Marisa Matias viajou até ao Fundão para falar “dos fantasmas do fascismo” e deixar críticas a Costa

15 Maio 2019512

A candidata do BE visitou as minas da Panasqueira para alertar para os perigos do crescimento do fascismo na Europa. "É preciso ter memória". Pelo meio, deixou críticas a Costa.

Artigo atualizado ao longo do dia

O terceiro dia da campanha do Bloco de Esquerda arrancou tarde. Marisa Matias ainda estava a meio da viagem que a levaria até Cabeço do Pião, no Fundão, e já Paulo Rangel e Nuno Melo tinham respondido às acusações que António Costa lhes lançara na noite de terça-feira. Uma luta em que a candidata se tem recusado a entrar e da qual voltaria a fugir instantes mais tarde.

Contra os “fantasmas do fascismo”

A caravana bloquista mal teve tempo para esticar as pernas, os bloquistas e ambientalistas que a aguardavam no local aproximaram-se rapidamente da eurodeputada para a cumprimentar. Falaram da exploração a que tinham sido sujeitos os mineiros que trabalhavam nas minas da Panasqueira, que fecharam em 1993, e dos problemas ambientais que o seu abandono tem trazido. Adivinhava-se que esta visita ao que resta das minas levasse Marisa Matias a falar novamente das alterações climáticas. Assim não foi.

A eurodeputada voltou a garantir que não há alvos escondidos nas suas declarações. "Não estou a falar de candidatos específicos", disse, para pouco mais de um minuto depois criticar diretamente António Costa.

Guiados pelo “Ti Isidro”, um ex-mineiro de 84 anos que dedicou mais de metade da sua vida — 43 anos — ao trabalho nas minas, os membros da comitiva foram ouvindo as histórias de quem então dependia daquele trabalho para sustentar a família. “Era uma miséria. Casei a 17 de maio de 1958 e disse logo à minha mulher que com 50 escudos não íamos conseguir governar uma família. Mas lá conseguimos. Tivemos três filhos. Houve alturas em que devo ter tido as membranas do estômago coladas umas às outras. Era uma miséria“, contou Isidro Fernandes.

Foi um dos muitos trabalhadores que contribuíram para que as minas da Panasqueira conseguissem exportar volfrâmio para a Alemanha durante a II Guerra Mundial. Era um negócio rentável mas que “servia o nazismo”, notou Marisa Matias. Foi esta a deixa ideal para a candidata voltar a falar de Europa. “Numa altura em que voltam a pairar sobre a Europa as sombras do fascismo é preciso ter memória“. Estava explicado o motivo da visita.

O combate faz-se em todas as áreas do espectro político. Mas a candidata puxa dos galões e garante que a importância que a esquerda tem tido é maior do que a da direita. “Quem combate o racismo, a xenofobia e o fascismo é a esquerda… Não são outras forças políticas”, considerou. Até porque se tem assistido, em alguns casos, “à normalização dessas ideias por parte de forças democráticas“.

Ti Isidro, ex-mineiro de 84 anos, foi o mestre das cerimónias na visita que a campanha do BE fez esta tarde às minas da Panasqueira

O Ti Isidro ia anuindo em sinal de concordância, assim como José Gusmão ou outros membros da comitiva. Mas a eurodeputada voltou a garantir que não há alvos escondidos nas suas declarações. “Não estou a falar de candidatos específicos“, disse, para pouco mais de um minuto depois criticar diretamente António Costa. “Estava a falar de exemplos como a cimeira do Conselho Europeu sobre refugiados que se realizou em junho passado. O primeiro-ministro disse que nunca tinha visto tanta divisão na UE, mas acabou por votar as conclusões dessa reunião“, recordou.

O acordo em causa estabeleceu que todos os estados membros se comprometiam a “intensificar esforços” para travar contrabandistas e continuar “a apoiar a Itália e outros Estados-membros que estão na linha da frente desta questão”. Uma “cedência às chantagens de Salvini”, catalogou Marisa Matias, naquele que foi o primeiro ataque direto que fez desde que começou a campanha eleitoral.

Pouco depois a comitiva abandonaria o local. Ti Isidro estava satisfeito. “Falei muito, mas pode ser que ainda apareça uns segundos na televisão“. Só vai saber ao fim da tarde, quando a caravana bloquista já tiver atravessado parte do país para a segunda ação do dia: uma visita ao forte de Peniche, um símbolo da resistência ao fascismo — que encaixa que nem uma luva no tema escolhido esta quarta-feira pela cabeça-de-lista do Bloco de Esquerda.

As condecorações de Joe Berardo e o desafio a Nuno Melo

A visita ao Museu Nacional da Resistência e da Liberdade teve o historiador Fernando Rosas como guia. O forte de Peniche, onde o histórico bloquista chegou a estar preso durante a ditadura, foi inaugurado como museu no passado dia 25 de abrilo por António Costa e recebeu a primeira visita oficial do Bloco de Esquerda na tarde desta quarta-feira. A segunda ação de campanha que o partido dedicou à memória do combate ao fascismo. Mas era para Nuno Melo que estavam reservadas as palavras mais fortes.

Depois de uma tour pelo interior do forte, Marisa Matias voltou a reforçar a necessidade de combater “os fantasmas do fascismo” numa altura em que “existe uma ameaça” sobre o crescimento dos extremismos nas próximas eleições europeias. Um reforço da mensagem transmitida nas minas da Panasqueira. Foi apenas quando a eurodeputada foi questionada pelos jornalistas sobre a exigência do CDS para que sejam retiradas as condecorações da República a Joe Berardo que a cabeça-de-lista do BE decidiu falar diretamente para Nuno Melo — pela primeira vez nesta campanha.

Parece que Nuno Melo acha que retirar a condecoração ou a medalha é suficiente. Mas não é. Achamos bem que Joe Berardo devolva as medalhas mas é mais importante que devolva o dinheiro”, sintetizou.

O ataque estava feito, mas Marisa Matias tinha ainda guardado um desafio para o cabeça-de-lista do CDS-PP. “Gostava de saber o que é que Nuno Melo acha sobre Celeste Cardona, que é do seu partido, assim como de Armando Vara, socialista, que parecem ter estado diretamente envolvidos na concessão de alguns destes empréstimos a Joe Berardo”.

Depois de dois dias em que se concentrou em correr numa pista própria, ao terceiro dia a eurodeputada bloquista surge ao ataque com alvos definidos. Isto sem deixar de falar de Europa — e das alterações climáticas, claro.

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