Portugal registou um terramoto político de 22,56 na escala de Chega, com epicentro a sul do Tejo, e as réplicas vão continuar a sentir-se nas próximas semanas. O resultado do partido de André Ventura nas eleições legislativas abanou mesmo o centrão político: o PS entrou em crise e tenta fugir à pasokização, a reforçada AD continua sem uma maioria absoluta para o Luís trabalhar quatro anos e o Chega sonha com novos voos. Numa noite, como diria um antigo primeiro-ministro, o mundo mudou.
O mais provável, tendo em conta os resultados eleitorais, é que o Presidente da República volte a nomear Luís Montenegro para primeiro-ministro. Mas o contexto político é diferente do último ano e os resultados melhores. Tem mais votos absolutos, mais percentagem e mais deputados. Além disso, a AD espera agora que o novo líder do PS, que já não será Pedro Nuno Santos, assuma a “responsabilidade” de permitir ao Executivo da AD governar.
Luís Montenegro fugiu claramente a reforçar o não é não, numa resposta que dá para os dois caminhos: “Tudo faremos para assegurar essa estabilidade. Não me parece que haja outra solução de Governo do que aquela que emane da vontade popular. A todos competirá dar sequência àquela que foi a expressão livre e inequívoca. Já mostrámos que temos palavra e que cumprimos a nossa palavra.” Apesar de a frase ser equívoca fontes da AD garatiram ao Observador que o não é não se irá manter. A aposta é mesmo nesse novo PS.
Reforçado mas não maioritário, Montenegro já conta com “sentido de Estado” do novo PS
A terceira força da AR, a demissão do “estorvo” e um parceiro de tango
Pedro Nuno Santos passou a campanha a dizer que as sondagens se iam enganar. E acertou. Mas não no sentido que esperava: o PS teve uma derrota histórica. Só mesmo nas legislativas de 1985, com um fortíssimo PRD a beber na mesma área política, o PS teve menos deputados dos que conseguiu agora. O mais provável é mesmo que o PS, após serem distribuídos os mandatos da emigração, fique mesmo com uma bancada mais pequena que a do Chega.
A estratégia de Pedro Nuno Santos falhou completamente (o próprio confessou estar ansioso por ouvir as várias teses) e o resultado não lhe deixou outro caminho senão a saída. Não só anunciou que tinha pedido ao presidente do partido para iniciar o processo para convocar eleições diretas como a certa altura se vira para trás para Carlos César e diz: “Por mim deixava de ser já secretário-geral”. Ainda deixou um “até já”, que dá esperança aos pedronunistas mais convictos, de que um dia possa voltar, mas a sua carreira política é forçada, no mínimo, a uma longa pausa.
O seu antigo adversário José Luís Carneiro nunca saiu de cena e será um dos nomes mais bem posicionados para a corrida à sucessão de Pedro Nuno Santos. Carneiro não só tem defendido que o PS deve aprovar orçamentos da AD (para retirar força ao Chega) como defendeu que não devia existir Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso Spinumviva. Parece um match perfeito para Luís Montenegro. Como disse Sócrates sobre negociar com o PSD em 2010 — na altura feliz por contar com Passos Coelho em vez de Manuela Ferreira Leite — “para dançar o tango são precisos dois”.
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Pedro Nuno Santos não só deixa o partido com medo de uma pasokização, como, na hora da saída, não dispensa tentar influenciar o seu rumo. O ainda líder do PS defendeu que, por ele, o PS não deve dar a mão ao Governo de Luís Montenegro, sugerindo que a AD deve procurar esse apoio à direita.
Ao mesmo tempo, dá a entender que ele próprio sai para não ser um “estorvo”, dando a entender que a sua saída é necessária para que o partido possa seguir o seu caminho (de apoio à AD, como primeiro passo para a sobrevivência e regresso ao poder a médio/longo prazo).
Ventura não fecha a porta a Montenegro
Apesar de ter dito que “nunca é nunca”, André Ventura decidiu agora não falar do caso Spinumviva e deixar em aberto a possibilidade de vir a dar suporte a um Governo de Luís Montenegro. O líder do Chega diz que o partido sempre “lutou por ser um garante de estabilidade” e prometeu “honrar essa tradição”.
Ventura não esconde, no entanto, ter um objetivo maior: ser primeiro-ministro. O que antes era apenas visto como uma hipérbole inconsequente, quase uma piada, é agora uma realidade que não está assim tão longínqua. Montenegro destacou que multiplicou por 10 a diferença relativamente ao segundo classificado, mas a AD sabe que a luta pelo primeiro lugar pode, no futuro, tornar-se numa luta a três. Também por isso, Montenegro vai continuar a não querer nada com o Chega.
IL segura o quarto, o hexa de Tavares e a razia na esquerda
A Iniciativa Liberal ficou aquém das expectativas de ter um crescimento galopante e até de ter votos para formar uma maioria com a AD. Apesar de pior que o esperado, o partido conseguiu eleger mais um deputado do que em 2024 e seguir a tendência de subida de votos. A IL cimentou o quarto lugar (que Rui Tavares chegou a dizer que queria roubar) e tem agora nove deputados na Assembleia da República.
Rocha cumpriu por pouco a sua meta, mas o sonho de governar ficou mais distante
Em contraciclo com a esquerda, cada vez mais enfraquecida, o Livre de Rui Tavares tornou-se o maior partido no Parlamento à esquerda do PS. Passou de quatro para seis deputados, ao mesmo tempo que viu a CDU perder um e o Bloco perder quatro. O PAN conseguiu manter a representação parlamentar e o JPP entrou no Parlamento à boleia da sua Madeira.
Uma noite histórica que não foi Livre do fantasma da direita: “Não perdem pela demora!”
Na CDU já se sabia que Raimundo aguentaria o embate, já que a culpa é do coletivo, mas no Bloco de Esquerda a futura deputada única Mariana Mortágua anunciou que se recandidata à liderança do Bloco de Esquerda na Convenção que o partido vai ter em novembro.
A esquerda (PS-Livre-CDU-BE) tem muito menos votos e menos mandatos que a AD, o que demonstra que a maioria sociológica (ou eleitoral) de esquerda é, neste momento, uma miragem. É neste contexto que o Presidente da República vai começar a ouvir os partidos para formar um novo Governo, sabendo que não poderá voltar a dissolver a AR no atual mandato. Os resultados facilitam a vida a Marcelo Rebelo de Sousa: dificilmente pode escapar a dar posse a Luís Montenegro.