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No Oeste, a chuva dobrou as estradas e fez ruir as casas. “Olhei para a porta e vi uma grande onda"

A água acumulada nos terrenos levantou, dobrou e partiu estrada em Arruda dos Vinhos e deixou casas prestes a ruir. Em Ponte do Rol, o rio galgou as margens, atravessou quintais e inundou habitações.

Um morador apressado desvia com facilidade a grade de metal, ladeada por dois blocos de betão, colocada pela Proteção Civil à entrada de Estrada de Lapão. À primeira vista nada parece justificar a medida de segurança nesta localidade junto a Arruda dos Vinhos, veem-se apenas campos verdejantes e meia dúzia de casas ao longo do caminho, nenhum sinal de perigo. Bastam alguns metros e o cenário muda: a força da água trazida pelas sucessivas tempestades fez deslizar os terrenos em volta e levantou, dobrou e partiu a estrada ao longo de vários quilómetros. Também provocou danos estruturais em várias casas, que ficaram a ponto de ruir.

Os primeiros sinais de perigo surgiram ao final da manhã de quarta-feira. Elementos da Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos deslocaram-se ao local e vários moradores começaram a ser realojados por prevenção. “Os residentes foram retirados da primeira casa logo por volta das 13h. Nessa altura a estrada já apresentava risco e a casa estava já a começar a cair. A situação era tão grave, tão grave que a casa estalava e as fissuras iam aumentando visivelmente“, relata ao Observador o autarca, Carlos Alves.

Na quarta-feira foram retiradas das casas em Lapão 20 pessoas, mas a autarquia não excluiu a hipótese do número aumentar. E esta quinta-feira de manhã uma família de três elementos também teve de sair devido ao perigo de desabamento. “É dramático, as pessoas que ficaram sem os seus haveres, sem o trabalho de uma vida. É um cenário dantesco, não há palavra melhor que calamidade”, sublinha o presidente da câmara de Arruda dos Vinhos, garantindo que ninguém ficou nem ficará sem apoio.

Um fenómeno “anormal” que vai trazer um trabalho de reconstrução de “anos”

“Tenham cuidado aí para cima”. O conselho parte de um casal que se aventura por Estrada de Lapão para ver os danos provocados durante a tarde e noite de quarta-feira. “Ontem passámos aqui e a estrada já estava mexida, mas ainda se passava, nada que se pareça”, dizem os moradores, que preferem não ser identificados. A casa em que vivem escapou ao primeiro impacto, mas não sabem se ficará a salvo: “A água não chegou lá ainda, está parada aí no meio dessa terra, mas temos de estar atentos”.

O aviso é certeiro. Alguns metros mais à frente a estrada está tão inclinada que é preciso caminhar pela vegetação. O piso está escorregadio da água que vai caindo dos terrenos de cima para os debaixo, que também já estão alagados. Os moradores admitem que nunca tinham visto algo assim. “Os antigos abriam as águas, escoavam de outra maneira. Agora não é assim”, reconhecem.

Continuando a subir pela estrada chega-se junto de uma das casas mais afetadas. O chão do pátio está levantado, há rachas e fissuras nas paredes amarelas e um muro caído. O anexo ao lado, onde estão resguardados um carro e um camião, não está em melhor estado e tem uma das paredes inclinadas.

“Há uma extensão muito, muito grande de infraestruturas e rede rodoviária afetada, é um cenário de calamidade”, resume o presidente da câmara de Arruda dos Vinhos. Carlos Alves explica que a autarquia foi sendo informada pela Proteção Civil e pelo Instituto Português do Mar e Atmosfera (IPMA) sobre possíveis cenários, mas nada do que se vê esta manhã era “expectável”. “Foi uma atividade geológica anormal, não estávamos preparados para as questões mais inerentes aos leitos de cheias”, refere. “Está situação aqui na Estrada do Lapão é um trabalho para anos”, reconhece.

“O meu marido disse: ‘Foge, se não morres aí’”

A mais de 30 quilómetros, na povoação de Ponte do Rol, em Torres Vedras, também foi preciso retirar pessoas das suas casas depois do rio Sizandro galgar as suas margens. Por volta da hora de almoço na quarta-feira a força da água rebentou o muro do quintal de Lurdes e Albino Félix, inundando os terrenos, os anexos onde estavam os animais e a cave da casa onde moram há 50 anos. “Arrebentou ali um porto do rio e o nosso muro. O meu marido disse: ‘Foge, se não morres aí’. Eu olhei para a porta e vi uma grande onda entrar pela porta dentro. Vim cá para cima. Aqui em cima graças a Deus não chegou”, conta a octogenária.

O quintal ficou completamente inacessível, deixando os animais encurralados. “Nós temos galinhas, mas são capazes de estar mortas. Também tenho uma mão cheia de gatos, mas esses devem ter subido para as prateleiras [dentro do anexo]”, espera Lurdes. Os piores danos são na cave da casa, que inclui uma sala isolada usada como estúdio de música pelo filho, que é professor numa escola em Torres Vedras.

É o filho que, de galochas e com a ajuda da mulher, vai retirando a água com recurso a duas bombas e a várias mangueiras. Num primeiro momento chegou a dar pela cintura. Na noite de quarta para quinta-feira ninguém dormiu. “Eles estão sempre ali desde ontem ao almoço, coitadinhos. Eu também não fechei o olho toda a noite. Há pouco ainda tirei a colcha para trás para me deitar, mas o telefone tocou”, relata Lurdes.

Na manhã desta quinta-feira a situação já estava controlada, mas o trabalho é ingrato. Apesar da água que retiram com as mangueiras, continua a escorrer mais pela porta na cave que dá acesso ao quintal. Lá fora a água ainda ultrapassa em alguns pontos 1,20 m, estima a família, uma vez que esta é a altura do muro parcialmente derrubado. “Em 1983 houve uma cheia valente, mas não foi assim. Nunca vi nada assim”, resume Abílio.

O cenário repete-se dois quilómetros adiante, em Gibraltar, também em Torres Vedras. A rotunda de acesso à povoação está inundada, apenas se consegue passar de carro na saída mais acima. As casas logo abaixo estão também alagadas. No andar inferior da casa de três pisos de Marco Ferreira a água chega às bancadas da cozinha, no rés do chão não passa de alguns milímetros. O homem, de 48 anos, que num primeiro momento esteve a criar barreiras com placas, já desistiu de tentar esvaziar de água a cozinha com bombas. Vários carros também ficaram danificados.

“Estamos há dias a bloquear, temos barreiras, mas isto é tanta água. Já não há hipótese. Ela entra outra vez, não há grande volta a dar”, diz Marco Ferreira. Contudo, o morador deixa elogios à atuação dos bombeiros e dos funcionários da câmara, que já lá passaram várias vezes para apoiar no que fosse necessário. Perante a destruição, Marco já vai fazendo contas aos estragos: “Mais de 20 mil euros, certamente”.

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