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Rangel mal tinha acabado de reconhecer a derrota, na noite eleitoral, quando dois montenegristas comentavam ao telefone: “Pronto, isto agora, se o Rio não ganha o Costa, é para o Luís“. O antigo líder parlamentar do PSD acabou por ser um dos vencedores colaterais da vitória de Rui Rio: Paulo Rangel está afastado da corrida, Carlos Moedas ainda terá de se entreter com Lisboa e, no próximo ciclo do partido, há poucas figuras com condições políticas para disputar o partido. É este o cenário traçado por figuras de topo do ‘montenegrismo’, que estiveram envolvidos nas diretas de 2020. Mesmo sem se excluir do futuro do PSD, o antigo líder parlamentar não quer, neste momento, ouvir falar no assunto.

Luís Montenegro, em declarações ao Observador, considera mesmo “despropositado, deselegante e reprovável que se fale na sucessão de um líder que acabou de ser eleito e que ainda nem tomou posse do novo mandato.” O antigo líder parlamentar acrescenta mesmo: “Da minha parte não pactuarei com esses exercícios e condeno-os mesmo. Este é um tempo em que o foco é exclusivamente ter um partido unido no objetivo de dar ao país um governo não socialista”.

A posição de Montenegro ao Observador não desincentiva as suas tropas, que nunca desmobilizaram e estão prontas para o dia em que decida regressar ao combate. Vários elementos que formaram a cúpula da candidatura montenegrista há dois anos, não disfarçam o entusiasmo no day after das diretas em declarações ao Observador. “Montenegro tem condições imaculadas para vencer o partido”; “ficou na pole position para o pós-Rio”; “terá condições muito favoráveis quando este líder sair”, são algumas das expressões utilizadas. Negam, no entanto, ter tido alguma influência negativa no resultado de Paulo Rangel.

Um dirigente distrital que apoiou Montenegro em 2020 diz ao Observador que Luís Montenegro é “indiscutivelmente um valor e uma referência do PSD”. Para a mesma fonte, “tem todas as condições para ser presidente do PSD. A questão é se ele quer”. O mesmo dirigente acredita que “desta vez, ele teria ganho a Rui Rio se fosse a jogo” e diz que, o mais provável, é que tenha nos próximos anos tenha em algum momento “um quadro circunstancial favorável que facilitará a sua eleição”.

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Um antigo dirigente nacional do PSD, que também esteve com Montenegro, diz que “é evidente que, se as coisas correrem mal a Rui Rio, não há muitos protagonistas que possam liderar o partido”. Na semana que antecedeu a eleição, a mesma fonte dizia ao Observador: “O tempo agora é de Rangel e de afastar o Rio, o Luís anda na vida dele”. Agora, o discurso evoluiu.

Um outro membro do inner circle de Luís Montenegro diz agora que “Rangel foi um mau candidato” e que “ficou afastado de vez”. A mesma fonte diz que o antigo líder parlamentar tem “condições imaculadas para vencer o partido“, embora identifique alguns obstáculos que podem aparecer pelo caminho.

Os obstáculos e o momento para Montenegro voltar à carga

Luís Montenegro decidiu afastar-se da política porque entendeu que este não era o momento certo para avançar. Rio tem conseguido vencer todas as batalhas do partido e já arrumou Santana Lopes, o próprio Montenegro (e Pinto Luz) e, por fim, Paulo Rangel. Fica claro para os challengers — que representam quase metade do PSD — que o caminho agora já não é enfrentar Rio, mas suceder a Rio.

A questão é quando aparecerá essa oportunidade. Se Rui Rio vencer as legislativas, e houver uma maioria à direita que suporte um Governo PSD, não há contestação possível. Nesse caso, se o presidente do PSD conseguir ser primeiro-ministro (os montenegristas garantem que farão campanha pelo PSD de “corpo e alma” nas próximas legislativas), irá pulverizar qualquer cálculo de curto/médio-prazo para a sua sucessão. Os últimos anos mostram, aliás, que o poder é o principal bálsamo para curar as feridas da divisão do partido.

O posicionamento dos montenegristas não é, no entanto, inocente. Se Rui Rio tiver um mau resultado nas legislativas de 30 de janeiro (o que juram a pé juntos não desejar) e se decidir ir embora, não haverá muito tempo para agir: o partido vai de novo para diretas e vai ser preciso agarrar apoios. Esse seria um momento de oportunidade, embora pouco provável nas contas que vão fazendo.

Rui Rio não sairá em fevereiro. A menos que tenha um resultado muito mau ou naquilo daquilo que teve há dois anos. E nada indica isso: ele ganhou um élan com esta vitória ao Rangel, ele é bom em campanhas e vai ganhar terreno ao Costa”, explica um antigo dirigente nacional próximo de Montenegro.

O líder do PSD sempre disse que queria deixar uma linha de sucessão antes de abandonar o partido e, na sua cabeça, como o Observador já escreveu, estaria — antes da última batalha eleitoral — ajudar Paulo Rangel a fazer esse caminho. Mesmo que as diretas não tenham sido tão violentas como foram com Montenegro, Rio já não estará disposto a ajudar Rangel na sucessão. Isso será mais um ponto a favor de Montenegro.

Há, no entanto, outros obstáculos identificados pelos montenegristas. “Até lá podem aparecer novas figuras, a quem o Rio pode dar palco, há novas gerações que podem aparecer e há sempre o Passos. Se o Passos alguma vez quiser avançar, o Luís [Montenegro] não avança contra ele”, comenta um dirigente que apoiou Luís Montenegro nas diretas.

Apoiantes de Rangel desconfiam de “golpe dos montenegros”

Luís Montenegro decidiu não tomar posição nas últimas diretas, mesmo que sempre tenha defendido a mesma estratégia de Rangel e tenha confrontado a de Rui Rio. Ao longo da campanha interna — ao contrário do que aconteceu, por exemplo, na batalha Santana-Rio, onde apareceu em Aveiro na reta final da campanha ao lado do antigo primeiro-ministro — Montenegro nunca apareceu ao lado de Paulo Rangel.

O antigo candidato teve até atitudes que aumentaram a desconfiança dos apoiantes de Paulo Rangel. A meio da semana das diretas, como noticiou a TSF, Luís Montenegro liderou uma lista de delegados na sua concelhia, Espinho, que tinha apoiantes de Paulo Rangel, mas também de Rui Rio. Luís Montenegro foi eleito delegado e pode, por isso, falar no Congresso e marcar posição.

Voltando às dúvidas sobre o posicionamento de Montenegro, estas acabaram por adensar-se quando — no próprio dia das eleições — não quis revelar em quem ia votar quando falou aos jornalistas. Os resultados acabariam por ditar que, na concelhia de Montenegro (Espinho), Rui Rio ganhasse com uma larga vantagem: 91 votos. Isso levantou suspeitas na candidatura de Rangel quanto a um “golpe dos montenegros” com o objetivo de, pelo menos, evitarem uma vitória folgada do eurodeputado — que redundaria numa derrota.

Outra das razões da desconfiança dos apoiantes de Rangel é que a ala montenegrista no distrito de Braga falhou redondamente a Paulo Rangel. Já havia uma grande desconfiança relativamente ao posicionamento de Paulo Cunha, líder da distrital, que tinha decidido não apoiar nenhum candidato. Circulava até nos bastidores do partido, ainda antes do ato eleitoral, que ao longo do processo o antigo cabeça de lista da candidatura de Montenegro ao Conselho Nacional, terá reunido com Rui Rio — contra quem sempre esteve contra. Rangel ganharia em Vila Nova de Famalicão por apenas 16 votos. Depois deste resultado, do lado de Rangel, comentava-se que a troca deste alegado “jeito” a Rio seria Paulo Cunha ser candidato a deputado. O Observador confirmou, no entanto, que Paulo Cunha foi convidado, mas recusou integrar as listas à Assembleia da República nas próximas legislativas. A tese conspirativa não se confirmou.

Também na cidade de Braga, os montenegristas não se mobilizaram por Rangel. Apesar de o eurodeputado contar com o apoio do presidente da câmara, Ricardo Rio, e com a dupla Hugo Soares-Granja, perdeu a concelhia por 12 votos. Um sinal de que pode ter havido boicote ao voto em Rangel é que a lista de delegados encabeçada por Ricardo Rio (João Granja era o número 2 e Hugo Soares o número 3) venceu a dos apoiantes de Rio (encabeçada pelo deputado Firmino Marques) por cerca de 90 votos.

A desconfiança entre os blocos Rangel-Montenegro subsiste e há na estrutura de Rangel quem tenha mais certezas que dúvidas: “Fomos traídos por eles [montenegristas], pode escrever aí. Fomos traídos por eles!”

O debate e o posicionamento da sucessão nas lideranças do PSD começa, normalmente, no dia a seguir um novo líder ser eleito. Quando não é antes. Há, no entanto, uma forma de Rui Rio travar todos os impulsos e cálculos: ser eleito primeiro-ministro. Nesse caso, o mais forte candidato ao pós-Rio nos próximos anos é incontornavelmente Rio.