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Memphis Meat/ Facebook

Memphis Meat/ Facebook

Inovação. Vamos comer carne sem matar animais /premium

Uma empresa em Silicon Valley quer pôr-nos a comer carne sem matar animais. Bill Gates, Richard Branson e a Tyson Foods já investiram na Memphis Meats, que quer revolucionar a indústria alimentar.

Quando tinha 12 anos, o jovem Uma Valeti foi à festa de aniversário no jardim de um vizinho em Vijayawada, a cidade indiana onde nasceu. Acompanhado pelo pai, que era veterinário, e pela mãe, médica, Uma distraiu-se a observar meticulosamente os passos de dança dos amigos enquanto comiam tandoori de frango e caril de carne de cabra. No quintal, o cenário era mais sangrento: os anfitriões degolavam animais, um atrás do outro, para garantir que os pratos dos convidados permaneciam cheios durante toda a festa.

A imagem daquele contraste entre “a vida de um lado da casa e a morte do outro”, como descreveu à revista Inc, acompanhou-o ao longo da adolescência. Sentia-se enojado pelas doenças transmitidas através dos alimentos, principalmente por aquelas que descobriu terem origem na mistura da carne que iria ser consumida pelas pessoas com as fezes espalhadas nos matadouros onde os animais eram mortos. Mas algo impedia Uma Valeti de se limitar ao vegetarianismo: gostava demasiado de carne. Só queria que houvesse outra forma de a consumir. Como não havia, inventou-a.

Em 2016, já nos EUA, nasceu a Memphis Meats, uma empresa que cria carne sem matar animais, mas apenas cultivando células musculares em laboratório. Alguns dos investidores mais ricos do mundo — como Bill Gates e Richard Branson — já investiram nesta empresa, bem como a gigante do setor alimentar Tyson Foods.

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A receita para fazer carne em laboratório

O processo de produção de carne em laboratório pela empresa passa por três fases. Primeiro, recolhem-se células que tenham capacidade de se proliferarem rapidamente, como células estaminais de embriões ou de adultos, células satélite em músculos maduros ou de fibras musculares.

Idealmente, a Memphis Meats escolhe as células estaminais porque são as menos diferenciadas e podem ser coordenadas em laboratório para se transformarem em qualquer tipo de célula — nomeadamente as musculares, que são as que importam para este caso.

Depois, essas células são colocadas numa caixa de Petri dentro de uma incubadora e deixadas numa espécie de sopa proteica rica em glucose, vitaminas e minerais para que possam desenvolver-se livremente. E, finalmente, são transferidas para moldes de modo a crescerem de maneira a que ganhem o formato que se pretende — de uma almôndega, por exemplo. Na empresa de Uma Valeti, todo este processo demora cerca de três semanas.

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As células estaminais são células que nunca passaram pelo processo de diferenciação celular e que, por isso, são capazes de se dividir para dar origem a outras que se podem especializar em qualquer tipo de célula.

As células satélite são parecidas a estas porque se podem transformar em células especializadas, mas só podem diferenciar-se num determinado tipo — neste caso, as musculares.

E as fibras musculares são precisamente as células que compõem os músculos.

Eric Schulze, que noutra fase da carreira trabalhou no super-regulador norte-americano de tudo o que é alimentos e medicamentos (a Food and Drug Administration, ou FDA), lidera a equipa de cientistas da Memphis Meats. E as condições que estes cientistas recriam, dentro da incubadora, dependem das características do animal que doou as células musculares.

No dia em que a revista Inc visitou as instalações da Memphis Meats, uma das incubadoras da empresa estava a 41ºC porque a caixa de Petri no interior desse “forno laboratorial” tinha células de Anas platyrhynchos domesticus, o pato doméstico, no interior e essa é a temperatura corporal do animal. Vistas ao microscópio, as células parecem transparentes, alongadas e muito finas com pontos brilhantes no centro que são os núcleos: estas células são musculares e ainda estão em formação. Ao lado delas há outras mais curtas e fortes “parecidas com minhocas de goma”, descreve a Inc: são células musculares maduras. Quando todas se juntarem, formarão um tecido “que parece o céu que Van Gogh pintou em A Noite Estrelada”.

Primeiro, recolhem-se células que tenham capacidade de se proliferarem rapidamente. Depois, são colocadas numa caixa de Petri dentro de uma incubadora em condições especiais e deixadas numa espécie de sopa proteica. A seguir são transferidas para moldes. Tudo isto demora três semanas.

Este não é um milagre da vida porque aqui não há vida: só um monte de células sem sistema nervoso.

Uma Valeti, que seguiu carreira de cardiologista, disse um dia que a Memphis Meats “não cria carne em laboratório” e que é “mais como uma fábrica de cerveja”. Ele sabe bem a diferença entre uma coisa e outra: depois de se ter formado pela Mayo School of Health Sciences, Uma foi acumulando cargos desde investigador na universidade onde estudou até presidente de um dos departamentos da Associação Americana do Coração.

A primeira parte da carreira foi, de todas, a mais preponderante para os primeiros passos da Memphis Meats: enquanto cardiologista, Uma Valeti dedicou grande parte do tempo da Mayo Clinic a estudar as células estaminais. A par de Nicholas Genovese, também ele investigador de células estaminais, e do engenheiro biomédico Will Clem, Uma Valeti conseguiu marcar território num mercado que vale biliões de dólares e que pode duplicar de tamanho nos próximos 30 anos.

O Observador pediu para falar com os membros da Memphis Meats mas a equipa está, nesta fase, a tirar uma pausa no que diz respeito a atenção mediática. Isto para que os investigadores consigam focar-se a 100% em superar os obstáculos que ainda restam — sobretudo um, que é crucial (já lá iremos).

Quando vamos acabar com o “absurdo”, perguntava Churchill?

A ideia de Uma Valeti não é nova. Ainda em 1932, Winston Churchill disse que “devemos parar com este absurdo de criar um frango inteiro para só lhe comer o peito ou as asas” e que “devíamos criar essas partes em separado a partir de um mecanismo apropriado”.

A primeira vez que alguém foi capaz de originar culturas de fibras musculares em laboratório foi em 1971, pela mão do norte-americano Russell Ross, um pioneiro da investigação das artérias: no estudo, publicado no mesmo ano, o professor de patologia explica que recolheu células de músculo liso da aorta de um porquinho-da-Índia e que os deixou numa cultura proteica durante oito semanas. O estudo foi tão revolucionário que ecoou até ao início deste milénio: até a NASA, agência espacial norte-americana, tentou (e conseguiu) fazer o mesmo com células de peru para poder enviar carne produzida em laboratório para o espaço.

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Músculo liso é o tecido responsável por contrações involuntárias e lentas e fica nos órgãos que são ocos, como as veias sanguíneas, a bexiga, o útero, alguns órgãos sexuais masculinos ou o trato gastrointestinal. É graças a ele, a mando do sistema nervoso central, que o sangue circula, que a urina é expelida, que o esperma é expulso e que os fluidos do sistema digestivo operam.

Ainda assim, a história da carne in vitro só ganhou passos mais firmes em 2013, quando cientistas da Universidade de Maastricht serviram os primeiros hambúrgueres feitos em laboratório, cozinhados e, posteriormente, servidos a jornalistas que assistiam a uma conferência de imprensa: os hambúrgueres foram criados a partir de células estaminais de vaca, que depois foram amadurecidas para se tornarem musculares.

Quem cozinhou os hambúrgueres foi Richard McGeown, chef do restaurante de cinco estrelas Couch’s Great House. E os críticos gostaram: “Eu sei que não há gordura nesta carne, por isso não sabia o quão suculenta seria, mas tem um gosto bastante intenso. Está perto de carne, não é suculento, mas a consistência é perfeita. Isto é carne, na minha opinião“, escreveu Hanni Rützler, da Future Food Studio.

A ideia de Uma Valeti não é nova. Em 1932, Winston Churchill disse que "devemos parar com este absurdo de criar um frango inteiro para só lhe comer o peito ou as asas" e que "devíamos criar essas partes em separado a partir de um mecanismo apropriado".

Um investimento multimilionário

Uma Valeti garante que Memphis Meats serve carne mais aperfeiçoada, tanto que avisa muitas vezes de que os produtos desta empresa “não são vegetarianos porque o sabor é claramente o da carne”. Um dos principais investidores da Memphis Meats é a Tyson Foods, o maior produtor de carne dos Estados Unidos (responsável por um quilo de carne em cada cinco que os norte-americanos consomem).

Embora não se saiba quanto dinheiro é que a Tyson Foods investiu na Memphis Meats, sabe-se, no entanto, que todo ele vai ser encaminhado para investigação, desenvolvimento e para expandir a equipa: a equipa de 10 pessoas que atualmente trabalha no laboratório desta startup já está a crescer para as 40. É também um passo em frente para o grande objetivo a curto prazo da Memphis Meats: pôr carne feita em laboratório nas lojas em 2021.

A equipa da Memphis Meats na atualidade. Pode estar prestes a crescer para o quádruplo. Créditos: Memphis Meats

Memphis Meats

A decisão da Tyson Foods para adensar ainda mais a lista de investidores da Memphis Meats causou estranheza porque é a primeira vez que um produtor de carne entrega dinheiro a uma empresa potencialmente concorrente, que cria produtos alimentares “limpos”. Mas não há motivos para controvérsia, garante Uma Valeti: “Queremos continuar a construir alianças e a ser inclusivos. Adotar uma abordagem divisiva neste assunto não nos vai ajudar, nem a nós nem a ninguém”, garante o CEO e co-fundador da Memphis Meats.

Há outros nomes sonantes na carteira de investidores da Memphis Meat. Richard Branson, fundador do grupo Virgin, é um deles: “Estou entusiasmado por ter investido na Memphis Meats. Acredito que em 30 anos, mais ou menos, já não precisaremos de matar animais e que toda a carne será limpa ou com base em plantas, terá o mesmo sabor que a vinda de animais e que vai ser mais saudável para toda a gente”, reagiu o multimilionário numa entrevista por e-mail à Bloomberg News.

Ao lado de Richard Branson está Bill Gates, fundador da Microsoft, e a Cargill Inc., um gigante da agricultura que pretende “ir ao encontro do que procuram os consumidores, principalmente os millennials“.

“O mundo adora comer carne e isso está no coração de muitas tradições e culturas. Só que a forma tradicional com que a carne é produzida hoje em dia levanta desafios para o ambiente, para o bem estar animal e para a saúde humana. Estes são os problemas que todos querem resolver”, explicou Uma Valeti, que à conta destes e outros investidores já conseguiu amealhar 22 milhões de euros só em joint ventures.

Um dos principais investidores da Memphis Meats é a Tyson Foods, o maior produtor de carne dos Estados Unidos responsável por uma libra de carne em cada cinco que os norte-americanos consomem. O dinheiro vai ser encaminhado para investigação, desenvolvimento e para expandir a equipa.

100% carne. Mas (ainda) não 0% crueldade

Há bons motivos para fazer da Memphis Meats um negócio milionário. Em primeiro lugar, os motivos culturais: os países asiáticos, principalmente a China e a Índia, estão a consumir cada vez mais proteínas de origem animal porque estão a adotar hábitos ocidentais à mesa. E isso está a acontecer de forma tão célere que a própria empresa de Uma Valeti está a apostar todas as fichas na venda de carne laboratorial de pato na China: lá come-se mais carne desse animal do que no resto do mundo todo junto.

Em segundo lugar, a falta de rentabilidade em que se está a entrar o negócio da pecuária: embora as Nações Unidas estimem que 25% de toda a área terrestre e água fresca disponível sejam usadas para criar gado, apenas uma em cada 25 calorias que uma vaca ingere pode ser transformada em carne comestível. Tudo o resto tem de ser entregue a empresas de descarte contratadas pelos produtores para se desfazerem das cartilagens, pelos ou penas e peles, bicos e cascos dos animais mortos.

Mas o principal motivo que levou Uma Valeti a abrir a Memphis Meats não é financeira: é ambiental. Os números dizem que quase 15% de toda a emissão de gases com efeitos de estufa emitidos para a atmosfera vem da pecuária, que tem um peso maior nas alterações climáticas do que as emissões provocadas pelos transportes. Com cada vez mais pessoas a quererem comer carne, tem sido preciso sacrificar regiões gigantescas de floresta virgem e fontes de água fresca e potável para abrir espaço à exploração do gado.

O resultado é a morte dos pulmões do planeta, a seca em várias regiões do mundo, quintas com animais em condições degradantes e, por consequência, a circulação de bactérias ou vírus capazes de iniciar verdadeiras pandemias. E pode nem sequer haver medicamentos que nos protejam deles: a carne que consumimos vem de animais constantemente bombardeados com antibióticos.

De tanto a comermos, nós próprios tornamo-nos resistentes aos antibióticos, ao ponto de permitirmos que os vírus e bactérias que nos atacam evoluam para microrganismos super-resistentes à medicação. E depois vem a crueldade animal: por exemplo, há mais frangos a serem criados e depois mortos para serem comidos do que todos os outros animais terrestres em conjunto. Alguns são criados em condições degradantes: ficam confinadas a espaços tão minúsculos que nunca tocam no chão durante toda a (curta) vida.

A sopa proteica em que as células estaminais são postas para se desenvolverem é soro fetal bovino, uma fração livre de células que resta da coagulação natural do sangue. Mas esse soro fetal bovino é colhido de fetos bovinos retirados de vacas grávidas durante o abate.

As organizações defensoras dos direitos dos animais estão entusiasmadas com os planos da Memphis Meats. A The Good Food Institute, uma organização sem fins lucrativos que promove a carne de origem vegetal, diz que empresas com a de Uma Valeti “deixam imaginar um sistema alimentar onde os produtos mais deliciosos e acessíveis também são bons para o organismo e para o planeta”.

E a People for the Ethical Treatment of Animals (PETA), uma organização não governamental de proteção dos animais, disse que este tipo de mercado tem “o potencial de poupar a vida de milhões e milhões de animais por ano, melhorar o meio ambiente e reinventar a grande agricultura como a conhecemos”. Referindo-se especificamente à Memphis Meats, a PETA diz que a carne da empresa é “acima de tudo livre de crueldades”.

Mas pode não ser bem assim: resta um grande desafio à Memphis Meats para criar carne laboratorial — muitas vezes também designada por “carne limpa” — sem o envolvimento de qualquer produto que resulte de práticas menos éticas com animais. É que, na verdade, a sopa proteica em que as células estaminais são postas em cultura para se desenvolverem é soro fetal bovino, uma fração livre de células que sobra da coagulação natural do sangue e que é sujeita a centrifugação para eliminar todos os glóbulos vermelhos que ainda estejam em circulação.

Esse soro é vendido a mil dólares por litro, mas é o produto mais utilizado para alimentar culturas celulares em laboratório por ser muito rico em fatores de crescimento, como a glucose. Mas há um senão maior do que o preço: o soro fetal bovino é colhido de fetos bovinos retirados de vacas grávidas durante o abate. Normalmente, ele é retirado por meio de uma punção cardíaca sem que o animal seja sujeito a qualquer anestesia.

Ao The Wall Street Journal, Uma Valeti garantiu, porém, que a Memphis Meats está a preparar uma sopa proteica com base vegetal que eliminará a necessidade de usar o soro fetal bovino como meio de cultura das células estaminais. Essa sopa estará disponível “num futuro próximo”, prometeu. Talvez os milhões em investimento que a empresa tem recebido ajudem a superar esse obstáculo crucial.

Da cardiologia à revolução da indústria alimentar

Uma Valeti deu os primeiros passos com a Memphis Meats em mente quando estava a gozar uma bolsa de investigação da Mayo Clinic há treze anos. Nessa época, o cardiologista estava a testar uma forma de usar células estaminais para reparar danos causados por paragens cardiorrespiratórias: como essas células podem especializar-se em qualquer função, a ideia era injetá-las no coração danificado para se transformarem em células musculares saudáveis.

Foi a explorar esta possibilidade que se fez luz na mente de Uma Valeti: se as células estaminais podem resgatar o lugar de células musculares estragadas, então elas também podem ser manipuladas de modo a criar coxas de frango ou em bifes de vaca. Enquanto médico, Uma encontrou aqui uma missão: melhorar a saúde da população ao programar as células para uma função nutricional mais ajustada às necessidades das pessoas; e salvar a vida dos animais. Em entrevista à Inc, Uma Valeti chegou a dizer: “Se continuasse a ser cardiologista, talvez pudesse salvar duas ou três mil vidas nos próximos 30 anos. Mas eu foco-me nisto: tenho o potencial para salvar milhões de vidas humanas e biliões de vidas animais“.

Em entrevista à Inc, Uma Valeti chegou a dizer: "Se continuasse a ser cardiologista, talvez pudesse salvar duas ou três mil vidas nos próximos 30 anos. Mas eu foco-me nisto: tenho o potencial para salvar milhões de vidas humanas e biliões de vidas animais".

Depois de ter conhecido Nicholas Genovese, parceiro de negócio que encontrou através de um amigo da New Harvest, Uma Valeti conseguiu o apoio de Ryan Bethencourt como primeiro investidor externo da Memphis Meats. Os três tinham em comum o facto de se terem tornado vegetarianos, não por não gostarem do sabor da carne, mas por não concordarem com a forma como ela era produzida.

Enquanto diretor da IndieBio, o primeiro acelerador de startups na área da biologia sintética, Bethencourt andava há anos a tentar convencer Mark Post — o cientista que liderou a equipa que criou o primeiro hambúrguer feito em laboratório — a transferir as suas pesquisas para a empresa, mas sem sucesso. Post não quis porque, afinal, acabou por criar a MosaMeat com o apoio de Sergey Brin, co-fundador do Google. Mas Uma Valeti estava disponível.

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A New Harvest é uma organização sem fins lucrativos que promove o desenvolvimento de tecnologias para combater a insegurança alimentar e as preocupações ambientais e éticas relativas à produção de gado.

Demorou três meses até que a equipa tivesse preparada em laboratório a primeira almôndega: desde setembro de 2015 até janeiro do ano seguintes, a Memphis Meats esteve e aprender a preparar culturas de células musculares de vaca com uma pitada de colagénio (composto da pele), ligamentos e compartimento fascial (músculo envolvido em tecido fibroso), que são os produtos que dão o sabor à carne.

Vinte anos depois de ter parado de comer carne, Uma Valeti garante que ainda reconhecia naquela almôndega, que agora demora apenas três semanas a estar feita, o sabor que apreciava na infância.

Tudo bem, não fosse o problema da carteira: esta almôndega é demasiado cara. A carne de pato custava 18 mil dólares por libra, embora o valor já tenha baixado para menos de metade. À Inc, Uma Valeti disse que pretende que esse valor baixe mil dólares, a cada mês. Isso pode demorar muito tempo mas, para o diretor da IndieBio, não é impossível: “Não é uma loucura pensar que um dia pode criar-se carne por dois dólares à libra. A certa altura, podemos substituir toda a indústria da carne. Em 20 anos, acho que as pessoas vão achar bizarro criar e depois matar um animal“, disse Ryan Bethencourt.

Uma almôndega produzida em laboratório pela Memphis Meats. Créditos: Memphis Meats

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Concorrência de peso

Mas a abordagem de Uma Valeti não é a única na luta para mudar o mercado alimentar nas próximas décadas. Um dos seus concorrentes mais diretos é a Impossible Foods, uma companhia norte-americana que produz carne e lacticínios em laboratório utilizando apenas as propriedades das plantas: os hambúrgueres, especialidade da marca, são tão parecidos com carne que até sangram quando são levados à grelha. Porquê? Porque a Impossible Foods passou cinco anos a descobrir que as propriedades que reconhecemos na carne — o sabor, o aspeto e o cheiro — são responsabilidade de uma molécula com ferro que se chama hemo e que existe tanto nos animais como nas plantas.

Nos animais, ela agarra no oxigénio armazenado dos pulmões e depois transporta-o ao longo de todo o organismo, embora seja muito abundante principalmente nos músculos. Nas plantas, principalmente nos legumes que armazenam oxigénio e azoto, o hemo também existe e é transportado através de uma proteína chamada leg-hemoglobina: como o heme encontrado nas plantas é perfeitamente igual, a nível molecular, do encontrado nos animais, a Impossible Foods aprendeu a extraí-lo da soja e a utilizá-lo em laboratório.

A Impossible Foods descobriu que o sabor, aspeto e cheiro da carne são responsabilidade do hemo. O hemo que existe em animais e em plantas é igual, por isso a Impossible Foods aprendeu a extraí-lo da soja para fazer carne com base vegetal.

Sim, sabemos no que poderá estar a pensar: se a Impossible Foods contasse apenas com as plantações de soja para criar carne em laboratório, o problema que resolveria no mundo animal seria transferido para o mundo vegetal, que ficava ameaçado com um excesso de exploração. Foi por isso que a empresa de Pat Brown, um bioquímico que passou 18 meses sabáticos como protesto contra os métodos utilizados na indústria pecuária, encontrou uma forma de obter hemo sem saturar os campos de soja.

Agora, a Impossible Foods extrai ADN das células que compõem as raízes da soja e depois transfere essa informação genética para uma levedura para passar por um processo de fermentação semelhante ao que dá origem à cerveja. Estas técnicas de engenharia genética chamaram a atenção de investidores tão sonantes como (outra vez) Bill Gates, a Temasek ou a Khosla Ventures, que juntos já amealharam 75 milhões de dólares para investimento nesta empresa. E também conquistou o Saxon+Parole, um restaurante premiado com estrelas Michelin que já introduziu a carne da Impossible Foods no cardápio.

A Impossible Foods disse em julho de 2016 que os seus métodos utilizam menos 95% de massa terrestre, gastam menos 74% de água fresca e emitem menos 87% de gases com efeitos de estufa do que os métodos tradicionais. Mas não é a única a publicar resultados brilhantes: a Finless Foods, uma companhia de biotecnologia que cria peixe em laboratório, está a prometer resolver o facto de 53% dos recursos haliêuticos já estar explorado, mas o consumo continuar a aumentar.

“Esta escassez de carne de peixe significa que o preço permanecerá num curso ascendente, colocando a proteína vinda de peixe saudável fora do alcance de todos, com exceção para os consumidores mais ricos. A poluição do oceano também tem feito com que metais pesados como mercúrio se acumulem nos peixes, limitando as quantidades de consumo recomendadas dessa fonte de energia. A pesca está a matar o nosso planeta“, explica a marca no site Finless (cujo nome pode ser traduzido por alimentos sem barbatana).

O que a Finless Foods decidiu fazer é em tudo semelhante à técnica da Memphis Meats: ela recolhe células da carne do peixe, mergulha-as numa sopa nutritiva e recria o peixe em laboratório. Apesar da concorrência pesada — que inclui outras empresas de Silicon Valley como a Mosa Meat e a Hampton Creek –, Uma Valeti não está preocupado com o sucesso da Memphis Meats: há mercado para todos. Dentro de trinta anos, a população mundial vai chegar aos nove mil milhões e simplesmente não vai haver recursos animais para tanta gente.

“São de facto precisas mais empresas para, a par da Memphis Meats, combaterem o flagelo”, acredita Uma Valeti.

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O mais provável é que a Memphis Meats seja regulada pela Food and Drug Administration (FDA) em primeiro instância para avaliar a qualidade da carne em cultura. A seguir, o produto e a forma como é processada serão inspecionados pelo Food Safety & Inspection Service.

Entretanto, as entidades reguladoras dos produtos alimentares nos Estados Unidos estão atentas a estas substâncias: a American Food and Drug Administration (FDA), uma espécie de ASAE norte-americana, aprovou o hemo utilizado pela Impossible Foods e considerou-a “segura para consumo” em 2014; e a Memphis Meats ainda não foi sujeita a regulação porque a lei não é clara sobre que tipo de entidade pode regular uma carne que não tem origem animal. Mas há outra questão que se impõe — e que pode ser a mais preponderante — para avaliar qual é o futuro deste mercado: estão os vegetarianos por convicção, os judeus e muçulmanos ou os fãs de documentários como “Cowspiracy” disponíveis para reintroduzir (est)a carne nas suas dietas?

Da religião ao culto da natureza. Quem vai comer “carne limpa”?

Segundo o Centro da Comunidade Judaico, os judeus não comem carne de porco por causa da leitura que fazem do capítulo 14 do livro de Deuterónimo da Torá: “Todo o animal que tem unhas fendidas, divididas em duas, que rumina, entre os animais, aquilo comereis. Porém estes não comereis, dos que somente ruminam, ou que têm a unha fendida: o camelo, e a lebre, e o coelho, porque ruminam mas não têm a unha fendida; imundos vos serão. Nem o porco, porque tem unha fendida, mas não rumina; imundo vos será; não comereis da carne destes, e não tocareis nos seus cadáveres”.

Menachem Genack é rabino e líder da divisão kosher da União Ortodoxa, a maior agência de certificação kosher do mundo, que decide à luz da religião o que pode ou não pode ser comido pelos judeus. Em entrevista à Quartz, Genack disse-se “entusiasmado” com os avanços científicos que estão a ser feitos no sentido de tornar a carne laboratorial uma realidade no mercado em pouco tempo: “Estou maravilhado. A indústria do gado e a indústria da carne parecem estar a ser completamente transformadas”.

Mas ainda há barreiras: por exemplo, os judeus acreditam que um prato de frango desfiado só poderia ser considerado kosher se as células levadas para laboratório fossem colhidas de um animal abatido de acordo com as regras desta religião: de acordo com a União Ortodoxa, o ritual — shechitá — deve ser orquestrado por uma pessoa apta depois de orar a Beracha. Essa pessoa teria de degolar o frango e romper-lhe as artérias carótidas e veias jugulares sem atingir as vertebras cervicais, de modo a que o animal largue o máximo de sangue possível de uma vez, para que não sofra mais. Esse ritual tem de ser feito com uma faca muito afiada chamada chalaf. Depois, a carne é inspecionada e mergulhada em água para eliminar o máximo de sangue possível: só é considerada kashal aquela que tiver poucos vasos sanguíneos e nervos. Toda a carne que não obedecer a estes princípios passa a chamar-se tarêf e não pode ser consumida pelos judeus.

Os muçulmanos também estão proibidos de comer carne de porco, exceto se a vida de uma pessoa depende de a tomar. O que está religião determina, segundo a interpretação feita do Alcorão, o que está expresso nestas frases: “São-vos proibidos o animal morto (que morreu de morte natural), o sangue, a carne de porco, os animais que foram degolados sob a invocação de outro nome fora de Alá, os animais estrangulados até à morte, os mortos por espancamento, os mortos devido à queda ou dilacerados e mortos por chifres, os devorados (despedaçados) por um animal carnívoro, excepto os que são degolados ritualmente ainda com vida. São-vos proibidos também os animais sacrificados para os ídolos”.

O Islamismo acredita que a carne de porco não pode ser consumida porque é um animal que vive na imundice e, por isso, a carne é considerada impura.

Chernor Saad Jalloh, imã do Centro Cultural Islâmico de Nova Iorque, está mais cético do que os muçulmanos em relação à carne de laboratório: “Isto é uma novidade para nós, é algo em que nunca pensámos. E não é algo que possamos encontrar no Alcorão”. Também os muçulmanos têm um método particular para matar animais se os quiserem comer, o Zabihah. Antes do abate, uma pessoa conhecedora do Islamismo tem de dizer a frase: “Em nome de Alá, o mais bondoso, o mais misericordioso”. Depois, essa pessoa deve utilizar uma faca afiada para fazer um corte profundo que atinja a traqueia, o esófago, as artérias e a veia jugular: assim, o sangue do animal é escoado e o animal não sofre. Todo o processo é acompanhado por inspetores que, conhecendo a lei Sharia, podem rotular a comida de halal, isto é, apta para ser consumida por muçulmanos.

Esta carne pode não convencer os muçulmanos ou os judeus porque ambos acreditam que só pode ser comida se o animal tiver sido morto de acordo com regras religiosos. Se não há sacrifício de um animal, "é difícil de decifrar" se a carne limpa pode entrar na dieta.

À Quartz, Chernor Saad Jalloh diz que “há um longo caminho pela frente” antes de discutir se a carne laboratorial pode entrar na dieta dos muçulmanos: “Acredito que os muçulmanos praticantes vão ficar longe dessa carne durante um período de tempo”. Até mesmo a carne que não envolve a utilização de células de porco pode não convencer os muçulmanos ou os judeus porque ambas as comunidades acreditam que a carne que consomem só pode ser tomada se o animal tiver sido morto de acordo com regras religiosos muito específicas: se não há sacrifício de um animal, “é difícil de decifrar” se a carne limpa pode entrar na dieta dos praticantes dessas religiões, explica Aly Ghanim, gestor da Câmara de Comércio halal dos Estados Unidos.

A The Good Food Institute, grande aliada das startups na área da comida laboratorial, é quem está mais afincada para convencer muçulmanos e judeus de que esta carne tem um lugar na dieta de quem segue estas convicções religiosas — até porque há muito dinheiro envolvido: o mercado kosher vale 24 mil milhões de dólares a nível global e o halal vale 1,6 biliões de dólares.

Mas há alguma ironia nesta batalha: às pessoas que não se regem por motivos religiosos, as empresas comunicam que a carne é “igual à convencional a nível molecular”, mas para os crentes a mensagem tem de ser que a carne laboratorial não é carne convencional.  Como essa luta se tem mostrado infrutífera, a The Good Food Institute tem uma carta da manga: criar uma linha especial de produtos só para as pessoas que não comem carne (ou que limitam o tipo de carne que comem) por motivos religiosos.

De acordo com uma investigação feita pelos cientistas da New Harvest, uma solução pode ser criar carne a partir de linhas celulares imortais, uma população de células que, por causa de mutações, não param de se proliferar. À conta disso, podem ser mantidas em laboratórios para efeitos experimentais, mas essas mutações também podem ser induzidas em células normais por cientistas.

Como os muçulmanos e os judeus só consideram comer carne limpa se as células que lhe dão origem tiverem vindo de animais abatidos, a solução pode passar por recolher essas linhas celulares de animais mortos de acordo com as regras religiosas e depois mantê-las numa proliferação ad eternum dentro das incubadoras, mantendo assim a missão de salvar milhões de animais. Se assim for, o Menachem Genack disse sentir-se “inclinado a abençoar” a carne limpa.

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