1230,6kWh poupados 1230,6 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

i

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O cirurgião de Yarmouk, o campo de refugiados de cimento que passou a uma “pequena Palestina” em ruínas

Síria. Khaldoun foi o último cirurgião a sair do campo de Yarmouk, que acabou arrasado por Assad. Aqui, os palestinianos sobreviveram a comer ervas e sofreram com o Estado Islâmico.

    Índice

    Índice

Reportagem dos enviados especiais do Observador à Síria

“Há cinco tipos de prédios em Yarmouk hoje em dia: os que parecem esqueletos; os que fazem lembrar um bolo de camadas a colapsar; os que são como um queijo suíço; aqueles que só precisam de algum restauro; e os que foram arrasados até ao chão.”

Khaldoun Eelmelleh apresenta a analogia em frente àquilo que em tempos foi o seu prédio e que se enquadra na última categoria: uma pilha alta de pedras partidas, cacos e azulejos estilhaçados, que em tempos albergou oito famílias.

Estamos na zona sul de Damasco, numa área conhecida por muitos como “pequena Palestina”. Construído em 1957 como um campo de refugiados na sequência da Nakba (a expulsão dos palestinianos após a criação do Estado de Israel), Yarmouk nunca foi um depósito de tendas, mas sim um bairro de cimento e tijolo onde chegaram a viver 180 mil habitantes.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Apesar do estatuto de “campo de refugiados” — que nunca foi oficial, já que tecnicamente estava sob a administração do Governo sírio, apesar de beneficiar de múltiplos programas do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) —, Yarmouk foi em tempos uma área vibrante, conhecida pelo seu comércio. “Havia gente rica. Tínhamos 27 escolas, quatro hospitais, várias clínicas privadas. E entre cada um havia uma loja de shoarma”, resume Khaldoun, com o seu humor característico, referindo-se à famosa sanduíche do Médio Oriente.

Hoje em dia, é difícil visualizar como terá sido em tempos esse Yarmouk. Rua atrás de rua, os prédios esquálidos sucedem-se. Ao entardecer, o campo mergulha na escuridão, apenas pontuada pelas luzes de gerador que espreitam por uma ou outra loja e pelas janelas de cimento dos edifícios, indicando que há gente a viver nas ruínas. Nas clareiras onde não há casas, os montes de entulho cobertos de lixo deixam claro que em tempos houve. Dois homens numa carripana aproximam-se de um contentor do lixo. Um traz um gorro vermelho, o outro uma sweatshirt que diz “Smile”. Debruçam-se sobre o caixote de plástico e começam a revirar o lixo freneticamente. Atrás deles, há um graffiti na parede que diz “Não se esqueçam do campo de Yarmouk. Nós não esqueceremos os mártires.”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Foram muitos ao longo de 14 anos de guerra civil na Síria: mais de quatro mil terão sido mortos e mais de três mil detidos durante os bombardeamentos do regime de Bashar al-Assad, o cerco que impediu a entrada de pessoas e de comida e a permanência de vários grupos rebeldes. Em 2015, o Estado Islâmico tomou o controlo do território.

A destruição de património em larga escala ocorreu depois de 2018, quando praticamente não restava ninguém no campo. O regime sírio permitiu a criação de corredores para as poucas centenas de pessoas que ainda lá estavam saírem de vez; mas, quando Yarmouk se esvaziou, destruiu cada divisão de cada andar de cada prédio. Ainda hoje não é claro o porquê.

Ao longo do último ano, desde que o Hay’at Tahrir al-Sham (HTS) de Ahmed al-Sharaa expulsou Assad e tomou o controlo do país, muitos dos palestinianos-sírios que ali viviam têm regressado. Hoje em dia, são cerca de 25 mil, longe da centena de milhar que em tempos encheu as ruas.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Ervas daninhas para comer, cirurgias sem anestesia e juras de sangue sobre o Alcorão

“Devia ter visto isto no passado, era uma cidade fantasma.” Khaldoun Eelmelleh regressou a Yarmouk com a queda de Assad, mas é dos poucos que podem falar com propriedade sobre como era a vida no campo durante a guerra, já que o urologista foi o último médico cirurgião a sair do campo.

Desde que o cerco foi imposto, em julho de 2013, a situação agravou-se muito para lá dos bombardeamentos habituais. Sem abastecimento, os preços da comida dispararam: no final do ano, um quilo de arroz já custava entre 60 e 85€. A certa altura, as prateleiras ficaram totalmente vazias. E a fome manifestou-se em todo o seu horror.

Os relatos recolhidos pela Amnistia Internacional dão conta de que grande parte da população sobrevivia comendo ervas daninhas “nas pequenas áreas de campo, onde os snipers estavam à espreita”. Os que conseguiam especiarias misturavam-nas com água. Algumas pessoas tiveram problemas graves de saúde depois de terem bebido uma substância com açúcar usada para fazer a depilação. Uma menina foi hospitalizada com problemas de estômago depois de a sua família ter matado um cão para comer.

▲ Khaldoun Eelmelleh, o último cirurgião a sair de Yarmouk

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Eu tinha 72 quilos, fiquei com 40. Não tínhamos nada”, resume Khaldoun. “Descobrimos uma erva a que alguns chamavam ‘pés de pássaro’. Mas descobrimos também que provoca problemas renais. A certa altura, tínhamos 27 pessoas com falência renal aguda e não tínhamos nenhuma máquina de diálise.”

No Hospital Palestina, onde em tempos se faziam 600 cirurgias por mês, Khaldoun ia sozinho fazendo as que podia. “Eu percebia era de rins e bexiga. Mas os mísseis não sabem que sou urologista, portanto atingem todas as partes do corpo.” Oficialmente, o dia começava às oito da manhã e terminava à meia noite, dividido entre o Hospital e a clínica privada que Khaldoun montou numa divisão da sua casa. Mas era frequente ser acordado de madrugada para ir lidar com alguma urgência. “Todas as noites sonhava com uma operação que ia fazer no dia a seguir. E depois acordava e ia ler os meus livros de anatomia.”

Fazer uma cirurgia de uma especialidade que não é a sua já é assustador para qualquer médico. Mas a medicina de guerra imposta a Khaldoun foi para além de qualquer cenário “de ficção científica”: “Sem anestesia, sem sacos de sangue, sem oxigénio, sem máquinas de raio-X e de ressonância magnética…”, enumera.

▲ O Hospital Palestina em tempos realizava 600 cirurgias por mês

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Era também um trabalho solitário. Sem mais nenhum médico que restasse em Yarmouk, o urologista recorreu à ajuda de vários voluntários entre os 16 e os 25 anos, que não tinham qualquer experiência clínica — “mas hoje todos trabalham na área, são uns estúpidos por gostarem disto”, acrescenta o médico com um sorriso. Quando era preciso mais sangue, o pedido era feito em praça pública pelos altifalantes das mesquitas, mas não havia forma de testar qual o grupo sanguíneo de cada um. “Uma vez, fiz duas pessoas jurarem sobre o Alcorão que eram O Rh+. Felizmente correu bem. Mas era sempre tudo no arame.”

Assad, OLP e Estado Islâmico. Como os palestinianos de Yarmouk foram instrumentalizados por todos

Khaldoun vai recordando esses dias negros numa rua perto do bairro onde em tempos viveu, conhecido como o “8 de Março”. É uma referência ao dia em que Hafez al-Assad (pai de Bashar al-Assad) e o seu partido Ba’ath levaram a cabo um golpe de Estado que levou à instalação da dinastia que viria a governar a Síria até ao ano passado.

Não é de estranhar tal nome no meio da toponímia de Yarmouk. Afinal, desde que chegou ao poder que Hafez se tentou assumir como um defensor da causa palestiniana, atribuindo aos refugiados direitos iguais aos dos sírios. Talvez por isso, muitos dos residentes do campo fazem questão de ainda hoje se definirem tão sírios como palestinianos. Mas, ao mesmo tempo, o regime também cultivou a sua própria milícia palestiniana dentro de Yarmouk, o Comando Geral da Frente Popular da Libertação da Palestina (PFLP-GC na sigla em inglês).

Por ironia, acabaria por ser o regime dos Assad, que em tempos protegeu Yarmouk, a bombardeá-lo e a condená-lo à fome. As próprias PFLP-GC terão colaborado. “Eram só agentes do regime. Faz lembrar o Pétain, perguntem aos franceses”, atira Khaldoun, referindo-se ao Presidente da França Vichy, que colaborou com a Alemanha Nazi. Há menos de um mês, arrancou na Alemanha um julgamento internacional de cinco homens das PFLP-GC, acusados de crimes de guerra e crimes contra a Humanidade pelas suas ações em Yarmouk.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Já do lado da Autoridade Palestiniana, que nunca tomou posição oficial sobre a guerra civil síria, também não veio auxílio claro em direção a Yarmouk. E, no entanto, as ligações tinham raízes profundas, como se vê por uma zona a que Khaldoun faz questão de nos levar. Estamos no “Cemitério dos Mártires”, construído em 1964, onde estão enterradas figuras de proa da Organização pela Libertação da Palestina (OLP), como Abu Jihad, antigo número dois de Yasser Arafat. Os escombros dos prédios vizinhos fazem sombra aos cães escanzelados que passeiam entre as lápides.

Hoje em dia, a zona dos túmulos mais antigos é um amontoado de pedras partidas; mas, do outro lado, onde há uma “secção dos mortos à fome” para os cadáveres mais recentes — e onde está enterrado Jihad —, está a ser construído um novo muro. É um projeto da OLP, que decidiu investir assim na diáspora palestiniana. Uma sondagem online feita pela ONG Grupo de Ação para os Palestinianos na Síria perguntou aos residentes o que achavam da decisão: 88% responderam que a reconstrução do cemitério é “uma prioridade secundária” e que “o apoio aos residentes devia vir primeiro”.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Os residentes de Yarmouk foram sujeitos às bombas, à fome e ao exílio. Mas, pelo meio, ainda enfrentaram um último calvário quando, em 2015, o Estado Islâmico conquistou o controlo do campo aos restantes grupos rebeldes. “Assim que o Daesh [nome islâmico depreciativo dado ao grupo] entrou no campo, queimaram a bandeira palestiniana e decapitaram civis”, confessou à altura um residente ao The Guardian.

Os palestinianos, em tempos acarinhados pelos Assad e pela OLP e entretanto abandonados, não eram suficientemente islâmicos para os novos senhores do campo. Khaldoun foi detido durante duas semanas por causa de um comentário no Facebook. Em resposta a uma referência ao Rato Mickey e ao Pato Donald, escreveu “só a Disney é que sabe”. O Estado Islâmico acusou-o de blasfémia, porque, diziam, “só Deus é que sabe”.

“Todos eles tinham aprendido na escola de Sednaya”, diz, referindo-se à maior prisão do regime dos Assad, em Damasco, onde a tortura era o prato do dia. “Portanto, sabiam aplicar todas as queridas técnicas do nosso regime. E fizeram-no sobre mim”, resume, sem elaborar. Mas não sem antes acrescentar, com um toque de humor negro: “O mais doloroso foi que me impediram de fumar.”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Durante o cerco criei uma ligação com cada pedra”

“Doutor!” O discurso de Khaldoun é interrompido por uma família que passa e que, ao reconhecê-lo, o cumprimenta efusivamente. Como ele, estiveram em Yarmouk até ao final, quando tiveram de sair no corredor criado para esvaziar o campo. O médico retoma o discurso para falar dessa altura: “Quando o regime chegou… Pirei-me”, conta enquanto estala os dedos, como se sair ao fim de anos de guerra fosse uma fuga cobarde. “Não perdi oito anos da minha vida para ficar debaixo do regime.”

Yarmouk foi finalmente tomado pelo Governo em 2018, pela 4.ª divisão, uma unidade de elite comandada por Maher al-Assad, irmão do próprio Presidente. E foi aí, já com os civis longe, que o campo foi arrasado. “Foi sistémico, queriam arrasar isto. A minha casa e o Hospital Palestina estavam bons quando eu saí. É claro que havia destruição, mas era uns 20% do campo.”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Quando Khaldoun regressou — já com o resto da família, que havia partido antes do cerco e que não via há 12 anos —, não reconheceu a sua rua. Caminhou por entre os destroços e tentou identificar a sua casa, pelos caminhos improvisados no meio de entulho. Localizou a padaria que ficava em frente à sua porta pelos restos da espuma do isolamento térmico que ainda se vê agarrada à pedra. Depois, olhou para a montanha de destroços em frente. “Quando vês a destruição com os teus próprios olhos é diferente, há uma intimidade com os edifícios. Nunca gostei de Yarmouk, mas durante o cerco criei uma ligação com cada pedra.”

Naquele momento, ao revirar cada uma dessas companheiras íntimas que estavam empilhadas em frente à padaria, acabou por encontrar algo que lhe retirou qualquer dúvida de que ali, algures por entre aqueles cacos, estava a casa da família: “Era um livro, com uma bala no meio. Abri-o e ainda se conseguia ler o título: ‘Os Irmãos Karamazov’, um dos meus livros favoritos. Tinha o meu nome escrito à mão por cima.”

O médico vive agora numa outra casa do campo, uma que ainda está de pé e tem paredes inteiras. Mas vai muitas vezes ali, àquele local no meio dos escombros onde o silêncio é ensurdecedor. Senta-se ao lado da antiga padaria (como comprova a almofada que levou para lá), acende um cigarro e bebe uma cerveja. Está sempre acompanhado de uma das poucas coisas que conseguiu retirar dos destroços da casa e que tira do bolso das calças para mostrar: uma peça de xadrez, o Rei. “Mas a minha favorita é o Cavalo, porque se mexe para todo o lado e consegue saltar por cima de todos os obstáculos.”

▲ Khaldoun Eelmelleh no local aonde vai habitualmente, perto da sua antiga casa, para beber uma cerveja

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Ninguém sabe quanto tempo demorará a voltar a erguer o bairro “8 de Março”. Neste momento, e ao contrário do que acontece em quase toda a Damasco, não há sequer luz elétrica em Yarmouk e não parece haver consenso sobre quem tem responsabilidade nessa matéria — as autoridades locais dizem que é o ACNUR, o ACNUR diz que não tem poderes para isso por não ser administrador oficial do campo. Mas, apesar disso, Khaldoun quer manter alguma esperança no novo Governo de Ahmed al-Sharaa: “Os tipos do HTS são pragmáticos. Vêm do mesmo background que o Estado Islâmico, mas para eles a teoria e a prática não são a mesma coisa. Inspiram-se na dialética marxista, digamos”, afirma, rindo-se com a comparação.

Atualmente, o apoio do ACNUR à reconstrução é feito apenas através de contribuições financeiras para “reparos menores a casas que tenham uma estrutura sólida”. Ao Syria Direct, o organismo disse que “até esta data, nenhum doador expressou interesse em apoiar uma reconstrução de larga escala”. Também não são conhecidos quaisquer outros planos de reconstrução — nem da OLP, nem do Governo sírio.

*Reportagem com Majd Al-Boukai

O Observador viaja a convite da Fundação AIS — ACN Portugal

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.