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“Não se enganem, isto agora é diferente. O Presidente [Donald Trump] e o vice-presidente [JD Vance] apelaram aos membros na NATO para adotar o novo plano de investimento de defesa de 5% do PIB.” As palavras são do embaixador dos Estados Unidos na NATO, Matthew Whitaker, que, numa conversa online com jornalistas estrangeiros na qual o Observador esteve presente, reiterou esta exigência norte-americana. “Cinco por cento não é apenas uma percentagem. É uma necessidade para a nossa segurança”, vincou o diplomata.
Atualmente, nenhum dos 32 Estados-membros da NATO cumpre o requisito dos 5% (nem mesmo os Estados Unidos), mas alguns já fizeram essa promessa — como a Polónia e a Lituânia (2026), a Letónia (2028) ou a Estónia (2029). No entanto, há países, como Portugal, que ainda estão muito longe de chegar a essa meta. Segundo dados do Governo, o investimento em Defesa representou 1,58% em 2024. Entretanto, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, anunciou, em meados de abril, que Portugal se anteciparia ao calendário e atingiria antes de 2029 os gastos de 2% do PIB em Defesa — mas sem especificar nenhuma data concreta.
A medida dos 2% do PIB em Defesa ficou acordada pelos Estados-membros em 2014, em resposta à anexação da Crimeia pela Rússia. Contudo, desde essa data, o mundo mudou significativamente. A Ucrânia foi alvo de uma invasão total pela Rússia e a Europa deu-se conta de que partilhava fronteiras com uma potência que já não colocava de parte operações militares para concretizar os seus objetivos expansionistas.
Durante o primeiro mandato, Donald Trump já tinha pedido aos aliados para aumentarem os gastos em Defesa e deixou no ar a meta de 4%. Para que não fossem só os EUA a suportar a grande fatia das contas. Ou a acudir em caso de guerra. Mas agora, num contexto geopolítico ainda mais conturbado, a presidência norte-americana quer ir ainda mais longe.
▲ Embaixador norte-americano da NATO, Matthew Whitaker
Getty Images
“A aliança está enfrentar ameaças significativas, como todos sabem, e devemos estar preparados para agir. O nível de investimento é necessário para garantir que os aliados têm as capacidades para dissuadir, defender a aliança e contribuir para a nossa defesa coletiva. O Presidente Trump tem mantido uma posição inabalável em relação à nossa segurança coletiva”, explicou Matthew Whitaker, que não deu sinais de ceder quando questionado sobre o compromisso dos 3,5% do PIB que se falava que poderia ser acordado na próxima cimeira da NATO, em Haia, nos Países Baixos: “5% é a percentagem. Esse investimento vai fortalecer a NATO e defendê-la contra qualquer ameaça, seja convencional, nuclear ou mesmo ameaças híbridas”.
A administração Trump espera aproveitar um encontro informal que começa esta quarta-feira em Antália, na Turquia, para ter “discussões substanciais” com os ministros dos Negócios Estrangeiros dos Estados-membros sobre como atingir essa meta, adiantou o embaixador norte-americano na NATO. Pressionados por Washington, alguns países já divulgaram que vão fazer tudo para atingir a meta mínima, de pelo menos os 2% do PIB. Em abril, o chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, prometeu que já este ano Espanha vai contribuir com aquele valor.
Portugal. Os programas eleitorais vagos sobre gastos em Defesa
Num país na reta final da campanha eleitoral, o tópico da Defesa tem sido pouco debatido. Nos programas eleitorais, os partidos são igualmente vagos; ainda que alguns manifestem o seu apoio ao aumento dos gastos militares e se comprometam com as metas da NATO, raramente precisam os valores — nem dão respostas às mais recentes exigências da administração Trump. Fora desta tendência, estão os partidos mais à esquerda com assento parlamentar: Livre, Bloco de Esquerda e Partido Comunista Português manifestam várias reservas (ou mesmo a oposição) à pertença de Portugal na aliança transatlântica.
▲ Ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo RAngel numa reunião da NATO em abril
OLIVIER HOSLET/EPA
No governo, o programa eleitoral da Aliança Democrática, a coligação que junta PSD e CDS-PP, promete alcançar “pelo menos 2% do PIB, antecipando a meta de 2029”, reforçando o “investimento no setor da Defesa para assegurar a autonomia, segurança e estabilidade da Europa, em estreita articulação com os parceiros da NATO e em linha com o que vier a ser definido na Cimeira de Haia”.
Por sua vez, o PS reconhece que o “ambiente estratégico internacional, caracterizado por novas dinâmicas que condicionam a segurança e a defesa de Portugal, da Europa e da Aliança Atlântica, exige uma reflexão sobre as prioridades da Defesa para os próximos anos”. Não define datas nem valores no programa eleitoral, mas assegura que “Portugal sempre foi um aliado credível e continuará a cumprir os seus compromissos internacionais no contexto das Nações Unidas, da União Europeia e da NATO“.
Já o Chega, considera fulcral, no programa eleitoral, aumentar o “investimento na Defesa nacional”, cumprindo as “metas orçamentais decorrentes dos compromissos com a NATO e a União Europeia”. O partido vai mais longe, propondo aumentar “o investimento na Defesa Nacional, assegurando o investimento de 2% do PIB até ao final de 2026”.
▲ Defesa tem sido um tópico pouco abordado durante a campanha eleitoral
HUGO DELGADO/LUSA
A Iniciativa Liberal defende, por seu turno, um “reforço efetivo e sustentado do investimento nacional em Defesa, alinhado com os compromissos assumidos no seio da NATO”, considerando a meta de 2% do PIB “desatualizada face à evolução do contexto estratégico global”. O partido, no seu programa eleitoral, pretende que Portugal “adote uma trajetória de reforço orçamental na Defesa, com metas progressivas, transparentes e sustentadas por um programa transversal de eficiência governamental”.
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E os restantes países? Há alguns que ainda não atingiram os 2% do PIB
Não é só Portugal que falha o investimento dos 2% do PIB em Defesa. Há mais sete Estados-membros que também não investem esse valor: Croácia (1,81%), Itália (1,49%), Canadá (1,37%), Bélgica (1,30%), Luxemburgo (1,29%), Eslovénia (1,29%) e Espanha (1,28%). Os restantes países cumprem o ‘requisito mínimo’.
Os países mais próximos da Rússia como a Polónia, a Estónia ou a Letónia são os que mais estão a investir na área da Defesa, temendo um cenário idêntico ao que está atualmente a ocorrer na Ucrânia. Porém, nenhum deles cumpre a meta dos 5% proposta pela administração Trump — e isso será discutido nos próximos meses.
Na conversa com os jornalistas, o embaixador dos Estados Unidos na NATO saudou o “progresso” nos investimentos em Defesa, realçando que, desde o momento que Donald Trump regressou à Casa Branca, mais de 20 países mostraram disponibilidade para alocar mais verbas. “Todos nós temos outras prioridades tentadoras [na política] interna, mas a nossa segurança coletiva é muito importante. O progresso que temos visto nos últimos cinco meses é promissor, mas precisamos de estar juntos como aliança para nos comprometermos para preparar os desafios futuros que todos nós sabemos que vamos enfrentar no futuro.”
A cimeira da NATO em Haia deverá ser o momento em que os Estados-membros deverão chegar a um consenso relativamente às verbas vão destinar à área da Defesa. “A grande prioridade, para mim, é o plano de investimento de Haia”, definiu Matthew Whitaker, que assegurou que os Estados Unidos e a Europa estão “a remar na mesma direção”. “Estamos a pedir aos nossos aliados europeus para serem mais capazes e para serem parceiros de igual para igual. Uma das coisas que o Presidente Trump tem sido claro é que os nossos aliados europeus, mais o Canadá, precisam de igualar o gasto.”
Ucrânia. Trump “frustrado”, mas determinado a terminar com a “matança”
Além da questão dos gastos em Defesa, o embaixador norte-americano na NATO deixou outros avisos. Demonstrando-se também “preocupado” com a guerra na Ucrânia, Matthew Whitaker garantiu que Donald Trump está “completamente focado a parar a matança que está a acontecer na sequência da invasão da Rússia e a assegurar que pode haver um acordo de paz duradouro”.
Não obstante, segundo o embaixador, o Presidente norte-americano tem sentido alguma “frustração” — agora mais com a Rússia. “O Presidente Trump expressou que tem ficado frustrado com a Rússia. Antes ele estava frustrado com a Ucrânia”, admitiu Matthew Whitaker, assinalando que a presidência dos EUA “vai ter de julgar em breve o compromisso” de Vladimir Putin para um cessar-fogo de 30 dias “não pelas ações, mas pelas palavras”.
Em relação à reunião de quinta-feira em Istambul que pode acontecer entre Volodymyr Zelensky e Vladimir Puitn, o embaixador norte-americano na NATO concorda com a sua existência. “A única forma” de haver paz é se os dois lados “estiverem juntos e negociarem um acordo de paz que termine com a matança”. “Está tudo em cima da mesa, mas os dois lados vão ter concordam com alguma coisa. E ninguém vai ficar feliz com um acordo que os dois lados concordem minimamente.”
▲ Matthew Whitaker admitiu que Donald Trump está frustrado com a Rússia
BONNIE CASH / POOL/EPA
Elogiando Donald Trump, Matthew Whitaker acredita que ele é a “única pessoa” que pode trazer as duas partes para uma mesa das negociações. “Neste momento, penso que nunca estivemos tão perto do fim desta guerra”, saudou.
Sobre os parceiros europeus, o embaixador salientou que podem desempenhar um papel nas negociações, mas cabe à Rússia e a Ucrânia alcançarem um acordo. Ainda sobre a Europa, Matthew Whitaker, quando questionado sobre os Estados Unidos planeiam reduzir a sua presença militar no Velho Continente, apenas sinalizou que Washington está “sempre a avaliar o seu posicionamento” nestas questões.
“Mas eu tenho sido claro e penso que o secretário Rubio e o secretário [da Defesa] Hegseth também: os Estados Unidos não vão abandonar a Europa”, prometeu Matthew Whitaker. Longe da retórica isolacionista usada algumas vezes por Donald Trump, o embaixador tentou mostrar que Washington ainda tenta apresentar-se como um parceiro confiável na Defesa e na segurança transatlântica. Mas impôs a exigência de gastar 5% do PIB em Defesa, uma meta que, pelo menos em Portugal, será muito difícil de atingir.