“Entre por ali, é só seguir o povo e o povo unido jamais será vencido”. A frase não é de Paulo Raimundo, mas podia ter sido. Já pelas dez da noite, ainda não tinha a CDU eleito qualquer deputado (e as projeções apontavam para o pior – uma nova queda eleitoral, quer em votos quer em lugares no Parlamento), o porteiro recebia assim um dos últimos apoiantes comunistas que chegava ao Sana Metropolitan, na rua Soeiro Pereira Gomes (a poucos metros da sede do PCP) para assistir (e não celebrar) a noite eleitoral.
Numa noite de queda em toda a linha para a esquerda, a CDU olhou para o copo meio cheio e suspirou de alívio. Ou melhor: Resistiu“. Contas feitas, os comunistas elegeram três deputados (todos do PCP e nenhum do PEV), um por Lisboa (Paulo Cantigas Raimundo), outro por Setúbal (Paula Santos) e um pelo Porto (Alfredo Maia). A CDU falhou no seu principal objetivo: de inverter a tendência de perda de votos e mandatos (que em 2015 chegava aos 445 mil votos e a 17 deputados).
Ainda assim, na rua Soeiro Pereira Gomes, houve razões para celebrar. Em meia hora, a CDU elegeria os seus únicos três deputados – e a eleição de cada um foi celebrada em tom de festa pelos apoiantes (a maioria jovens) que se reuniu no quartel-general da coligação. Em festa durante largos minutos, de olhos postos na televisão e com bandeiras em punho, celebraram com as – já muito repetidas – palavras de ordem. “A CDU avança com toda a confiança” à procura de “abril” no seu “futuro”, apesar de ver cada vez mais reduzida a sua presença parlamentar.
▲ Paulo Raimundo, durante o discurso da noite eleitoral, no Sana Metropolitan em Lisboa ANTONIO COTRIM/LUSA
ANTONIO COTRIM/LUSA
Antes da festa, os sinais de alerta. “Beja já foi”, comentavam os apoiantes entre si, quando se apercebiam que Paulo Raimundo não tinha conseguido atingir um dos seus principais objetivos (voltar a eleger pelo Alentejo, um — agora antigo — bastião comunista). Beja escapou por entre os dedos dos comunistas nas eleições legislativas de 2024, quando o PCP falhou pela primeira vez, a eleição de qualquer deputado. Bernardino Soares foi apresentado por Paulo Raimundo como o deputado que “vale por três”.
Aliás, ao Observador, Bernardino tinha dito já tinha encontrado os 1.400 votos que tinham escapado nas últimas eleições à CDU, para conseguir ser eleito. Mas em um ano, a coligação consegue perder ainda mais votos em Beja e ver o Chega a vencer o distrito — que chegou a chamar de bastião.
Horas antes, as primeiras projeções eleitorais tinham sido recebidas com um silêncio sepulcral. Os três pequenos ecrãs estão arrumados a um canto na sala e reclamam toda a atenção. Apenas se ouve, entre as dezenas de apoiantes, alguns comentários em surdina trocados com quem está ao seu lado às projeções (que acabariam por provar ser corretas): “Sondagens são sondagens”, “já viste o JPP?” (as projeções já colocavam o Juntos Pelo Povo perto de ser eleito para o Parlamento) ou um puro e simples “tenso”, enquanto se apontavam os dedos para as televisões, que mostravam a possibilidade de o Chega de André Ventura subir ao segundo lugar da política portuguesa.
Mas as sondagens acabaram por se provar corretas. A CDU sai destas eleições com três deputados (menos um que no ano passado) e com pouco mais de 180 mil votos. O PCP volta a ter assim o pior resultado de sempre em democracia.
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A CDU “resistiu”, mas as “pantufas” acabaram por não chegar
O “bom ambiente” que Paulo Raimundo disse sentir durante toda a campanha acabou por não chegar. Em dezenas de apelos ao voto e à mobilização, o secretário-geral do PCP chegou a dizer que ninguém estava autorizado a “pôr as pantufas”. Pediu que se calçassem “os ténis, as botas” ou às pessoas que fossem “descalças” — mas que ninguém faltasse “à luta que temos que travar”.
Na noite eleitoral, o tom do discurso mudou, contrastou aliás com os restantes lidos (quase sempre improvisados) durante a campanha eleitoral. Paulo Raimundo leu, com cuidado, as palavras que estavam escritas no papel que trouxe para o púlpito que tinha como pano de fundo o azul da CDU. Por dez vezes, o secretário-geral do PCP insistiu que a CDU “resistiu” ou que teve um resultado de “resistência”, apesar de reconhecer que – com o resultado que conquistou – não está nas “melhores condições para o combate”.
Repetiu assim, a receita do ano passado, quando a palavra chave também foi a resistência – que Raimundo acredita que a CDU demonstrou por manter a presença no Parlamento (e há um ano, a CDU perdeu um terço do grupo parlamentar — e o último bastião no Alentejo).
Antes disso, em vários momentos diferentes na noite eleitoral, essa foi a mensagem que diferentes dirigentes do PCP procuram passar. João Oliveira, que teve uma presença discreta durante toda a campanha eleitoral (apenas em Évora, guiou pela mão Paulo Raimundo durante uma arruada) e que não era candidato nestas eleições destacou a “resistência da CDU, que resiste apesar de todos os maus auguros”.
E Paulo Raimundo concordou. O secretário-geral do PCP falhou todos os objetivos eleitorais que traçou — queria eleger mais dois deputados (e chegar aos seis) e conquistar mais cem mil votos (e chegar aos trezentos mil), e reconheceu por isso que os resultados eleitorais “não foram aqueles que desejaríamos”, apesar de prometer que a CDU não se desvia “nem um milímetro” do combate político a um Parlamento (ainda) mais à direita.
E defende que, para esse combate, o primeiro passo está dado. Depois de ver a esquerda a cair (com uma única exceção, o Livre), Paulo Raimundo entende que a CDU agora precisa de “resistir” para depois “avançar”. “E o primeiro passo está dado, resistimos e agora vamos procurar avançar.”
A “constituição da Assembleia da República é negativa, com o crescimento da AD, do Chega e da Iniciativa Liberal”, diz o secretário-geral do PCP — que distribui críticas à direita — e a Luís Montenegro, que acusa de “instrumentalizar a ideia da estabilidade governativa, para promover uma instabilidade na vida de cada um”, mas não só. Para Raimundo, a derrota da esquerda tem a responsabilidade do PS que com “falta de credibilidade” não só “não assumiu opções distintas da AD, como se mostrou disponível para viabilizar o seu governo”.
E continuaria com recados, ao insistir que este “não é o tempo de conformação ou de entendimento com a direita” e que este “não é o tempo de dar a mão à direita e dar suporte à sua política antipopular”. Paulo Raimundo pede assim que este seja o “tempo de combate à política de baixos salários e pensões, de combate aos ataques aos direitos dos trabalhadores, aos serviços públicos”.
Depois da histórica derrota da esquerda, o secretário-geral do PCP mantém — como manteve durante toda a campanha — o tabu sobre negociações com o Bloco de Esquerda, o PS e o Livre. E apesar de voltar a não responder — assegurando apenas que o diálogo da CDU é “com os trabalhadores” — Raimundo reconhece que “todos são poucos para enfrentar a direita” e que, por isso, “todos aqueles que vierem para este combate serão bem-vindos”, apesar de a CDU não “ficar à espera de ninguém“.
E sobre metas eleitorais, depois de ter começado por dizer “com grande satisfação” que tudo indicava que o PCP fosse manter “o mesmo número de deputados”, só para ser confrontado – poucos minutos depois com a não-eleição quer de Bruno Dias (número dois por Setúbal), quer de António Filipe (número dois por Lisboa, e um dos deputados com mais experiência do partido).
“Queria que eu ficasse contente com isso?” Devolve a pergunta ao jornalista, enquanto foi interrompido por risos e aplausos da plateia. Mas reconhece que se a CDU tivesse eleito os tais seis deputados “era mais forte” do que agora, quando elegeu apenas três.
▲ Discurso de Paulo Raimundo, no final da noite eleitoral, no Sana Metropolitan em Lisboa ANTONIO COTRIM/LUSA
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E quanto a reflexões, a propósito da liderança do partido, o secretário-geral comunista respondeu (sem dar qualquer novidade) que as “responsabilidades” na CDU “são sempre coletivas”, e que apesar de precisar de “mais votos e mais força” o mau resultado eleitoral “em nada belisca a força do coletivo”.
No final do discurso, Paulo Raimundo seria também questionado sobre os distritos que eram antigos bastiões do PCP e que acabaram por ter como partido mais votado, o Chega (como Setúbal e Beja, onde o PCP não conseguiu reforçar a sua votação, nem voltar a eleger Bernardino Soares). E o secretário-geral do PCP responderia assim: “A dimensão da realidade foi nacional. O investimento é muito grande — na demagogia, na mentira, nos valores reacionários e no ódio — é muito grande. Mas não vai durar para sempre.“