Logo de manhã, mal entrou pela Feira de São Bartolomeu, em Trancoso, Pedro Nuno Santos foi repreendido por uma senhora que por ali estava junto de uma banca. Mal viu a turba ruidosa de bandeiras e concertina, aproximou-se do líder do PS com uma fisgada: “Falar do que vai fazer pelo país é melhor do que falar sempre mal do primeiro-ministro“. Não adiantou que o socialista lhe dissesse que é o que tem feito porque “não é isso que se tem ouvido, não é isso que se tem ouvido”. E tem sido muito assim.
Pedro Nuno Santos seguiu caminho para a banca seguinte, mantendo a sua, tal como tem feito em relação aos que — mesmo dentro do PS — não esperavam um discurso tão afunilado na Spinumviva nesta campanha. Não que a polémica consultora de Luís Montenegro seja referida pelo nome, mas é pelas suas consequências e sempre, a cada vez que Pedro Nuno para para falar, seja com os jornalistas, seja com os militantes, em comícios. É uma linha que não vai ser esquecida
O assunto não tem surgido tanto pela questão ética, mas antes pela da estabilidade. No PS a explicação avançada para este sistemático picar de ponto nos casos de Montenegro está no que vão dizendo os estudos de opinião sobre a preferência dos eleitores precisamente quanto ao desejo de estabilidade política.
Ainda no mês passado uma sondagem do ICS/ISCTE, feita para o Expresso e para a SIC, mostrava que 58% dos inquiridos preferiam que o vencedor das eleições tivesse uma maioria absoluta de deputados, para governar com estabilidade. É essa frente que Pedro Nuno tem tentado explorar nestes dias ao falar no “ainda primeiro-ministro” — quando refere Montenegro pelo cargo é sempre neste formato — como “fator de instabilidade”.
Não aponta os casos em si, fala sobretudo no “passado” de Montenegro. Mas chegou a tocar mais diretamente no assunto quando, no comício de Portalegre de há três dias, falou num encontro de Montenegro, nesse mesmo dia, com uma pensionista que se queixou da reforma, para atirar com ironia: “Tivesse a senhora a sorte que Luís Montenegro teve nos negócios e já não teria pensão tão baixa.” A tirada virou piada e ainda no comício desta sexta-feira, em Vila Real, a sala disparou em risos quando Pedro Nuno voltou a usá-la.
Mas o assunto não tem nada de leve para os socialistas e tem sido mesmo um peso pesado nesta campanha que não fica apenas pelo líder. Outros dirigentes ou candidatos do partido de distritos onde a campanha passou pisaram a mesma tecla. Em Évora, por exemplo, o cabeça de lista Luís Dias, falou mesmo numa “laranja podre” que pode contaminar “o pomar”. E esta sexta-feira, o presidente do partido Carlos César — que reforçou a campanha nos últimos dias desta semana — também esteve em Vila Real a dizer que “a transparência e a estabilidade podem e devem ser faces da mesma moeda. Luís Montenegro pode não ser má moeda mas não gosta de uma moeda assim”.
Foi direto na responsabilização de Montenegro que “caiu por ter tropeçado nas confusões da sua vida empresarial com os seus cargos políticos e não no apoio parlamentar que sempre teve”. Este é outro ponto de honra para o PS, que vai justificando o recurso ao tema com a necessidade de recordar o que levou os portugueses até eleições novamente e no espaço de um ano.
▲ Pedro Nuno Santos em ações de campanha na Covilhã, Faro, Quarteira e Guarda onde houve muito contacto com as populações locais.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Indiferença generalizada” numa rua entre o “irritada” e “cansada” de eleições
Manter viva a memória da origem da crise é visto como importante, sobretudo por aquilo que os socialistas dizem encontrar na rua. Esta primeira semana de campanha deixou a ideia de uma “rua cansada”, “sem paciência” para mais umas eleições, “irritada” e até com uma “indiferença generalizada” face ao momento político, na descrição de vários dirigentes do país socialista com quem o Observador foi falando nestes dias. Nota-se no país e também na máquina partidária, que estava mais apontada para autárquicas (sempre de intensidade máxima para as estruturas) do que em voltar a tentar eleger um primeiro-ministro.
A primeira semana de campanha oficial das caravanas socialistas é sempre nos distritos menos populosos, fazendo o circuito de sul para norte e do interior para o litoral para tentar criar a sensação de crescendo até ao último dia e, com isso, passar a ideia de uma onda eleitoral favorável. Mas esta primeira semana foi particularmente apática.
“Não há pessoas na rua quer estejamos aqui quer não estejamos”, garante um dirigente ao Observador durante um contacto com a população de Trancoso para justificar as fracas afluências. Évora foi um dos sítios onde a mobilização não foi tão expressiva como já se viu noutras candidaturas do partido em legislativas, no comício estiveram cerca de 200 pessoas ao final do dia, mas os socialistas garantem que a caravana do lado, a da AD que passou pela mesma cidade e à mesma hora, não foi muito diferente. Não é só aqui que o PS ignora o copo meio vazio para se concentrar em empates (técnicos).
O braço de ferro entre Montenegro, o duvidoso, e Pedro Nuno, o “aziado”, nas ruas de Évora
A lógica ao contrário nas sondagens
O partido está convencido que na segunda semana vai acabar por conseguir criar a habitual dinâmica que se diferencia dos primeiros dias mais mornos de campanha, não só pelas molduras humanas com que espera enquadrar o líder na rua, como pela presença de altos quadros do partido a tentar reavivar a ideia de uma “equipa governativa preparada”, como Pedro Nuno Santos garante ter consigo caso chegue a primeiro-ministro. O trunfo mais visível que tem referido no topo dessa lista é mesmo o de Fernando Araújo, o cabeça de lista pelo Porto, distrito por onde o PS vai andar nos próximos dias.
A estratégia política vai sendo medida à vista, ou seja, o discurso do líder vai ajustando conforme as necessidades. E nas últimas horas, Pedro Nuno Santos (e não só) inaugurou uma linha de ataque muito dirigida e animada pela recuperação de terreno que algumas sondagens — nomeadamente a da Universidade Católica (UCP) — revelaram no final da semana, bem como uma outra, que vários dirigentes socialistas citam ao Observador, feita nos últimos dias para o Chega pela Aximage e em que os socialistas dizem saber que surgem em primeiro.
Como os dados que têm sido conhecidos até aqui não são os mais favoráveis para o partido, o grupo mais próximo do líder procura fixar-se nas tendências, apontar uma recuperação (ainda que pífia) nas intenções de voto registadas nos últimos dias, mas sobretudo centrar-se no que aconteceu no passado. Pedro Nuno alega que, há um ano, a sondagem da UCP “três dias antes das eleições dava o PS atrás por seis pontos” e o partido perdeu por 0,8″. Desta lógica ao contrário construída pelo socialista, isto quer dizer que a sondagem, que coloca a AD à frente com 32% e o PS com 28%, traz afinal “uma grande notícia.”
A narrativa é também essencial para não fazer esmorecer ânimos na caravana onde se evita a todo o custo qualquer sinal que possa soar a admissão de derrota ou sequer perto disso. Mas nem todos parecem ter recebido o alinhamento. Em Évora, por exemplo, o antigo dirigente, deputado e eurodeputado, Luís Capoulas Santos, até começou por falar em 2022, outro ano de legislativas com sondagens de empates técnicos que acabaram na maioria absoluta do PS, mas acabou por mostrar que o ânimo socialista não está em altas ao pedir “serenidade e convicção” nesta fase.
Antecipar em uma semana o apelo final
Ali naquele círculo eleitoral ou noutros igualmente mais pequenos, por onde Pedro Nuno circulou esta semana, como Portalegre, Castelo Branco, Guarda ou Vila Real, o discurso socialista desta primeira semana foi ainda tocando noutro ponto-chave: o apelo ao voto útil. É coisa que normalmente aparece mais na reta final das campanhas, mas desta vez o alerta foi antecipado.
A margem de há um ano foi curta e o PS vai alimentando — como já se viu — que por trás das sondagens pode estar uma realidade não muito diferente. Se a distância para a AD for mesmo escassa nesta altura, o apelo ao voto útil torna-se uma arma a usar desde já, sobretudo em círculos.
Nestes há dois tipos de vias a alimentar a expectativa socialista e uma delas é perceber se o comportamento em relação ao Chega se repete e esperar que isso aconteça apenas onde prejudicou o PSD, roubando um eleito nas últimas eleições. A outra é esperar que os poucos votos dos partidos mais à esquerda — que não elegem nesses distritos — possam transitar para o PS. Por um lado, “a vitória da AD não parece muito sólida”, comenta um dirigente com o Observador. Por outro, “o PS está com dificuldade em ir além do seu eleitorado“, diz acrescentando logo que “isso já pode ser suficiente para ficar à frente”. Cada voto conta.
▲ Pedro Nuno Santos em comícios em Portalegre, Castelo Branco, Évora e Vila Real.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Dividir ao centro para reinar
Mas há outra frente que o PS tem tentado trabalhar que é o centro político, o que saltou à vista na postura com que Pedro Nuno se confrontou com os líderes da esquerda nos frente a frente televisivos e também já nesta campanha, distanciando-se na esquerda. Agora surge também pela exploração da antipatia que acredita existir nesse mesmo espaço político em relação aos liberais. Daí à associação entre AD e IL vai um pequeníssimo passo.
Como Pedro Nuno Santos tenta apear-se da esquerda e seguir num carril que apanhe “todos”
Os números dos últimos dias fizeram entrar em força no discurso do líder um elemento novo precisamente para tentar apanhar ao centro quem não queira um PSD aliado à IL.Chamou-lhe “coligação radical“, “terrível”, “perigosa” e teve Carlos César a dar-lhe uma mão nessa diabolização.
“É bom percebermos que Portugal correria um sério risco se tivéssemos um Governo da AD, com ou sem Chega, aliado à IL”, disse o presidente do partido esta sexta-feira. “A AD representa um risco sério de maior radicalização da política portuguesa e de enfraquecimento do serviço público”, disse alinhado com o líder que também tenta escavar a ideia de ameaça para o estado social com esta frente unida.
Já do seu lado, o PS garante ter arte para conseguir “dialogar com todos”, não se acantonando numa esquerda, até porque essa maioria é um sonho distante. Até já promete diretamente: “O Presidente da República pode ficar descansado que um Governo liderado pelo PS será um governo de diálogo e de estabilidade.”
Perante o atual contexto, o mais provável seria ter de contar com a “reciprocidade” da AD para desbloquear situações de governação, caso conseguisse ficar à frente das eleições. E esperar que a direita não se reorganizasse para tomar o poder (a geringonça ao contrário).
César até já apareceu no terreno a alertar já para esse risco: “Não é impossível que a direita precise do Chega e que seja com ele que procure prolongar-se no poder.” O PS a tentar tapar todas as frentes. Mas principalmente a ideia de partido derrotado que, com mais ou menos distância, as sondagens vão apontando.