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Ira von Fürstenberg. Os romances, os divórcios, e os filmes da princesa rebelde do jet set /premium

"Ira: The Life and Times of a Princess" é a fotobiografia que revê o trajeto da antiga "modelo, atriz, princesa, socialite, mãe e designer de jóias", que em 1968 esbanjou estilo em Cascais.

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Metade austro-húngara, metade Agnelli, princesa por inteiro, a mais moderna das altezas sereníssimas. Virginia Carolina Theresa Pancrazia Galdina von Fürstenberg, ou simplesmente Ira, a bela aristocrata que aos 26 anos somava dois casamentos, dois filhos e dois divórcios. Aos 78 anos, e a partir de Roma, os mais de 180 centímetros de altura da antiga modelo, atriz, socialite, designer de joias e relações públicas do criador italiano Valentino Garavani travam uma derradeira luta, agora com a balança. “Sou muito gulosa”, admitiu a celebridade que nos anos 60 aterrou em Portugal com a então esbelta figura para agitar as águas na exclusiva festa Patiño, e que até hoje não dispensa a maquilhagem na hora de dar uma entrevista.

É natural que uma vida como a sua dê um livro, ou mais que um, neste caso, e que permita lavrar outros tantos. “Ira –The life and times of a princess”, uma fotobiografia, é lançada a 17 de junho, com autoria de Nicholas Foulkes, uma autoridade em arte, história, viagens de luxo e produtos culturais para a eternidade, e que colabora regularmente com a Vanity Fair, The Rake e com o Financial Times. Em 2013, lançou a luxuosa edição com selo Assouline, “Swans – Legends of the Jet Set Society”, sobre as figuras femininas que foram o epítome do glamour no século XX, popularizadas por Truman Capote.

Fluente em sete línguas, a princesa lançara já em 1995 “Princesa e Rebelde”, uma autobiografia. Em 1982, reuniu mesmo num volume algumas das mulheres mais graciosas do mundo e distribuiu lições de beleza em “Bela em qualquer idade”.

É glamouroso quanto baste que a nossa história dê uma boa narrativa impressa. Mas a eternidade acontece quando constamos do diário do artista que melhor resumiu a busca pela fama instantânea, mesmo que figuremos naquelas páginas como um exemplo de um certo fracasso. “Ira disse: daria uma ótima mãe no palco”, recordava a 10 de novembro de 1977 o próprio Andy Warhol em “The Andy Warhol Diaries”, depois de um jantar com Fürstenberg, que “queria um green card — todos querem um green card” e que “sempre quis ser uma estrela de cinema”, figurando “em filmes que não tiveram grande sucesso”. Talvez porque a realidade batia aos pontos qualquer ficção.

O casamento de sonho em Veneza

Em 17 de setembro de 1955, uma adolescente Ira que crescera entre palácios húngaros e uma das maiores fortunas italianas, dos Alpes à Côte d’Azur, fornecia os ingredientes mágicos para a primeira página da Paris Match, num passeio de gôndola, em Veneza. Aos 14 anos, a filha do príncipe Tassilo zu Fürstenberg e de Clara Agnelli estava já prometida ao príncipe Alfonso de Hohenlohe-Langenburg (1924–2003), então muito mais velho, com 31 anos. Ira tinha 15 quando foi formalizada a união com o fundador do Marbella Club, o destino de férias do jet set na Costa do Sol, herdeiro de propriedades em Espanha e no México, que em 1947 passeava no seu Rolls Royce quando parou para um piquenique na zona, se deixou encantar pela pequena vila de pescadores, e ali viu bom cenário para a urgente revitalização da fortuna da família, encomendada pelo pai, acabando a vender lotes a amigos influentes com apelidos com Rothchild e Thyssen.

Por todas as razões, a união com Ira foi um dos primeiros grandes eventos depois do fim da II Guerra Mundial. “Casei-me jovem porque não gostava de estudar”, justificaria a princesa em entrevista, muitos anos mais tarde, recordando os galanteios de Alfonso, o facto de se ter apaixonado de verdade, e de como o matrimónio era o destino mais óbvio para uma rapariga daquela época. O compromisso trouxe uma vida social intensa e a rebeldia e fuga aos condicionalismos rapidamente se faria notar. Trouxe também dois filhos, Christoph Victorio Egon Humberto, ou Kiko (1956-2006), e Hubertus Rudolph (n. 1959), músico e fotógrafo que alinhou na equipa de esqui mexicana em diferentes Olimpíadas.

Com o irmão, Egon, e o primeiro marido, Alfonso, em setembro de 1955 © DR

Muitas fotos e poses, mas pouca intimidade a dois. Até que um dia, numa festa, conheceu e apaixonou-se por outro homem e deu origem a um desfecho nada fácil, com Alfonso a levar consigo os filhos para Marbella à revelia materna e a garantir a guarda das crianças. O divórcio chegaria em 1960 e o matrimónio seria mesmo anulado em 1969. Mas aquela década dificilmente esquecerá os três dias de festa, ou o desfile de diamantes, colares de pérolas e casacos de peles.

“Baby”, o playboy internacional e a vida no Brasil

O Brasil não esquece a passagem do furacão Ira e há desde logo um bom motivo para isso. Francisco “Baby” Pignatari (1916–1977), napolitano filho de mãe brasileira, o segundo marido da princesa, era um industrial que geria a terceira maior empresa do Brasil, com um historial tão bom ou melhor que o dela. Em 2016, a The Rake, essa “voz moderna de uma elegância clássica”, reconstituía uma vida feita de conquistas sexuais e Cadillacs espatifados. Eis Pignatari, ao leme de um barco, aos comandos de um avião, ou numa das oito suites alugadas no hotel George V, tudo para impressionar mais uma conquista.

O caso é descoberto quando se encontravam em Florença, iniciando-se toda uma batalha judicial. Poucos meses depois, na Cidade do México, chegam a ser presos e interrogados face a uma denúncia de adultério, com Baby a atirar ao então rival Alfonso “Posso não ter um título, mas ao menos tenho honra”, acusando-o ainda de ter vendido à imprensa europeia imagens reveladoras de Ira. Quanto à princesa, acabaria por abdicar da guarda dos filhos a troco da retirada da queixa de adultério. Casaram-se em Reno (era o terceiro casamento de Francisco), no Nevada, EUA, em 12 de janeiro de 1961 — mas, mais uma vez, a história não foi além desse janeiro de 1964, quando se divorciaram em Las Vegas, sem descendência em comum.

Com Francisco 'baby' Pignatari na estação de Waterloo, a caminho de Nova Iorque via Southampton, 20 de abril de 1961 © Keysto

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A brevidade da relação não impediu a mudança de Ira para São Paulo. Com Baby, ergueu a famosa mansão no Morumbi com tochas sempre acesas à porta. Enquanto o marido trabalhava, a princesa corria os antiquários da cidade em busca dos melhores achados para decorar a nova residência ao estilo colonial. O estrondo foi de tal ordem que a fonte das colunas sociais não esgotava. Em fevereiro de 1961, Ira fazia furor na capa de O Cruzeiro, uma das mais proeminentes revistas ilustradas da história da imprensa naquele país, lançada no Rio de Janeiro em 1928 por Assis Chateaubriand. Na qualidade de madrinha de uma tela de Gauguin, a princesa Ira Pignatari, como era conhecia no Brasil, teve direito a quatro páginas. Não voltaria a passar pelo altar, apesar da lista de possíveis envolvimentos depois do último divórcio ser extensa, e incluir nomes como Roger Moore ou Alain Delon.

A estrela de cinema que só brilhou no lado B

Comédias light com a devida dose de erotismo. A silhueta invejável acompanhou a ascensão da estrela de filmes europeus série B na ida década de 60 e cativou a objetiva de mestres da fotografia como Cecil Beaton e Helmut Newton. Entre a Cinecittá e o Brasil, do empurrão do produtor Dino di Laurentiis, que a desafiou para a estreia, até ao outro lado do Atlântico, Ira ocupou o ecrã até aos anos 80.

Em 1967 estreia-se em “Sem Rival” (com Peter Lawford) e “Como matei Rasputine”. Em novembro desse ano, o The New York Times publica o seu veredito: “Uma legítima figura da realeza, a princesa Ira Fürstenberg desempenha o papel de uma insípida mulher fatal. Talento à parte, ela é muito atraente”.

A princesa e o turbante na estreia de "Matchless", em Roma, em maio de 1968 © Keystone/Hulton Archive/Getty Images

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Em 1968, juntava-se a Patrick O’Neal na estreia de “Matchless”, seguindo-se “Capriccio all’italiana”, e ainda títulos como “A Batalha de El Alamein”. Em 1970, o ano em que apresenta o Festival de San Remo, surge em “Não Desejarás o Vizinho do Quinto” e, sete anos depois, é no Pantanal que rodaria “Desejo Selvagem”, de David Cardoso. Remonta a 1982 a sua derradeira participação, na fita “Plus beau que moi, tu meurs”, de Philippe Clair.

No armário de Ira, a madrinha da ascensão de Lagerfeld

Mais do que uma crónica pessoal, o álbum em breve disponível promete “retratar o charme e sumptuosidade de uma era perdida”, pelo prisma da realeza europeia, do velho cinema italiano, da alta-costura e ainda das festas no seu expoente máximo. Não por acaso, em 1966, Gloria Emerson ensaia todo um artigo para o The New Yor Times sobre o estilo da estrela. “Her Closets Brim With Fashion: Princess Virginia Ira von und zu Fürstenberg”, viaja nesse distante dia 14 de abril ao precioso guarda-roupa de Ira.

A princesa viria a ser cunhada da designer Diane von Fürstenberg, outro vulto da moda, que se casou com um dos seus dois irmãos, Egon. É pública a relação distante que sempre mantiveram, escudada numa conveniente distância geográfica, já que Diane vive nos EUA. “Não aprecio o seu estilo”, terá mesmo confessado, sem grandes cerimónias, a rebelde de ascendência germânica, criticando os “maus acabamentos” das roupas.

Uma das relações mais frutíferas envolve o nome do recém-desaparecido Karl Lagerfeld, com quem Ira manteve uma amizade muito próxima. Conhecera o designer alemão nos anos 70 e funcionou como mestre de cerimónias nessa decisiva apresentação do kaiser da moda à alta sociedade e aos investidores. “Conhecemo-nos em Paris quando ele trabalhava para a Chloé”, recordou à revista Tatler. “Nunca o ajudei com as suas criações mas por vezes dava-lhe algumas ideias. Talvez tenha tido uma ou outra carteira ou pulseira que o tenha inspirado para copiar mais tarde”, revelou sobre essa afinidade que rapidamente cresceu. Karl passava temporadas na vila suíça da princesa no Lago Genève e em troca Ira passava o Natal com o designer em Paris. Juntos viajaram para Nova Iorque e sempre que Ira aparecia na Chanel da Rue Cambon, Lagerfeld não poupava nos mimos e presentes.

As festas, os VIPs e o regresso à aristocracia depois dos filmes

Os cartões de boas festas podem chegar com um atraso de meses mas os amigos de Ira garantem que os convites para as festas sempre primaram pela pontualidade. Podem surgir do nada e exigir um voo relâmpago para um destino exótico mas tudo isso faz parte do charme natural. Ainda segundo a Tatler, “nem a erupção de um vulcão islandês pode interromper a elegância e originalidade dos seus planos”. É natural que os convivas se acotovelem para marcar presença num certame promovido por alguém que jantou com Reagan, dançou com Sinatra, se mantém na lista de convidados regulares do príncipe Carlos, e que esteve na calha para suceder a Grace Kelly enquanto companheira do príncipe Rainier do Mónaco. Os rumores circularam em 1987 depois de as revistas cor-de-rosa terem apanhado a dupla de férias, e levariam a princesa Margarida de Inglaterra a partilhar um soundbite memorável sobre a possível candidata: “Uma rapariga grande demais para um país tão pequeno”. A pressão de tanto burburinho terá levado o príncipe a desistir desse passo, apesar de ambos se terem apressado a desmentir as fofocas, confirmando sim a forte amizade que os unia.

O asfalto de Cascais talvez ainda se lembre de quando um Mercedes branco se inscrevia naquela que ficou conhecida como uma das noites mais longas da charmosa vila. Ira tinha 27 anos e o romance com Paolo Marinotti, um dos industriais mais ricos de Itália, não passou despercebido às páginas do Diário Popular, que recuperou o currículo amoroso (“Casada aos 15 anos, mãe aos 16 e divorciada aos 20) e descreveu um peculiar episódio em solo nacional, quando o casal se juntou a uma legião de convivas sonantes, de Zsa Zsa Gabor a Audrey Hepburn, para a “festa do século” oferecida em 1968 pelo milionário boliviano Antenor Patiño. Um carro de repórteres portugueses pouco rodados nas andanças de paparazzi persegue o casal quando este abandona a todo o gás o restaurante Pescador. Eis senão quando Marinotti trava, abre a porta do carro e aborda os jornalistas, que temeram uma repreensão. Afinal de contas, o namorado de Ira só queria saber o caminho para o Van Gogo, a discoteca da moda. Com grande alívio, os repórteres “passaram para a frente e levaram‐nos à boîte”, descrevia o jornal.

A trágica perda do filho e o design de peças únicas

Em 2006, já afastada do cinema, Ira vive um verdadeiro filme de terror, que nem a sua rede de influências conseguiu travar. O filho mais velho, Christoph, morre aos 49 anos na prisão central de Banguecoque, depois de ter sido preso por falsificar o seu visto de permanência na Tailândia. Com a saúde previamente abalada por uma perda de peso num centro de bem estar daquele país, Kiko não resistiu a uma falência massiva dos órgãos vitais poucos dias depois da entrada na sua cela.

No desfile Atil Kutoglu no outono de 2005 na Olympus Fashion Week em Bryant Park, Nova Iorque © Thos Robinson/Getty Images

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Por esta altura, Ira é uma dedicada designer de volta dos materiais nobres que dão vida às suas criações. Do quartzo ao cristal, do ouro ao coral, criava à época mais de 120 peças por ano, fasquia que terá subido na década mais recente, à conta de uma série de exposições, de Monte Carlo a Veneza. A inclinação artística convertida em negócio terá despontado quando a princesa recebeu um convite para o Natal da princesa de Hyderabad, Esra Jah. Ira não quis aparecer com um previsível artigo da Tiffany ou Cartier, decidindo-se a criar as suas próprias peças, únicas. Ainda com o apoio do amigo Rainier, a sua primeira coleção debutou no Mónaco e em 20 anos soma mais de 2.000 peças, muitas delas exibidas em museus como o Bagatti Valsecchi, em Milão, ou o Jacqmart-André, na capital francesa. Dos vasos aos crucifixos, as obras refletem as inúmeras viagens da alteza, de Madagáscar ao Nepal, que em tempos chegou a manter um antiquário em Londres.

Em 2015, ao Asian Morning Post, von Fürstenberg recupera as origens privilegiadas e o crepúsculo de uma era dourada, evocando ainda as rivalidades com outra figura mítica e sex symbol, Gina Lollobrigida (“talvez tenha inveja por ser mais baixa que eu”), e o facto de ser a única da família que trabalha. “Tive muita sorte. Trabalhei com todas as grandes estrelas, com Marcello Mastroianni e Anthony Quinn, e foi um período magnífico. Penso que hoje os filmes têm menos glamour. Mas o glamour atualmente também é diferente. São miúdas com cabelos esquisitos, muito diferentes das estrelas chiques que conheci. Talvez a simplicidade seja o novo glamour”, admite Ira, preservando a fotogenia de outros tempos, a mesma que convenceu a mítica editora de moda da Vogue e Harper’s Bazaar, Diana Vreeland, que a coroou com uma das ilustres entre a “beautiful people” dos anos 60 e 70, e que a destacou em editoriais, adornada com chinchilas douradas e joias Napier.

Ira com Pier Luigi Pizzi no Museo Correr, em 2018 © DR

Irá terá passado boa parte da recheada vida dividida por duelos dignos da fauna onde nasceu e sempre se movimentou, como decidir entre Gstaad e St Moritz na hora de eleger a estância de esqui mais apropriada, eterno dilema de poucos eleitos. Um pouco à semelhança do embate Cartier/Bulgari quando o assunto é a joalharia. “É tudo igual se for a qualquer uma delas”, resumiu, para logo contrapor a singularidade das suas peças. “Toda a gente me começou a pedir para fazer mais. Mas não sou uma fabricante de joias. Quero criar um nicho diferente e é por isso que é tão difícil. Também é por isso que é divertido e especial”, acrescentou nessa entrevista.

Um dos detalhes com mais sumo estaria reservado para uma outra leva de perguntas e respostas, agora em 2018, à Art Barhain a propósito de uma mostra de von Fürstenberg. É um privilégio raro poder comprar um Picasso. Agora imagine quando um Picasso nos quer comprar a nós (ainda que falemos apenas de Bernard, neto do mestre malaguenho, um dos clientes do trabalho da diva). Mas foi isso mesmo que aconteceu. “Comprou três peças. É sempre bom ter um Picasso a colecionar o nosso trabalho”.

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