Com a direita dividida nestas eleições presidenciais, o verniz começa a estalar. O fim de semana foi de polémica entre as candidaturas de Luís Marques Mendes e João Cotrim Figueiredo, que veio acusar a campanha do antigo líder do PSD de fazer “pressões” junto da sua candidatura para que desistisse — com a suposta intenção de ampliar, assim, a margem de manobra de Mendes. O clima azedou e nos bastidores das campanhas fazem-se contas de dividir: o eleitorado de direita tem muito por onde escolher e não falta quem acredite que Marques Mendes e Cotrim podem apelar a muito do mesmo eleitorado.
Do lado de Marques Mendes, além de se desmentir categoricamente que tenha sido feita alguma pressão para Cotrim desistir, a matemática da campanha é outra: a candidatura observa as supostas “aproximações” de Cotrim ao “estilo” de André Ventura, acreditando que é sobretudo ao eleitorado do Chega — onde moram, aliás, muitos jovens, eleitorado a que tem mostrado que também consegue chegar –, e não ao que será naturalmente mais afeto a Marques Mendes, que Cotrim conseguirá ir buscar votos.
Já do lado de Cotrim as contas são mais simples: com Marques Mendes a posicionar-se em primeiro lugar nas últimas sondagens, mas ainda por uma margem magra e sem conseguir marcar uma distância considerável para os restantes candidatos, a tese é que o ex-líder e ex-comentador só apelará a cerca de metade do eleitorado natural do PSD — e Cotrim acredita que tem argumentos para cair nas graças da outra metade. À medida que a temperatura aquece entre as duas candidaturas, o argumentário vai-se construindo. Há todo um eleitorado de direita para conquistar.
Mendes encosta Cotrim ao Chega (e faz contas a sondagens positivas para ambos)
A acusação de Cotrim Figueiredo — que numa entrevista ao Expresso veio assegurar que teria sido alvo de pressões para desistir da sua candidatura, nomeadamente vindas da candidatura de Marques Mendes, mas sem dar mais detalhes — irritou seriamente a campanha do rival. Sucederam-se as respostas: logo na sexta-feira, o diretor de campanha, Duarte Marques, desmentia categoricamente o assunto; a seguir, Marques Mendes garantia que o “desespero” dos adversários é visível nos “ataques pessoais” que lhe lançam; esta segunda-feira, Duarte Marques exigia, em declarações ao Observador, que Cotrim — que entretanto veio dar o assunto por encerrado — detalhasse quem fez essas pressões, e quando, por uma questão de “caráter e seriedade”.
Mas as declarações de Duarte Marques iam mais longe e passam por muita da narrativa que a campanha tem construído à volta do perfil de Mendes (isento e independente, mesmo vindo de uma vida ligada à política e ao “sistema”) — e que, neste caso, acredita contrastar com o de Cotrim.
Se Cotrim tem tentado surgir como uma voz fresca, que quer romper com as práticas velhas de fazer política ou de falar de política, a campanha de Mendes aproveita o episódio para desmontar essa ideia: “Revela que às vezes aqueles que mais pugnam por modernizar a política, por trazer novos valores à política e por fazer diferente, à primeira oportunidade caem logo no erro de fazer aquilo que mais afasta as pessoas da política, a prevaricar e a usar os truques do passado que mais afastam as pessoas”, argumentava Duarte Marques ao Observador.
Mais: a questão define o “caráter” dos dois, acrescentou. “Luís Marques Mendes é uma pessoa de caráter que faz política pela positiva e um tema destes é um tema que magoa, e portanto, como pessoas de bem, exigimos que o Cotrim Figueiredo explique e esclareça aos portugueses — esse sim é um ato de coragem”.
O último passo do raciocínio ilustra a estratégia da campanha de Mendes: colocar Cotrim a correr na pista de Ventura, e não como seu competidor direto. Isto porque o golpe “baixo” da acusação lançada no Expresso, dizia Marques, enquadra-se na ideia de que Cotrim tem protagonizado “alguma aproximação a algumas técnicas, a algum discurso, a algumas posições mais típicas, por exemplo, de André Ventura e do Chega”. Possivelmente por uma tentativa de competição eleitoral entre o eleitorado dos dois candidatos, admitia.
Se a análise que tem sido feita por muitos na ‘bolha’ política é que a candidatura de Cotrim pode prejudicar sobretudo a de Marques Mendes, a campanha do social democrata tenta sacudir assim essa ideia: Cotrim tem feito um discurso mais anti-sistema, sobre corrupção e interesses ocultos, ou com queixas sobre estar a ser desfavorecido pela comunicação social, tudo ideias que colam mais com o tipo de campanha de Ventura. Os eleitores de Mendes serão tipicamente, sugere-se na campanha, mais afetos à ideia do tal “sistema”, sem se deixarem levar por este tipo de discursos.
Mesmo que admitam que alguns votantes PSD/AD serão inevitavelmente atraídos para Cotrim, os elementos da equipa de Mendes têm um dado a que se agarrar: nas últimas sondagens, que colocam Mendes na frente da corrida, Cotrim também sobe (ver dados em baixo). Ou seja, se Mendes continua a subir mesmo que Cotrim também suba nas intenções de voto, pode concluir-se que os impactos da candidatura do liberal não estão a ser assim tão danosos para Mendes, como pensa (ou deseja) a campanha.
Onde é que Cotrim estará, então, a ir buscar eleitores, uma vez que as sondagens lhe atribuem intenções de voto mais altas do que as que o próprio partido tinha nas últimas eleições? Ao Chega ou, de forma transversal, aos mais jovens, conjetura-se do lado de Mendes. Outra explicação para tentar contrariar os danos que Cotrim pode fazer será que o próprio Mendes atrai liberais e inclui alguns na sua Comissão de Honra (por exemplo, a ex-deputada do partido Carla Castro), pelo que há uma ‘troca’ de potenciais eleitores que não tem necessariamente de favorecer Cotrim e prejudicar Mendes.
O discurso que Cotrim atira agora contra Mendes é, curiosamente, o mesmo que Mendes acredita que parece copiado de Ventura: associa-lhe “interesses” possivelmente escondidos, pintando-o como uma espécie de candidato do sistema — com o que o sistema pode ter de mau. “Conheço a vida política, mas não conheço todas as posições que tomou. Não sei se algumas das opiniões que tomou nos anos de comentário foram puramente motivadas pela opinião pessoal ou se tiveram outros interesses por trás”, atirava Cotrim na entrevista ao Expresso, acrescentando: “Marques Mendes tem uma vida política muito longa, com várias facetas e variantes que desconheço, na advocacia, em escritórios de advogados“. Assim, concluía, não tinha elementos para dizer se Mendes é ou não uma pessoa “séria”.
A mesma entrevista deixava claro que para Cotrim a luta é, também e de forma assumida, pela conquista do eleitorado do PSD: “O candidato Marques Mendes está com menos 10 pontos percentuais do que teve a coligação que suporta o governo, se é [o candidato] do governo então não está a fazer um trabalho extraordinário”, disparava. Mesmo que Mendes tente atirá-lo para outra pista, partilhada com Ventura, Cotrim quer competir diretamente com o ex-líder do PSD.
Se Mendes “vale apenas metade do eleitorado do PSD”, Cotrim quer “representar a outra metade”
Embalado por sondagens favoráveis — que têm colocado o ex-presidente da IL numa trajetória de crescimento e mais perto dos principais adversários, numa delas até à frente de António José Seguro — João Cotrim Figueiredo não tem interesse em alimentar a polémica e as acusações de desonestidade por parte de Luís Marques Mendes e da sua equipa de campanha. Contudo, e após a direção de campanha de Mendes ter exigido que Cotrim revele quem o pressionou para desistir da candidatura, Bernardo Blanco, diretor de campanha de Cotrim, deixa uma garantia em declarações ao Observador: “A campanha de Marques Mendes não nos exige nada.”
De resto, ao contrário de Mendes, Cotrim Figueiredo procura afastar-se da polémica, argumentando que o objetivo da denúncia era que “parassem [as pressões] e isso funcionou”: “Portanto, para mim esse assunto está encerrado. Deixou de haver pressões porque perceberam que esta candidatura é para ir até ao fim, porque tem o seu espaço próprio, não está refém de mais nenhuma estratégia ou candidatura”, referiu durante o último fim de semana.
João Cotrim Figueiredo tem-se mostrado consciente de que parte “atrás”, como referiu na apresentação da candidatura, mas tem colocado a fasquia na presença na segunda volta. Entretanto, José Miguel Júdice, mandatário da campanha, já o comparou a Mário Soares nas Presidenciais de 1986 (que partiu de 8% nas intenções de voto e venceu) e também o descreveu como “o Isaac Nader desta campanha” — que foi campeão do mundo dos 1500 metros por Portugal com uma recuperação nos últimos metros.
A campanha do liberal aponta ainda mais alto: “A estratégia é vencer e vencer implica ir buscar eleitorado a todo o lado.” Ainda que o foco não culmine nos possíveis eleitores do candidato apoiado por PSD e CDS, Bernardo Blanco explica: “Marques Mendes vale apenas metade do eleitorado do PSD, talvez nem meio PSD, João Cotrim Figueiredo quer representar a outra metade.”
Desta forma, a candidatura do ex-presidente liberal confirma que as ambições altas implicam por um esforço pela conquista de um eleitorado abrangente e “ir buscar a todo o lado”, “incluindo muitos portugueses que votaram AD”. E se Mendes puxa dos galões com a presença de liberais na Comissão de Honra, também a candidatura de Cotrim assegura que há “várias figuras de PSD e CDS, incluindo eleitos nacionais e locais” a apoiar o candidato liberal e que “todos os dias” são recebidas “centenas de mensagens de militantes e eleitores do PSD”.
Quanto a números, constata-se na campanha de Cotrim que mesmo com a ultrapassagem de Marques Mendes a Gouveia e Melo em várias sondagens, o candidato apoiado pelo PSD e CDS está longe dos valores conseguidos pela AD nas últimas eleições, que conquistou 31,21%.
Na sondagem mais favorável, a da Pitagórica, Marques Mendes surge com 22,6%, mas na pesquisa da Intercampus mantém-se à volta dos 16%, a tal metade de eleitorado da AD em que a campanha de Cotrim se baseia e que vai dando uma esperança extra ao liberal de conseguir convencer parte desses eleitores. Até porque, com fé nas sondagens, João Cotrim Figueiredo conseguirá superar largamente o eleitorado que a IL conseguiu nas últimas legislativas e estará focado noutro tipo de votos. Desde logo os jovens, que a IL conseguiu ‘roubar’ em parte ao Chega nas europeias, exatamente com o mesmo candidato, e procura repetir o feito, agora com o desafio acrescido de Cotrim ser candidato contra o próprio Ventura.