1243,8kWh poupados 1243,8 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

epa08969334 Paramedics transport COVID-19 patients from Amadora Sintra Hospital to Luz Hospital in Lisbon, in Amadora, Portugal, 27 January 2021, due to the rising of hospitalizations. The Amadora-Sintra Hospital moved a team of doctors, nurses and auxiliaries to accompany the 19 patients who are being transferred to the infirmary that will open at Hospital da Luz in Lisbon.  EPA/MARIO CRUZ
i

MARIO CRUZ/EPA

MARIO CRUZ/EPA

Morte de grávida no Amadora-Sintra. Sistema de informação clínica não é integrado, mas qualquer médico do SNS pode ver historial do utente

Hospital Amadora-Sintra deu informação errada à ministra sobre Umo Cani, que morreu um dia antes da filha. Obstetras garantem que protocolos foram seguidos, mesmo apesar do "elevado risco obstétrico".

Aos 36 anos, Umo Cani esperava o quarto bebé: uma menina. Guineense, vivia em Portugal há pelo menos um ano e tinha a sua situação regularizada no País. O marido, Braima Seidi, mora na Guiné-Bissau com os três filhos — o mais novo tem quatro anos — mas Umo contava cá com a ajuda da cunhada, perto de quem vivia e que a acompanhou a todas as consultas durante a gravidez.

Um dia depois de ter sido detetada a Umo Cani uma hipertensão ligeira durante uma consulta de obstetrícia no hospital Fernando Fonseca (Amadora-Sintra), a cunhada pediu ajuda mas, quando os bombeiros de Agualva-Cacém chegaram, já a grávida estava em paragem cardiorrespiratória que não se conseguiu reverter, nem com a chegada da Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER), nem no hospital.

A bebé, nascida seis minutos depois de a mãe dar entrada inconsciente no Amadora-Sintra, ainda estava viva quando, no Parlamento, a ministra da Saúde assegurou que Umo Cani “não teve acompanhamento até à data em que entrou pela primeira vez no Hospital Amadora-Sintra já com 38 semanas” de gestação. No dia 1 de novembro, o mesmo em que a bebé de Umo Cani morreu, as declarações provaram-se falsas. O presidente do Conselho de Administração do hospital, Carlos Sá, assumiu a responsabilidade pela falha na informação sobre o acompanhamento da grávida desde julho no Serviço Nacional de Saúde (SNS) e apresentou a sua demissão esta segunda-feira. A ministra aceitou-a, por reconhecer que a informação que havia veiculado “não era a informação total” e que a situação era uma “falha grave”.

A família aguarda pelos resultados das investigações em curso, mas pondera avançar para a Justiça.

Devido à inexistência de um sistema de informação clínica plenamente integrado, que permita a partilha automática de dados e registos médicos entre os diferentes serviços e unidades […], só hoje ao final da tarde foi possível verificar que a utente se encontrava em acompanhamento nos cuidados de saúde primários da ULSASI desde julho de 2025, na Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP) de Agualva
Unidade Local de Saúde Amadora-Sintra

Grávida era seguida no centro de saúde desde julho

Segundo a família, Umo Cani estava em Portugal há cerca de um ano. Os documentos divulgados pela família nas redes sociais, detalham que tinha a sua situação regularizada em Portugal através de uma autorização de residência destinada aos cidadãos da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). Emitida a 27 de dezembro de 2024, vigorava até 24 de dezembro de 2025.

Às 20 semanas de gravidez, Umo Cani foi atendida pela primeira vez na Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP) de Agualva no dia 14 de julho. A 6 de agosto, fez a ecografia do segundo trimestre; a 14 desse mês, foi de novo atendida no centro de saúde e referenciada ao Hospital Fernando Fonseca por “elevado risco obstétrico”, revela o seu Boletim de Saúde da Grávida, também mostrado pela família.

A primeira consulta no hospital Amadora-Sintra dá-se a 17 de setembro e a segunda, a 29 de outubro. Paloma Mendes, uma amiga da família, referiu à imprensa que nesta última, Umo e a cunhada estiveram fora do meio-dia às 18 horas. Neste dia foi detetada uma hipertensão ligeira — 140/90, detalharia Diogo Bruno, diretor do serviço de obstetrícia do Amadora-Sintra — e a grávida foi sujeita a vários exames que despistaram pré-eclâmpsia. “De acordo com o protocolo clínico, a utente foi então referenciada internamente para a Urgência de Obstetrícia, onde, após a realização de vários exames complementares de diagnóstico, teve alta com indicação para internamento às 39 semanas de gestação”, indicou o hospital.

Seria muito mais eficiente e até teria mais qualidade se a base de dados fosse a mesma e se toda a informação disponível sobre o doente estivesse disponível dos dois lados
Xavier Barreto, presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares

O Boletim de Saúde da Grávida de Umo Cani refere que estava marcada a hospitalização na enfermaria de obstetrícia, no dia 13 de novembro. Mas mãe e filha morreram antes.

O historial médico de Umo Cani não chegou completo e certo a Ana Paula Martins de manhã antes da audição perante os deputados das Comissões de Saúde e Finanças, à tarde. A ministra da Saúde baseou-se apenas nos dados partilhados pelo hospital, que não eram completos, diz o Amadora-Sintra, devido à “inexistência de um sistema de informação clínica plenamente integrado, que permita a partilha automática de dados e registos médicos entre os diferentes serviços e unidades”.

▲ O historial de partos prematuros e mesmo da morte de um bebé à nascença não muda a abordagem da hipertensão nas grávidas, refere Diogo Ayres de Campos

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Como é feita a referenciação entre unidades de saúde?

Mas como funciona a transmissão de informação clínica e há a possibilidade de os médicos que trataram Umo Cani no hospital não saberem que era seguida no SNS? Em casos semelhantes ao da grávida de 36 anos, sendo detetado algum fator que motive a alteração da avaliação do risco, os centros de cuidados de saúde primários ou os hospitais têm a possibilidade de referenciar o utente para este passar a ser visto por uma outra entidade. O sistema responsável pelas referenciações chama-se RSE SIGA e é atualmente tutelado pelo Ministério da Saúde: antes era operado por um fornecedor externo. Além disso, a grávida detém o seu Boletim de Saúde, onde estão detalhados “os resultados de todos os exames e de todas as ecografias”, detalha Sara do Vale, presidente da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto (APDMGP).

Já Xavier Barreto explica ao Observador que não existe necessariamente um formulário a preencher pelos médicos quando se referencia um utente. “É o médico dos cuidados de saúde primários que, no fundo, escolhe a informação ou que decide aquilo que vai escrever no pedido [de referenciação]”, nota o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), esclarecendo que procuram dizer “quem é o doente, que problemas é que tem, que medicamentos está a tomar”.

Ministra da Saúde segura, mas com prazo para reavaliar posição

Não existe uma diretriz que indique o tipo de informação a englobar neste requerimento, mas existe a capacidade de diálogo entre as duas unidades para se chegar ao fundo da questão. “Todos os pedidos [que chegam] ao hospital são revistos por um médico: o triador médico”, acrescenta o responsável pela APAH. Este profissional de saúde “lê os pedidos todos e decide se o doente é urgente ou não urgente”, mas também para que médico, dentro do próprio hospital, deve ser marcada a consulta, “quem tem mais capacidade ou conhecimento para tratar aquela condição específica”. Mas se o que está no pedido não for suficiente para responder a todas estas questões, “o médico pode pedir mais informação”, algo que acontece com “alguma frequência”, de acordo com Xavier Barreto.

Assim, quando o utente chegar à nova unidade de saúde onde passará a ser acompanhado, os respetivos médicos já possuem toda a informação considerada relevante pelos profissionais que fizeram o acompanhamento. Contudo, caso queira saber mais dados, qualquer médico do SNS tem a possibilidade de verificar o historial de um paciente numa unidade de saúde diferente da que está a ser tratado.

Umo Cani foi referenciada a 14 de agosto ao Hospital Fernando Fonseca por "elevado risco obstétrico", revela o seu Boletim de Saúde da Grávida. Primeira consulta no hospital ocorreu um mês depois

Por exemplo, no caso de Umo Cani, um médico do Hospital Fernando Fonseca poderia consultar a informação existente sobre a grávida na base de dados correspondente ao centro de saúde de Agualva-Cacém, onde foi atendida antes do hospital. Nesta consulta, poderia ter acesso aos resultados integrais de todos os exames e análises ali feitas.

Para Xavier Barreto, com a existência de um “processo clínico único”, que resultasse numa única base de dados para todas as unidades do SNS, “tudo isto era facilitado”. “Seria muito mais eficiente e até teria mais qualidade se a base de dados fosse a mesma e se toda a informação disponível sobre o doente estivesse disponível dos dois lados”, acrescenta.

O presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal afasta a possibilidade de o médico que examinou Umo não ter tido acesso à informação clínica da grávida guineense. “Em princípio estará lá tudo no sistema informático, sim. Não sei o que terá acontecido neste caso concreto”, admite ao Observador.

Ministra da Saúde aceita demissão de presidente da ULS Amadora-Sintra após “falha grave” no caso da grávida que morreu

O historial de gravidezes com complicações e o episódio de hipertensão que fez soar alarmes

As fotografias do boletim de saúde de Umo Cani divulgadas pela família mostram que dois dos seus filhos nasceram prematuros, e que ao ter gémeos, um morreu à nascença. Nenhuma das gravidezes foi interrompida, nem teve gravidezes ectópicas. Quando se dirigiu pela primeira vez ao centro de saúde de Agualva-Cacém, no dia 14 de julho, não foram levantadas quaisquer suspeitas. Foi só à segunda, exatamente um mês depois e quando a tensão estava nos 129/75, que lhe foi atribuído o grau de gravidez de “alto risco”: não se sabe o que mais justificou esta decisão. Questionado, o hospital Amadora-Sintra não respondeu em tempo útil.

A cunhada, nas suas várias declarações à comunicação social portuguesa, disse que Umo Cani era saudável e que não tinha qualquer problema de saúde previamente diagnosticado. O marido reforçou esta ideia à CNN Portugal, referindo que a hipertensão identificada na última consulta que viria a ter nunca se tinha manifestado nas outras gravidezes ou no seu quotidiano.

Quando a 29 de outubro se verificou a hipertensão ligeira no hospital Fernando Fonseca, Umo Cani foi transferida para as urgências para exames adicionais que não detetaram problemas como pré-eclâmpsia. A grávida de 36 anos recebeu alta, com indicação para ser internada às 39 semanas.

Uma pessoa que tem uma tensão alta ou uma tensão baixa ou qualquer tipo de patologia, sendo uma grávida de termo, devia ter ficado, ponto final
Sara do Vale, presidente da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto

Nos casos de hipertensão em grávidas, “primeiro, confirma-se [a hipertensão], porque às vezes vêm a subir as escadas, mede-se a tensão e os valores são altos, mas depois, passados 10 minutos, a tensão já volta ao normal”, explica o obstetra Diogo Ayres de Campos. “Confirmando-se as tensões altas, faz-se uma análise analítica, ao sangue, e vê-se como é que está a função do fígado, do rim, etc. Se estiver tudo normal, despistamos uma pré-eclâmpsia, o que continua a exigir vigilância, mas não é preciso terminar a gravidez”, refere ao Observador.

Quando uma grávida tem episódios de tensão elevada, o cenário de uma pré-eclâmpsia é o mais dramático para os médicos. Se os resultados das análises indicarem esta condição, o especialista obstétrico consultado pelo Observador adianta que é feito o internamento e induzido o trabalho de parto. Neste caso, não havendo indícios de uma condição com esta gravidade, ficou agendado o internamento às 39 semanas.

Diogo Ayres de Campos indica que, perante o registo de hipertensão, o historial de partos prematuros e mesmo da morte de um bebé à nascença não muda a abordagem: “Há gravidezes de risco que nos preocupam muito e outras acontecem porque a pessoa tem um pouco de peso a mais ou têm uma idade avançada. Não é preto ou branco, é uma escala de cinzento”, acrescenta.

Reportagem no Centro de Saúde de São João da Madeira, um dos únicos centros de saúde em todo o país onde todos os utentes têm médico de família. 24 de Maio de 2023 São João da Madeira, Aveiro TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

▲ Primeira consulta de Umo Cani na Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados (UCSP) de Agualva foi em julho

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

O obstetra Nuno Clode admite que poderá não terá sido o episódio de hipertensão que levou à sua morte. “Pode ter sido um enfarte, um edema pulmonar, uma embolia de líquido amniótico. Pode não ter nada a ver com a hipertensão, porque uma paragem cardiorrespiratória na gravidez tem um prognóstico reservadíssimo”, acrescenta.

Não havendo razão de acordo com o protocolo clínico para internar a grávida de 38 semanas, Umo recebeu alta e voltou para casa. Algo com que Sara do Vale não concorda: “Uma pessoa que tem uma tensão alta ou uma tensão baixa ou qualquer tipo de patologia, sendo uma grávida de termo, devia ter ficado, ponto final. Se não no bloco de partos, sob observação, pelo menos internada”, sustenta a presidente da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto. “Sendo ela uma pessoa de gravidez de risco, devia ter CTGs e consultas todas as semanas.”

As mortes de Umo Cani e da filha estão a ser investigadas pelo Ministério Público, pela Inspeção-Geral de Atividades em Saúde (IGAS) e pela Entidade Reguladora da Saúde (ERS, num inquérito conjunto) e pelo hospital Amadora-Sintra.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.