Sempre que Pedro Nuno Santos ouve a palavra esquerda ou qualquer tentativa — por inofensiva que seja — de trocadilho sobre uma preferência por essa via apressa-se a corrigir que o seu diálogo, neste momento, é “com todos e, nomeadamente, com o povo português”. Com a campanha a avançar, as geometrias pós-eleitorais ganham relevo, sobretudo para um líder que tem como discurso único o tiro à estabilidade do adversário. Afinal que estabilidade tem Pedro Nuno para oferecer?
Enfiado num protótipo de carro elétrico construído pelos alunos da Escola Superior de Gestão e Tecnologia, do Politécnico de Leiria, o socialista enfiou-se também na faixa de onde não quer sair nesta campanha. E sai bem ao lado da que escolheu há um ano, quando fez uma campanha apoiado na parte da memória da “geringonça” que agora ignora: a frente de esquerda.
A possibilidade de uma maioria de esquerda é muito reduzida, é certo, mas Pedro Nuno Santos nem chega a entrar nessas contas. Faz tudo para não se deixar acantonar no que neste momento é um nicho, mas que sobretudo não lhe permite crescer ao centro, nem fixar o centro-esquerda. Já tinha deixado essa nova postura bem visível nos debates televisivos, onde não hostilizou a esquerda, mas também não teve especial pudor em tentar meter a mão nesse eleitorado, com apelos descarados ao voto útil — mesmo que para isso tivesse de amesquinhar o papel da esquerda na governação: “Não corre o risco de assumir responsabilidades governativas”, disse a Mariana Mortágua no frente-a-frente com a líder do BE.
E é por este mesmo carril que segue em campanha oficial. No final da visita às oficinas da CP no Entroncamento, Pedro Nuno Santos foi claro no salto para o apeadeiro, evitando voltar a ficar como o líder da esquerda. Prefere ficar à espera do comboio seguinte para ver por onde pode seguir. No embate direto com Luís Montenegro, que é “um fator de instabilidade, na tese socialista, Pedro Nuno Santos apresenta-se como um construtor de pontes, mas não só à esquerda.
▲ Em cima, Pedro Nuno Santos dentro do protótipo de carro elétrico feito por alunos do Politécnico de Leiria. Em baixo, durante a visita às oficinas do Museu Nacional Ferroviário.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Nos primeiros quatro anos dos governos de António Costa estive no centro das negociações com quatro partidos para assegurar a viabilização de quatro orçamentos. É uma experiência que tenho e que é também importante para o amanhã”, disse Pedro Nuno. E essa construção será à esquerda? “Não falei de diálogo… falei da experiência governativa e de diálogo com todos os partidos”, respondeu de imediato.
É a memória seletiva da “geringonça”, bem diferente daquela a que recorreu na última campanha das legislativas, em que a esquerda surgiu oleada, ainda que garantisse não existirem pré-combinações. Não se atacaram e deixaram portas escancaradas para o futuro pós-eleições. O resultado fez com que essa hipótese virasse uma miragem e a estratégia desta campanha mudou.
Agora, o tempo é de “dialogar com os portugueses”, vai dizendo Pedro Nuno quando questionado sobre com quem mais gostaria de dialogar no futuro. E prossegue sem fechar a resposta, dizendo que é preciso primeiro “tentar ter o melhor resultado possível que permita dialogar com os grupos parlamentares representados na Assembleia da República para encontrar uma situação de estabilidade política”.
Numa altura em que a instabilidade que atira ao lado de lá da barricada se pode virar contra si mesmo — afinal, se ficasse à frente como garantiria estabilidade? — resta a Pedro Nuno puxar dos galões de negociador e também pela “reciprocidade” da AD.
[Espanha fez tudo o que devia para evitar o apagão? No podcast “A História do Dia“, só precisa de 15 minutos para ficar bem informado. Conversamos com os jornalistas da redação do Observador e com especialistas para lhe explicar tudo sobre a história mais importante do dia. E ainda lhe damos um resumo rápido das notícias que tem mesmo de saber. Pode ouvir aqui, na Apple Podcasts, no Spotify ou no Youtube Music]
Sonho apertado
A manutenção de tudo em aberto é estratégica nesta altura, embora este caminho seja muito apertado para o PS. Em primeiro lugar, foi o próprio líder que fixou como condição para formar Governo ficar à frente das eleições, apoiando-se naquela que diz ser a prática do atual Presidente da República. É a meta mínima para Pedro Nuno sair bem destas eleições legislativas e também a única via para entrar nas negociações a que se propõe.
Se isso acontecesse, a via natural para Pedro Nuno Santos seria sempre garantir o apoio à esquerda — não há volta a dar e a oposição tem explorado isso, com Montenegro a dizer mesmo que Pedro Nuno tem usado uma “máscara”. Mas, tendo em conta a divisão parlamentar que se firmou nos últimos anos, essa frente seria curta face a uma direita onde o Chega se tem firmado. E nesse cenário, o seguro de vida de qualquer solução governativa apoiada na esquerda estaria apenas na jura do “não é não” do PSD (de Montenegro) ao Chega.
▲ O secretário-geral do PS durante um comício ao ar livre em Santarém.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Na prática, o “todos” de Pedro Nuno não iria muito além dos mesmos de 2015-2019, cruzando os dedos para que a contenda à direita fosse mantendo em pé a tal “estabilidade política” que diz ter habilidade para construir. Isso e fazendo também fé na “reciprocidade”, a teoria que encontrou para desafiar a AD a dar-lhe o mesmo que concedeu: travar rejeições ao programa do Governo e moções de censura e viabilizar um primeiro orçamento.
A promessa de estabilidade de Pedro Nuno Santos funda-se, assim, em três atos de fé (por agora): ficar à frente nas eleições, depois disso, que a direita não estabilize uma maioria capaz de o deitar abaixo ou que a AD faça o mesmo que ele fez há um ano e o deixe governar — afinal foi com o PS que a AD conseguiu “condições de governabilidade e não com a IL”.
Com essa realidade longínqua, a promessa de estabilidade vai sobrevivendo à custa do caso Spinumviva — que ainda não esmoreceu no discurso do líder socialista. E parece que assim continuará, sobretudo se as contas do dia seguinte continuarem tão apertadas como estão. É essa “instabilidade” de Montenegro que tem servido para contrapor a “uma liderança segura e com estabilidade” que é a promessa de Pedro Nuno Santos. Sobretudo quando a realidade dos números parece não ajudar.