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Quando era jovem, Manuel António lembra-se de andar pelas ruas do Seixal “a colar cartazes de um certo partido, até virem uns tipos que nos batiam e os arrancavam da parede. Esta terra sempre foi comunista, mas os velhos morreram. Agora não há filhos da terra e os de fora vêm com outras ideias e costumes”, diz. E assim resume a história de um antigo concelho de esquerda que cedeu à direita radical do Chega — onde quem diz o que “muita gente pensa”.
Falar do resultado obtido pelo Chega nas eleições legislativas do passado domingo é quase como falar em código: é difícil encontrar quem diga em alto e bom som que ficou feliz; mas é fácil cruzarmo-nos com quem acaba por o assumir entre acusações e indiretas contra etnias e imigrantes.
O reformado de 67 anos está sentado num banco ao lado de um amigo que se “zangou com a política”. Dos dois, só Manuel António votou. E também só ele “acompanha política”, diz orgulhosamente. “Não fiquei surpreendido com a vitória da AD, nem com o segundo lugar. As manifestações de etnias deram força aos votos.”
▲ Manuel António tem 67 anos
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Detalhando que se reformou “com antecedência aos 60 anos”, assegura que o que recebe “chega até para ajudar os netos”, tirando do horizonte um possível voto com os olhos postos em medidas para pensionistas e reformados.
Continuando o seu comentário político, diz que, dos três maiores partidos, só “PS e AD têm pessoas com currículo e experiência”. “A verdade é que não vejo o partido [Chega] com pessoas à altura”, mas André Ventura “diz muita coisa que muita gente pensa e não manda cá para fora”, argumenta.
Para Manuel António, “é necessário alguém que fale”. “Olhe para Setúbal e para Portalegre. Têm etnias! Todas as zonas onde existem muitas pessoas de etnia, o Chega ganhou”, diz, referindo-se a todos os partidos do sul do país (à exceção de Évora). No concelho do Seixal, o partido a recolher maior número de votos foi o Chega (26,02%) seguido do PS (25,54%), invertendo o resultado obtido em 2024 (20,43% e 31,82%, respetivamente).
Ajustando a posição no banco em que estava sentado, Manuel António muda rapidamente a sua postura e tom de voz. “Eles [pessoas de etnia cigana] foram lá para as manifestações dizer que nasceram em Portugal. Está bem, mas não trabalham. Ou se trabalham não fazem descontos. Andam sempre às custas dos subsídios”, critica. E acrescenta que se trata de uma injustiça “para quem trabalhou e tem 44 anos de descontos, mas tem reformas de 200/300 euros”.
Para o seixalense, nesta região “sempre comunista” que acolhe a Festa do Avante desde 1976, o PCP “levou uma grande abada e não se vai conseguir levantar”. Nas últimas eleições autárquicas, a câmara municipal foi comunista, mas isto poderá vir a mudar — e não só por causa das pessoas de etnia cigana.
“As pessoas que moram cá é tudo malta de fora e têm pensamentos diferentes. Há zonas aqui em que, se houver portugueses, são 1 ou 2, porque não têm poder de compra. Não são filhos do Seixal que ficam nas nossas casas, é tudo malta de fora, de outras etnias e religiões”, diz, salvaguardando que não sabe se está “a falar bem ou mal”, mas defendendo, já no final, que as pessoas “têm de aceitar” a sua opinião.
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E, a propósito da queda da esquerda, o quase desaparecimento do Bloco de Esquerda também não o “choca”, admite. Tudo aconteceu por um motivo: “O partido deu muito apoio à comunidade LGBT. Cada um é dono do seu corpo, mas se Salazar (ou o meu pai) viesse cá abaixo, morria. A vossa geração acha normal, mas eu com 67 anos tenho ainda outra mentalidade… Mas eu também não sei, tenho netos, não sei o dia de amanhã e não sei quando é que o mal vai bater à minha porta.”
▲ Cartaz da CDU alusivo às autárquicas
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Porque é que o Chega cresceu? “Está à vista”
Indo precisamente ao encontro daquilo que Manuel António dizia, a poucos metros de distância, Louis Preusch passeava junto ao rio com um amigo que o veio visitar. São ambos alemães. “Vivo e trabalho aqui, mas não voto em Portugal. Mas sei que há um movimento de extrema-direita, tal como na Alemanha e em toda a Europa”, diz Louis Preusch.
Admite estar “preocupado com essa tendência”, principalmente “por ser imigrante”. Por isso, há dois anos — ainda muito antes do resultado eleitoral deste domingo — tomou uma decisão: emigrar. “A história da Europa, da Alemanha e do fascismo é uma combinação perigosa. Portugal e França são próximos da Alemanha…Tenho medo, não quero estar à espera de ver o que acontece.”
Também Ana Gomes assume estar “preocupada”, em particular com o futuro do filho — que tem apenas 19 dias. “Estamos a navegar em águas desconhecidas. Este é um partido novo, não temos feedback de trabalho que já foi feito, não vemos caras além das que aparecem na televisão… Isso traz ansiedade relativamente ao trabalho que querem desenvolver.”
▲ Louis Preusch e Ana Gomes
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Um discurso semelhante ouve-se ao passarmos junto a um café no centro da Moita, a poucos quilómetros do Seixal. Entre cervejas perto da hora de almoço, a conversa intensificou-se entre dois homens: um apoiante do Chega e um crítico do partido.
“Ganhou gente que não presta para nada! São ladrões, ainda por cima. Os outros partidos não prestam, mas este é que é bom, queres ver? Nem ninguém sabe sequer a lista dos candidatos [à Assembleia da República]”, argumenta o segundo. Depressa a conversa é abafada e interrompida por um terceiro homem, que não quer confusões no seu café.
Ao contrário do Seixal, neste concelho a abertura para comentar (e explicar) a vitória do partido liderado por André Ventura é ainda menor. “Votei no domingo e o resultado do Chega não me surpreende. Porquê? Está à vista!”, diz apressadamente uma jovem eleitora que não quis elaborar mais. Referia-se ao número de imigrantes que se faz notar na Moita. “Há aqui muitos mesmo”, garantia mais tarde Gilberto Vimieiro.
“Muitos imigrantes estão na zona de conforto, só a receber subsídios”
Gilberto e a filha, Jéssica Vimieiro, são brasileiros. Chegaram a Portugal há seis anos e ainda não podem votar. Apesar de serem imigrantes, não estão preocupados com o crescimento do Chega. “Estamos cá legalmente, não estamos a fazer nada de mal”, diz a filha. O problema é a “entrada de pessoas ilegais”, acrescenta o pai. “Não tenho nada contra a imigração, mas é preciso que seja algo bem mais controlado.”
Alegando não ter “um opinião formada” acerca de medidas que o Chega poderá vir a propor em áreas como a economia, Jéssica Vimieiro diz considerar que “vai melhorar a situação ao ter mais deputados do Chega” na Assembleia da República.
“Pode ser bom ter o Chega, é preciso controlar certos aspetos”, diz. E acrescenta outro fator além de imigrantes ilegais: “Há cá muita gente à procura de uma vida mais fácil e não é isso que deve acontecer, deviam procurar uma vida melhor. A entrada desse tipo de imigração não é bom.”
“Vim para Portugal à procura de mais segurança. Trabalho, nunca recebi subsídios do Estado, e pago as minhas contas. A mesma vida que tinha no Brasil, tenho cá, só mudou a nível de segurança, acesso a transportes e saúde. E há cá muitos imigrantes que estão na zona de conforto, que ficam só a receber subsídios”, afirma.
▲ Jéssica e Gilberto Vimieiro
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
“Tenho visto muitos confrontos entre indostânicos e ciganos”
Quem também acusa os imigrantes de receber dinheiro indevido é Pedro Silva, encarregue de um quiosque bastante movimentado num dos jardins da Moita. Diz ter votado e, orgulhosamente, acompanhado a noite eleitoral. “O Pedro Nuno Santos é muito fraco, não fiquei nada surpreendido com o resultado” da queda do PS, diz. E acrescenta que “esperava muito a subida do Chega”.
Tudo se “deve ao facto de serem muitos anos da mesma coisa, de injustiças. Trabalhamos uma vida inteira, os salários são baixos, e ainda vamos dar dinheiro a quem não faz nada”, diz. Questionado se se refere à população imigrante na Moita, Pedro Silva esquiva-se à pergunta.
▲ Pedro Silva no seu quiosque, na Moita
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Foca-se, antes, no desempenho do Chega e num possível diálogo entre o partido e a AD. “O Chega ganhou em todos os distritos abaixo de Lisboa. Só ficou a faltar Évora porque foi o PS, mas mesmo assim teve bom resultado.” E acrescenta que não sabe se “Luís Montenegro vai falar com o [André] Ventura, mas se não falar não sei se vai ser suficiente” ter só a IL para governar, diz.
E garante: “A parte mais fraca do Chega é a económica, sem dúvida. Mas, para a imigração, o Chega tem as soluções necessárias.”
O otimismo de Pedro Silva, no entanto, não se faz notar em Ana Duarte. “Penso que a realidade não vai mudar. Continuam lá os outros partidos, as leis não vão mudar”, diz. Afirmando ter ficado “supreendida por saber que as pessoas votaram em massa no Chega”, a jovem espera que “a imigração melhore e que se estabeleçam mais regras, que se verifique que os imigrantes contribuem [para a Segurança Social]”.
A verdade é que “aqui na Moita tenho visto muitos confrontos entre indostânicos e ciganos”. “Trabalho num supermercado e já vi roubos, já bateram na minha chefe, já houve várias situações de conflito e há muita gente a pedir”, diz, tudo “situações que contribuíram em muito para o crescimento do Chega aqui”.