tinha declarado no debate presidencial.
O caso envolve um idoso de 80 anos, identificado pela imprensa apenas como Jerzy Z., que terá assinado um acordo com o candidato em 2012 para lhe vender o seu apartamento cinco anos depois. Dito e feito, Nawrocki passou a ser proprietário da habitação em 2017, pagando-lhe €28,000 pela casa e, segundo a porta-voz Emilia Wierzbicki, prometendo continuar ajudar o idoso “pagando-lhe as contas de forma regular, fazendo-lhe as compras e comprando-lhe os medicamentos“.
❗️OŚWIADCZENIE
W nawiązaniu do artykułu przygotowywanego przez @JHarlukowicz dla portalu @OnetWiadomosci zamieszczam informacje dotyczące sprawy kawalerki w Gdańsku.
Wykorzystywanie obecnie sprawy kawalerki do ataku na Karola Nawrockiego dowodzi, że zaangażowano w brudną…
— Emilia Wierzbicki (@EmiliaPob) May 4, 2025
Porém, conta o Onet, o atual Presidente não terá gasto “um tostão” a tratar de Jerzy Z.. Aliás, a cidade de Gdańsk paga-lhe cerca de 23 mil euros por ano pelos cuidados, sendo que parte deste dinheiro é usado para pagar o lar de idosos onde Jerzy vive atualmente.
O outro caso está relacionado como o período em que presidente do Museu da Segunda Guerra Mundial, cargo que ocupou entre 2017 e 2021. O atual chefe de Estado terá vivido por seis meses no complexo hoteleiro da própria instituição. Durante esse período, conta o jornal Gazeta Wyborcza, Karol Nawrocki não terá pago nada pela sua estadia no apartamento Deluxe, uma casa de dois pisos com 116 m2 e que acolhe até seis pessoas, como diz o site dos apartamentos, e que fica a cinco quilómetros da residência principal do Presidente da Polónia. Atualmente, caso uma pessoa queira alugar este mesmo apartamento durante os mesmos seis meses, custar-lhe-ia mais de 32 mil euros.
Estes dois casos estão a ser investigados pela procuradoria geral da cidade de Gdańsk. A primeira investigação a ser aberta, em fevereiro, é relativa ao caso do apartamento do museu, com os procuradores a investigarem a “possível ocorrência de um crime de abuso de poder por parte de um funcionário público”, que pode dar até três anos de prisão. Já no caso da compra da casa a Jerzy Z., a procuradoria anunciou em junho deste ano que estavam a investigar acusações de fraude — um crime que pode dar até oito anos de prisão.
Todas estas polémicas têm acicatado ainda mais a política da Polónia, que tem agora um Chefe de Estado e um chefe do Governo em lados opostos. Nawrocki, no discurso inaugural no parlamento polaco, disse que era “impossível que se continue a governar da maneira” que o atual executivo o tem feito. Já Tusk, que disse que definiu o dia como “triste”, tinha prometido lutar contra o novo Presidente na semana passada.
“Não permitirei que o Sr. Nawrocki, enquanto Presidente empossado, destrua politicamente o governo“, garantiu o primeiro-ministro da Polónia.