Iémen. O que se passa na guerra da qual ninguém quer saber? /premium

21 Agosto 20182.741

A 9 de agosto, um míssil da Arábia Saudita matou 40 crianças a bordo de um autocarro. É o episódio mais chocante de uma guerra longa, complexa e muito ignorada. Saiba, afinal, o que se passa no Iémen.

Mesmo num país em guerra, o conceito de silêncio não existe na parte de trás de um autocarro que vai em visita de estudo. O barulho aumenta à medida que a idade dos alunos diminui e, no caso do autocarro de que falamos, eles eram mesmo novos. Teriam todos entre 6 e 11 anos de idade e estavam prestes a embarcar na visita de estudo prometida para o final do curso de verão que fizeram na sua escola corânica, no Norte do Iémen.

O cenário filmado por um daqueles rapazes, Osama Zeid Al Homran, era o que se esperava. Uns gritam, outros correm pelo meio do autocarro e os mais audazes chegam até a saltar por cima dos bancos em busca do seu lugar de eleição. Sabe-se lá com que paciência e capacidade de abstração, um adulto, presumivelmente um professor, conta os rapazes que já entraram — e outro, lá fora, encaminha-os um a um para dentro do autocarro.

O autocarro viria a arrancar. Primeiro, pararam numa mesquita, onde Osama Zeid Al Homran filmou os seus colegas a recitarem versos do Corão. Depois, passaram num cemitério, onde correram desenfreadamente, perseguindo-se uns aos outros, entre as campas. E, a seguir, voltaram para o autocarro. Quando já estavam a bordo, foram alvo daquele que foi, até hoje, um dos ataques mais bárbaros dos mais de três anos que já leva a guerra do Iémen: uma bomba lançada por um avião pela Arábia Saudita (e apoiada pelos EUA, Reino Unido, França) atingiu de forma letal aquele autocarro. Morreram 51 pessoas, entre as quais 40 crianças.

Além disso, segundo a Cruz Vermelha, 79 pessoas ficaram feridas, contando-se entre estas 56 menores. Um deles, é o rapaz que aparece retratado na imagem de capa deste artigo. No hospital, negou receber tratamentos até lhe dizerem como estava o seu irmão. “Não, não, não! Só quando souber como ele está é que me podem tocar”, gritou aos médicos e enfermeiros.

Os números de 9 de agosto são negros, mas também parte de um contexto mais amplo que tem merecido pouca atenção. Ofuscado pela guerra na Síria (onde, de acordo com o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, já morreram mais de 500 mil pessoas), o conflito no Iémen é, ainda assim, e praticamente desde o seu começo, o centro de uma das maiores crises humanitárias da atualidade.

Crianças iemenitas protestam contra bombardeamentos sauditas durante o funeral das 40 crianças que morreram em ataque que atingiu autocarro escolar (AFP/Getty Images)

Embora haja uma contagem de mortes incerta (há dois anos que se fala de 10 mil mortes, número esse que é consensualmente tido como tímido em relação à realidade, cujo aferimento se torna difícil pela falta de infraestruturas e grupos de ação cidadã no Iémen), há outros números mais específicos que devem ser levados em conta.

Entre eles, está a estimativa das Nações Unidas, que em abril de 2018 contava 22 milhões de pessoas — dois terços da população total — em insegurança alimentar, 18 milhões a precisar urgentemente de ajuda humanitária e 8,4 milhões sem a próxima refeição assegurada. Para piorar, no ano passado o Iémen teve um milhão de pessoas infetadas com cólera — o pior surto desde que há registo e uma realidade que a passagem para 2018 não apagou.

As Nações Unidas estimam que no Iémen há 8,4 milhões de pessoas “a um passo da fome” e que 14 milhões a precisam urgentemente de ajuda humanitária. Além disso, em 2017 o Iémen teve o pior surto de cólera desde que há registos, com 1 milhão de pessoas infetadas.

“Doenças tratáveis tornam-se em sentenças de morte quanto os cuidados de saúde estão suspenso e é impossível viajar para fora do país”, disse António Guterres em abril deste ano.

Esta é, à semelhança do que se passa na Síria, uma guerra com contornos intrincados, para onde vários países levam às piores consequências antigas rivalidades geoestratégicas. Pelo meio, sofrem os civis daquele que, já antes da guerra, era o país mais pobre do Médio Oriente.

Nas próximas linhas, procuramos explicar, afinal, o que se passa no Iémen — e porque é que esta guerra importa.

Como começou a guerra no Iémen?

Os problemas começaram a aparecer à superfície pela altura da Primavera Árabe (2011), mas já estavam a fermentar há vários anos. Dizer hoje que o Iémen é um estado frágil é um eufemismo, mas ao longo da sua história recente essa tem sido uma constante. Em 1962, militantes republicanos e apoiados pela União Soviética deram início a uma guerra civil pela separação do Iémen do Sul do resto do país — tendo do outro lado o exército do Iémen do Norte e da Arábia Saudita. Oito anos depois, ao longo dos quais contaram com a ajuda no terreno do Egipto pan-arabista de Nasser, os separatistas do Sul venceram a guerra e conseguiram ter o seu próprio Estado. Mas a paz foi sol de pouca dura: os boicotes e diferentes atos de sabotagem foram uma constante de parte a parte. Até que, em 1990, com o definhar da União Soviética, os dois países voltaram a juntar-se e passou a haver apenas um Iémen e apenas um Presidente: Ali Abdullah Saleh.

A atual guerra do Iémen tem início quando, em setembro de 2014, o ex-Presidente Saleh liderou um golpe de Estado, apoiado pelos seus ex-rivais houthis, para voltar ao poder (AFP/Getty Images)

Mas era tudo muito frágil. O próprio Saleh o admitia numa entrevista de 2008: “Governar o Iémen é difícil. Costumo dizer que é como dançar em cima de cobras”. A linha invisível entre o Noroeste xiita (onde imperam os houthis) e o Sul sunita começou a ganhar contornos cada vez mais claros à medida que Saleh centralizava o poder em si.

O ressurgimento de rebeldes houthis no Norte do país no início dos anos 2000 abalou o Presidente — em 2004, os houthis abandonaram o parlamento e voltaram a pegar nas armas. Nessa altura, o Presidente do Iémen passou a ter nos houthis o seu pior inimigo, contando com o apoio militar da Arábia Saudita para os curvar. Não foram tempos fáceis — mas só em 2011, com a Primavera Árabe, é que o ditador iemenita caiu. Nessa altura, uma vaga de protestos obrigou Saleh a renunciar ao poder e o entregasse ao seu número dois, Abd Rabbu Mansour Hadi.

Depois de vários anos em que foi o número dois de Saleh, Hadi subiu ao poder em 2011. Mas quando chegou ao topo percebeu que o antecessor tinha deixado tudo armadilhado (Getty Images)

No entanto, depois de três anos fora do poder, Saleh quis arranjar maneira de voltar a ele. E, para lá chegar, fê-lo de duas maneiras. Primeiro, deixou todo o tipo de armadilhas ao governo de Hadi, que pouco demorou a perceber que Saleh deixou dentro de várias esferas de poder, entre as quais no exército, pessoas de sua exclusiva confiança. Depois, numa medida que deixou muitos boquiabertos, aliou-se militarmente aos seus inimigos de sempre: os houthis.

Em setembro de 2014, os houthis e Saleh avançaram sobre a capital, Sana, para fazer vingar um golpe de Estado. Em fevereiro, garantiram a vitória, com Saleh a autoproclamar-se, de novo, Presidente do Iémen. Claro que essa ideia não agradava a todos — e, por isso, a guerra a sério não demorou a começar. Em março, com o apoio logístico dos EUA, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos (EAU) começaram a bombardear os houthis e Saleh. Mas porquê?

Xiitas vs. Sunitas, Irão vs. Arábia Saudita: uma guerra que dura há 14 séculos e agora destrói o Iémen

Embora cada uma tenha as suas especificidades, as guerras de recente memória entre países de maioria muçulmana têm tido por base uma divisão do Islão que já dura há 14 séculos: de um lado, os sunitas, que têm na Arábia Saudita o seu principal centro; do outro, os xiitas, com predominância no Irão. Apesar de ter uma base histórica na religião, este diferendo rapidamente evoluiu para uma disputa que tem muito mais geoestratégia do que espiritualidade — mais do que uma interpretação do Islão, estão aqui em causa acesso a recursos energéticos, rotas comerciais e domínio militar.

Não foi por acaso que a Arábia Saudita e os EAU saltaram quase de imediato para a guerra no Iémen. Religiosamente, os houthis são xiitas, mesmo o seu ramo difere em muito da interpretação que o xiismo faz do Islão. No entanto, estrategicamente, os seus objetivos cruzam-se — isto é, sempre que os houthis estiverem a ganhar no Iémen, perde a Arábia Saudita. E, se a Arábia Saudita perde, ganha o Irão. Por isso, ciente de que o avanço da influência iraniana na Península Arábica se estava a consumar com a conquista de Sana pelos houthis, Riade decidiu atuar e atacou aqueles rebeldes — acreditando que, dessa forma, estava a atacar indiretamente Teerão.

Não são claras as ligações que o Irão tem aos houthis. Embora haja provas de que o Irão fornece armas aos houthis com relativa facilidade (em janeiro de 2018, um painel das Nações Unidas condenou unanimemente o Irão por quebrar o embargo de venda de armas para grupos no Iémen) não é evidente até que ponto aqueles rebeldes se articulam com Teerão. “Não há provas claras de que os houthis sejam marionetas iranianas. Até porque têm ignorado os conselhos de Teerão no que tocou a decisões importantes no passado, como por exemplo terem entrado em Sana ou mais tarde em Aden”, lê-se no relatório “Iran’s Priorities in a Turbulent Middle East” do think tank International Crisis Group.

"Para o Irão, a guerra no Iémen tem sido maneira low-cost de prejudicar a Arábia Saudita e mantê-la preocupada e na defensiva na Península Arábica."
Relatório "Iran’s Priorities in a Turbulent Middle East" do International Crisis Group

No entanto, é evidente que o sucesso dos houthis no Iémen agrada ao Irão. Tanto que no início do golpe de Estado de Saleh com os houthis o deputado iraniano Ali Reza Zakani, que é próximo do Líder Supremo do Irão, Ali Khamenei, disse num discurso: “Há três capitais árabes [Beirute, Damasco e Bagdade] que passaram para as mãos do Irão e que fazem parte da revolução islâmica iraniana”. E, depois, deu a entender que Sana era a quarta.

Além do mais, lê-se naquele relatório do International Crisis Group, a guerra no Iémen tem sido para o Irão “uma maneira low-cost de prejudicar a Arábia Saudita e de mantê-la preocupada e na defensiva na Península Arábica”.

O mesmo não pode ser dito em relação à Arábia Saudita. A guerra estará a custar a Riade entre 5 a 6 mil milhões de dólares por mês, sem que até agora esse investimento se tenha convertido em ganhos consideráveis ou avanços consideráveis no terreno. No entanto, quando se fala dos EAU, cujo papel na guerra do Iémen tem merecido pouca atenção, a guerra no Iémen tem sido uma aposta ganha — e não das maneiras mais óbvias.

Emirados Árabes Unidos: aliados com os sauditas ma non troppo

É frequente ler-se, nas diferentes notícias sobre a guerra do Iémen, o termo “coligação liderada pela Arábia Saudita”. Este termo, que facilita a descrição de uma aliança militar complexa, acaba por escamotear a participação importante e incontornável de outro país na guerra do Iémen: os Emirados Árabes Unidos.

A coligação entre sauditas e EAU é efetiva, mas não é frequente os seus aviões militares combaterem lado a lado. A Arábia Saudita tem o grosso da sua atividade no Norte — dúvidas houvesse, olhe-se para o bombardeamento saudita que matou as 40 crianças, foi junto à fronteira daquele país com o Iémen — ao passo que os EAU atuam sobretudo a Sul, na costa. E esse facto é essencial para entender a estratégia e os objetivos dos EAU com esta guerra.

“A política externa de Abu Dhabi [capital dos EAU], que muitas vezes conjuga objetivos militares e comerciais, está geograficamente centrada no sul do Iémen, a partir de onde os EAU podem projetar o seu poder no Golfo, em África e na Ásia”, escreve a investigadora Eleonora Ardemagni num texto publicado pelo think-tank norte-americano Carnegie. Ao longo desta guerra, os EAU já construíram bases militares no Iémen (nas ilhas de Socotra e Perim), na Eritreia e em duas regiões da Somália.

Os Emirados Árabes Unidos estão a usar a guerra no Iémen como plataforma para se estabelecerem em novos pontos da região (KARIM SAHIB/AFP/Getty Images)

Um dos pontos fulcrais da estratégia dos EAU passa pela atual ofensiva de Hodeida, cidade controlada pelos houthis, situada no Mar Vermelho e conhecida por ter o maior porto do Iémen. Já com o controlo do aeroporto, os EAU procuram agora, naquela que promete ser a ofensiva mais sangrenta desta guerra, controlar aquele importante ponto — tanto de uma perspetiva comercial como militar.

“Se a coligação conseguir tomar Hodeida, irá privar os houthis de centenas de milhões de dólares em tarifas e outras formas de receita, que eles têm usado para financiar os seus esforços de guerra”, escreveu no final de junho na Foreign Affairs o investigador Peter Salisbury, do think-tank britânico Chatham House.

A par da sua estratégia na costa do Iémen contra os houthis, os EAU também têm atuado no interior daquele país contra grupos terroristas (como a al-Qaeda) e algumas das tribos que ajudam aquele grupo extremista a combater os rebeldes xiitas. Desta forma, conseguiu puxar para o seu controlo importantes pontos como os campos petrolíferos de Masila ou os jazigos de gás natural de Balhaf.

Por tudo isto, apesar de estarem aparentemente do mesmo lado, é evidente que os EAU partem para o Iémen com motivações que diferem daquelas da Arábia Saudita. Tanto que os dois países discordam em questões fundamentais quanto àquilo que entendem ser o melhor para o futuro do Iémen — e isso, além de ser um entrave ao fim imediato da guerra, pode causar problemas no futuro.

“Ao apoiarem os separatistas do CTS e os seus aliados, os EAU têm, silenciosamente, construído um Estado dentro de de um Estado (falhado) no Sul do Iémen.” 
Peter Salisbury, investigador do think-tank britânico Chatham House, na Foreign Affairs

Apesar de a Arábia Saudita apoiar a continuação de Abd Rabbu Mansour Hadi (tanto que o acolheu nos últimos dois anos em Riade, até que este voltou para Aden em junho deste ano) no poder, também dá sinais de sobra de que a sua verdadeira escolha recai sobre o partido Islah, braço da Irmandade Muçulmana no Iémen. Tanto que o príncipe herdeiro e governante de facto da Arábia Saudita, Salman bin Abdulaziz Al Saud, já recebeu por duas vezes o líder do Islah, Muhammad Al-Yadoumi, em Riade.

Porém, os EAU têm agido praticamente no sentido inverso daquele que é um governo tanto de Hadi ou do Islah. Embora estejam tão comprometidos no combate aos houthi como os sauditas, os EAU têm apoiado facções que põem em causa o governo defendido por Riade. Primeiro, porque financiam e treinam milícias salafitas que se opõe ao governo de Hadi. Depois, porque aos EAU em nada agrada a ideia de mais um governo da Irmandade Muçulmana no Médio Oriente, dada a sua aversão crónica ao Islão político. E finalmente porque os EAU já demonstraram o seu apoio ao Conselho de Transição do Sul (CTS), grupo separatista sediado em Aden que, em 2017, declarou a independência do resto do país.

Ao apoiar o CTS, os EAU em nada facilitam os objetivos da Arábia Saudita — antes pelo contrário. “Ao apoiarem os separatistas do CTS e os seus aliados, os EAU têm, silenciosamente, construído um Estado dentro de de um Estado (falhado) no Sul do Iémen”, escreve Peter Salisbury na Foreign Affairs. O objetivo dos EAU será sempre o de pegar num Estado falhado e, depois, fazê-lo funcionar a seu favor. Até agora, pouco ou nada tem atrapalhado essa demanda.

O que querem os EUA desta guerra?

Não é claro. Embora nunca tenham negado o seu apoio militar e logístico à Arábia Saudita, que a par de Israel é o maior aliado norte-americano no Médio Oriente, os EUA sempre hesitaram em aumentar o seu envolvimento direto na guerra no Iémen — embora lancem ataques com drones naquele país, contra alvos da al-Qaeda, já desde 2002.

O papel dos EUA nesta guerra voltou a ser tema central depois de terem surgido relatos não confirmados de que a bomba que atingiu o autocarro com crianças a 9 de agosto era uma MK 82, de fabrico norte-americano. Essa informação foi avançada logo a 13 de agosto por meios afetos à Rússia (RT) e ao Irão (Press TV). A 17 de agosto, a CNN citava especialistas em munições que confirmavam que a bomba tinha origem nos EUA.

A postura dos EUA de Donald Trump no Iémen tem sido de (silencioso) apoio à Arábia Saudita. Senadores de todos os partidos pedem respostas a Trump, mas não as têm tido (MANDEL NGAN/AFP/Getty Images)

Em declarações ao Vox, o porta-voz do Pentágono, Josh Jacques, alegou desconhecimento e deixou tudo em aberto. “É possível que nunca saibamos se a munição era uma das que os EUA venderam aos sauditas”, disse. “Não temos muitas pessoas no terreno.”

Nesta guerra, à semelhança da Arábia Saudita, os EUA temem o avanço do Irão, por via dos houthis. Porém, argumenta Daniel Byman, investigador do Center for Middle East do think-tank norte-americano Brookings Institution, a atuação dos EUA no Iémen tem beneficiado, e não prejudicado, o Irão.

“O apoio dos EUA à brutal campanha militar liderada pelos sauditas criou uma crise humanitária de proporções incomportáveis, ao mesmo tempo que permite ao Irão expandir a sua influência no país”, escreveu aquele especialista num artigo na Foreign Affairs, em julho. “A intervenção militar tem garantido aos rebeldes mais apoio de Teerão e está a virar os civis contra os parceiros dos EUA.”

“Se o seu filho estivesse a disparar uma pistola no quintal e o fizesse sem critério e colocando os vizinhos em perigo, dar-lhe-ia mais balas ou menos balas? (...) É que a nossa estratégia tem sido a de dar mais bombas [aos sauditas] e não menos.”
Rand Paul, senador republicano

O envolvimento norte-americano no Iémen é alvo de críticas, e pedidos de esclarecimento, por parte de diferentes alas do Senado. Rand Paul, o senador do Kentucky eleito pelo Partido Republicano mas que é conhecido pelo seu libertarianismo, comparou, numa sessão com membros do Departamento de Estado em abril dese ano, a postura dos EUA perante a Arábia Saudita como a de um pai que não toma a melhor decisão: “Se o seu filho estivesse a disparar uma pistola no quintal e o fizesse indiscriminadamente, colocando os vizinhos em perigo, dava-lhe mais ou menos balas? (…) É que a nossa estratégia tem sido a de dar mais bombas [aos sauditas] e não menos”.

Na mesma sessão, o democrata Bob Menendez acusou a administração de Donald Trump de ter uma “alarmante falta de estratégia” — expressão que usou para o Iémen e também para a Síria — e o republicano Bob Corker sublinhou que, na aliança com a Arábia Saudita, não vale tudo: “Claro que a Arábia Saudita é um parceiro de longa data dos EUA, mas os parceiros têm de ser honestos uns com os outros”.

Para já, a administração de Donald Trump parece não querer levantar ondas junto dos seus aliados em Riade. Tanto que, assim que tomou poder, Donald Trump anulou a suspensão de venda de “bombas inteligentes” à Arábia Saudita decretada por Barack Obama nos seus últimos dias (num gesto que Daniel Byman descreveu como “o pior dos dois mundos” já que “enfureceu aliados ao mesmo tempo que não fez nada para impedir a intervenção e melhorar a situação no Iémen”). Deverá ser por aí que os EUA, sem querer abanar um tabuleiro de xadrez para o qual não querem entrar de forma óbvia, vão continuar nos tempos que se seguem.

Que fim à vista?

Em dezembro de 2017, a guerra do Iémen teve dois desenvolvimentos que apanharam o mundo (pelo menos a pequena parte que então olhava para aquele país) de surpresa.

O primeiro foi quando Saleh virou as costas aos houthis e declarou o seu apoio à coligação saudita. Daquela forma, o antigo Presidente do Iémen anulava a estranha aliança que fez com os rebeldes com quem tentou derrubar Hadi (e contra os quais lutou durante os seus últimos anos no poder) e voltava para os braços de um velho aliado. Este inesperado passo desbloqueava então, em grande parte, a situação no Iémen, já que facilitava as conversações para um hipotético processo de paz onde os houthis estariam isolados dentro do Iémen.

No entanto, nada disto demorou muito tempo — e foi aí que se deu o segundo desenvolvimento que também causou surpresa. Enquanto Saleh fugia de Sana (cidade capital, sob controlo dos houthis desde que a tomaram em 2014), um grupo de milícias houthis conseguiram pará-lo e assassinaram-no no local.

Desta forma, rapidamente se desfez a possibilidade de um enfraquecimento dos houthis que, antes pelo contrário, conseguiram desta forma estabelecer as suas prioridades sem que o volátil apoio de Saleh, o homem que dançava “em cima das cobras”, os atrapalhasse.

A ajudar os houthi está também o facto de a coligação dos sauditas com os EAU ter, no Iémen, objetivos díspares. Enquanto, por um lado, a Arábia Saudita perseguir a reposição no poder de Hadi ou até a subida do partido Islah no poder e, por outro, os EAU apoiarem os separatistas a Sul e grupos salafitas que se moldam aos seu exclusivos interesses geoestratégicos, os houthis têm todas as condições para manter uma posição de força no Iémen.

(AFP/Getty Images)

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