Os candidatos presidenciais entraram à distância, na reunião com especialistas no Infarmed, e apenas um fez perguntas. O Presidente entrou também em videoconferência, pela primeira vez nestas reuniões e porque estava entre testes para despistar um resultado positivo ao vírus do momentos que tinha tido no dia anterior. As 12 horas anteriores à reunião foram só Marcelo e isolamento e campanha e candidato e eleições, mas nesta reunião com especialistas ninguém colocou este como um problema. O despique maior, dentro de portas, até foi entre dois especialistas que se desentenderam por causa do encerramento das escolas. Marcelo meteu a colher, mas com muita cautela.

A história repete-se, 10 meses depois. Em março do ano passado, o primeiro-ministro procurou o apoio dos especialistas antes de tomar decisões sobre um confinamento e na reunião do Conselho Nacional de Saúde Pública foi tamanha a tensão e a dificuldade em tirar dali um consenso, que a decisão de fechar escolas acabou por ser apenas política. Agora está outra vez nas suas mãos, pela mesma razão: não há consenso. Mas desta vez porque houve peritos que passaram das evidências científicas à opinião e uma guerra Norte-Sul.

De um lado o epidemiologista da Faculdade de Ciências, Universidade de Lisboa, Manuel Carmos Gomes, do outro o especialista em saúde pública e epidemiologista do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, Henrique Barros. “Pegaram-se”, conta um dos participantes da reunião do Observador. Porquê? Porque a dada altura, o professor de Lisboa defendeu abertamente que os alunos com mais de 12 anos não deviam ter aulas presenciais, “em termos fisiológicos são mais próximos dos adultos”, terá explicado o especialista segundo esta fonte. Outra fonte ouvida pelo Observador confirma que Manuel Carmo Gomes explicou que “as crianças mais pequenas têm um sistema imunitário que responde melhor e têm menos risco de desenvolver doenças”.

Segundo a mesma fonte, nesta reunião onde estavam as principais figuras de Estado, representantes dos partidos, candidatos presidenciais e conselheiros de Estado, o especialista mostrou-se preocupado com “o comportamento dos adolescente e jovens adultos” não tanto dentro das salas de aulas, mas fora, “com ajuntamentos à porta”. Para ele é evidente que há um ganho se nas escolas se mantiverem apenas as aulas dos mais novos, ou seja, crianças com menos de 12 anos.

Ao contrário do que é prática por parte dos especialistas, na resposta, Henrique Barros disparou também com a sua opinião, contrária à do colega. O especialista da Universidade do Porto esteve “até exaltado”, segundo apurou o Observador juntos de várias fontes presentes nesta reunião, e sem nunca atribuir as afirmações que ia criticando, desmontou argumentos e defendeu escolas abertas. A sustentar a sua opinião apontou dados que mostram que o risco diminui à medida que aumenta o grau de ensino e que o disparo de casos destes últimos dias diz respeito a contactos num período de férias escolares. E ironizou mesmo: “Parávamos isto com cada um sozinho em casa por 15 dias, mas isto não é vida”.

Fontes da reunião registam mesmo o tom opinativo pouco comum entre estes especialistas nestas reuniões e um dos presentes na reunião conta que logo após a sua intervenção aberta à comunicação social, o próprio primeiro-ministro se dirigiu a Manuel Carmo Gomes que tinha deixado claro que nem com as escolas fechadas, como me março, o país evita 14 mil casos e 150 mortos por Covid-19 daqui a duas semanas, indiciando já que defenderia escolas com restrições. E que quando falou, já à porta fechada, o especialista comentou, antes de dar a opinião, que a verbalizava mesmo sabendo que causaria incómodo.

António Costa saiu a declarar ter havido um debate “vivo” sobre esta mesma questão e admitiu ouvir representantes dos pais e também dos professores antes de tomar uma decisão que, frisou, será política. E isto porque, mais uma vez, sai de um encontro com peritos sem o apoio científico que esperava para a questão delicada do ensino, tal como no início de tudo.

No final, o Presidente da República falou — nos outros encontros tem sido o primeiro a colocar questões e isso até acontece ainda aos olhos da imprensa — e fez uma espécie de síntese do que ouvira e sobre esta questão tão quente terá registado “o consenso em manter abertas as escolas”, segundo duas fontes presentes na reunião. Outra fonte lê que este “consenso” declarado por Marcelo como sendo apenas relativo ao ensino presencial de alunos até 12 anos. Certo é que o Presidente quis passar ao lado da discussão e apenas apontar que no Ensino Superior, onde o risco também existe, como se está em época de exames, os contactos serão reduzidos naturalmente nas próximas semanas.

Um dos deputados presente aponta ainda outra questão sensível, ao Observador, desconfiado que o número-base de casos que o país tinha no Natal não era real e que isso ficou claro na apresentação de — mais uma vez — Manuel Carmo Gomes, que apontou a existência de 5 mil casos “que escaparam ao processo normal de testagem” e que dizem respeito “a pessoas com sintomas, pré-sintomáticas ou assintomáticas”. Isto somado à dificuldade de rastreamento de casos, com a DGS a assumir que só tem capacidade para rastrear 7 mil casos por dia e com a diminuição de testes neste período, resulta nesta desconfiança da oposição de que as decisões do Natal “foram tomadas com base em dados falsos”.

Mas disto Marcelo não falou, nem nenhum dos candidatos presidenciais. Aliás, houve uma exceção: Tiago Mayan Gonçalves, do Iniciativa Liberal, foi a única voz desta corrida a Belém que se fez ouvir na reunião de especialistas e para questionar sobre o atendimento dos casos não-Covid e dos números de mortalidade do ano passado. Foi o epidemiologista Baltazar Nunes que respondeu ao candidato, assumindo que essa contabilização só pode ser tirada a limpo mais tarde, retirando destes meses quaisquer “eventos atípicos”, como por exemplo a onda de calor do último verão, para perceber se o Covid teve impacto indireto no aumento da mortalidade de doentes não-Covid.

Outra questão que foi referida na reunião foi o caso dos cidadãos estrangeiros residentes em Portugal, portugueses ou diplomatas que se recusam a fazer um teste à chegada do aeroporto. São, segundo os dados, 100 casos por dia e a diretora-geral de Sáude queixou-se que os tribunais nada podem fazer porque alegam não ter poder para exigir esse teste a estes grupos. No final, Marcelo admitiu a necessidade de se fazer legislação para exigir estes testes.

Também pediu ao Governo, por duas vezes, que esta reunião se realize novamente daqui a 15 dias, ou seja no final do mês de janeiro, para que seja possível avaliar a progressão da variante do Reino Unido e também.

Quanto à campanha, que está a decorrer embora o atual Presidente e recandidato a Belém se mantenha sem qualquer agenda eleitoral, e às eleições que estão marcadas para o dia 24 de janeiro, em pleno confinamento e mobilizando os cidadãos às urnas de votos, nem uma palavra foi dita durante a reunião em que todos os candidatos marcaram presença. Mesmo que pouco depois da reunião terminar tenham vindo a público defender posições concretas sobre o caso, como aconteceu com Ana Gomes.

Ana Gomes sugere adiamento das eleições. As reações dos candidatos ao cenário traçado pelos peritos