O que diz fazer é uma coisa, o que dizem que faz é outra. Desde esta quinta-feira que um grupo que será próxima do autoproclamado Estado Islâmico, rival do Hamas na Faixa de Gaza — o Abu Shabab — passou a ser foco de atenção.
Sabe-se que está sediado no sul da Faixa de Gaza, sempre de olho no controlo da ajuda humanitária que chega da fronteira com Israel. O grupo diz que o faz para assegurar a distribuição de mantimentos pelo povo palestiniano, mas várias fontes desmentem-no e imputam-lhe o saque de camiões com produtos alimentares doados, para depois introduzir estes bens essenciais no mercado negro ou disponibilizá-los em pontos de recolha específicos, que potenciam a mobilização dos palestinianos para locais pré-definidos com as forças israelitas.
O antigo ministro da Defesa de Israel, Avigdor Liberman, revelou que Telavive está a armar esta milícia e Benjamin Netanyahu não tardou a confirmar a informação. Questionou mesmo os jornalistas que procuraram explicações sobre o tema: “Qual é o problema?”. Considera que não se trata de uma novidade — a verdade é que já chegou a fazer o mesmo com o próprio Hamas.
Netanyahu vê com naturalidade que sejam mobilizados clãs em Gaza “para rivalizar com o Hamas”, que deixou de ser trunfo contra a Autoridade Palestiniana, desde 7 de outubro de 2023, e passou a ser inimigo comum — de Israel e do Abu Shabab.
O primeiro-ministro garantiu que não olha a meios para “salvar as vidas dos soldados israelitas”, mas dirigentes de segurança israelitas, citados pelo Ynet, negam que o Abu Shabab, que apoiam, tenha ligações com o autoproclamado Estado Islâmico.
As origens, o líder renegado e o recrutamento das três centenas de elementos
Há quem a considere uma milícia e quem prefira defini-lo como um gangue, graças às ligações dos seus elementos com operações de contrabando com grupos jihadistas egípcios. À frente do grupo Abu Shabab está Yasser Abu Shabab, um palestiniano que esteve anteriormente preso pelo Hamas e que, segundo fontes desta última organização, citadas pelo diário israelita Israel Hayom, escapou durante um ataque da força aérea israelita, depois do 7 de outubro de 2023.
Cerca de oito meses depois, em Rafah, o homem na casa dos 30 anos já tinha recrutado pessoalmente cerca de 50 homens, para formar um grupo de oposição ao Hamas em território palestiniano — começou por o definir como um “grupo de contraterrorismo”. A cidade no sul da Faixa de Gaza tinha acabado de ser invadida pelas Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) e, no meio de tudo isso, as brigadas do Hamas teriam começado já a realizar “assassinatos diretos” de membros do grupo, identificado como uma ameaça interna séria ao poder do grupo que governa a Faixa de Gaza.
O Israel Hayom diz que os elementos do Abu Shabab pertencem maioritariamente à tribo Tarabin, uma das maiores com raízes em Gaza, e que alguns dos seus membros trabalharam com o Estado Islâmico, integrando uma rede de contrabando entre a Faixa de Gaza e a Península do Sinai.
No entanto, de acordo com o Al Arabiya, foi a própria tribo e família de Yasser Abu Shabab, no passado dia 30 de maio, a declarar repúdio às suas ações e a tentar evitar que ele e os elementos recrutados explorassem o nome da tribo para terem respaldo social enquanto alegadamente saqueavam camiões de ajuda humanitária para proveito próprio e serviam interesses de Israel em território palestiniano.
Os conflitos do grupo com o Hamas terão começado, no entanto, bem antes de a crise humanitária começar em Gaza. Quando não havia guerra desta dimensão, as duas fações já estavam profundamente envolvidas em atividades de contrabando e pretendiam assegurar os interesses de cada uma.
Atualmente, de acordo com fontes não identificadas pelo Times of Israel, a milícia é composta por cerca de 300 pessoas. Tirando os tais 50 membros que o próprio Yasser Abu Shabab recrutou diretamente, fontes anónimas do Hamas alegam que cerca de 250 membros terão sido recrutados pelos serviços secretos da Autoridade Palestiniana. No entanto, como destaca o jornal israelita, estas fontes não apresentam provas do alegado envolvimento do governo da Cisjordânia, reconhecido internacionalmente, com o recrutamento do grupo.
Segundo as mesmas fontes, alguns membros pertencem a uma fação extremista salafista com um longo historial de conflitos com o Hamas.
Apesar das ligações criminosas, tanto a contrabando como a extremismo, o grupo em si nega que tenha afiliação ideológica relacionada com o Estado Islâmico, apresentando-se, ao invés disso, enquanto uma “força popular” criada para ser uma alternativa ao Hamas.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 3.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui e o segundo aqui.]
Proteger comboios humanitários ou saqueá-los? Versões contraditórias
A operar em Rafah, área que está neste momento sob controlo militar israelita, o Abu Shabab assume como uma das suas principais missões a de proteger os comboios de ajuda humanitária que entram em Israel pelas travessias da fronteira sul.
Há, no entanto, diversas versões que contrariam por completo o papel que a organização diz ter no terreno destruído pela guerra. O jornalista palestiniano Muhammad Shehada partilhou na rede social X uma descrição, a partir de fontes não identificadas, de como está organizada e quais as atividades desta organização.
Afirma que o líder do grupo, Yasser Abu Shabab, expandiu recentemente a sua atividade de Rafah para Khan Younis, onde está “hospedado numa vila cercado por 40 a 50 homens armados, perto das fronteiras de Israel”. As imagens que partilha mostram o homem e os membros mais próximos do grupo, fortemente armados, dentro de um edifício e junto a camiões com provimentos.
Yasser Abu Shabab, Israel's warlord in Gaza is a 30-year-old criminal who was imprisoned until Oct 7 on charges of possessing of large quantities on narcotics, I learned from multiple sources
He's now expanded his activities from Rafah to Khan Younis, where he's staying a villa… pic.twitter.com/jwpO7tfwD5
— Muhammad Shehada (@muhammadshehad2) June 5, 2025
O jornalista adianta que a milícia se encontra a “saquear ajuda da ONU sob a proteção das IDF” e que de seguida a “armazena e vende, em parte, no mercado negro”. Acrescenta que realiza “missões de reconhecimento em nome das IDF, bem como “monta campos de concentração em nome das IDF no leste de Rafah”.
Segundo as informações recolhidas, diz que o grupo “usa a comida saqueada para atrair pessoas” até aos locais previamente preparados para ataques aéreos e outras ofensivas israelitas.
O jornalista alega que o Abu Shabab acabou por se estabelecer “enquanto uma ‘força de segurança’ fantoche que as IDF vão colocar no comando de áreas que despovoaram para servir como sua milícia por procuração contra o Hamas“.
Existe ainda uma prova, que Shehada diz ter recolhido junto de “vários jornalistas de grandes órgãos de comunicação”. Destaca o inglês fluente usado em publicações de duas páginas da milícia no Facebook para se autodenominar enquanto uma “força nacional” palestiniana. Os jornalistas especializados entendem que tal nível linguístico só pode vir de uma sala de operações das IDF, com experiência na comunicação em inglês.
Netanyahu repete o que tinha feito com o Hamas e a Autoridade Palestiniana
A naturalidade com que Benjamin Netanyahu admitiu que Israel estava a “mobilizar clãs na Faixa de Gaza para rivalizar com o Hamas”, sinaliza a recorrência deste tipo de ações. Não é a primeira vez que o primeiro-ministro se envolve ou é acusado de apoiar milícias e grupos terroristas para minar um inimigo comum, tal como recorda o Times of Israel.
Vários relatos e notícias ao longo dos anos indicam que, antes do 7 de outubro, a política de Israel liderada pelo atual primeiro-ministro era precisamente a de usar o Hamas como um recurso para enfraquecer a Autoridade Palestiniana. Agora, faz o mesmo, mas desta vez alimenta esta nova milícia não a favor, mas contra o Hamas, que se tornou o principal inimigo desde a recente escalada de conflito.
Perante a indignação gerada pela revelação de que Israel está a armar o Abu Shabab, o líder da esquerda israelita, do Partido Democrata, Yair Golan, utilizou a rede social X para apontar o padrão de comportamento do líder do governo israelita.
“Netanyahu, que transferiu milhares de milhões para o Hamas em malas cheias de dinheiro, com base na crença incorreta de que o Hamas é um ‘ativo’, agora está a promover um novo conceito perigoso: armar uma milícia de Gaza com laços com o ISIS”, escreveu no post.
נתניהו שהעביר מיליארדים לחמאס במזוודות מזומן, מתוך קונספציה שגויה שחמאס הוא “נכס” ושזה ייגמר בכפכפים, מקדם עכשיו קונספציה מסוכנת חדשה: חימוש מליציה עזתית עם זיקה לדאעש.
נתניהו מסוכן לביטחון ישראל. במקום להביא עסקה, לייצר הסדרים עם הציר הסוני המתון ולהחזיר את החטופים ואת הביטחון…
— Yair Golan – יאיר גולן (@YairGolan1) June 5, 2025
“Isto não é um erro. É sistemático. Netanyahu está a vender a segurança de Israel por mais um dia no cargo”, acusou ainda Golan.