Índice
Índice
“Foi como uma pedra que saiu do nosso coração.” Eyal Kalderon é primo de Ofer Kalderon, o refém com nacionalidade portuguesa que esteve em cativeiro 484 dias na Faixa de Gaza e que foi libertado no dia 1 de fevereiro. Ao Observador, Eyal conta como foi duro para a família o período de mais de um ano sem saber onde e como estava Ofer. Mas também recorda o momento digno de “filme” da libertação. A felicidade, porém, é um momento fugaz em Telavive, onde basta olhar para o lado e ver uma família que perdeu tudo há 16 meses. “Estávamos com medo que fosse pior, muito pior.”
A família de Ofer não é a única a lidar com o impacto do que aconteceu a 7 de Outubro de 2023, quando dezenas de pessoas foram raptadas e levadas para a Faixa de Gaza. E entre elas há várias com ligações a Portugal, como a de Idan Shtivi, que morreu no ataque de 7 de Outubro — mas a sua morte só foi anunciada pelo exército israelita um ano depois. A mãe, Dalit, cidadã com nacionalidade portuguesa, sabe que não espera o regresso do filho, com ou sem cessar-fogo. Pede a intervenção do Governo português, para conseguir recuperar o corpo do filho. Aponta o dedo ao Governo e ao Ministério de Paulo Rangel, quem acusa de “abandono“.
Omri Miran não tem cidadania portuguesa, mas tem a mulher Lishai e as duas filhas com um e três anos, Alma e Roni. Esperam o regresso do marido e pai, mas sabem que vai demorar. Omri não consta na lista de reféns que vão ser libertados na primeira fase do cessar-fogo. A família, como conta a cunhada de Omri, Michal, espera como se tivesse uma corda na garganta, sempre com receio de que o “frágil” acordo seja quebrado por qualquer um dos lados. Alma tinha apenas seis meses em outubro de 2023, por isso espera por um pai que “só conhece pelas imagens nos cartazes“.
Ouça aqui a investigação do Onde Pára o Caso, em podcast.
Depois de 484 dias de “escuridão absoluta”, a libertação “como um filme”
Eyal Kalderon fala com o Observador horas depois de ter deixado o hospital de Ramat Gan, a menos de 5km de Telavive. Acaba de visitar o primo Ofer. “Ele tinha um grupo de ciclistas, viajavam por todo o mundo, não só em Israel. É um homem da natureza, um viking. E, num segundo, perdeu tudo isso”.
O nome de Ofer Kalderon fazia parte da lista de 33 reféns israelitas que o Hamas prometeu libertar na primeira fase do cessar-fogo. Apenas requereu a cidadania portuguesa já como refém do Hamas. Acabou por ser agora libertado a 1 de fevereiro, 484 dias depois do ataque de 7 de outubro.
[Terapia de Casal é o podcast que pode acabar com o casamento do Guilherme Fonseca e da Rita da Nova. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível nas plataformas de podcast.]
“Não sabíamos que Ofer íamos receber, mas ficámos felizes quando percebemos que ele se parecia com o Ofer que sempre conhecemos“. O refém voltou de Gaza sem ferimentos, mas “muito magro, com o olhar de quem já passou por muito”, conta Eyal. “Claro que de alguma forma ele mudou. Foi quase um ano e meio da sua vida em que esteve fisicamente numa escuridão absoluta. Literalmente, numa escuridão absoluta.”
Ofer foi transportado de Gaza para a base militar de Reim, já em Israel. Uma semana depois, continua no hospital a ser monitorizado pelos médicos, precisamente no hospital onde viu a família — 484 dias depois.
Ofer Calderon arrives at the hospital and is greeted by his cycling group ????????♂️ pic.twitter.com/me2weHdcbQ
— Aviva Klompas (@AvivaKlompas) February 1, 2025
Apenas um dia antes da libertação, a família ainda não tinha a certeza se o nome de Ofer ia estar “na lista” de reféns libertados. Ainda assim, reuniu-se com centenas de outras pessoas em Telavive na Praça dos Reféns – praça que ficou assim conhecida depois do ataque de 7 de Outubro, quando dezenas de famílias de reféns escolheram o local para acampar, por ficar a poucos metros do quartel-general do Exército israelita. Ali está hoje erguido um ecrã gigante para se assistir, por exemplo, à transmissão ao vivo do momento da libertação de reféns.
Foi lá que a família de Ofer viu que “o seu nome estava na lista” de reféns que iriam ser libertados nas horas seguintes. “Estávamos lá” ao lado de uma “multidão de centenas de pessoas” a tremer de entusiasmo: “Foi como um filme, um momento especial”. Ainda assim, a celebração de Eyal é momentânea. “Quando olhei para a minha direita e para a minha esquerda, vi na Praça dos Reféns famílias que perderam alguém, ou cujos familiares ainda não tinham sido libertados”. Assim, explica, a felicidade transformou-se em medo. “Senti que a minha felicidade não pode estar completa até que todos voltem a casa”.
O refém luso-franco-israelita só há poucas semanas soube que o seu filho mais velho, Rotem, tinha sobrevivido ao ataque de 7 de Outubro. Eyal conta ao Observador que o primo passou todos os dias do cativeiro a perguntar-se sobre o que lhe teria acontecido. Inicialmente, Ofer tinha consigo os dois filhos mais novos, Sahar, com 16, e Erez, com 12 anos, mas estes foram libertados praticamente um mês depois dos ataques.
Ainda assim, a cicatriz fica. Até à libertação do pai estavam em Israel “apenas fisicamente, com os seus corpos, mas as cabeças deles estavam ainda em Gaza, no cativeiro.” Preocupado com os mais jovens da sua família, Eyal partilha a última frase que Ofer disse aos filhos: “Por favor, luta por mim, vai para as ruas. Não quero morrer aqui nos túneis”. “Esta é uma frase que nenhuma criança no mundo deve ouvir dos seus pais.”
Eyal insiste em deixar uma mensagem a todos os decisores políticos, em Israel, nos Estados Unidos ou em Portugal: “Eu conheço a história agora melhor do que conhecia antes. É um inferno em vida”. E por isso apela: “Todos os reféns devem voltar para nós. É uma questão de vida ou morte e cada momento é crucial. A coisa mais importante é trazer a nossa gente de volta a casa. Toda a política pode ser resolvida depois.”
A espera pelo filho passou a ser a espera por um corpo
Dalit perdeu o filho, Idan, nos ataques do Hamas de 7 de Outubro. Durante um ano, foi-lhe dado a crer que o seu filho, de apenas 29 anos, estava refém na Faixa de Gaza; mas, precisamente um ano depois, as Forças de Defesa de Israel (IDF) anunciaram que tinha sido morto no dia dos ataques.
Em conversa com o Observador a partir de Telavive, Dalit conta como a cidade hoje se “enche de vida“. com milhares de pessoas a viver uma vida normal: “Vão à piscina, à praia” e frequentam “restaurantes e cafés” como sempre fizeram. “Acho que é bom sinal, a vida continua. E, ao sábado, todas as famílias vêm e gostam de estar juntas”. O sentido de comunidade em Telavive depois dos ataques e do cessar-fogo está intocado, garante.
Mas o ataque de 7 de Outubro, é uma ferida que vai demorar tempo a sarar. “Vamos voltar a ser um país, a maioria das pessoas acredita que foram todos raptados. Vai demorar tempo para as pessoas acreditarem em segurança e que o governo está a fazer tudo pelas pessoas. Agora, não sentem isso.” E a comparação com outro momento histórico está na ponta da língua. “É como o Holocausto. Depois do Holocausto demorou muito tempo até podermos, enquanto povo, estar juntos e seguros. Acredito que irá voltar a acontecer. Mas vai demorar muito tempo.”
▲ Idan Shtivi (à esquerda), os irmãos e a mãe Dalit (à direita), antes do 7 de outubro
Dalit Shtivi
A felicidade que Dalit descreve nas ruas da cidade onde sempre viveu é agridoce. “É muito doloroso”, admite, não poder ver o filho nas listas de reféns que vão ser libertados, divulgadas pelo Hamas. “Foi muito difícil quando recebemos a notícia. Antes tínhamos a esperança de que ele voltaria. Pensávamos muito sobre esse momento.” O momento nunca chegou e agora a mãe descreve o dia a dia como “doloroso”.
Agora, a fevereiro de 2025, a espera pelo filho mais novo passou a ser a espera por um corpo. “Como se diz? Tentamos voltar às nossas vidas. Mas até ele voltar, não vamos ser capazes de o fazer”, admite a mãe, Dalit.
Não sabe quanto tempo vai ter que esperar. Como o Observador explicava, o acordo de cessar-fogo trazia poucos pormenores sobre a segunda e a terceira fase. Não se sabe quanto tempo irá durar ou sequer quando começará a ser negociada. Sabe-se apenas que os corpos dos reféns mortos só serão devolvidos nesta fase.
O que se sabe e o que falta saber sobre o acordo de cessar-fogo em Gaza
Com ou sem cessar-fogo, Dalit não recuperará o filho com vida. Espera apenas pela última etapa do acordo para poder receber o corpo e dar-lhe um enterro digno. “Isso é o que nós esperamos do nosso governo e do governo português”. “Ele é um cidadão português”, repete a mãe.
“Sentimos que o abandonaram. Abandonaram todos os cidadãos portugueses que desapareceram e foram raptados. Eu também sou uma cidadã portuguesa, tenho o passaporte português e não recebi nada de Portugal até agora.” Nem um telefonema, assegura. Apesar de o Ministério dos Negócios Estrangeiros ter sido rápido a lamentar a morte de Idan Shtivi, em comunicado, a mãe esperava ter sido contactada — e “nada”.
Agora, pede ajuda diretamente ao governo português: “Têm que tentar fazer alguma coisa. Como mãe, tenho direito a enterrar o meu filho. É uma coisa pequena.” Dalit só quer ter “um lugar para ir e chorar”. “Alguma coisa”, diz. “Mas, agora, não temos nada”.
Israel já anunciou que oito dos 33 reféns que o Hamas prometeu libertar estão na verdade mortos. Não há informação sobre a identidade ou a saúde dos reféns que estão há 15 meses escondidos no enclave palestiniano. Dalit teme que mais famílias como a sua vão sofrer, à espera de um filho que nunca voltará.”Há famílias que nada sabem sobre os seus familiares”. A mulher interrompe a conversa por um segundo, tosse para limpar a voz e admite que “nem todos vão voltar com vida“. “Vai ser muito difícil”, acrescenta.
Com ou sem cessar-fogo, sabe que não vai recuperar o filho. Prefere lembrá-lo como um “coração puro” de “imensa compaixão”, que mesmo quando viu os combatentes do Hamas armados a atravessarem a fronteira israelita “fez tudo para ajudar as pessoas”. “E é isso que quero lembrar dele. Coração puro, cheio de compaixão”.
As filhas que sobreviveram ao 7 de Outubro esperam pelo pai que não conhecem
Michal Lavi é a cunhada de Omri Miran. Omri tem nacionalidade húngara, mas a mulher (Lishai) e as filhas (Roni e Alma) têm nacionalidade portuguesa. A família sobreviveu ao ataque de 7 de Outubro, mas Omri foi feito refém pelo Hamas.
Nada sabem do pai desde 27 de abril, altura em que o Hamas “partilhou um curto vídeo” a mostrar que Omri estava vivo. Dez meses depois, o silêncio é total. Sabem apenas que o seu nome não consta na lista de reféns que vão ser libertados na primeira fase do acordo de cessar-fogo. “Não sabemos nada, as condições, onde está.” Admitem que “a principal” razão de preocupação é que não haja uma segunda fase do cessar-fogo, num acordo entre Israel e o Hamas que descrevem como “frágil”.
A primeira fase é a chamada “fase humanitária”, mas a família de Omri não compreende como o regresso de todos os reféns não é considerado humanitário. “São todos humanitários. Estão todos dentro dos túneis.”
Michal conversa com o Observador a poucos quilómetros da Faixa de Gaza, no kibutz de Or HaNer, onde viveu até aos ataques de outubro de 2023. Regressou em agosto, com a irmã e as sobrinhas. “Ainda ouvíamos todos os bombardeamentos e os combates nas ruas. É mesmo muito próximo”. “Agora temos o cessar-fogo e é muito melhor. Mas todos os meses antes foram horríveis. É como viver numa zona de guerra. Conseguimos ouvir tudo. A terra treme, literalmente. As nossas janelas e as nossas casas tremem.”
▲ Omri e a mulher, Lishai, em Israel antes do 7 de outubro
Omri Miran
Hoje, graças ao cessar-fogo, a terra deixou de tremer. “Agora é muito silencioso”, diz Michal. A sua história não é única, já que conhece várias pessoas que deixaram a área mais próxima de Gaza, mas começaram a voltar para casa “seis meses” depois do ataque. O risco existe sempre, com ou sem cessar-fogo, reconhece ao Observador: “Tenho medo de viver aqui. Vivemos ao lado de uma organização terrorista. Parte o nosso coração.”
Michal viveu seis meses com a irmã, a mulher de Omri, para ajudar a criar as filhas, que estavam com o pai no dia do ataque. “Testemunharam o rapto. Os terroristas tiraram duas mulheres e dois homens da casa e deixaram o resto da família, as mães e os filhos. Disseram-lhes que iriam voltar. E não voltaram.”
“Elas são muito pequenas. Quando o ataque aconteceu, Roni tinha apenas 2 anos, e Alma tinha 16 meses.” Dada a idade, Roni “mal falava quando os ataques aconteceram” e Alma só conhece o pai “pelas imagens nos cartazes”. A mais velha, conta a tia, “lembra-se de tudo o que aconteceu. Tudo, armas e fogo”.
A mãe, Lishai, “põe as emoções de lado” enquanto espera por Omri. “A única coisa que se faz é ser uma mãe para as suas filhas e fazer com que se sintam em segurança.” E o trabalho não pára, seja “à frente ou atrás das câmaras”, a dar entrevistas ou a encontrar-se com “decisores políticos, em Israel e no estrangeiro”. É a forma de tentar “curar a alma”, uma alma que “ainda vive o trauma”.
Foi por isso que Michal e Lishai estiveram em Lisboa, há um ano, a tentar pressionar a diplomacia portuguesa para intervir a favor dos reféns com famílias luso-israelitas. “Estivémos com o Presidente”, recorda Michal quando fala sobre Marcelo Rebelo de Sousa, um “muito bom ouvinte”. A cunhada de Omri não se surpreende ao saber que Marcelo é conhecido como “Presidente dos afetos”: “Senti isso mesmo, tem um coração grande e mostrou afeto pelas nossas histórias”. A família de Omri Miran não partilha das críticas ao Governo português que a família de Idan Shtivi faz.
Numa altura em que ainda há dúvidas sobre as condições de saúde dos reféns, principalmente dos que não vão ser libertados na primeira fase do acordo de cessar-fogo, Michal admite que a família teme, a qualquer hora, receber a notícia de que Omri está morto. “Estamos a perder tempo“, diz, respirando fundo e acrescentando que continua “a acreditar que as coisas vão correr bem”. Ver as notícias é particularmente difícil. “Tento não ver televisão. A coisa mais difícil é a incerteza. É difícil de viver assim durante tanto tempo, em que não sabemos quase nada das pessoas que amamos.”
Aceitou falar com o Observador, porque acredita que isso pode ter impacto: “Acho que podemos chegar a muitas pessoas em Israel e em todo o mundo. Todos os meios são importantes para garantir que a crise dos reféns está na consciência de todo o mundo.” Mas não só: “É uma forma de falar de Omri, de mostrar as suas filhas. Sentimos que ainda vivemos no dia 7 de Outubro.”
O Observador procurou confirmar com a embaixada israelita em Portugal se estes são os únicos reféns com nacionalidade portuguesa, como é que as famílias têm sido acompanhadas e que diligências estão a ser exercidas pelo Governo português. Na resposta que enviou ao Observador, a embaixada escreve apenas que “neste momento, o mais importante é que o acordo seja totalmente implementado” e que no momento que é “vivido em Israel, com o acordo de cessar-fogo em curso, a situação é delicada demais para responder às questões colocadas”.
Apesar da insistência do Observador, o Ministério dos Negócios Estrangeiros português não respondeu às mesmas questões colocadas à embaixada israelita.