James O’Shaughnessy. Que ações são desvendadas pela sua estratégia estatística?

19 Novembro 2015

O gestor de fortunas afirma que os investidores estão a seguir o indicador errado. O guru estudou várias estratégias ao longo de décadas para descobrir a que mais rende. Descubra as ações certas.

James O’Shaughnessy teve a sorte de crescer numa época em que o uso dos computadores estava a nascer. Quando ainda era um jovem, o futuro guru compilava informação estatística manualmente sobre as trinta empresas que compunham o índice Dow Jones Industrial Average. Trinta empresas era o seu limite.

“Imagine-se num quarto com os relatórios trimestrais de 1.600 empresas. Assumindo que cada um dos 6.400 relatórios [publicados durante um ano] tem cerca de um terço de centímetro de espessura, empilhá-los criaria uma torre de 21 metros de informação”, resumiu O’Shaughnessy no seu primeiro livro, “Invest Like the Best: Using Your Computer to Unlock the Secrets of the Top Money Managers”, publicado em 1994.

Com a comercialização dos primeiros computadores, o gestor de fortunas conseguiu concretizar o desejo de estudar historicamente múltiplas estratégias de investimento que usam rácios bolsistas, informação contabilística e evolução das cotações. Aliás, o seu primeiro livro foi também um dos primeiros a ser acompanhado por uma disquete com uma aplicação de seleção de ações.

Uma patente para investir

Na década de 1990, James O’Shaughnessy, confiante no seu método de investimento, solicitou o registo de uma patente na “área do uso de um computador para selecionar ações de empresas como investimento”. Esta é a primeira página da patente 5.978.778, atribuída a O’Shaughnessy há 16 anos.

Crédito: USPTO.

Ao contrário da visão corrente entre os investidores desde Benjamin Graham, o rácio preço-lucros não era o mais capaz de detetar as ações mais rentáveis no longo prazo, mostrou a investigação de James O’Shaughnessy, que foi compilada num livro em 1997, “What Works on Wall Street: A Guide to the Best-Performing Investment Strategies of All Time”, e deu origem a uma patente registada pelo guru da bolsa.

“De todas as ideias que testou, qual é a que funciona melhor?”, perguntou o jornalista da revista Kiplinger’s a O’Shaughnessy em 1998, após a segunda edição de “What Works on Wall Street”. “Comprar ações baratas em recuperação. Em particular, comprar ações com os mais baixos rácios preço-vendas”, resumiu o guru. “Funciona muito melhor do que o rácio preço-lucros”, reforçou.

Espírito quantitativo

O estudo de James O’Shaughnessy, que, com a mais recente revisão, analisou o desempenho de estratégias em 90 anos de bolsa, abalou a indústria da gestão de ativos.

Depois de se formar em Economia, O’Shaughnessy trabalhou durante dois anos no negócio da família, mas depressa decidiu que queria estar perto da bolsa. Em 1988 lançou a O’Shaughnessy Capital Management, que prestava consultoria a fundos de pensões e fundações na gestão do património. Em 1996, criou os seus dois primeiros fundos, o Cornerstone Growth e Cornerstone Value, mas, em 2000, vendeu esse negócio à Hennessy Advisors, que continua a geri-los seguindo as estratégias do guru norte-americano.

Em 2001, a O’Shaughnessy Capital Management foi incorporada no Bear Stearns como unidade especialista de gestão quantitativa de ativos. James O’Shaughnessy ficou no Bear Stearns até ao banco de investimento sinalizar a sua instabilidade, fruto da crise financeira global. Saiu em 2007, mas não foi de mãos a abanar: com a sua equipa, levou um quinto dos clientes de gestão de patrimónios e formou a O’Shaughnessy Asset Management.

A O’Shaughnessy Asset Management usa as descobertas do seu fundador e presidente na gestão de fortunas, mas também de fundos de investimento, que, todavia, não estão disponíveis aos investidores portugueses. No entanto, os resultados públicos não têm sido surpreendentes.

Fundos O’Shaughnessy longe de superiores
A agência de avaliação de fundos Morningstar diz que os produtos geridos por James O’Shaughnessy ou seguindo os seus ensinamentos são medianos ou estão entre os piores do mercado norte-americano.
Fundo Rentabilidade anualizada Indicador de risco Classificação Morningstar
1 ano 3 anos 5 anos 10 anos
Geridos por James O’Shaughnessy
O’Shaughnessy All Cap Core -0,09% 15,78% 12,19% n.a. Médio ★★★
O’Shaughnessy Enhanced Dividend -17,63% 0,89% 2,23%  n.a. Médio
O’Shaughnessy Small/Mid Cap Growth 0,98% 13,76% 9,64%  n.a. Inferior à média ★★★
Geridos usando a estratégia de James O’Shaughnessy
Hennessy Cornerstone Growth Investor 1,76% 16,94% 12,81% 3,33% Elevado ★★★
Hennessy Cornerstone Value Investor -5,53% 10,40% 9,48% 6,06% Inferior à média ★★★
Fonte: Morningstar. Rentabilidade anualizada bruta em dólares norte-americanos. Classificação ente ★ (mínimo) e ★★★★★ (máximo). n.a. = não aplicável. 13 de novembro de 2015.

Talvez o guru tenha caído nos erros contra os quais alertou os seus leitores. “‘What Works on Wall Street’ mostra que a única maneira de bater o mercado é usar consistentemente uma estratégia sensata de investimento. Setenta por cento dos fundos seguidos pela Morningstar falham em bater o índice S&P 500 em quase todos os períodos de dez anos”, escreveu no seu segundo livro.

James O’Shaughnessy defende que os investidores que não conseguem controlar as suas emoções quando investem na bolsa devem optar por fazer um investimento indexado, como através de um fundo de índice.

Neste artigo, o Observador encontrou 25 ações seguindo uma estratégia simplificada do método desenvolvido por O’Shaughnessy. É o sétimo de dez artigos sobre carteiras de gurus da bolsa, que publicaremos até dia 10 de dezembro.

Estratégias de bolsa
Depois de O’Shaughnessy, falta publicar as carteiras de três gurus – Joel Greenblatt, John Neff e David Dreman– até ao dia 10 de dezembro.
Guru Data de publicação
Warren Buffett 8 de outubro
Benjamin Graham 15 de outubro
Peter Lynch 22 de outubro
Joseph Piotroski 29 de outubro
William O’Neil 5 de novembro
Martin Zweig 12 de novembro
James O’Shaughnessy 19 de novembro
Joel Greenblatt 26 de novembro
John Neff 3 de dezembro
David Dreman 10 de dezembro

Seguir o guru estatístico

Aos 55 anos, James O’Shaughnessy é um investidor com um perfil muito público. Quem quiser saber o que o guru anda a comprar e a vender, não precisa de investigar muito.

Para começar, a O’Shaughnessy Asset Management tem de relatar periodicamente a composição dos seus fundos. No início de outubro, as três principais participações do seu maior fundo, o O’Shaughnessy All Cap Core, eram as ações da retalhista Home Depot, da seguradora Travelers Companies e da construtora de aviões Boeing.

James O’Shaughnessy no programa “Squawk Box” da CNBC quando recomendou ações da BP, da Swiss Re e da Telstra. Crédito: CNBC.

O’Shaughnessy é uma presença frequente na televisão e na rádio, através das quais emite recomendações aos investidores. Há pouco mais de um ano que participa, por exemplo, nos episódios especiais “Platinum Portfolio” do programa “Squawk Box” da CNBC, em que 14 gestores de ativos gerem uma carteira hipotética. Três das últimas recomendações do guru dirigiram-se para a petrolífera britânica BP, para a resseguradora suíça Swiss Re e para a operadora australiana de telecomunicações Telstra. Os seus fundos também têm estes títulos.

James O’Shaughnessy está também ativo nas redes sociais. Tem um blogue no qual discursa sobre a bolsa e a psicologia do mercado. No Twitter, no qual escreve quase diariamente, opinia sobre tudo, incluindo a bolsa e outros gurus do investimento.

O’Shaughnessy até ajuda os investidores a concretizarem a sua estratégia. Em março de 2014, o gestor de fortunas, em conjunto com o seu filho Patrick, examinou a base de dados da Associação Americana de Investidores Individuais (AAII) para sugerir quais são os melhores critérios disponíveis aos associados para constituírem carteiras de ações o’shaughnessianas.

Tal pai, tal filho

James O’Shaughnessy começou por escrever “Invest Like the Best: Using Your Computer to Unlock the Secrets of the Top Money Managers”, publicado em 1994. Depois seguiu-se “What Works on Wall Street: A Guide to the Best-Performing Investment Strategies of All Time” em 1997, a sua obra de referência, reeditada mais três vezes até 2011. O seu filho Patrick O’Shaughnessy participou na última edição, uma passagem de testemunho que se materializou no livro “Millennial Money: How Young Investors Can Build a Fortune”, assinado por Patrick em 2012.

Antes, o guru publicou “How to Retire Rich: Time-Tested Strategies to Beat The Market and Retire in Style” em 1998 e “Predicting the Markets of Tomorrow: A Contrarian Investment Strategy for the Next Twenty Years” em 2006.

O Observador não usou as indicações que James O’Shaughnessy deu à AAII, porque o guru descreve vários critérios complexos que dificilmente serão replicados por um pequeno investidor. Preferimos desenhar uma estratégia que seja compreendida por todos.

O método começa com mil ações, as 500 europeias que compõe o índice Bloomberg European 500 e as 500 norte-americanas listadas no índice Standard & Poor’s 500. Excluímos as ações que não tenham simultaneamente os rácios preço-vendas e preço-fluxo de caixa entre os 30% mais baixos.  

O rácio preço-vendas (price-sales ratio, em inglês, ou P/S) resulta da divisão da cotação da ação pelo volume anual de negócios por ação. Um rácio unitário indica que a empresa custa o equivalente às suas vendas anuais. Logo, quando mais baixo o indicador, mais barato está o título. O rácio preço-fluxo de caixa (price-cash flow ou P/CF) é semelhante: obtém-se dividindo a cotação pelo fluxo anual de caixa por ação.

Ao contrário do resultado líquido, que resulta da diferença entre as receitas e os custos do exercício, o fluxo de caixa mede a diferença entre os recebimentos e os pagamentos. O resultado líquido regista as operações quando são geradas, enquanto o fluxo de caixa contabiliza os movimentos de dinheiro. O’Shaughnessy diz que o fluxo de caixa é um indicador superior para os investidores.

Tal como os lucros e os prejuízos são extraídos das demonstrações de resultados, os fluxos de caixa são obtidos das demonstrações dos fluxos de caixa que as empresas publicam periodicamente.

Analisando o grupo de ações de preço-vendas e preço-fluxo de caixa baixos, retivemos apenas 60%, aquelas com a rentabilidade do dividendo mais elevada. A rentabilidade do dividendo resulta da divisão dos dividendos por ação dos últimos 12 meses pela cotação.

Na lista de ações de rácios baixos e dividendos altos, elegemos as 25 que mais valorizaram nos últimos 12 meses. O’Shaughnessy defende que este é o número mínimo para conseguir uma boa diversificação, essencial na sua estratégia bolsista. As ações o’shaughnessianas estão no quadro em baixo.

25 ações para diversificar os riscos
Estas ações apresentam simultaneamente rácios preço-vendas baixos, rácios preço-fluxo de caixa reduzidos e rentabilidades dos dividendos elevadas. Os investidores que querem seguir os ensinamentos do guru devem comprá-las em conjunto.
Empresa Rácio preço-vendas Rácio preço-fluxo de caixa Rentabilidade do dividendo Variação do preço no último ano
Acciona 0,64 6,02 5,25% 44,14%
Aviva 0,44 4,84 3,94% -9,24%
Best Buy 0,28 6,40 4,21% -9,72%
BP 0,42 4,99 7,12% -15,22%
CNP Assurances 0,20 0,84 6,12% -12,99%
Engie 0,54 4,92 6,24 -12,75%
Entergy 0,99 3,50 5,10% -20,24%
Exelon 0,83 3,82 4,38% -19,85%
FirstEnergy 0,86 3,92 7,06% -15,24%
Ford Motor 0,38 3,39 4,13% -6,76%
Gamestop 0,43 5,57 3,71% -16,37%
General Motors 0,36 4,33 3,85% 8,40%
HP 0,23 3,65 6,33% -20,58%
Marks & Spencer 0,81 6,64 3,61% 8,36%
NiSource 1,04 3,71 5,71% 17,74%
Old Mutual 0,63 1,63 4,67% -2,60%
Royal Mail 0,47 5,72 4,79% -5,23%
Sainsbury 0,20 4,58 5,50% -9,05%
SSE 0,43 7,18 6,18% -8,02%
Staples 0,37 7,75 3,81% -5,94%
Statoil ASA 0,83 3,54 5,54% -12,48
STMicroelectronics 0,86 5,17 5,79% 18,69%
Total 0,70 4,93 5,60% -2,34%
Wm Morrison Supermarkets 0,22 4,20 7,35% -13,86%
Wood Group 0,50 5,40 3,47% -18,40%
Fonte: Bloomberg. Variação do preço na divisa de cotação. 16 de novembro de 2015.

O número de títulos que O’Shaughnessy exige pode ser um ponto contra seguir a sua estratégia, porque pode representar uma despesa grande em comissões de bolsa. Antes de aplicarem o dinheiro, os investidores devem ponderar os custos, além do risco natural dos mercados acionistas.

Graças à confiança no potencial de valorização da sua tática e na diversificação da carteira, James O’Shaughnessy não se preocupa seriamente com os negócios das empresas. Mesmo assim, conheça resumidamente as atividades das 25 empresas eleitas. As cotações indicadas de seguida são as válidas às 10 horas desta quinta-feira, dia 19 de novembro.

As indústrias do retalho e da distribuição energética são as mais presentes na carteira. As duas maiores redes de supermercados britânicos estão presentes, a Wm Morrison Supermarkets (Londres: 154,80 pence) e a Sainsbury (Londres: 254,40 pence), bem como os armazéns britânicos Marks & Spencer (Londres: 520,13 pence). Inclui ainda a rede de lojas de produtos eletrónicos Best Buy (Nova Iorque: 31,34 dólares norte-americanos), que opera na América do Norte, a Staples (Nasdaq: 12,11 dólares norte-americanos), que gere uma cadeia de material de escritório, incluindo em Portugal, e as lojas de videojogos GameStop (Nova Iorque: 37,81 dólares norte-americanos), que abandonaram o nosso país em 2012.

Na distribuição de eletricidade e de gás, contam-se as norte-americanas Entergy (Nova Iorque: 65,67 dólares norte-americanos), Exelon (Nova Iorque: 28,12 dólares norte-americanos), FirstEnergy (Nova Iorque: 30,41 dólares norte-americanos) e NiSource (Nova Iorque: 19,58 dólares norte-americanos), a britânica SSE (Londres: 1.471 pence) e a francesa Engie (Paris: 16,68 euros), que, até abril, se chamava GDF Suez.

Ainda no campo energético, a carteira inclui as petrolíferas BP (Londres: 388,25 pence), Statoil ASA (Oslo: 136,10 coroas norueguesas) e Total (Paris: 47,08 euros). O Wood Group (Londres: 569 pence) presta serviços à indústria petrolífera.

A Aviva (Londres: 503,65 pence) e a CNP Assurances (Paris: 13,06 euros) são as representantes do setor segurador.

No negócio automóvel, os critérios de O’Shaughnessy selecionaram as norte-americanas Ford Motor (Nova Iorque: 14,46 dólares norte-americanos) e General Motors (Nova Iorque: 36,47 dólares norte-americanos).

As cinco restantes empresas são de cinco setores diferentes: a espanhola Acciona (Madrid: 78,11 euros) é especialista em infraestruturas e energias renováveis, a HP (Nova Iorque: 13,64 dólares norte-americanos) é o segundo maior fabricante de computadores, o Old Mutual (Londres: 201,80 pence) é um grupo financeiro britânico, a Royal Mail (Londres: 481,38 pence) é uma empresa de correios e a STMicroelectronics (Paris: 6,69 euros) é a maior produtora de semicondutores da Europa.

David Almas é analista financeiro independente registado na CMVM com o número oito. O autor trabalha subordinado ao Código Deontológico dos Jornalistas.

Texto de David Almas, ilustração de Andreia Reisinho Costa.

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