Índice
Índice
A amizade já é muito longa: dura há mais de 60 anos. O Presidente norte‑americano, Donald Trump, conheceu Ronald Lauder, filho de Estée Lauder, a mulher que fundou um império na área da cosmética, na Universidade da Pensilvânia, onde ambos estudaram. Os dois nova-iorquinos seguiram, contudo, percursos de vida distintos. Enquanto um se dedicou ao mundo dos negócios e depois à política, o outro trabalhou na empresa fundada pelos pais, foi embaixador norte‑americano na Áustria, é um ávido colecionador de arte e lidera uma fundação dedicada à educação judaica e ao combate contra o antissemitismo. E tem outro interesse peculiar: autointitula-se como um “especialista na Gronelândia”.
Num momento em que Donald Trump já assumiu “que não há volta atrás” e que os Estados Unidos terão de controlar a maior ilha do mundo mesmo que isso seja contra a vontade dos aliados europeus, Ronald Lauder terá sido um dos principais responsáveis por influenciar o Presidente norte-americano a anexar a todo o custo a Gronelândia. O amigo de longa data do chefe de Estado já tinha sugerido a ideia de comprar o território durante o primeiro mandato. Mas agora tem redobrado a ofensiva: num artigo publicado pelo New York Post em fevereiro de 2025, o herdeiro do império dos cosméticos declarou: “A Gronelândia não é apenas um ativo estratégico. É a próxima fronteira da América”.
Com vários negócios no território autónomo gerido pela Dinamarca, Ronald Lauder admitiu que conhece bem o seu potencial: “Trabalhei de perto com os líderes empresariais e governamentais da Gronelândia durante anos para desenvolver investimentos estratégicos”. O antigo embaixador na Áustria durante a segunda administração Reagan é um dos principais investidores da Greenland Water Bank, uma empresa que vende água engarrafada premium, assim como faz parte de sociedades de exploração de recursos naturais.
▲ Ronald Lauder
dpa/picture alliance via Getty I
O filho de Estée Lauder não é o único bilionário que tem interesse nos recursos da ilha. Outros poderosos homens, que se aproximaram de Donald Trump desde que regressou à Casa Branca há um ano, também têm ou desejam ter investimentos na Gronelândia. Nomes como Jeff Bezos, Bill Gates, Michael Bloomberg, Sam Altman, Peter Thiel e até Howard Lutnick (atual secretário do Comércio) têm investido no território autónomo da Dinamarca. Os depósitos de terras raras na Gronelândia são o que gera mais entusiasmo para os donos de grandes tecnológicas e multimilionários.
Conhecido pela arte de fazer negócios e de gostar de fechar acordos vantajosos para os Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump terá sido sensibilizado para como a Gronelândia ajudaria os seus aliados bilionários nos seus negócios. Oficialmente, ainda assim, a presidência norte-americana tem apontado “razões de segurança nacional” como justificação para a necessidade de controlar o território gerido pela Dinamarca. Os argumentos que têm sido apresentados são a necessidade da Gronelândia para o sistema de mísseis antiaéreos que os EUA estão a desenvolver e a competição existente no Ártico com a Rússia e a China.
Da reunião em 2018 em que Ronald Lauder terá apresentado a ideia até ao possível uso da força militar
No primeiro mandato, Donald Trump teve uma reunião com Ronald Lauder em 2018. Terá sido esse encontro em que o amigo de longa data lhe terá apresentado a proposta de comprar a Gronelândia. Em declarações ao jornal Guardian, o antigo conselheiro de segurança nacional John Bolton confirmou essa história. “Trump chamou-me à Sala Oval. Ele disse que um empresário proeminente tinha sugerido que os Estados Unidos da América comprassem a Gronelândia.”
Após esse encontro, Donald Trump deu ordens para a Casa Branca explorar de que formas é que poderia aumentar a sua influência do território no Ártico. Em 2019, o Presidente norte-americano chegou a verbalizar a intenção de adquirir a ilha, mas a Dinamarca rejeitou por completo a possibilidade de vender a Gronelândia. “A ideia de adquirir a Gronelândia foi recebida com escárnio”, lembrou Ronald Lauder, no artigo de opinião do New York Post: “A primeira-ministra dinamarquesa rejeitou a ideia, enquanto um antigo líder dinamarquês designou-a como uma ‘piada de 1 de abril’. A grande comunicação social tratou o assunto como uma brincadeira”.
A ideia ainda foi flutuando durante o final do mandato, mas cedo acabou por ficar na gaveta. Donald Trump teve depois de lidar com a gestão da pandemia de Covid-19 e também com a campanha para as eleições presidenciais de 2020, que perdeu para Joe Biden. Nesta senda, Ronald Lauder lamentou que a administração do antigo Presidente tenha, “sem surpresa, ignorado e subvalorizado” a “vasta oportunidade” que representa a Gronelândia.
Quando regressou à Casa Branca, Donald Trump não se esqueceu da Gronelândia, num contexto distinto do primeiro mandato: rodeou-se apenas de aliados e parecia estar mais determinado do que nunca a usar a força militar para alcançar os seus objetivos. Mesmo antes de tomar posse, em meados de janeiro de 2025, o chefe de Estado norte-americano ligou para a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, de forma a pressioná-la a abdicar da soberania do território. E nunca excluiu uma intervenção militar na ilha.
▲ Mette Frederiksen recebeu uma chamada de Donald Trump em janeiro de 2025 sobre a Gronelândia
TOLGA AKMEN / POOL/EPA
Como relata John Bolton, esta nova tentativa de adquirir a Gronelândia revela como é a tomada de decisões do Presidente norte-americano: “Pedaços de informação que ouve de amigos, que encara como verdade, e que depois não se consegue mudar a opinião dele”. Neste contexto, as palavras de Ronald Lauder — um amigo de longa data pertencente à mesma bolha de Nova Iorque — foram fundamentais para Donald Trump estar tão convicto da necessidade da Gronelândia para os Estados Unidos. Após várias entrevistas, o New York Times concluiu mesmo que o filho de Estée Lauder teve uma grande preponderância em convencer o amigo dos tempos da faculdade em avançar para a comprar o território dinamarquês.
No artigo de opinião no New York Post (um tabloide nova-iorquino que Donald Trump regularmente lê e em que confia) em fevereiro de 2025, Ronald Lauder nunca sugere usar a força militar para tomar a Gronelândia. Em vez disso, propôs várias alternativas, desde cedências de terrenos a associações de comércio livre, mas nunca uma intervenção com base na força. A diplomacia seria a forma preferida de Ronald Lauder para resolver o assunto; aliás, em algumas reuniões com Donald Trump, ter-se-á oferecido para mediar o assunto com governantes dinamarqueses.
Aguçando-lhe o apetite com oportunidades de negócios e questões de segurança nacional, o amigo de longa data foi preponderante para que Donald Trump ficasse cativado com a compra da Gronelândia, mas parece que o Presidente norte-americano foi mais longe. Para o chefe de Estado dos EUA, aparenta também ser uma questão de expansão da área de influência direta dos Estados Unidos no hemisfério ocidental — num regresso da Doutrina Monroe, desta feita cunhada como Doutrina Donroe, como já se viu na Venezuela e na captura do Presidente Nicolás Maduro.
Para além disso, a questão da Gronelândia pode ser também uma vendetta pessoal contra o facto de não ter vencido o Prémio Nobel da Paz. Numa carta enviada ao primeiro-ministro da Noruega Jonas Gahr Støre, Donald Trump assumiu que, uma vez que não venceu o galardão, já não sente “a obrigação de pensar exclusivamente na paz”, mas antes “no que é bom e adequado para os Estados Unidos da América”.
Ronald Lauder. O bilionário que coleciona arte e que tem negócios na Gronelândia
Ronald Lauder nasceu em 1944, quando a mãe ainda não se tinha transformado numa grande empresária na área dos cosméticos. Na altura, Estée ainda vendia cremes (que tinha aprendido a fazer seguindo receitas de um tio) apenas às amigas e conhecidas em salões de beleza de Nova Iorque. Dois anos depois de ter nascido, os pais decidiram começar um negócio mais ambicioso que resultou num império que conta hoje em dia com várias marcas e que está presente em todo o mundo.
Ao longo da juventude, Ronald Lauder acompanhou a rápida expansão da empresa familiar. Estudou em várias universidades privadas (incluindo na Pensilvânia, onde conheceu Donald Trump, e Paris), antes de se juntar ao negócio dos pais. O irmão Leonard, onze anos mais velho, que morreu em 2025, foi a principal figura na gestão da empresa ao lado da mãe, ao passo que o filho mais novo se dedicou mais à internacionalização da marca, tendo trabalhado em Bruxelas.
Depois de o ter conhecido na universidade, Ronald Lauder manteve-se amigo de Donald Trump. “É um homem de uma perspicácia e inteligência incrível”, elogiou o antigo diplomata, acrescentando que chegou a trabalhar com o atual Presidente em “alguns dos desafios diplomáticos mais complexos que alguém possa imaginar” — que nunca especificou quais eram.
▲ Ronald Lauder (à esquerda), Estée Lauder (ao centro) e Leonard Rauder (à direita)
Penske Media via Getty Images
Ainda assim, os dois têm temperamentos distintos. Citado pelo jornal Telegraph, Roger Kimball, um crítico de arte que conhece bem os dois, descreveu Ronald Lauder como uma pessoa “simpática, acessível, articulada e interessada em cultura”. “Ele e Trump têm personalidades muito diferentes. O Ronald é calmo, amigável e educado, mas reservado. Há muitas coisas que se pode dizer sobre Donald Trump, mas eu nunca o ouvi ser acusado de ser reservado. Ronald Lauder é.”
Havia algo que os unia, no entanto: a política. Ambos eram republicanos, se bem que Donald Trump se tenha afastado do Partido Republicano ao longo da sua vida (chegou mesmo a juntar-se aos democratas). Nos anos 80, Ronald Lauder chegou a ter cargos no Governo norte-americano. Durante a administração Reagan, a experiência internacional na Europa à frente da empresa da mãe ajudou a que fosse escolhido para o cargo de vice-secretário-assistente para a Política Europeia e da NATO no Departamento de Estado. Em 1986, é nomeado embaixador norte-americano na Áustria, onde fica durante um ano.
A experiência diplomática foi breve. O filho mais novo de Estée Lauder tinha ambições políticas dentro dos Estados Unidos, especialmente na cidade onde nasceu. Assim sendo, concorreu às primárias republicanas para o cargo de mayor de Nova Iorque. Porém, não teve sucesso e perdeu para Rudy Giuliani que, anos mais tarde, viria também a tornar-se um aliado próximo de Donald Trump e chegaria a ser o seu advogado.
▲ Donald Trump e Estée Lauder nos anos 80
Ron Galella Collection via Getty
Além da política, outra paixão de Ronald Lauder é a arte. É um dos maiores colecionadores privados de arte alemã e austríaca do início do século XX — em concreto da corrente do expressionismo germânico — nos Estados Unidos e fundou, em Nova Iorque, a Neue Galerie, um museu dedicado a artistas dessa época. Entre as obras que detém na sua casa, destacam‑se os quadros do pintor austríaco Gustav Klimt.
O herdeiro do império dos cosméticos é judeu e exerce uma grande influência nas relações entre Israel, as comunidades da diáspora e os Estados Unidos, principalmente como presidente do Congresso Judeu Mundial desde 2007. A organização pretende garantir a representação de comunidades judaicas em todo o mundo, defender Israel e combater o antissemitismo. Ronald Lauder foi também um dos principais acionistas do canal israelita Channel 10 e investiu em grupos de televisão em vários países da Europa.
Na Gronelândia, Ronald Lauder também tem negócios. Um deles foi descoberto pela imprensa dinamarquesa: o empresário é um dos investidores na Greenland Water Bank, uma empresa que vende água engarrafada premium captada na ilha Disko. Por agora, comercializa apenas em território gronelandês, mas existem planos ambiciosos para exportá-la para o mundo no segmento de luxo. Um empresário oriundo da Gronelândia, Svend Hardenberg, relata ao Politken que, quando provaram a água, a conclusão dos investidores foi que “era a melhor do mundo”.
▲ Ronald Lauder numa cerimónia religiosa judaica
AFP via Getty Images
Mas há mais interesses: esse grupo de investidores quer desenvolver um grande projeto hidroelétrico no lago Tasersiaq, o maior da Gronelândia. E ainda há a suspeita de que Ronald Lauder poderá querer explorar as terras raras da ilha do Ártico, devido às reservas naturais que alberga. “Uma presença mais forte dos EUA na Gronelândia contrariaria a militarização dos adversários no Ártico, bloquearia a expansão económica dos rivais e garantiria o controlo sobre as terras raras, reduzindo a dependência norte-americana de cadeias de abastecimento vulneráveis atualmente dominadas pela China”, explicou, no artigo do New York Post, o herdeiro do império de Estée Lauder.
Lauder não é o único a investir na Gronelândia — há mais milionários que estão interessados
Ronald Lauder serviu como um dos primeiros impulsionadores da ideia de Donald Trump anexar a Gronelândia. Não será o único: vários multimilionários e líderes de grandes tecnológicas já investiram na maior ilha do mundo. As terras raras, indispensáveis para a tecnologia moderna, são o principal fator que torna o território da Dinamarca tão atrativo. A China domina grande parte da produção desses elementos — e os EUA estão a tentar reduzir a dependência de Pequim. Por causa disso, os EUA já fizeram um acordo para explorar as terras raras em território ucraniano e a Gronelândia seria outra potencial fonte de abastecimento no futuro.
De acordo com a imprensa internacional, o fundador da Amazon, Jeff Bezos, o cofundador da Microsoft, Bill Gates, o empresário Michael Bloomberg e o fundador da OpenAI Sam Altman investiram na empresa Kobold Metals, que utiliza modelos de inteligência artificial para localizar depósitos de terras raras na Gronelândia. Esses investimentos surgiram pouco depois de Donald Trump ter declarado o interesse em comprar o território dinamarquês, em 2019.
O fundador do PayPal, Peter Thiel, investiu numa empresa com uma ideia ainda mais ambiciosa: criar uma “cidade da liberdade” na Gronelândia. A startup Praxis propôs-se a criar, na Gronelândia, uma localidade tecnologicamente avançada. Segundo detalha a Reuters, seria uma espécie de “utopia libertária com regulação mínima”. Ao mesmo tempo, seria um hub para inteligência artificial, veículos autónomos e bases espaciais. Vários empresários de Silicon Valley estarão mesmo a pressionar a administração Trump para criar essa “utopia”.
▲ Jeff Bezos, Bill Gates, Michael Bloomberg e Sam Altman têm investimentos na Gronelândia
Getty Images,
Até membros da administração Trump estão envolvidos em negócios na Gronelândia. O secretário do Comércio norte‑americano, Howard Lutnick, teve interesses financeiros na exploração mineira na maior ilha do mundo, através de investimentos na empresa Critical Metals Corp., que prevê realizar projetos de extração de minerais críticos no território controlado pela Dinamarca já em 2026.
Há indiscutivelmente uma componente económica no desejo de Donald Trump para anexar a Gronelândia, mais que não seja pelos minerais que a ilha tem. O que ainda não é claro é se esse desejo de controlar o território dinamarquês também não está sujeito a interesses de certos bilionários, especialmente daqueles que estão mais próximos do Presidente norte-americano — e que o influenciam a agir na arena internacional. O “reservado”, amante de arte germânica e filho mais novo de Estée Lauder conseguiu precisamente isso e Donald Trump insiste cada vez mais na ideia de transformar a Gronelândia num estado dos EUA.