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Mastercard cria no novo "centro de excelência" de Lisboa um "bot" de IA que procura o melhor negócio e faz a compra em nome do cliente

Multinacional norte-americana dos pagamentos apresenta "centro de excelência" em Lisboa, onde trabalham mais de 600 pessoas. Ao Observador, diz que quer ajudar Europa a ter mais autonomia estratégica.

O sobrinho vai fazer quatro anos e, por isso, o cliente decide usar um dos chatbots disponíveis no mercado (como o ChatGTP ou o Gemini) para, antes de mais, perguntar se faz sentido dar uma bicicleta a uma criança tão pequena. É-lhe recomendada uma bicicleta sem pedais e são-lhe sugeridas três ou quatro lojas que vendem diferentes modelos dentro do preço definido. Mas o cliente não faz a compra de imediato: ao invés, com a ajuda de uma funcionalidade criada pela Mastercard – com “dedo” português – é dada uma “ordem” para que se encontre o melhor preço até à data do aniversário. E quando uma das lojas entra em saldos e o preço baixa, a compra é feita automaticamente em nome do cliente.

Em termos simples, é deste modo que funciona uma nova funcionalidade lançada pela multinacional norte-americana e testada nesta terça-feira, em contexto real, no novo “centro de excelência” da Mastercard em Lisboa, na Avenida Miguel Bombarda. O espaço, onde trabalham cerca de 600 pessoas “altamente qualificadas” – três quartos delas portuguesas – foi esta terça-feira apresentado com a presença do presidente da câmara de Lisboa, Carlos Moedas, e do ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz.

Os dois agradeceram efusivamente a aposta da multinacional norte-americana e garantiram que a autarquia e o poder central, respetivamente, estão a fazer todos os esforços para continuar a trazer para Lisboa e para Portugal empresas inovadoras. “Inovação significa criação de emprego“, salientou Carlos Moedas, quando “estamos a falar de inovação que cria novos produtos que as pessoas vão querer comprar e vão querer usar”.

Lisboa é hoje uma das cidades mais atrativas da Europa. A nossa estratégia tem apenas um objetivo: criar emprego de qualidade para os lisboetas, que permita ter uma boa qualidade de vida e melhores salários. É por isso que apostamos em trazer grandes empresas para a cidade. O novo Centro de Excelência para a Inovação da Mastercard em Lisboa é um exemplo desse esforço e um fruto dessa estratégia”, afirmou Carlos Moedas.

Já Pinto Luz garantiu que o Governo está a “dar corda aos sapatos” para legislar de forma proativa e dar às empresas mais inovadoras, por exemplo, acesso a sandboxes, onde podem decorrer experiências de forma controlada, com menos constrangimentos regulatórios nas várias áreas.

Governo está a "dar corda aos sapatos" para legislar e apoiar empresas inovadoras

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Miguel Pinto Luz diz que “hoje vivemos um hype e uma atratividade crescente de Portugal, mas isso coloca pressão sobre os decisores políticos a todos os níveis” para que “deem corda aos sapatos” e legislem de forma proativa para criar condições para a inovação.

“Se os decisores políticos não arrepiarem caminho, em bom português, se não derem corda aos sapatos e se não mudarmos esta dimensão legislativa para permitir a quem escolhe, como a Mastercard, o destino de Portugal para colocar os seus centros de inovação” não será possível manter, atrair e trazer mais investimentos, afirmou o ministro das Infraestruturas e Habitação.

Um exemplo: “até à semana passada, não era possível” testar condução autónoma em Portugal, ao contrário de outros países. Mas, agora, passou a ser, porque “este Governo tem vindo a fazer um conjunto de alterações legislativas” nesta área e em outras,como na área dos drones.

Estamos a legislar para testes de drones, mas também para a gestão do espaço aéreo nos drones, outra dimensão absolutamente essencial” e “estamos a legislar para novas sandboxes na área de inteligência artificial e estamos a liderar a agenda, nomeadamente na nossa candidatura à ‘gigafactory’ [gigafábrica] europeia, numa parceria 50-50 com o Estado espanhol e, portanto, com a enorme esperança depositada nessa candidatura para termos uma das 5 primeiras ‘gigafactories’ em Portugal”, sublinhou.

Além disso, “estamos a criar as condições necessárias e suficientes para colocar todos os operadores de infraestruturas nacionais ao serviço de quem quer testar novas tecnologias e quem quer ser early adopter”, disse, elecando a importância no investimento em fibra ótica, cabos submarinos e em data centers [centros de dados].

“Temos mais de três dezenas de data centers em ‘pipeline’ e criámos uma grande zona de grande procura energética e, portanto, estamos a direcionar e a criar fast tracks para o investimento” nesta área, afirmou Pinto Luz.

Porém, “não queremos ser uma quinta de data centers, consumidores de energia sem gerar externalidades positivas para a economia e para as nossas empresas e o nosso tecido universitário e científico e, portanto, estamos a exigir a quem faz investimento” que faça investimento na ciência e empresas portuguesas, rematou.

Nem um nem outro responsável, nem tão-pouco os líderes internacionais da Mastercard presentes, quiseram revelar quanto é que foi investido pela multinacional neste “centro de excelência”, em Lisboa. O espaço começou por ser um pequeno escritório mas cresceu, em cinco anos, até se tornar um dos principais hubs que a multinacional dos pagamentos tem espalhados pelo mundo, a trabalhar de forma integrada (embora com especializações individuais).

No caso de Portugal, o enfoque é a “criação de serviços que rodam à volta do pagamento“, revelou Paulo Raposo, diretor-geral da Mastercard em Portugal. Esses serviços, em que o pagamento é apenas a base, o ponto de partida, incluem ferramentas que recorrem às novas tecnologias de Inteligência Artificial (IA) generativa que são cada vez mais usadas pelos portugueses, incluindo para gerirem as suas contas, como confirmou há poucas semanas um estudo divulgado pela consultora McKinsey.

Portugueses aderem à Inteligência Artificial e 60% dos utilizadores usam-na para gerir as finanças

Uma dessas ferramentas, que foi testada pela primeira vez em Portugal, é o Agent Pay – que foi desenvolvido, basicamente na totalidade, pelos técnicos que trabalham neste hub em Lisboa. Segundo a Mastercard, dos cerca de 600 colaboradores que trabalham em Lisboa, 72% são portugueses mas existem 38 nacionalidades diferentes, com uma média global de idades de 34 anos.

Os quadros estão a criar produtos inovadores na área dos pagamentos em áreas ligadas à inteligência artificial, a cibersegurança e a análise de dados. Paulo Raposo acrescenta que há muitas pessoas – de memória, conta “pelo menos 20, alguns que estavam já na Mastercard e outros noutras organizações” – que são portugueses que tinham saído do país em busca de outras oportunidades e que, com a abertura deste “centro de excelência”, decidiram voltar para Portugal.

Carlos Moedas, no seu discurso, salientou que passou pelo mesmo, pessoalmente. Nascido em Beja, tinha 23 anos e tinha-se tornado engenheiro há pouco tempo quanto teve de ir para Londres, para França e para os EUA. “Demorei 10 anos a encontrar uma oportunidade em Portugal“, recordou o presidente da câmara de Lisboa, lamentando que nessa altura não existissem locais onde fosse tão fácil conhecer fundadores de empresas, investidores ou outros jovens empreendedores.

Estruturas como este hub da Mastercard e outras – como a Fábrica de Unicórnios, “politicamente ridicularizada” – ajudam, defendeu, a tornar Lisboa e as cidades portuguesas um destino para “a grande inovação, à escala mundial”. E permite que os jovens encontrem oportunidades e outros, já menos jovens, possam regressar ao seu país, “que é o que mais enche o coração“, disse Carlos Moedas.

Um bot que trabalha para encontrar o melhor negócio para o consumidor

A ideia do Agent Pay é “transformar a forma como as pessoas fazem compras online” – em que o cliente expressa um desejo mas, depois, quem vai fazer a compra é um bot de IA. A bicicleta sem pedais para o sobrinho é um exemplo, mas pode-se falar em tudo, desde bilhetes de avião até vestuário. O bot vai, de forma sempre encriptada e com cuidados de segurança criados pela Mastercard, procurar o melhor negócio para o consumidor.

Para as empresas de pagamentos, esta é uma mudança paradigmática. Sempre houve as transações iniciadas pelo consumidor e, a dada altura, passou a haver transações iniciadas pelo comerciante (pense-se, por exemplo, num débito automático cobrado por uma empresa de streaming, que inicia uma transação a partir da conta do cliente). Agora, surge um terceiro tipo de transações: aquelas em que intervém um “agente” de IA – que, no limite, poderá acabar por interagir com outro agente de IA do outro lado, do comerciante.

O objetivo é que o Agent Pay esteja totalmente integrado nos bots mais usados (os tais ChatGPT, Gemini ou outros), ou seja, tudo começa com uma conversa entre o utilizador e um chatbot generalista. Depois, quando é lançada a transação, os dados do cartão de crédito nunca são para ali chamados – o sistema vai interagir com algum tipo de “cofre” onde estão os dados do cartão de crédito (como o Apple Wallet, por exemplo) e criar “credenciais” que são, no fundo, um token temporário e encriptado, para que a transação, quando se fizer, seja feita com segurança.

▲ Jorn Lambert, diretor de produto da Mastercard, apresentou a nova funcionalidade Agent Pay, que foi testada em contexto real pela primeira vez em Portugal.

Quando é que este tipo de funcionalidades pode estar acessível para os clientes, na prática? Paulo Raposo, diretor-geral da Mastercard em Portugal, explica que, “do ponto de vista prático, os cartões portugueses todos (da Mastercard) estão preparados” para aderir a este serviço – “isso está feito“, afirma. “Mas, depois, temos outra componente dos agentes a trabalhar do lado do comerciante”, cujo desenvolvimento será feito por esses mesmos comerciantes.

“Nos próximos anos haverá uma integração e um rollout (distribuição da tecnologia) que será quase invisível para as pessoas, porque o que as pessoas vão ver é que vão passar a manifestar uma vontade e tudo o que vai existir por trás é uma camada tecnológica que garante que eu sou eu, que eu expressei uma vontade verdadeira, e depois vai à procura de quem satisfaça essa vontade, da forma mais barata ou conveniente possível”, explica o responsável.

Europeus mais independentes dos norte-americanos? Mastercard diz que pode ajudar nisso

O setor dos pagamentos, dominado no Ocidente por duas norte-americanas (Mastercard e Visa) é uma das várias áreas onde tem existido um ímpeto para uma maior autonomia da Europa em relação aos EUA. Além dos planos do Banco Central Europeu (BCE) para a criação de um “euro digital”, têm surgido várias iniciativas do lado do setor privado que tentam aproveitar esse movimento.

SIBS. Dona do Multibanco e MBWay entra em parceria europeia para destronar americanas Visa e Mastercard e antecipar-se ao “euro digital”

Em entrevista ao Observador, à margem da apresentação do “centro de excelência” da Mastercard, Kelly Devine, a presidente da Mastercard para a Europa, garante que “compreende e respeita” que esteja a existir este movimento para garantir maior “autonomia estratégica” no Velho Continente, em relação aos EUA. “Aliás, a nossa resposta é que, na verdade, podemos desempenhar um papel em conseguir essa maior autonomia”, afirma a executiva da multinacional norte-americana.

“Sim, somos uma empresa americana, mas não somos geridos por americanos para benefício dos americanos. Temos um alcance global, acabámos de investir 250 milhões em data centers em França para podermos processar transações de forma local, na Europa. Temos, salvo erro, 27 escritórios espalhados pela Europa, incluindo aqui [em Lisboa], onde usamos tecnologia europeia gerida por europeus, 9.000 colaboradores…”, afirma Kelly Devine.

Por outro lado, acrescenta a responsável, “temos os benefícios de sermos uma empresa global, que por vezes pode ser muito útil”, por exemplo, na área da cibersegurança. “A fraude e os ciberataques não respeitam fronteiras” e o facto de a Mastercard estar presente em todo o mundo ajuda a tornar todo o sistema mais seguro do que uma solução como, por exemplo, o Wero, que está a ser criado por uma organização criada por alguns dos maiores bancos europeus.

Jorn Lambert, diretor de produto da Mastercard, acrescenta, também em entrevista ao Observador, que “se surge um ataque fraudulento na Argentina, na Tailândia e em Portugal, em simultâneo, provavelmente a SIBS [dona do Multibanco e do MBWay] ou outra solução nacional ou europeia não irão ver isso – nós vemos, porque temos olhos em todo o lado e conseguimos parar esse ataque”.

Além disso, “se quisermos fazer um acordo com a OpenAI [dona do ChatGPT], para criar algo que beneficia o consumidor, a OpenAI atende o nosso telefonema – provavelmente não irá atender o telefone à SIBS“, acrescenta Jorn Lambert. “O que a Europa não deve fazer é travar a inovação e a criação de melhores opções para os consumidores, sacrificando o progresso económico em prol de slogans”, argumenta.

Quando um português quer pagar a um belga, porque é preciso chamar um americano? Wero quer acabar com domínio da Visa e Mastercard na Europa

Kelly Devine frisa que a sua missão “é descobrir como é que podemos aproveitar aquilo é melhor no facto de sermos uma empresa multinacional, global, de uma forma que seja suficientemente europeia que a Europa, no fundo, consiga ter o melhor dos dois mundos”.

Até mesmo no projeto do “euro digital”, patrocinado pelo BCE, a Mastercard “gostaria muito de encontrar formas de contribuir para a conceção da solução que será criada e ajudar na criação de algo que seja seguro, porque isso é o principal objetivo – as pessoas não vão usar uma coisa se não acharem que é algo seguro”.

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