Jerónimo de Sousa: “50 milhões para aumentar função pública é claramente insuficiente” /premium

05 Outubro 2018

Líder comunista quer aumentos para todos na função pública e alerta para "proposta nebulosa" do Governo na energia. Em entrevista ao Observador, Jerónimo não arrisca se Costa é um homem de esquerda.

Chega um minuto antes da hora marcada, ao salão nobre da Assembleia da República. Avisa que tem uma hora certa, porque tem de estar no plenário à hora das votações. Quando passa a tal hora e se ouve o toque estridente que chama para as votações, Jerónimo de Sousa dá um salto da cadeira. A entrevista termina na Venezuela, com o secretário-geral comunista a condenar o bloqueio económico imposto pelos Estados Unidos. Mas a conversa começa em Portugal, bem no centro do Governo, onde os comunistas estão à mesa na negociação do Orçamento. O líder comunista não se mostra tão exigente como noutros tempos, mas incomoda-se que o digam “conformado” com o atual estado da situação política.

Não se atravessa pelo esquerdismo de António Costa e até levanta algumas dúvidas sobre isso: “A melhor prova do pudim é comê-lo”. Diz que liga ao primeiro-ministro e também à líder do Bloco de Esquerda “quando é necessário”, mas também sublinha o que separa o seu partido dos dois liderados por Costa e Catarina Martins. Sem casamentos, fica a amizade? Nem por isso: “Continuamos a ter as nossas divergências”. E algumas ressaltam na negociação que agora decorre, em que o PCP mostra insatisfação com o montante disponível para aumentar os funcionários públicos, com o “investimento baixíssimo” ou com a “nebulosa” sobre o que o Governo pretende fazer para baixar a fatura na energia. Também aproveita para negociar: se o Executivo avançar com a redução do IVA na eletricidade, a insistência com a baixa do imposto sobre os combustíveis pode ficar para trás.

[Veja o “best of” da entrevista em vídeo:]

Salário mínimo para 600 euros “é curto”

Houve um membro do governo que já veio dizer publicamente que em 2019 o salário mínimo vai ficar nos 600 euros. Ou seja, a proposta do PCP de chegar aos 650 estará afastada. Dá isso como certo?
Não, há uma fase prévia de exame comum em que discutimos os conteúdos do orçamento e a questão do salário mínimo nacional estará presente. É perfeitamente exequível e sustentável uma valorização do salário mínimo. São 700 mil os trabalhadores portugueses que têm o salário mínimo, e nesse sentido, consideramos que é curto o aumento para 600 euros. Constituirá um avanço, mas insuficiente. O que seria ajustado — e insisto neste ideia, exequível — é que o aumento do salário mínimo passasse para os 650 euros. É uma questão que não está fechada, prossegue o diálogo com o governo.

Mas com sinais de abertura do governo de que se pode, de facto, ir mais longe ou nem sequer tem visto esses sinais?
Eu diria que não temos visto disponibilidade, mas também não há resistência a que se discuta o valor do salário mínimo nacional.

Vamos admitir que fica nos 600 euros. Na quarta-feira à noite surgiu uma proposta do Bloco que fala da possibilidade de ter um patamar mínimo para a função pública de 635 euros. Acha que isso podia ser uma boa compensação?
Creio que essa ideia, constituindo uma perspetiva de avanço, deveria ser considerada não como uma bitola da administração pública, mas para todos os trabalhadores, incluindo os do setor privado.

Se o governo entender que não é possível?
Quando se vai para uma negociação não se apresenta mínimos. Em qualquer processo negocial, em particular com os trabalhadores e as suas organizações, as duas partes procuram uma aproximação gradual e não a aceitação de mínimos tout court. Isso significaria a desvalorização desta ideia: as empresas e o Estado comportariam um aumento para os 650 euros — e nós pensamos que sim — ou não? Há um processo em curso, dele resultará com certeza um montante, na medida em que os argumentos conseguirem convencer o governo, a exemplo dos orçamentos anteriores.

O PCP está confortável com a proposta do governo para aumentos nos funcionários públicos que pode não atingir os 50 milhões de euros? Será suficiente para aquilo que se pretende na função pública, depois de quase 10 anos de salários sem atualizações?
Disse, e bem, que há mais de 9 anos que os trabalhadores da função pública não têm qualquer aumento salarial. Houve ali uma deriva considerando que a reposição de rendimentos e de direitos substituía o aumento salarial. São duas coisas completamente distintas. A questão do aumento salarial continua a ser decisiva. Nós consideramos admitido o princípio e isso é um avanço. Ninguém entenderia que durante toda uma legislatura não se concretizasse esse justo objetivo de um aumento salarial. Na questão do montante, na questão da forma, não é à Assembleia da República que compete decidir. É na negociação do governo com as organizações sindicais.

Mas o PCP também aí terá uma palavra a dizer. Ainda por cima é um parceiro do governo na Assembleia da República. Quando diz que não se deve pôr o foco no montante é porque o que vier, mesmo que seja pouco, é bom?
Não, o que nós dizemos é que, tendo em conta que é um princípio de grande oportunidade e de grande necessidade corresponder aos anseios e às aspirações justas dos trabalhadores da administração pública, não é aceitável excluir uma fase de negociação que permita esse aumento dos salários com os protagonistas principais, designadamente os representantes dos trabalhadores. A Assembleia da República não se pode substituir a um processo de negociação. Tem de criar condições, em termos de proposta de Orçamento do Estado, que dê essa garantia.

O montante tem de estar lá inscrito. Tem de haver uma dotação provisional que permita fazer essa atualização.
Sim, mas uma dotação provisional não é obrigatória apenas para a questão dos salários, como sabe. Faremos com que exista essa dotação necessária, quanto ao montante…

Já não é mau, 50 milhões, é isso?
Não, é claramente insuficiente tendo em conta o ponto de partida, foram 9 anos.

Pelo menos o dobro, como pretende o Bloco de Esquerda?
O Bloco terá as suas posições, o PCP não se substitui à negociação.

Mas o PCP não tem uma posição? Uma coisa é não substituir à negociação, outra é não ter posição ou um valor na cabeça. Há-de ter um.
Não nos vamos assumir como mesa negocial sindical, usurpando esse direito que é das organizações dos trabalhadores. É pela sua ação, pela sua proposta e pela sua luta que conseguirão objetivos. Admitido o princípio, pelo qual nos batemos, no quadro da nossa proposta de valorização e de aumento geral dos salários, seja no público, seja no privado. Mas é importante que cada coisa fique no seu lugar.

Aumentos têm de ser para todos

O PCP estaria disponível para apoiar um aumento que não abrangesse todos os funcionários da administração pública?
Não, nós consideramos importante que a haver um aumento salarial, deva ser para todos. Pela nossa proposta de valorização do salário mínimo estamos a pensar nos salários mais baixos, mas isso não deve implicar que outros escalões e outros trabalhadores, com salários médios ou com salários razoáveis, sejam postos de parte. Se é aumento salarial, deve ser considerado para todos os trabalhadores.

Não se justifica ir primeiro a quem tem menos?
O problema não é esse. Trata-se de um direito fundamental para todos os trabalhadores. Não temos uma visão igualitarista, basista. Naturalmente, não concordamos com a discriminação que existe e daí a valorização dos salários mais baixos. Mas insisto nesta ideia: se é aumento salarial, deve ser aumento salarial para todos.

"Aumento salarial na Função Pública deve ser para todos"

Quando o governo diz, e António Costa disse-o na entrevista que deu esta semana, que não há dinheiro para tudo e que a solução seria acudir primeiro a quem mais precisa, o PCP continua a insistir no aumento para todos. É porque não acredita que o primeiro-ministro está a dizer a verdade, e que afinal há dinheiro para tudo e que o governo é que não quer fazer esse investimento agora porque está comprometido com as metas de Bruxelas?
Este é um problema central. É preciso fazer escolhas e opções. Se verificamos que o saldo primário – que envolve milhares de milhões de euros – tem a tendência para ser consumido pela dívida e pelo défice, esta é uma opção errada. Dizem que não há condições quando há, de facto, condições para essa valorização salarial, tendo em conta até o impacto positivo que pode ter na nossa economia. Se há coisa que está demonstrada nesta nova fase da vida política nacional, ao contrário dos que diziam que era inevitável cortar salários e congelar pensões, é que esse aumento dos salários e das pensões são um fator de crescimento e desenvolvimento económico. Ainda me lembro de ouvir nesta casa a tese do governo PSD/CDS de que o país estava melhor, o povo é que estava pior.

O PCP sente-se enganado pelo Governo? Se há dinheiro, mas o Governo diz ao PCP que não há é porque está a enganar voluntariamente um parceiro.
Não está a enganar, o problema é que não se demove da sua submissão ao capital monopolista, em relação aos ditames e às imposições da União Europeia e do euro. Como é que se justifica que não sejam tomadas medidas para a fuga fiscal, ao saírem da nossa pátria milhares de milhões de euros ganhos aqui e que poderiam, com uma política fiscal mais justa, encontrar essas verbas que são necessárias para colmatar estas situações mais injustas? Quando, por exemplo, os 5 mil ou 7 mil milhões de euros de saldo primário vão direitinhos para o sorvedouro da dívida. Esta questão da renegociação da dívida continua a ter uma grande atualidade.

Mas o PCP não reconhece que tem havido uma melhoria das condições em que é paga a dívida?
Sim, mas sacrificando o investimento. Aquilo que é necessário em relação aos serviços públicos. Tínhamos de recuar muitos anos para que esse nível de investimento fosse comparado. É inaceitável que, apesar destes anúncios de milhões, milhões e milhões que o Governo vai falando em termos de infraestruturas, a verdade é que  investimento é baixíssimo. E aqui está uma questão de fundo. Todos estaremos de acordo que sem pôr Portugal a produzir, sem conseguirmos combater défices estruturais que temos, designadamente o défice agro-alimentar, dificilmente encontramos respostas casuais e pontuais e não procura de um caminho alternativo que o Governo se recusa.

Mas sem ter também quem esteja disponível para nos emprestar dinheiro torna-se difícil.
Mas o PCP não defende que isto vá do género “ou vai ou racha”. Por isso falamos de um processo de renegociação da dívida, porque nós, mesmo como devedores, temos direitos.

Isso não é código para deixar de pagar?
Não, existem soluções de renegociação. Nós somos de boas contas, mas tendo em conta o interesse nacional e as carências gritantes que existem em diversas áreas, partindo dos défices estruturais que nos condicionam, é evidente que é preciso fazer escolhas.

Descer o IVA na eletricidade em vez do ISP

O PCP tem insistido na fatura energética e no ano passado, no final da sessão legislativa, não aprovou a redução do imposto sobre os combustíveis (ISP), preferindo um projeto resolução que não foi cumprido pelo Governo. Neste Orçamento vai avançar com a medida e cumprir como prometido?
Como é conhecido, para este Orçamento temos uma proposta concreta em relação à redução do IVA no plano energético, gás e eletricidade. O enquadramento é essencial perceber, não estamos a discutir um direito novo. Foi o Governo PSD/CDS que passou o IVA da eletricidade dos 6% para os 23% e, porque estamos a falar de um bem de primeira necessidade, justifica-se repor o que havia.

Eu ainda não estava a falar disso. Já vou aí, mas agora estou a falar do imposto sobre os combustíveis. O facto de agora apresentarem a redução do IVA na eletricidade faz com que deixem cair a redução do ISP?
Continuamos a insistir na nossa proposta em relação à situação da derrama, como é conhecido, em relação ao IMI dos grandes impérios imobiliários, articulado com esta proposta de abaixamento do IVA. Aquilo que posso adiantar é que o Governo está a propor uma solução em relação à energia e aos gás que diria que é uma proposta nebulosa. Sinceramente ainda não conseguimos ter a nitidez dos objetivos do Governo. Esperemos que este processo de exame comum possa clarificar para percebermos o que o Governo pretende em relação a esta matéria.

Portanto, a proposta de redução do ISP, cai. Se fizeram um projeto de resolução é porque queriam que acontecesse. Disseram que se o Governo não respondesse iam avançar com a proposta no OE. Agora cai porque preferem o caminho da eletricidade?
É evidente que isto é uma proposta que tem grande significado pensando nas famílias.

Portanto, uma substitui a outra…
Em relação ao ISP é conhecida a nossa posição, foi inscrita nesse projeto de resolução. Mas eu creio que o objetivo primeiro e principal era, de facto, conseguirmos que as famílias e as empresas pagassem menos IVA de eletricidade.

"O Governo está a propor uma solução em relação à energia e aos gás que diria que é uma proposta nebulosa"

Há alguma margem para a descida do IVA ou continua tudo na “discussão nebulosa” alternativa?
O Governo tentou arranjar uma solução que compensasse esta proposta que temos. Nesta fase da negociação, a pouca nitidez persiste.

Mas não sabe se vai pelo IVA?
É por outro esquema que ainda não conseguimos perceber.

Ainda não vos foi avançada nenhuma proposta concreta?
Não, foram enunciadas ideias mas proposta concreta, não existe.

Essas ideias passam pelo quê?
Essa é a grande pergunta que está colocada, tendo em conta que o Governo diz que quer reconsiderar por outra via essa redução. Para nós, não é claro. Pode ser uma solução construída com base em algumas ideias que nós não conhecemos. O Governo vai explicar, com certeza.

O PCP quer dez escalões de IRS. Tem indicações de que o Governo está disponível para aumentar novamente o número de escalões ou está o PCP disponível para os deixar cair?
Quando entrámos nesta fase de exame comum, o nosso posicionamento nunca foi ou tudo ou nada. Apresentamos propostas, fundamentamo-las, batemo-nos por elas, insistimos muitas vezes em batalhas que parecem perdidas. Veja-se o caso do aumento extraordinário das pensões, muitas vezes ficámos quase a falar sozinhos. Mas com a persistência e fundamentação, conseguimos que o Governo saísse das suas tamanquinhas e reconhecesse a justeza da nossa proposta. É assim que fazemos, numa posição de grande frontalidade, estudando e fundamentando as propostas. Estes avanços resultam muito desta persistência.

"Se há coisa de que ninguém pode acusar o PCP é de ser conformista"

Acredita que vão aumentar novamente os escalões?
Eu gostava de poder afirmar que o Governo está próximo dessa possibilidade, mas a discussão ainda está muito verde.

Está a parecer muito conformado.
Conformado?

Já não tem grandes esperanças que o Governo possa fazer cedências significativas.
Se há coisa de que ninguém pode acusar o PCP é de ser conformista. Não quero fazer já um julgamento antes do processo terminar. Até ao dia da votação, o processo vai decorrer.

Continua a admitir que haja uma situação em que o PCP não aprove este Orçamento? Se o Governo for dizendo que não a tudo…
Desde o início desta nova fase da vida política nacional, incluindo a posição conjunta que existe do PS e PCP, ficou claro que o PCP se disponibilizava para o exame comum e não, como o PS na altura pretendia, uma posição de aprovação do Orçamento, independentemente do seu conteúdo. Isso não foi aceite, há o compromisso desse exame comum e será perante o resultado final que decidiremos. Não gostamos do “agarrem-me senão vou-me a eles”. Somos coerentes com este princípio porque temos o compromisso primeiro e principal com os trabalhadores e o povo. Votaremos contra aquilo que consideramos negativo, votaremos a favor do que é positivo. Não quero fazer nenhum juízo de valor apressado, será perante a matéria de facto que decidiremos.

Costa é de esquerda? “Tenho dificuldades em caracterizar”

António Costa é de esquerda? “A melhor prova do pudim é comê-lo”

Nesse exame comum, que são negociações que decorrem já há três anos com quatro Orçamentos pelo meio, quem tem sido mais intransigente, António Costa ou Mário Centeno?
Nessa matéria, temos uma ideia fundamental: independentemente deste ou daquele ministro terem esta proposta ou rejeição, é o primeiro-ministro quem tem de assumir todas as responsabilidades, para o bem e para o mal. Não temos esta visão à peça. Existe um Governo, existe um principal responsável que é o primeiro-ministro, é com ele que dialogamos. Muitas vezes procuramos essas responsabilização. Seria o caminho mais errado que agora fossemos descobrir que o ministro da Saúde tem culpas por esta ou aquela situação. Não, há uma responsabilidade coletiva que tem um primeiro responsável que é o primeiro-ministro.

Esse primeiro responsável, o primeiro-ministro António Costa é um homem de esquerda?
Tenho dificuldade em caracterizar.

Tem?
Sim, pessoalmente. Eu não gosto de fulanizações.

Mas não tem dificuldade de classificar o Governo como um Governo que faz políticas de direita. Com o que já conhece de António Costa, acha que ele é um homem de esquerda?
Bom, isto a melhor prova do pudim é comê-lo. E se uma pessoa se afirma de esquerda, mas depois aprova com a direita malfeitorias na legislação laboral, se ser de esquerda pressupõe o apoio às pequenas e médias empresas e continua amarrado aos interesses do capital monopolista, existem aqui traços de política de direita. Mas estes avanços que se têm verificado com dimensão e preocupação social são de esquerda. Portanto não quero fazer juízos de valor apressado.

É um homem de centro, é isso?
Não, não será bem… em muitas matérias, no que é fundamental… por exemplo, a legislação laboral é zona de fronteira entre a direita e a esquerda.

E aí António Costa deixa dúvidas?
Nesta matéria, há um compromisso do Governo que não acompanhamos e em que criticamos um Governo que cedeu aos interesses do capital monopolista.

Em relação a Mário Centeno, também tem dúvidas ou aí já tem a certeza de que é um político de direita?
A mesma tese aplica-se a Mário Centeno. É um ministro da República…

E líder do Eurogrupo.
E do Eurogrupo, mas falamos do que conhecemos e sabemos. Acho que corresponde à orientação geral do Governo. Escolher um alvo seria perfeitamente errado, por isso é que não propomos substituições de ministros à peça.

E é um Governo que o PCP tem de forçar a que seja de esquerda?
A questão central continua a ser a da necessidade de afirmação de uma alternativa que o Governo PS não é capaz de concretizar. Temos um país adiado em muitas matérias de fundo. Esta política de reposição de rendimentos e de direitos é positiva, mas falta a grande resposta: a resposta estruturante aos problemas estruturantes. É por isso que lutamos por essa alternativa, que classificamos de patriótica e de esquerda, que estará tanto mais perto quanto mais força o povo português nos der. Olhando para a realidade nacional, para o que deveriam ser imperativos, este Governo minoritário do PS não está em condições de responder e resolver.

Tem feito, precisamente, declarações que vão nesse sentido, referindo que “a resposta estrutural aos problemas do país não se faz com o Governo do PS” e que os socialistas estão “amarrados a opções de política de direita”. Se é assim, porque é que o PCP nunca deitou este governo abaixo?
Em primeiro lugar, um exercício de memória: o grande objetivo foi alcançado há três anos. Foi o afastamento do governo PSD/CDS, que estava a infernizar a vida dos portugueses. Semana sim, semana sim era um corte, um congelamento, uma privatização. E havia novas medidas em carteira, designadamente em relação à Segurança Social. Por isso, o PCP teve uma posição, logo na noite eleitoral, de afirmação de que o PS só não formaria governo se não quisesse. Mesmo com a consciência das suas limitações, demos condições para que o governo existisse. Mas afirmámos logo, num encontro que tivemos com o PS, que continuariam a existir diferenças e divergências. Dir-me-á: há aqui uma contradição aparente na posição do PCP, entre os avanços que diz considerar positivos e as críticas à falta de respostas em relação a essas matérias de fundo. Sim, lidamos com uma contradição — mas ela só pode ser resolvida num outro quadro em que o povo vai ter a palavra, particularmente no próximo ano. O reforço do PCP é fundamental, até porque foi desmontada uma mistificação produzida pelo PS, PSD e CDS com a ajuda da comunicação social: nas legislativas não há eleição para primeiro-ministro. É o número de deputados que cada um tiver e a arrumação de forças que determinará quem é o primeiro-ministro.

Lidar com essa contradição tem sido difícil para muita gente dentro do PCP, que valoriza mais aquilo que vê como bloqueios e valoriza menos os avanços que refere. Miguel Tiago foi um desses casos? Saiu do parlamento porque já não conseguia defender a geringonça?
Eu ando por esse país fora, contacto com milhares de comunistas e com muitos amigos do partido e o ambiente não é esse. Sinceramente.

Dentro do Comité Central também não?
Não costumo divulgar essas informações, mas no Comité Central a decisão foi tomada por unanimidade.

E a discussão que houve antes da tomada de decisão?
Foi muita, muita.

Muita gente a achar que era um erro…
Você não imagina as discussões que nós temos. Discutimos, intervimos… E aquilo que concluímos foi a justeza dessa orientação e as suas contradições. Em relação ao Miguel Tiago, quero dizer que foi um deputado notável, que agarrou tarefas para as quais aparentemente não estava preparado. Mas a sua saída tem mais a ver com opções de vida, que são compreensíveis. Mas o Miguel Tiago continua a ter tarefas de grande responsabilidade no PCP.

Irá para o Comité Central, não é?
Ainda estamos longe do congresso, não vamos discutir a composição do Comité Central.

Poderá ser também uma voz crítica no Comité Central…
A crítica e a autocrítica para nós são um bem. É da análise e da reflexão de cada um, transmitida no coletivo, que se chega a uma decisão.

 As diferenças entre PCP e BE e os telefones de Costa e Catarina Martins

Já que falamos do balanço da experiência destes últimos anos: esta semana Catarina Martins lamentou que nunca tenha sido possível ter uma interlocução direta com o PCP nas negociações. O argumento da líder do Bloco é o de que isso poderia dar mais força na disputa com o Governo. Isto não faz sentido?
Não. Nós temos uma relação normal com o BE e convergimos muitas vezes em votações, particularmente em matérias sociais, mas considerámos na altura que a nossa relação com o governo PS devia ser bilateral.

Mas as coisas podiam ter evoluído, podia ter havido uma aproximação. Aliás, vemos pessoas do BE a serem mais simpáticas com o PCP do que o contrário. Francisco Louçã disse que o PCP e o BE são os dois indispensáveis e que toda a negociação orçamental é “uma valsa que se dança a três”. É capaz de dizer o mesmo em relação ao BE?
Não consideramos o BE um adversário — naturalmente, é um concorrente em muitas matérias. Essa relação bilateral com o Governo PS permite, precisamente, que não se conduza ao engano que a direita persistentemente procura que é o da “maioria de esquerda”, ou de um “governo de esquerda”, de um “governo maioritário” com o apoio do PCP e do BE. Não: o BE tem as suas posições, nós temos as nossas. Muitas vezes convergimos — e isso é um bem e não um mal — mas cada qual com as suas opções, que permitem não haver qualquer confusão. A questão central, independentemente do reforço ou não do BE, é a necessidade do reforço do PCP.

"Muita gente não conhece o PCP: você não imagina as discussões que nós temos"

Na próxima campanha eleitoral o que é que vai dizer aos eleitores para justificar um voto no PCP e não no BE?
A vida mostrou a importância deste partido, num quadro contraditório mas de mobilização, de confiança e de persistência da nossa parte em relação aos problemas que afligem os trabalhadores e o povo. Somos um partido que não se limita à sua ação institucional, que está ali junto das pessoas, das massas, para manter essa confiança. O primeiro grande ganho nesta nova fase da vida política nacional foi devolver a esperança aos trabalhadores e ao povo.

Mas o BE poderia dizer exatamente a mesma coisa.
As pessoas devem olhar para nós por aquilo que fazemos e não só por aquilo que dizemos. Por aquilo que fazemos e como fazemos.

Essa é a grande diferença?
É uma delas, sim. O PCP tem o seu ideal, o seu projeto de transformação social, a sua profunda identificação com aquilo que é mais genuíno por parte dos trabalhadores. Esta ligação à própria luta, que valorizamos muito…

Isso falta no BE?
Eu não queria estar a fazer clivagens, mas é a realidade que fala por si. Não ponho o dedo no ar a dizer que somos melhores do que o BE, queremos que nos avaliem por aquilo que fazemos, por aquilo que dizemos.

Mas o trabalho em conjunto dos dois, presumindo que considera o BE um partido de esquerda… Estou a presumir bem?
É uma caracterização sua…

Mas presumindo que entende que tanto o BE como o PCP estiveram juntos nesse trabalho de trazer o PS para a esquerda: acha que correu bem?
O BE muitas vezes esteve do lado certo e nós valorizamos isso. Mas isso não significa que isto seja tudo igual. Não é. A forma de estar, de intervir, mesmo em termos do próprio projeto de sociedade que se pretende…

Esta semana o primeiro-ministro introduziu esta ideia dos partidos que “podem ser amigos mas não dá para casar”: BE e PCP são pelo menos amigos?
Acho que a política não pode funcionar em termos de amizades, mas de valores, de princípios e de projeto. Em relação a casamentos, neste caso concreto não se aplicaria; quanto ao resto, nós continuamos a ter grandes divergências, independentemente de amizades, com o PS.

"Tenho o número de telefone de António Costa e Catarina Martins. Se for necessário, telefono-lhes"

Tem o número de António Costa e de Catarina Martins no seu telemóvel?
Tenho o número de telefone dos dois, sim.

E telefona-lhes?
Em certas circunstâncias, se for necessário, claro.

A crise na Venezuela

Está seguramente a acompanhar a situação na Venezuela. Há portugueses a deixarem o país, o governo acaba de lançar um novo programa de apoio a portugueses e luso-descendentes, tivemos também sinais de tensão diplomática por causa da detenção de portugueses por alegada especulação. A posição do PCP é contra aquilo a que chama ingerência externa, mas a questão é: para o PCP, Nicolás Maduro cometeu algum erro que levou a isto?
Pessoalmente, não acredito que o governo venezuelano e o presidente estejam isentos de avaliações erradas, mas isso não invalida a questão de fundo para nós: há ingerência e há um bloqueio em que verifico até a indiferença desumana de muita gente por exemplo pelo bloqueio a medicamentos. É necessário existir estabilidade e o fim do bloqueio para que o povo venezuelano possa encontrar as soluções e respostas para as suas necessidades. Não há uma solução duradoura enquanto não acabar esse bloqueio.

Portanto, problemas de corrupção generalizada dentro do regime, decisões económicas erradas, um controlo policial da população — nada disso é decisivo para a situação em que o país se encontra?
Então, há uns santos que têm sido perseguidos — já não interessa os crimes que se cometeram. Não interessa as consequências deste bloqueio que massacra um povo inteiro, não interessa esta ingerência clara, particularmente dos EUA. Interessa é a questão do governo… Ora, nós consideramos que o fundamental é que se ponha fim a esse bloqueio e a essa ingerência. E permitir que o povo venezuelano escolha o seu próprio caminho.

Livremente?
Livremente, sim.

Em eleições?
Designadamente em eleições, como se tem verificado…

Não é fácil, havendo prisão de opositores políticos…
Era o grande argumento há uns anos em relação a Chávez: “Sim, mas as eleições, dar a voz ao povo…” Depois, deu-se a voz ao povo e o resultado foi o que foi. Portanto: claro, com processos democráticos, em eleições. Mas primeiro há que responder a este problema central. Sem fim do bloqueio e da ingerência não há soluções duradouras, incluindo para a comunidade portuguesa.

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