Ana Paula Martins não sai. Não para já, pelo menos. Sob fogo da oposição, criticada pelos vários representantes do setor, com supervisão reforçada do ministro das Finanças e pressionada pela sucessão de casos delicados, ninguém ignora que a posição da ministra da Saúde é, neste momento, “muito frágil”. Fontes próximas da governante também consentem o óbvio: a governante está “muito cansada” e “farta disto”. Mas, apesar de tudo isso, ninguém aposta numa saída forçada da ministra. “Seria não conhecer o primeiro-ministro, nem conhecer Ana Paula Martins”, sintetiza um destacado social-democrata.
Existe, apesar de tudo, uma data-chave: dezembro deve ser o mês para reavaliar tudo. Ana Paula Martins chegou ao cargo com vontade de reorganizar o Serviço Nacional de Saúde e lançar uma nova Lei de Bases, algo que deve acontecer, precisamente, até ao final do ano. Nessa altura, o Orçamento do Estado para 2026 também já estará defendido e aprovado no Parlamento, pelo que a ministra terá aí uma oportunidade para decidir se tem ou não condições políticas e anímicas para continuar no cargo. “Está muito cansada“, concede uma fonte próxima.
No outro prato da balança, há quem acrescente um argumento contra qualquer remodelação antes do final do ano: ninguém substitui um ministro da Saúde em pleno inverno. “Não faz sentido [falar em remodelação pós-Orçamento]. Seria como entregar a pasta da Administração Interna a um novo ministro durante a época de incêndios. Não resolve nenhum problema e queima-se outro nome”, contrapõe um elemento da cúpula social-democrata.
Em rigor, foi precisamente isso que aconteceu com Maria Lúcia Amaral, que assumiu o cargo de ministra da Administração Interna em junho e teve de lidar com uma intensa época de incêndios, experiência que a fragilizou politicamente e que ninguém quer repetir. Quem conhece de perto Ana Paula Martins não lhe regateia elogios: é uma “mulher forte” e com “profundo conhecimento de um setor muito difícil”. “O primeiro-ministro não a vai dispensar.”
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Quando nas últimas eleições legislativas Luís Montenegro decidiu escolher uma já algo desgastada Ana Paula Martins como cabeça de lista da AD a Vila Real ficou para todos evidente que o primeiro-ministro não só queria reconduzi-la, como queria fazer daquela eleição uma espécie de referendo à ministra da Saúde. Quando por lá passou, debaixo de uma forte chuvada, fez questão de a elogiar publicamente em termos pouco comuns em Luís Montenegro.
“[Ana Paula Martins] é rija. É resistente. É competente. É humana. Tem uma sensibilidade social, cívica e moral acima da média. É por isso que tem enfrentado o Ministério mais difícil que há no Governo. A tarefa de o salvar necessita de alguém com fibra. Não é qualquer um que é capaz de lá estar. É uma mulher de armas”, foi atirando o primeiro-ministro.
Montenegro não cede a pressões
Inevitavelmente os destinos de Ana Paula Martins e o de Luís Montenegro acabaram por ficar unidos um ao outro. Se algum dia decidisse dispensar a sua ministra, seria o reconhecimento de que toda a estratégia para a Saúde tinha falhado e que tinha cometido um erro de avaliação ao reconduzir a governante — Dalila Rodrigues, da Cultura, Margarida Blasco, da Administração Interna, e Pedro Reis, da Economia, não tiveram a mesma sorte, ainda que por motivos diferentes. “Se não tivesse condições, não estava no Governo”, despachou o primeiro-ministro ainda há cinco dias.
Ora, quem conhece Luís Montenegro, garante que o primeiro-ministro não a deixará cair, pese embora toda a pressão que está a ser feita para que rolem cabeças — José Luís Carneiro voltou a pedir a demissão da ministra da Saúde esta segunda-feira. “Luís Montenegro não é como António Costa. Não gere saídas e entradas de ministros com base no que dizem os comentadores, os jornalistas e os outros partidos. Achar o contrário é não conhecer o primeiro-ministro”, garante uma fonte social-democrata, mesmo reconhecendo que a ministra está numa “situação muito complicada“.
Por estes dias, sobretudo depois da morte de uma grávida e respetivo bebé, muito se tem recuperado o exemplo de Marta Temido — num caso como noutro, mãe e criança foram assistidas em ambiente hospitalar, mas acabaram por morrer. Sem responsabilidade direta no caso, a socialista acabou por se demitir, dizendo não ter mais condições para se “manter no cargo”. No mesmo dia, António Costa veio a público sugerir que aquele não tinha sido o primeiro pedido de demissão de Temido e que não tinha mais margem para a segurar.
Este domingo, a mesma Marta Temido, comentando a situação política de Ana Paula Martins, não só não exigiu a demissão da sua sucessora (“não me parece que ajude em nada“), como confessou algum arrependimento pelo facto de se ter demitido. Tudo somado, e atendendo às repetidas demonstrações de confiança de Montenegro em Ana Paula Martins (ainda hoje, segunda-feira, estiveram lado a lado no Porto), muito dependerá da vontade da ministra da Saúde. “Tem sido inexcedível. Em 90% dos casos tem sido o pára-raios deste Governo. Não será remodelada. Se sair, é porque pediu para sair”, assegura fonte próxima.
Em público, a ministra garante que não se vai demitir. Mas, no círculo mais íntimo, a perceção é diferente. “Obviamente, está farta disto. Está muito cansada e mal tem tempo para trabalhar nas reformas com tudo isto”, confessa a mesma fonte. Em cima disso, Ana Paula Martins sente que tem um alvo desenhado nas costas desde que começou a tentar mexer nos “interesses instalados” na Saúde, em particular com as empresas que gerem os médicos tarefeiros.
A “guerra” nessa frente tem desgastado muito a governante. Neste Orçamento do Estado, o Executivo liderado por Luís Montenegro antecipa poupar 29 milhões de euros de despesa com os tarefeiros. No último Conselho de Ministros, ficaram ainda aprovadas novas regras para disciplinar os valores pagos a esses profissionais de saúde e um regime de incompatibilidades. Em cima disto, há ainda o compromisso de poupar 208 milhões de euros nas compras de medicamentos e material de consumo clínico — o que implicará que vai haver alguém a perder dinheiro.
A criação das urgências regionais e a possibilidade de concentrar médicos obstetras no Hospital Garcia de Orta também motivou críticas dos representantes do setor, que não se conforma com aquilo que diz ser uma “tentativa de mobilização coerciva de médicos para as urgências regionais” (FNAM) ou “mais um sinal negativo para os médicos do SNS, que levará até a mais saídas e não à retenção dos médicos”.
A sucessão de partos fora do contexto pré-hospitalar (mais de 150 este ano), os quatro presidentes do INEM e os três diretores executivos do SNS também pesam no currículo da ministra, que já não tem grande margem para falhar nestes capítulos. A saga dos meios aéreos em falta continua sem dar descanso à governante, com a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) a abrir esta segunda-feira um inquérito para obter mais informações sobre o caso do helicóptero do INEM inoperacional no Algarve.
Neste contexto, toda e qualquer falha ganha outras proporções. Esta segunda-feira, Carlos Sá, presidente do Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde de Amadora-Sintra, demitiu-se depois de ter assumidamente transmitido informação “incompleta” sobre grávida que morreu e que alegadamente não teria tido qualquer acompanhamento até dar entrada no hospital — facto que se veio a revelar falso. Em todo o caso, Ana Paula Martins tomou a informação como boa e usou-a para a defesa da honra no Parlamento, ao ponto de ser acusada de mentir pela família da vítima.
Perante tudo isto, há uma regra universal na política e em qualquer Governo — até nos de Luís Montenegro e de António Costa. Quando um determinado ministro se torna fonte de “ruído permanente”, deixa de haver condições políticas para o segurar. Que o relógio de Ana Paula Martins já começou a contar, mesmo antes das últimas eleições, todos concordam. Resta saber se a ministra da Saúde consegue ou não congelar o tempo.