Foi o primeiro grande ideólogo do Chega. Conhece intimamente a direita: esteve com Manuel Monteiro no CDS e depois na Nova Democracia; esteve ao lado de Marcelo Rebelo de Sousa na oposição interna a Francisco Pinto Balsemão; ajudou a fazer a Aliança Democrática de Sá Carneiro, Freitas e Ribeiro Telles; foi uma peça importante MDLP de Spínola; e, antes disso, pertenceu ao MIRN de Kaúlza de Arriaga. Foi e é, ao longo destes sete anos de existência do partido, um elo importante de ligação de Ventura à elite empresarial portuguesa.
Em entrevista ao Observador, no programa Vichyssoise, fala sobre o momento particular que se vive nestas presidenciais: pela primeira vez na história, o candidato da direita radical está numa disputa a dois numas eleições nacionais. Para Diogo Pacheco de Amorim, deputado e vice-presidente da Assembleia da República, não tem dúvidas: aconteça o que acontecer a 8 de fevereiro, a substituição do PSD pelo Chega começa depois destas presidenciais. “Não tenho dúvidas. Não tenho dúvidas”, repete.
Pacheco de Amorim reconhece, ainda assim, que o partido enfrenta e enfrentará sempre um desafio estrutural difícil de resolver: mesmo substituindo o PSD como maior partido da direita, o Chega terá de assegurar uma “maioria absoluta” nas urnas para conseguir governar. “É óbvio que nós só conseguiremos governar com maioria absoluta. Temos que crescer até a maioria absoluta.”
Noutra reflexão, o deputado e vice-presidente da Assembleia da República assume também que um eventual regresso de Pedro Passos Coelho à liderança do PSD iria “diminuir ou anular a margem de crescimento” do Chega. Mas está disposto a pagar o preço. “É benéfico ou não para o país fazermos uma coligação? É fundamental. Se não deitarmos a mão a isto muito rapidamente fica complicado.”
Ouça aqui a Vichyssoise com Diogo Pacheco de Amorim
“Montenegro fica em muito má situação se tivermos mais um voto”
Na noite da primeira volta, André Ventura disse que quer liderar a direita e agregá-la. Entretanto, não apareceu uma única figura relevante de direita a apoiá-lo. Sabemos que Ventura diz que dispensa o apoio dos notáveis, mas isso não significa que não está a conseguir, como queria, agregar a direita?
Primeiro, o que é a direita? É uma questão básica. Desde o 25 de Abril, a direita ficou órfã e teve que se encostar principalmente ao PSD. O PSD não é um partido, são dois partidos. Há o PPD, um partido popular e conservador, e o PSD, que é um partido social-democrata, de centro-esquerda. Conviveram sempre e o que é que acontecia? A famosa história do voto útil. Faziam campanha à direita, e, com o voto da direita, iam governar ao centro-esquerda. Há esta permanente ambiguidade. A primeira tentativa de partido de direita aparece com o Manuel Monteiro, no CDS, onde eu também dei uma mão, mas que faliu, dois anos depois, pelas mãos de Paulo Portas. A tentativa que aparece neste momento, com êxito, é o Chega. O Chega é um partido de direita popular. Chegados aqui, houve uma clarificação. Nas próximas legislativas, não vai haver mais um único voto útil no PSD.
Este movimento à direita de rejeição de Ventura nas presidenciais pode ser benéfico para o Chega, é isso?
Completamente. Temos de lutar permanentemente contra o voto útil. O votante útil viciou-se no voto útil. Nas próximas legislativas, vamos guardar a caderneta de cromos dos apoios: este senhor, que quando estava em questão uma luta entre a esquerda e a direita nas presidenciais, foi apoiar a esquerda… O votante útil, neste momento, olha para o seu voto e diz: “Não vou mais votar inútil”. Portanto, esta clarificação, para nós, foi benéfica. Estes apoios não são de direita, são de centro, centrão.
Mas o que resultar dessa direita mais fiel a André Ventura e ao ideário do Chega será necessariamente uma direita mais pequena do que o objetivo inicial. Desistir de alargar não pode significar estar condenado a liderar uma força mais pequena?
Os resultados das eleições é que nos vão dar a resposta. Temos um bloco muito coeso de apoiantes, pelos 23%. Tudo o que vier a mais é um alargamento. Já tivemos uma vitória grande, que foi a passagem à segunda volta. Esta é indiscutível. Agora, na segunda volta, poria como segunda vitória os 31%, mais do que o PSD teve nas legislativas. Montenegro fica em muito má situação se tivermos mais um voto, mais uma décima do que teve nas legislativas. Vai ter de repensar. Isto pode resultar num rearrumamento das forças políticas. Fica um partido do centrão; a direita, com o Chega; e a esquerda, com a ala esquerda do PS e o resto.
“Racionalmente, faria mais sentido Ventura moderar-se na linguagem”
André Ventura classificou já nesta segunda volta António José Seguro como o “Tó Zero”, como uma inutilidade. Até já fez imitações do adversário. Acha que com esta retórica André Ventura consegue alargar o eleitorado e consegue apelar à tal direita moderada?
André Ventura não resiste a certas tiradas. É mais forte do que ele.
Mas, estrategicamente, são avisadas ou não?
Estou há alguns anos com o André. E várias vezes digo que acho que, talvez…
Às vezes aconselha-o a ter mais calma na maneira como intervém.
E não só eu. Ele diz: “A minha intuição funciona…” E tem funcionado sempre. Racionalmente, faria mais sentido André Ventura moderar-se na linguagem, nas expressões, na forma de estar. Mas as pessoas também se estão a radicalizar. Olham para a televisão, veem Seguro, acham uma pessoa estimável, honrada, ninguém diz que não, mas é tão redondo que as pessoas começam… “Mas o que é que é isto? Mais do mesmo? Então prefiro este. Por muito que ele radicalize, prefiro.” Depois, também pode acontecer uma coisa: se começar a haver aquilo que se chamam de moderação, o eleitorado vai dizer que André Ventura já está a ficar como os outros. Portanto, do ponto de vista tático e estratégico, isto é muito difícil. André Ventura, até agora, tem demonstrado um magnífico instinto. E espero que não o tenha perdido. Julgo que não.
Defende que Montenegro devia ter apoiado Ventura contra o perigo do socialismo. Mas foi o mesmo Ventura que disse nesta eleição “que se lixe Montenegro”. Em que é que ficamos? Como se faz esse equilíbrio? Quer, afinal, o apoio do PSD ou quer tratar o PSD como um inimigo político?
Já é um problema que se põe desde a primeira vitória do PSD nas legislativas. Dissemos: “Estamos aqui com prejuízo do partido. O partido até perde e mas aceita ir para uma coligação”. Temos o trauma do CDS, que foi sendo minado e laminado por coligações e alianças. Era um risco que corríamos. Mas o país precisa de reformas estruturais tão urgentemente que não tínhamos problema em pôr em risco o crescimento do partido de forma a acudir. Luís Montenegro não quis. Então entramos na guerra política. Para nós, do ponto de vista do partido, é ótimo. É mais um ponto, dois pontos, três pontos. É crescimento garantido. Agora, para o país, sabemos que quanto mais tarde forem feitas as reformas estruturais, mais custos vão ter. Se quiserem, estamos disponíveis. Se não quiserem, vamos à guerra.
“Só conseguiremos governar com maioria absoluta”
Escreveu recentemente que, aconteça o que acontecer no dia 8 de fevereiro, há eleitores do PSD que votando pela primeira vez em André Ventura já não regressam mais ao PSD. É essa a grande luta de André Ventura nesta campanha?
É a luta estratégica. É pegar nos famosos votos úteis, trazê-los e garantir que eles não tenham retorno. Até agora, esta procissão [de notáveis] tem-nos ajudado muito nisso.
O Chega tem crescido sobretudo na abstenção, tem crescido em muitos eleitores que eram até do Partido Comunista Português e do Partido Socialista, com dificuldade em entrar no eleitorado da AD. Esta eleição acha que vai permitir isso?
Sim. Vai ser decisivo. Agora ficou claro que o voto útil à direita não é no PSD. Vai haver esse fluxo de eleitores que nunca mais voltam para o PSD.
Acredita convictamente que depois destas eleições estará em condições mais favoráveis de substituir o PSD?
Não tenho dúvidas. Não tenho dúvidas. Houve uma clarificação. As pessoas têm uma perspetiva mais clara. As nuvens desapareceram, temos o panorama iluminado. Temos uma força de direita, que as pessoas cada vez menos consideram ser uma direita radical, ou extrema direita, nazi, fascista, salazarista…
Acha que há menos medo do Chega.
Claramente. Aliás, nota-se na diminuição da taxa de rejeição. As pessoas vão entendendo que é um partido normal, que defende coisas normais, que defende o bom senso, defende as coisas elementares.
Essa reorganização dos vários campos políticos, em que há um campo da direita liderado pelo Chega, o tal centrão PS-PSD e depois a esquerda, coloca um desafio ao Chega: teria de ser maioritário numas eleições legislativas para governar.
O nosso campo terá cerca de 23%. Mas vai ser alargado pela natureza das coisas. Muitas pessoas estão irritadas com esta situação, com esta perseguição [a Ventura]. Depois, existe o dia a dia: à medida que as pessoas vão tendo de enfrentar os problemas do país, vão percebendo que não há aqui [no Chega] xenofobia ou racismo; há a constatação de uma realidade. E este campo tem crescido bastante. Agora, temos dois caminhos para ir: ou esperamos que a realidade traga as pessoas ou fazemos nós esse caminho. Aquilo que é mais sólido é esperar que a realidade traga as pessoas. Mas é óbvio que nós só conseguiremos governar com maioria absoluta. Temos que crescer até a maioria absoluta.
“Regresso de Passos diminuiria margem de crescimento do Chega”
Um bom resultado de André Ventura nestas eleições também significa que o Chega terá mais argumentos para justificar uma crise política no futuro?
Nós teremos sempre muito cuidado a criar crise política. Só com uma justificação sólida. Nunca criaremos uma crise política artificial. Até porque, por aquilo que acabei de dizer, não teria efeito prático. Se estivéssemos a dois pontos de uma maioria absoluta… Como é evidente, não estamos perto disso. Portanto, é uma questão de ir vendo e ir seguindo. Navegar à vista.
Nestas eleições, falou-se muito da ausência de um líder agregador à direita e de Pedro Passos Coelho — aliás, André Ventura disse que só avançava porque Passos não quis avançar. A questão é outra: há mesmo espaço para André Ventura e Pedro Passos Coelho? Passos não seria uma ameaça à existência de Ventura? O Chega aceitaria estar na sombra desse PSD?
Vamos admitir que Pedro Passos Coelho regressa ao PSD. É óbvio que isso nos vai diminuir ou anular a margem de crescimento. Mas a questão é outra: é benéfico ou não para o país fazermos uma coligação? É fundamental. Se não deitarmos a mão a isto muito rapidamente fica complicado. Pedro Passos Coelho não representa um risco existencial para o partido. Agora, vai seguramente reduzir ou anular a nossa margem de crescimento. Mas era bom para o país. Ou preferimos continuar esta confusão gigantesca? Se assim for, num ano ou dois estávamos com maioria absoluta.
“Carneiro ou Pedro Nuno? Tenho simpatia por qualquer um deles”
Vamos então avançar com o segundo segmento do nosso programa. O Bloco “Carne ou Peixe”, onde só pode escolher uma de duas opções. Num futuro distante preferia ser o conselheiro de que líder do Chega: Bruno Nunes ou Rita Matias?
É impossível. André Ventura está com 43 anos. Com um longo futuro pela frente. Estou com 76. Não vou ser conselheiro de mais ninguém. É impensável. Infelizmente para mim, não vou viver 100 anos.
Com quem é que preferia beber um copo no Casino do Estoril: José Luís Carneiro ou Pedro Nuno Santos?
Tenho simpatia por qualquer um deles. José Luís Carneiro é uma pessoa simpática, é honesta, é uma pessoa com quem se está bem. Mais brusco, mas com graça, com sentido de humor também, temos o Pedro Nuno Santos. Teria todo gosto com qualquer um deles.
A quem é que se daria o seu gabinete como vice do Parlamento em caso de necessidade, em caso de urgência? A Luís Montenegro ou a Pedro Passos Coelho?
Pedro Passos Coelho.
[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]