Pouco tempo depois de o padre José Martins Júnior ter chegado à paróquia da Ribeira Seca — seria o ano de 1969 —, um grupo de mulheres foi bater-lhe à porta em pânico. Precisavam de ajuda urgente para uma jovem mulher que entrara em trabalho de parto numa zona mais remota da paróquia, no concelho de Machico, e não havia mais ninguém a quem recorrer. Quando lá chegou, o padre ficou “incrédulo e devastado” ao ver a jovem já sem vida, ensopada em sangue, agarrada aos dois filhos que acabara de dar à luz, um gémeo de cada lado do seu corpo.
A história trágica é recordada ao Observador por Mónica Vieira, 46 anos, vereadora da Câmara Municipal de Machico eleita pelo PS e uma das muitas paroquianas da Ribeira Seca que, ao longo das últimas décadas, se uniram em torno do “Padre Martins”. Figura icónica da Igreja Católica madeirense, morreu na semana passada aos 86 anos de idade, após uma vida em que se destacou por lutar ao lado dos trabalhadores, o que lhe valeu uma suspensão de quatro décadas pela Igreja e confrontos políticos com o regime instalado no arquipélago da Madeira. O funeral realiza-se este domingo na paróquia onde passou a maioria da sua vida.
Aquela jovem grávida, lembra Mónica Vieira, “acabou por falecer, morreu sem apoio médico porque não havia acessibilidades”. A tragédia, contudo, não seria em vão, já que impulsionou o padre Martins Júnior a movimentar-se no sentido de exigir às autoridades regionais a construção de estradas dignas até à Ribeira Seca. “Não havia uma estrada”, diz a atual vereadora socialista. “Foi ele que reivindicou a construção de uma estrada para proporcionar a chegada de bens essenciais e até de socorro.”
A luta por uma estrada digna para a população da Ribeira Seca foi apenas um dos primeiros episódios protagonizados pelo padre Martins Júnior, que desde o início do seu ministério sacerdotal se mostrou agudamente consciente dos dramas dos mais pobres numa região onde, nas palavras de Mónica Vieira, “o 25 de Abril não chegou como chegou a Lisboa”.
▲ O padre Martins Júnior na paróquia da Ribeira Seca
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Por denunciar o conluio entre o regime fascista e alguma hierarquia da Igreja, foi ostracizado e, por fim, suspenso das funções sacerdotais — uma situação que só foi revertida em 2019, já pelo atual bispo do Funchal, após mais de 40 anos de suspensão durante os quais, na verdade, nunca deixou de ser o verdadeiro pároco da Ribeira Seca. Pelo meio, teve uma carreira política à esquerda, tendo sido deputado regional e autarca pela UDP e pelo Partido Socialista — o que lhe valeu o epíteto de “padre vermelho” —, enfrentou-se com Alberto João Jardim, que o considerava o seu grande adversário político, e continuou até ao final da vida a denunciar a promiscuidade entre poder político e religioso na ilha da Madeira, que considerava uma “segunda edição, para pior ainda, do que se passava entre Salazar e Cerejeira”.
Morreu aos 86 anos, quando se encontrava a meio de um doutoramento em Estudos Globais no âmbito do qual queria estudar a história do episcopado madeirense pós-25 de Abril. Não chegou a terminar o seu projeto académico, mas é recordado na Ribeira Seca como o grande promotor do desenvolvimento social, cultural, político e intelectual da povoação: fundou uma tuna, promoveu a construção de uma escola e jovens como Mónica Vieira a superarem as barreiras a que a pobreza os parecia condenar à partida. Durante a maioria da sua vida pública, contudo, foi silenciado por ser “uma voz incómoda”, recorda a autarca socialista, que por estes dias esteve também envolvida na preparação da última homenagem do povo da Ribeira Seca à sua figura de referência.
A experiência da guerra e a “segunda África” na Madeira
Os primeiros anos da vida de José Martins Júnior contribuíram decisivamente para moldar a sua consciência política e eclesial. Nasceu a 16 de novembro de 1938 em Machico, numa família relativamente modesta — o pai era pescador. Logo aos 12 anos, de acordo com uma nota biográfica publicada pelo Funchal Notícias, entrou no Seminário Diocesano do Funchal, onde estudou num momento de grande transformação para a Igreja Católica. Foi ordenado padre a 15 de agosto de 1962, justamente o ano em que, em Roma, arrancavam os trabalhos do Concílio Vaticano II, processo de profunda reforma que transformou a Igreja contemporânea.
Celebrou a primeira missa na igreja matriz de Machico, no dia da ordenação, e começou logo nesse ano a trabalhar no seminário do Funchal como professor. Rapidamente, porém, começaria a entrar em choque com a hierarquia eclesiástica, como o próprio lembrou numa entrevista de vida que deu ao jornalista António Marujo em abril de 2024, no programa 7Margens, da Antena 1 e do jornal 7Margens.
Terá sido em 1962 ou em 1963 que Martins Júnior foi convidado para fazer um sermão na catedral do Funchal, por ocasião do Primeiro de Dezembro, “a grande festa patriótica e religiosa” da altura. No exterior da catedral, encontrava-se “aquela formatura do exército e da marinha, todos os escuteiros e agremiações religiosas”; no interior, um sacerdote era convidado para fazer uma “oração de sapiência” perante ilustres convidados da hierarquia eclesiástica e, sobretudo, das autoridades civis. “Lá li o meu texto e fui dizer várias coisas. Uma delas foi que o nosso Cristo, a propósito da samaritana, em espírito e verdade, o nosso Jesus não precisa de adoradores que venham ajoelhar-se em fofas almofadas vermelhas.”
“O que eu fui dizer… Quem tinha almofadas vermelhas era só o governo civil e o governo militar”, recordava o sacerdote nessa entrevista. Aquela denúncia foi suficiente para que a hierarquia eclesiástica percebesse que tinha ali um crítico do regime — e da cumplicidade da hierarquia com ele. A punição foi uma nomeação para a ilha do Porto Santo. “Fui de marcha para o deserto”, lembrou. “Fiquei amargurado, pensei em largar o sacerdócio.”
Mónica Vieira, que ainda não era nascida nessa altura, explica que o padre Martins foi “ostracizado” logo nos primeiros tempos como padre. “O Porto Santo era o degredo, o distanciamento. Havia a necessidade de silenciá-lo porque era uma voz incómoda”, sublinha.
A experiência que viveu depois, contudo, contribuiu decisivamente para que Martins Júnior consolidasse a sua consciência política — e, sobretudo, para que desenvolvesse uma grande revolta em relação ao regime. Em fevereiro de 1967, seguiu para Moçambique como capelão militar. “Considero uma das maiores manchas da minha vida ter aceite ir para capelão militar”, disse ao 7Margens no ano passado. “Fui para lá para sentir o drama dos jovens portugueses lançados na floresta africana. E acompanhava-os.”
Pelas suas funções, foi para o campo de batalha com as tropas portuguesas e testemunhou várias operações de destruição de aldeias. “Os nossos tropas rebentavam com aquelas aldeias à catanada, pegavam lume às palhotas”, lembrou. Numa das palhotas, lembra-se de ter visto “uma panela ainda sobre as brasas, com a mandioca a cozer”, porque “as pessoas tinham fugido”. O que o chocou mais, contudo, foi ver “crucifixos ao pau preto feitos por eles e miniaturas de Nossa Senhora em marfim” nas palhotas, onde encontrou também terços e até uma edição bilingue do evangelho em português e em maconde, que descobriu em aldeias na zona de Cabo Delgado. “Fiquei jogado ao chão. São cristãos, são católicos. O que faz um padre católico aqui a alinhar com a matança de irmãos meus? (…) Devia ter desertado.”
No fim da comissão de serviço de dois anos, em 1969, regressou à ilha da Madeira, onde foi colocado como pároco ao serviço da povoação da Ribeira Seca, no concelho de Machico. Ali, nas palavras do próprio, encontrou “uma segunda África”, uma povoação rural “sem estradas, sem água potável, sem luz elétrica”. Foi nesse regresso que se confrontou com o caso da jovem grávida que morreu com os dois gémeos nos braços sem assistência médica por falta de estradas. Foi “das coisas mais horripilantes que contemplei, não havia hipótese de valer àquela rapariga”, detalhou na entrevista.
▲ O sacerdote foi responsável pela paróquia da Ribeira Seca durante décadas — mesmo durante o tempo em que esteve suspenso
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“Tens cinco minutos para abandonar esta igreja”
A consciência do horror da guerra que tinha ganho em Moçambique e o choque de realidade perante a pobreza das povoações rurais da Madeira impeliu-o à ação. “Tudo o que ele vivenciou na guerra veio apurar essa consciência global do humanismo e do Cristianismo”, sublinha ao Observador Mónica Vieira. “Ele tinha sempre um lema: é mais fácil rezar do que pensar. Muitas vezes, as pessoas rezavam numa velocidade e numa cadência que, muitas vezes, não sabiam o que estavam a rezar. Ele apelava à reflexão para que percebêssemos o que era o evangelho.”
O padre Martins, diz a autarca, “teve a capacidade de estar ao nível do povo e tinha o cheiro do seu rebanho”, como diria anos mais tarde o Papa Francisco. “Quando ele chegou aqui disse que chegou a uma segunda África, porque se apercebeu das condições primárias, sub-humanas, em que as pessoas estavam a viver aqui.”
Rapidamente, o sacerdote começou a tentar mover influências junto do poder político para tentar melhorar as condições de vida da população. “Ele sempre teve um espírito crítico muito aguçado e intercedia junto do poder político”, sublinha Mónica Vieira. Anos mais tarde, Martins Júnior seria “o percursor da construção da escola da Ribeira Seca”, uma zona onde “o analfabetismo grassava” e onde “a escola existente eram duas salas numa habitação”, sem condições “para dar resposta às centenas de crianças”. A primeira escola primária — como explica o Funchal Notícias, um anexo coberto com folhas de zinco — foi obra dele, bem como a criação de grupos musicais, de teatro e de folclore, o que contribuiu para dinamizar a população.
A historiadora Raquel Varela, que contou a vida do padre Martins no romance biográfico O Canto do Melro, sintetizou a revolução operada pelo sacerdote naquele lugar, onde Martins Júnior “antecipou a abolição do regime da colonia, apoiou a ocupação de terras pelos caseiros camponeses e recriou a democracia ateniense, 2500 anos depois, tirando Cristo da Cruz, elevando toda a população à condição de cidadãos”.
“Na Ribeira Seca, em dezanove meses avançaram-se quinhentos anos; os pobres decidiram, os analfabetos falaram, os surdos tocaram e os ricos esconderam-se; os professores ensinaram, os médicos curaram e um padre foi cristão como Cristo, que mandou que nos amássemos uns aos outros”, conta o livro, que começa justamente com a história pormenorizada daquela jovem grávida, Rosa, que morreu com os filhos nos braços e que ficaria para a história como símbolo da miséria do povo que o padre Martins ergueu.
A luta pelos direitos dos camponeses foi especialmente importante para a politização do sacerdote, que se colocou do lado dos caseiros na contestação ao regime de colonia — um regime de exploração da terra com origens na Idade Média e que se praticou na ilha até 1977. “Era um regime feudal, pior que feudal, em que o camponês era um escravo, um servo da gleba”, recordou o padre Martins na entrevista ao 7Margens. Na prática, o sistema funcionava da seguinte forma: um proprietário, ou senhorio, cedia um terreno ainda por cultivar a um colono, para que ele a desbravasse e cultivasse. Em troca, o colono recebia metade da produção (ou metade dos rendimentos da produção), sendo que não se tratava de um contrato estável — a qualquer momento, o senhorio podia determinar o fim daquela relação.
Mesmo depois do 25 de Abril, este regime anacrónico continuou em vigor na ilha da Madeira, deixando os agricultores totalmente à mercê dos proprietários dos terrenos, a maioria deles residentes no Funchal ou até em Lisboa. Martins Júnior juntou-se rapidamente à luta dos agricultores, o que o levou também a entrar em conflito com a hierarquia da Igreja. “O senhorio não permitia que o caseiro, o colono, acrescentasse um quartinho para colocar os filhos”, recordava na mesma entrevista, falando de um caso particular de um agricultor que lhe pediu ajuda para que o senhorio lhe permitisse construir uma nova divisão na pequena casa de colmo onde vivia com a mulher e os filhos, todos no mesmo quarto. O senhorio “vivia no Funchal” e “era um senhor que era da confraria do Santíssimo Sacramento, era secretário da Câmara do Funchal, um lugar importante”.
“Eu estava no seminário e via aquele senhor com o pálio. Fui lá pedir-lhe várias vezes para que deixasse aquele caseiro fazer um quartinho. Nunca deixou. E eu a pensar que ele era católico, que era religioso. Qual religioso, qual carapuça. Aliás, a Igreja também era senhoria de muitas terras”, lembrou ainda.
O empenho na luta pelos direitos dos agricultores aproximou-o da esquerda — e até da extrema-esquerda. “Os rapazes da UDP apareceram em Machico aquando das nossas lutas dos camponeses contra a colonia”, recordou. “Eles apareceram lá também na luta das bordadeiras, que eram exploradas, e nas lutas também contra a Câmara Municipal de então. Apareceram e pronto, ficámos amigos. São os que deram a cara.” O sacerdote recebeu convites para se filiar no partido, mas nunca aceitou. “Não queria ser do partido, nunca fui inscrito em nenhum partido, mas os meus ideais coincidiam com aquela ação de defesa dos camponeses.”
Em 1976, aceitou ir nas listas da UDP para a Assembleia Legislativa da Madeira e foi eleito deputado. Esteve três meses no órgão legislativo, mas depois cumpriu a promessa de dar o seu lugar a um trabalhador.
Tudo isto contribuiu para que a hierarquia da Igreja Católica, profundamente conservadora, que já o via como um perigoso esquerdista, começasse a ver no padre Martins Júnior um verdadeiro problema, que tinha de ser afastado das fileiras sacerdotais. O bispo Francisco Santana, então à frente da diocese do Funchal, era o principal opositor do sacerdote, que já o conhecia de um breve período passado em Lisboa. “Surpreendia-me com o tipo de conversas que fazia. Uma delas foi esta: ‘Olha, Martins, sabes, os ministros do Salazar e do Caetano, eu trato-os por tu!”
Francisco Santana era, nas palavras de Martins Júnior na já citada entrevista ao 7Margens, “um autêntico bandeirante do regime fascista”. Mais: “Foi ele o grande criador deste regime, que ainda subsiste na Madeira, do PSD. Havia um colega meu, padre Mário Tavares Figueira, que já morreu, que dizia que o PSD nasceu numa sacristia, em que o pai foi o bispo Santana e a mãe foi o senhor que esteve lá 38 anos como presidente governador.” Referindo-se a Alberto João Jardim, Martins Júnior lembrou como homem que liderou o governo regional durante 38 anos o considerava o seu grande adversário político, chegando a classificá-lo como “um reles cubano”.
“Agora dá vontade de esboçar risos e sorrisos, mas na altura foi muito duro. Conluiados, os dois fizeram patifarias autênticas”, assinalou na entrevista. “O que se passou na Madeira, pós-25 de Abril, é uma segunda edição, para pior ainda, do que se passava entre Salazar e Cerejeira. As pessoas não sabem disto. O conluio, o incesto entre os dois poderes, político e religioso, são de um escândalo, de um anti-cristianismo mais básico, mais despudorado.”
Mónica Vieira, autarca em Machico pelo PS, recorda que “o 25 de Abril não chegou à Madeira como chegou a Lisboa”, porque havia “um oceano que nos separava em termos de princípios e valores democráticos”. Durante anos, diz, “houve uma tentativa de silenciar vozes incómodas”, pelo que “essa linha que separa o antes e o depois do 25 de Abril é um pouco ténue aqui”. Só mais tarde, “fruto da emancipação das pessoas, é que começámos a perceber que vivíamos num regime livre”. Nesse processo, Martins Júnior foi “fundamental”. Também através “das artes, das músicas, das letras que ele compunha, passava sempre uma mensagem de intervenção, de lutar pelos seus direitos, que não tínhamos de nos vergar aos senhores do Funchal”.
▲ O padre Martins Júnior foi readmitido em 2019
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Na Madeira, “o poder político e o poder religioso na altura estavam intimamente relacionados”, acrescenta Mónica Vieira. “Essa voz incómoda traduziu-se numa revolta por parte quer do poder civil quer do poder religioso”, numa altura em que a hierarquia da Igreja “começava a vê-lo como uma voz incómoda dos dogmas” — mas, sobretudo, dos privilégios.
A rutura consumou-se no verão de 1977, na sequência de uma série de acontecimentos que, à distância de várias décadas, parecem já rocambolescos — e que incluem uma retirada formal da paróquia, acusações da parte do bispo relacionadas com a entrada de Martins Júnior na política e, acima de tudo, uma celebração de crismas em Machico que terminou com uma suspensão a divinis decretada pelo bispo. Convidado para ser padrinho de um dos crismandos, Martins Júnior apresentou-se na igreja para concelebrar a missa com o bispo, mas Francisco Santana recusou. “Não te admito que fiques na igreja. Tens cinco minutos para abandonar esta igreja. Se não abandonares, vou suspender-te a divinis”, ameaçou o bispo, segundo o próprio Martins Júnior. “Claro que não saí. Dizia que ele estava abusando de um poder que não tinha.”
Começava ali o longo calvário de Martins Júnior, formalmente suspenso das funções de sacerdote pela Igreja Católica durante mais de quatro décadas.
“Usava um humor requintado e isso enfurecia a Igreja”
Quando Mónica Vieira nasceu na Ribeira Seca, no final da década de 1970, já o padre Martins Júnior estava suspenso. Contudo, Martins Júnior foi sempre o seu pároco. Desde a infância, a agora autarca ouviu várias histórias em torno do afastamento decretado pela hierarquia: “O senhor padre tinha sido associado a um grupo de intervenção e o senhor bispo queria a chave da sala onde as pessoas se reuniam. O padre disse que não tinha essa chave. Eles queriam um pretexto para colocar o senhor padre fora e começaram a implicar com pormenores. Chamavam-lhe comunista, até diziam que sabiam o número de militante dele.”
Martins Júnior nunca abandonou a Ribeira Seca — e a Ribeira Seca também nunca o abandonou. Depois da suspensão, a Igreja determinou que o padre de Machico passaria a servir a Ribeira Seca, mas esse sacerdote, oficial, raramente terá posto os pés na paróquia. “Nunca vinha, não tinha hipótese de ir porque o povo não deixava”, lembra Mónica Vieira. Martins Júnior “nunca deixou de estar aqui na Ribeira Seca”. Sem autorização para celebrar a missa na igreja, “celebrava nos campos e as pessoas iam todas para as montanhas, para os prados”. Ali, realizou também casamentos e batizados, sempre à margem da autoridade eclesiástica oficial.
Nas missas, Martins Júnior punha o seu cunho pessoal, fazendo as coisas de forma “diferente, mas com simbolismo”. Por exemplo, “ele achava que as pessoas deviam ir ao altar e comungar pela própria mão, num ato consciente e livre”, sublinha. Na escola, Mónica lembra-se de ouvir falar muito “do padre da Ribeira Seca” — e havia até “um certo bullying” em relação àquela povoação. “Dizia-se que era uma zona diferente, uma zona dos comunistas”, lembra.
O sacerdote oficial “nunca vinha cá acima, porque o povo não queria outra pessoa que não o padre Martins”, acrescenta. “Eu tenho 46 anos e nunca conheci outro padre, sempre me identifiquei com o padre Martins.”
O ponto alto da tensão entre a hierarquia eclesiástica e a paróquia paralela da Ribeira Seca deu-se em fevereiro de 1985, quando, naquilo que foi atribuído a uma ordem conjunta do novo bispo do Funchal, Teodoro de Faria, e de Alberto João Jardim, 70 polícias invadiram a igreja da Ribeira Seca com o objetivo de expulsar Martins Júnior da paróquia e implementar uma nova administração paroquial. Durante 18 dias e 18 noites, a polícia permaneceu no local, mas a comunidade local resistiu à revolução que a diocese queria implementar: durante o dia, dezenas de mulheres sentaram-se em volta da igreja, cercando o edifício, a bordar; à noite, os homens da povoação substituíam-nas no cerco à igreja. “Nunca arredaram pé”, lembra Mónica Vieira.
Formalmente afastado da Igreja, Martins Júnior continuou ativo na política. Em 1989, candidatou-se a presidente da Câmara Municipal de Machico pela UDP, o partido de extrema-esquerda em cujas listas já tinha participado — e que estaria, mais tarde, na génese do Bloco de Esquerda. Com 49,68% dos votos, conseguiu ser eleito para um mandato de quatro anos, que renovou em 1993, mas agora integrando as listas do PS. Já depois de deixar de ser presidente da câmara, voltou a candidatar-se à Assembleia Legislativa da Madeira, onde se sentou durante sete mandatos (quatro pela UDP e três pelo PS), até 2007.
Mónica Vieira — que, inspirada pelo exemplo de Martins Júnior, também entrou na política — recorda-se bem da atividade autárquica e parlamentar do sacerdote. “Ele usava a política para continuar a defender os direitos, liberdades e garantias da sua população”, lembra. Embora Martins Júnior tenha tido sempre uma “posição pacífica”, continuava a enfrentar uma “posição muito hostil” da parte do poder civil e religioso. “Ele era uma ameaça ao comodismo que estava instalado”, explica.
“Ele era um homem inteligentíssimo, culto, que desarmava facilmente qualquer deputado. Tinha uma inteligência, uma sensibilidade, uma cultura acima da média. Finalizava os discursos com Pessoa, Antero de Quental ou Eça, usava um humor requintado e isso enfurecia a Igreja e o poder civil. Era difícil haver um diálogo na Assembleia Legislativa com o padre Martins, porque ele estava muito acima”, diz ainda Mónica Vieira, lembrando como Martins Júnior, um homem que ao longo da vida escreveu música e poesia com um claro pendor de intervenção, “lia literatura internacional e ia sempre buscar os jornais franceses”.
“Se não fosse o padre Martins, eu não seria a pessoa que sou hoje, não defenderia as causas que defendo hoje”, garante a autarca. “Enquanto padre, ele sempre acreditou no poder das mulheres. Defendia as mulheres acerrimamente. A bordadeira, a agricultora, a política. Foi o primeiro presidente da câmara a convidar uma mulher para presidente da Assembleia Municipal. Ele acreditava nas pessoas, empoderava as pessoas. Senti-me empoderada por ele, fazia-me acreditar que é possível.”
Mónica Vieira lembra-se dos tempos em que vivia na Ribeira Seca e em que “só quem tinha estatuto” é que podia ter sucesso. “Ele fazia-me acreditar que, se eu acreditasse, podia concretizar os meus sonhos. E incentivava. Emprestava-me livros. O primeiro acesso que tive a livros foi na biblioteca da igreja. O primeiro contacto que tive com Strauss ou Mozart foi com o padre Martins.” Em parte graças ao incentivo de Martins Júnior, Mónica seguiu os seus estudos, tornou-se professora, dirigiu uma escola e acabaria por entrar na vida política para “lutar pelos outros”.
“Um ato de justiça”
Os méritos do padre Martins Júnior seriam, em última análise, reconhecidos mais rapidamente pelo Estado do que pela Igreja. Em 1995, o sacerdote foi condecorado com o grau de comendador da Ordem de Mérito pelo Presidente da República, Mário Soares. Mas teriam de passar ainda mais de 20 anos desde esse reconhecimento para que a Igreja Católica voltasse a aceitá-lo. Só em 2019, já por decisão do atual bispo do Funchal, Nuno Brás, a suspensão a divinis foi revogada por se considerar que “passados estes anos as razões primeiras que levaram à aplicação e manutenção dessa pena deixaram de existir”.
No verão de 2019, depois de levantar a suspensão, Nuno Brás nomeou o padre Martins Júnior como administrador paroquial da Ribeira Seca, a povoação de onde nunca tinha verdadeiramente saído. O bispo visitou a paróquia e apareceu em público ao lado do sacerdote, deixando em evidência que a Igreja tinha readmitido plenamente o padre Martins Júnior — que terá prometido não voltar à política, algo que chocaria diretamente com as normas eclesiásticas.
▲ O padre Martins Júnior numa procissão na Ribeira Seca
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“Considero que foi um ato de justiça porque, 42 anos depois, o senhor padre foi readmitido, houve uma paz, uma convergência entre o poder religioso da Madeira e esta paróquia, que estava colocada de parte”, conta Mónica Vieira. Um dos momentos em que essa separação ficou mais evidente foi a visita da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima a todas as paróquias portuguesas, entre maio de 2015 e maio de 2016, no âmbito das comemorações o centenário das aparições de Fátima. “Veio a todo o lado, veio à escola, e não foi à igreja. Colocaram-na de costas para a igreja da Ribeira Seca, quando estava lá a população toda à espera”, lembra Mónica Vieira.
A reintegração de Martins Júnior foi celebrada pela maioria dos paroquianos da Ribeira Seca, mas não por todos. “Alguns paroquianos deixaram de ir à igreja. Meus amigos, lutadores da primeira hora, de gema, e disseram: padre, não devia ter aceite esta proposta do bispo”, contou Martins Júnior na entrevista ao 7Margens. Isto porque, na verdade, o sacerdote nunca chegou a ser alvo de um processo formal da parte da Igreja Católica. Martins Júnior contou mesmo ter chegado a dizer ao bispo que preferia ser julgado, pois queria saber que delito tinha cometido para justificar a suspensão.
“Senti, ao cabo de quatro décadas, que se de facto o bispo reabriu as portas eu deveria entrar, embora fosse mais correto ser julgado. Até hoje, ainda espero, ainda estou apostrofando, estou interpelando a autoridade eclesiástica que me julgue. Não por nada, que com esta idade de 86 anos já pouco me rala. Mas para que se soubesse”, afirmou na mesma entrevista. A 12 de junho de 2025, apenas seis anos depois de a Igreja ter levantado uma suspensão de 42 anos, o padre Martins morreu sem ter tido direito a um julgamento canónico e sem nunca ter sabido quais as razões que formalmente justificaram o seu afastamento. Este domingo, 22 de junho, celebra-se o seu funeral: no mesmo dia em que no ano de 1969, foi nomeado pároco da paróquia da Ribeira Seca.