Estava escrito nas estrelas. Sem grande surpresa, e tal como o Observador tinha avançado ainda na semana passada, Maria Lúcia Amaral recebeu guia de marcha. A agora ex-ministra da Administração Interna já tinha percebido que não tinha condições para continuar no cargo e Luís Montenegro decidiu que este era o momento de arrumar a casa numa pasta que lhe dá dores de cabeça desde que é primeiro-ministro.

A grande pergunta agora é outra: quem é que vai suceder à antiga vice-presidente do Tribunal Constitucional e ex-provedora da Justiça. Nesta altura do campeonato, os candidatos são muitos, mas continuam a valer três regras clássicas do montenegrismo: quem controla os tempos é o primeiro-ministro; quanto mais se sente pressionado pela oposição e pela comunicação social a ir num determinado caminho, mais resistência demonstra; e qualquer eventual sucessor de Maria Lúcia Amaral só estará na cabeça do próprio primeiro-ministro.

Existem, apesar de tudo, hipóteses que estarão excluídas à partida. Hugo Soares, líder parlamentar e número dois de facto do PSD, não será ministro da Administração Interna. Sendo ele o braço-direito de Luís Montenegro, e sabendo-se que o primeiro-ministro não terá uma terceira oportunidade para deixar uma boa primeira impressão, a solução “Hugo Soares” seria óbvia porque daria todas as condições de segurança. Mas o secretário-geral do partido não vai deixar desguarnecida outra frente de batalha fundamental para Montenegro: o Parlamento. Sobretudo depois de umas presidenciais que deixaram a AD particularmente fragilizada.

Há uma outra hipótese que tem sido avançada com alguma insistência nas horas que se seguiram à demissão de Maria Lúcia Amaral: António Leitão Amaro. O atual ministro da Presidência deixaria o cargo atual e iria para o Ministério da Administração Interna levando consigo o dossiê “imigração”. Em rigor, Leitão Amaro já tem representado várias vezes o Governo português em encontros europeus com outros ministros dos Assuntos Internos, o que faria dele um candidato natural ao cargo.

A transferência de Leitão Amaro obrigaria a encontrar um sucessor para a Presidência — Margarida Balseiro Lopes, atual ministra da Cultura, sempre ambicionou o cargo e é da estrita confiança do primeiro-ministro. No limite, Rui Armindo Freitas, atual secretário de Estado Adjunto da Presidência e Imigração, poderia ser promovido a ministro, libertando Leitão Amaro para outro cargo. Todavia, ao que o Observador apurou, essa hipótese também não estará a ser considerada por Luís Montenegro.

Numa solução a meio caminho, Rui Armindo Freitas, que está atualmente na dependência de Leitão Amaro, poderia ser o sucessor de Maria Lúcia Amaral — também o nome dele começou a circular assim que se soube da demissão da ministra. No entanto, e mesmo reconhecendo todos os méritos de Rui Armindo Freitas, o primeiro-ministro não estará disposto a promover um secretário de Estado a ministro da Administração Interna nesta fase tão delicada do Executivo.

A ideia de ir buscar uma figura à Europa também circula nos corredores do partido — Sebastião Bugalho vai liderando as apostas nesse campeonato particular, mas também se fala de Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara de Vila Nova de Famalicão. No primeiro caso, seria para a pasta da Presidência, o que obrigaria a mais ajustes na orgânica do Governo. O segundo, enquanto artigo autarca, seria uma escolha mais natural para o MAI. Nenhum dos dois, segundo foi possível apurar, estará até ver nas cogitações de Montenegro.

De resto, Luís Montenegro pode estar mesmo inclinado para uma solução externa. Até porque há um dado difícil de ignorar: o primeiro-ministro está mesmo obrigado a acertar desta vez, depois de dois erros de casting difíceis de esquecer. Seguindo esse critério, há um nome que vai sendo repetido nos bastidores: o de Paulo Vizeu Pinheiro.

Embaixador de carreira, representante permanente de Portugal junto da NATO, antigo secretário-geral do Sistema de Segurança Interna (“Superpolícia“) de António Costa, antigo assessor diplomático de Pedro Passos Coelho e ex-conselheiro de Durão Barroso, tem currículo que chegue para o cargo. A solução não é vista como descabida, mas não há qualquer garantia que venha a ser ele o sucessor de Maria Lúcia Amaral.

No limite, o primeiro-ministro poderia olhar para um autarca em funções ou para um ex-presidente de Câmara do PSD para construir um perfil que tem faltado na Administração Interna: uma figura com real conhecimento do terreno, capaz de articular com a Proteção Civil e consciente da necessidade de estar no terreno para lidar com as muitas crises que atormentam tradicionalmente os titulares da pasta. Ricardo Rio, ex-presidente da Câmara de Braga, encaixa neste perfil particular.

Até ver, Luís Montenegro acumulará o cargo de primeiro-ministro com o de ministro da Administração Interna, numa solução obviamente provisória. O timing da saída de Maria Lúcia Amaral teve uma vantagem imediata: impedir que o debate quinzenal de amanhã, quarta-feira, seja transformado pela oposição em mais uma oportunidade para exigir a cabeça da ministra. Desta forma, Montenegro consegue minorar esse desgaste, protegendo simultaneamente o próximo titular da pasta do tiro ao alvo da oposição.

Na semana passada, Maria Lúcia Amaral esteve reunida com Luís Montenegro, o que avolumou os rumores sobre a sua saída iminente. O tema não terá sido esse, mas os dois — primeiro-ministro e a agora ex-ministra — já tinham concluído que não havia margem para que a ex-provedora da Justiça continuasse no cargo. A sucessão de gafes e a incapacidade de dar a volta por cima tinham ditado há muito o destino de Maria Lúcia Amaral.

Com o afastamento de Maria Lúcia Amaral perde força a ideia de que Montenegro poderia estar a preparar já uma remodelação mais alargada — de outra forma, teria trocado as peças todas de uma vez e não apenas a ministra da Administração Interna. Resta saber se será suficiente para o dar o novo impulso ao Governo que já vai sendo exigindo dentro do próprio partido.

Remodelação do Governo atirada para depois da crise

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