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Maurizio Sarri, o antigo bancário que é apaixonado pelo jogo e vai à procura de fumo branco na Juventus /premium

Só se dedicou por inteiro ao futebol aos 40 anos e ganhou o primeiro título há um mês. Fumador confesso e muito supersticioso, Maurizio Sarri vai para a Juventus tentar o que poucos conseguiram.

“Estou muito feliz mas acho que a camisola é que é importante. A parte da frente da camisola. O troféu é muito importante para o clube e isso torna as costas da camisola, o nome dos jogadores, o nome do treinador, o menos importante. Claro que também é importante para nós, porque sentimos que merecemos ganhar. Merecemos ganhar”. A 29 de maio, o Chelsea venceu o Arsenal na final da Liga Europa e conquistou o sexto título europeu da história do clube londrino. Maurizio Sarri, ainda no relvado do Olímpico de Baku, garantia que o importante era o símbolo na parte da frente das camisolas e não os nomes nas costas. Ainda assim, visivelmente emocionado, não conseguiu deixar de repetir que o Chelsea mereceu ganhar. A frase repetida, aliada ao pormaior que é o facto de Sarri nunca ter conquistado qualquer troféu até aí, permite entender que o italiano estava orgulhoso. Ao fim de 20 anos dedicados por inteiro ao futebol, Maurizio Sarri ganhou. E mereceu ganhar.

No final da primeira temporada em Londres — que foi também a primeira temporada da carreira passada fora de Itália –, o treinador de 60 anos não conseguiu mais do que um terceiro lugar na Premier League (facto que, tendo em conta que os dois da frente são Manchester City e Liverpool, é assinalável) mas garantiu a conquista da Liga Europa de forma invicta, sem perder qualquer jogo, algo que só tinha acontecido a nível europeu com o Barcelona de Ronaldinho em 2005/06 e o Manchester United de Ronaldo em 2007/08. A idade de Sarri é relevante para o caso não só porque o italiano só conseguiu ganhar alguma coisa já enquanto sexagenário mas também porque escapa ao que se tem tornado um hábito entre os treinadores dos principais clubes europeus.

No final do passado mês de maio, com o troféu da Liga Europa, o primeiro título da carreira

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Nas últimas temporadas, tem-se tornado comum e habitual ver treinadores muito jovens e com pouca experiência a chegar ao comando técnico de clubes europeus — alguns passam de jogadores a treinadores com poucos anos pelo meio, outros saltam de adjuntos para principais e ainda há os que começam a carreira nas ligas inferiores e ganham oportunidades na alta roda quando conseguem algo relevante com equipas mais modestas. Seja qual for o percurso que os leva até às cadeiras que podem bem ser de sonho, a verdade é que os 48 anos de Pep Guardiola, os 52 de Jürgen Klopp e os 46 de Zinedine Zidane (sem esquecer, em Portugal, dos 43 de Bruno Lage, os 44 de Sérgio Conceição e os 50 de Marcel Keizer) provam que existe uma tendência cada vez maior de apostar em técnicos jovens, com ideias teoricamente frescas e carreiras ainda curtas.

O caminho percorrido por Maurizio Sarri, embora vazio no que toca a títulos, está longe de ser curto. E também está longe de ser uma simples transição de jogador para treinador, uma simples transição de adjunto para principal ou uma simples transição de técnico de segunda linha para técnico que luta pela Serie A. O novo treinador da Juventus, que a partir da próxima temporada vai orientar Cristiano Ronaldo e João Cancelo em Turim, só se dedicou por inteiro ao futebol e à carreira de técnico no início do século XXI, quando tinha já 40 anos. Não que o futebol não fosse uma obsessão, não que o futebol não fosse aquilo que gostava mesmo de fazer, não que não trabalhasse no futebol desde que era miúdo: mas o dinheiro que recebia nas ligas amadoras do futebol italiano, quando recebia, não chegava para pagar as contas.

O treinador de 60 anos não conseguiu mais do que um terceiro lugar na Premier League (facto que, tendo em conta que os dois da frente são Manchester City e Liverpool, é assinalável) mas garantiu a conquista da Liga Europa de forma invicta, sem perder qualquer jogo.

Até 1999, Sarri conciliou o papel de treinador de várias equipas amadoras com a profissão que exerceu desde muito jovem, a de bancário no Banca Monte dei Paschi di Siena. Chegou a ser jogador e atuava enquanto defesa central mas nunca passou do nível amador, acabando por terminar a carreira ainda antes dos 30 anos graças a lesões consecutivas. Passou por cinco clubes — Stia, Faellese, Cavriglia, Antella e Valdema — até chegar ao Tegoleto, no último ano do antigo milénio, no salto para a 5.ª divisão que o convenceu de vez a abandonar o trabalho no banco que o obrigava a viajar (e a afastar-se dos treinos, dos jogos, das preparações) constantemente. O facto de treinar nas ligas inferiores do futebol italiano, ainda assim, nunca lhe toldou o perfeccionismo, linha de caráter que praticamente todos os jogadores que orientou utilizam para o descrever. A total entrega ao jogo e à equipa era desconcertante e até desfasada em relação à realidade em que vivia: estudava os adversários de forma intrincada, com um nível de detalhe muito aprofundado, e estabelecia diversas táticas e inúmeros sistemas para cada jogo, acabando por ficar conhecido como “Mr. 33” por treinar 33 formas distintas de bater bolas paradas durante os treinos.

“Era futebol do futuro. Ele testava tudo — análise psicológica, provas físicas –, ele tinha em conta qualquer detalhe mínimo. Para aquele nível, clubes amadores, era completamente alienígena. Às vezes olhávamos uns para os outros e achávamos que era tudo um bocadinho demais. Mas ouvíamos tudo aquilo que ele tinha para dizer. Fazíamos tudo o que ele dizia para fazermos. Ele sabia tudo sobre toda a gente. Um dia, disse-me: ‘Simone, no domingo vais estar a marcar um avançado que se divorciou agora. Assim que entrares em campo, diz alguma coisa sobre a mulher dele, entra na cabeça dele!’. Sabia todos os detalhes sobre os nossos adversários. Era admirável”, explicou à BBC Simone Calori, capitão de equipa quando Maurizio Sarri treinava o Sangiovannese.

Ainda enquanto treinador do Empoli, a fumar durante um jogo contra a Juventus

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A carga de trabalho quase obsessiva que não descura ainda hoje — a imprensa inglesa chegou a dizer, ao longo da temporada, que o italiano não tirava folgas — acompanhava-o desde a preparação dos jogos ao rescaldo dos mesmos, quando ficava no estádio o tempo que fosse preciso após o apito final para sair já com o DVD da partida e poder analisar todos os lances na viagem de regresso a casa. Os bons resultados com aquilo a que os antigos jogadores chamam “a introdução da marcação à zona no futebol italiano” e um “tiki taka vertical”, um estilo de jogo entusiasmante e vertiginoso que escapa em quase toda a linha ao que é comum em Itália, permitiram-lhe ir escalando pelas divisões e ligas do país, através de Sansovino, Pescara, Arezzo, Hellas Verona e Perugia. Em 2012, depois de deixar o Sorrento no sexto lugar da terceira liga italiana e bem longe do risco da despromoção, foi convidado para a primeira grande aventura da carreira.

O Empoli, clube habituado à alta roda da Serie A mas que nesta altura estava afastado da principal liga de Itália há cinco anos, apostou em Maurizio Sarri para conseguir o objetivo claro de deixar a Serie B e subir de divisão. Para a Toscana, região onde havia nascido o pai, antigo ciclista, o treinador levou todas as superstições que tinha colecionado com o passar dos anos: desde estacionar o carro sempre no mesmo lugar, recusar todos os quartos de hotel que tivessem o número 17, vestir-se sempre de preto e proibir os jogadores de utilizar chuteiras coloridas, obrigando-os a pintá-las com spray para que ficassem negras. A ida para o Nápoles em 2015 — já depois de garantir a subida do Empoli à Serie A –, levou-o a largar o preto, mas nunca o fato de treino, e a permitir chuteiras azuis, verdes, cor de laranja e afins. Mas o lugar para o carro continua a ser o mesmo, o número 17 continua a ser número de azar e o cigarro, esse, continua a ser aceso sempre no mesmo local durante as viagens de casa para os treinos.

Estudava os adversários de forma intrincada, com um nível de detalhe muito aprofundado, e estabelecia diversas táticas e inúmeros sistemas para cada jogo, acabando por ficar conhecido como "Mr. 33" por treinar 33 formas distintas de bater bolas paradas durante os treinos.

O cigarro — ou cigarros, já que Maurizio Sarri fuma cerca de cinco maços de tabaco por dia — acabou por se tornar uma imagem de marca do treinador italiano que o acompanha desde os primeiros dias da carreira. Desde fumar junto à linha técnica, algo que fazia nas ligas amadoras e ainda no Empoli e nos primeiros tempos no Nápoles, quando Itália ainda não tinha aprovado a lei que proíbe o tabaco em espaços fechados, até passar os jogos com uma beata na boca, uma imagem que se tornou habitual já no Chelsea e na última temporada. O vício do italiano levou mesmo o clube napolitano a construir uma sala de fumo para o treinador poder fumar no interior do Stadio San Paolo e o exemplo foi seguido pelo Chelsea este ano mas não só, já que até o RB Leipzig preparou um espaço para Sarri poder fumar junto ao balneário quando o Nápoles visitou os alemães nos oitavos de final da Liga Europa em 2018.

“O Sarri é um fumador apaixonado, é incrível. Nunca vi ninguém fumar tanto. Graças a Deus que tem de se controlar durante os jogos!”, disse em entrevista Marek Hamsik, eslovaco que era capitão do Nápoles durante a passagem do treinador pelos napolitanos. Na cidade italiana, onde Maurizio Sarri nasceu e cresceu, o treinador é tido com um ídolo que só tem precedentes em Diego Maradona. O técnico conseguiu colocar o clube por duas vezes no segundo lugar da Serie A, apenas atrás da Juventus, e em 2017/18 ficou mesmo a quatro pontos de ser campeão italiano. O registo sem paralelo nas últimas décadas tornou-o um ícone do clube, ao ponto de a claque napolitana exibir uma enorme faixa onde se lia “Sarri, um de nós” no último jogo que o treinador fez em Itália antes de partir para o Chelsea.

"Sarri, um de nós": a faixa que os adeptos do Nápoles exibiram num dos últimos jogos do treinador ao serviço do clube italiano

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“Em Nápoles, Maurizio é visto como Maradona. É visto como um líder. As pessoas de Nápoles têm uma ligação muito forte com o Maurizio. Defendeu-nos enquanto cidade, enquanto adeptos, enquanto napolitanos, para além dos resultados brilhantes dentro de campo. Para mim, mais ninguém vai fazer em Nápoles o que ele fez”, explicou à BBC o dono do café que fica no andar abaixo da casa onde o treinador vivia com a família quando era criança — e onde hoje em dia está um enorme museu dedicado ao técnico. O responsável pelo estabelecimento acrescentou ainda que Sarri “diz tudo o que tem a dizer, aconteça o que acontecer”, um traço de personalidade que já lhe valeu alguns dissabores.

Em 2016, durante um jogo contra o Inter Milão, Maurizio Sarri foi acusado por Roberto Mancini de lhe ter atirado “insultos homofóbicos” e acabou por ser multado em 20 mil euros. Na altura, o treinador defendeu-se com um redondo “o que acontece no campo, fica no campo”, mas cerca de um ano depois interrompeu um jogo e ameaçou retirar a equipa do relvado quando Koulibaly, central do Nápoles, estava a ser visado em cânticos racistas pela claque adversária. “O que aconteceu anteriormente foi um erro. Acho que aqueles que me conhecem bem não podem definir-me dessa forma, não sou homofóbico, não sou sexista, não sou racista, claro que não. Sou uma pessoa extremamente aberta e não tenho este tipo de problemas e espero mostrar isso mesmo enquanto trabalhar e viver aqui”, garantiu Sarri na primeira conferência de imprensa enquanto treinador do Chelsea.

O treinador italiano chegou a Londres no início da temporada que agora chegou ao fim para substituir o compatriota Antonio Conte e nem sempre foi aclamado pelos adeptos, principalmente depois de perder por 6-0 com o Manchester City em fevereiro. De treinador da moda no final de 2017/18, principalmente por ter levado o Nápoles até muito perto do título italiano, Sarri passou a flop no início da segunda volta da Premier League mas acabou por conseguir libertar-se das críticas e terminar o ano no terceiro lugar e com uma conquista europeia. A eficácia e o pragmatismo na Liga Europa terão sido os principais motivos que levaram a Juventus, acabada de se despedir de Massimiliano Allegri, a promover o regresso do treinador a Itália para orientar a octocampeã nacional. Sarri, o antigo bancário que é “fumador apaixonado” e que estudava equipas da 5.ª divisão como se de uma final europeia se tratasse, aterra em Turim com a certeza do objetivo que lhe será exigido: a conquista da Liga dos Campeões.

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