São Vicente foi o primeiro concelho a carimbar uma vitória para o Chega nas eleições autárquicas do último domingo e o Entroncamento, segunda conquista da noite, mereceu até a visita de André Ventura. Mas foi em Albufeira que o partido conseguiu o seu resultado mais significativo. Dada a dimensão populacional, a visibilidade da cidade (o segundo destino turístico mais visitado do país, depois de Lisboa) e as queixas em relação a problemas na habitação, insegurança, criminalidade e aumento da imigração, é neste concelho algarvio que o partido enfrentará o maior teste ao longo dos próximos quatro anos.
É nos ombros de um ex-PSD, que passou a independente nas listas do Chega há mais de um ano, que vai recair esse peso. Rui Cristina não conseguiu a maioria absoluta, mas vai governar Albufeira. “Foi um dia histórico”, confessa o novo autarca, lembrando que o PSD governava desde 2001. A noite de domingo foi “emotiva” e “sempre em contacto com André Ventura”. Já eleito, deitou-se tarde, já depois das 4 da manhã, e acordou três horas depois “com mais de 200 telefonemas e 800 mensagens”, contactos “de esperança e de incentivo para fazer a diferença”. De manhã, garante ter sido “muito abordado, e apercebeu-se que “já não há medo” nas ruas de Albufeira, apenas “carinho e muita esperança”.
Em entrevista ao Observador no primeiro dia depois da eleição, à frente do edifício da Câmara Municipal que vai liderar em breve, Rui Cristina não esconde que os próximos quatro anos vão servir como teste de laboratório para algo ainda maior.
Sente responsabilidade em nome do partido? Sente que tem os olhos do país neste concelho, para perceber o que é que o Chega consegue fazer enquanto partido de poder?
Sim, entendo e tenho aqui uma grande responsabilidade relativamente a nós sermos uma Câmara bastante importante e claro, é uma câmara do Chega. Cabe-nos a nós demonstrar que estamos preparados para esta autarquia, e estamos. Este será o grande exemplo para o país. Tudo aquilo que nós fizermos de bem neste grande concelho será levado de exemplo para o resto do país e estaremos sob os holofotes, mas não tem qualquer problema. Eu sei que estou preparado para liderar esta Câmara e atingir os objetivos, os compromissos que assumi nesta campanha eleitoral.
Observador (OBS): E se o sucesso pode beneficiar André Ventura, um eventual insucesso, algum trabalho que não seja cumprido aqui em Albufeira, pode também hipotecar as hipóteses do partido a nível nacional?
Rui Cristina (RC): Acredite no que eu lhe digo: assumi esta missão com um grande compromisso, de colocar os albufeirenses nos centros das decisões. Aqui não haverá falhas, as coisas irão correr da melhor maneira. Pode ter a certeza que quando chegar ao fim do meu mandato, muitas destas promessas, destes compromissos eleitorais, estarão cumpridos. E por isso eu só vejo um caminho, é o caminho do sucesso.
Durante a campanha eleitoral autárquica, ficou bastante claro que nas ruas de Albufeira se suspirava por uma mudança de rumo. “Abandono” foi a palavra mais ouvida, e poucos escondiam encontrar no Chega uma resposta a esse sentimento – quer o partido fosse merecer o seu voto na urna, quer não. Agora consumado o resultado, muitos dão um passo trás, sem entrarem em euforias.
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Aldina tem 71 anos e trabalha numa das lojas de souvenirs mais antigas da Rua da Oura, local que levou a muitas polémicas recentes no concelho. Ficou contente com a vitória do Chega, apesar de não conhecer o novo autarca Rui Cristina. Poucas horas depois da efetivação da mudança, o entusiasmo deu lugar à expectativa. Passou grande parte do dia no Facebook, a discutir os resultados com amigas, e já muitos dos seus conhecidos lhe tinham dito que iam votar no partido de André Ventura. Mas, às vezes, é preciso ver para crer. E a verdade é que o PSD governava Albufeira há 24 anos. “Ainda estamos a perceber o que aconteceu”, explica.
“Agora têm de se portar bem”, avisa. É que tão rápido como entrou na câmara municipal, rápido pode também sair se as coisas não correrem bem. Rosa tem 28 anos e trabalha com Aldina nesta loja, e também está expectante em relação ao que o novo rumo político em Albufeira pode trazer. “Eu só os vejo a atacarem-se uns aos outros, gostava era de saber o que é que vão fazer de novo”.
▲ Rui Cristina em frente ao edifício da Câmara Municipal de Albufeira, que irá passar a liderar
No primeiro dia depois da eleição, Rui Cristina já tem as prioridades bem definidas: habitação, acesso a cuidados de saúde e segurança. Para o primeiro, promete terminar a reavaliação do Plano Diretor Municipal, que considera o instrumento para poder construir mais casas no concelho. O plano passa por criar uma “via verde” dentro do Câmara para agilizar o processo, aumentar a oferta e pôr os preços a baixar. Promete também eliminar burocracias que atrasem o licenciamento para os jovens que procuram construir a primeira habitação.
Para a saúde, compromete-se a procurar parcerias público-privadas e com as IPSS para chegar a quem não tem médico de família. E para este primeiro ano, já tem uma meta prometida: ultrapassar as 13 mil consultas. Garante também que vai pressionar o Governo para assegurar a construção de um novo centro de saúde em Albufeira.
E quanto à insegurança, promete agir sobre os dois polos que considera mais desestabilizadores: Baixa de Albufeira e Rua da Oura. Vai apostar na prevenção: de 9 efetivos na Polícia Municipal, passar para “30 ou 40”. E, claro, quer fazer cumprir a lei.
OBS: Muita gente pede mão mais forte com a desordem na Rua da Oura, com o que se tem passado a nível do turismo noturno. O que é que vai trazer de diferente?
RC: O que vou trazer de diferente é que a lei do ruído é para cumprir. Tem de haver lei. Se existe lei, tem de ser cumprida. Como eu disse durante a campanha, vou sentar todos os players e nós vamos ter de encontrar uma solução para isto. Porque todos têm de ser beneficiados. Porque não podemos descurar as necessidades uns entre os outros. E a lei é para cumprir, vai haver uma requalificação urbana. Isso é um compromisso que eu assumi, mas para que isso aconteça também tem de ser dado, pela parte dos empresários, algo em troca. Vamos sentar-nos e falar. Porque isto tem de ser resolvido, não podemos continuar a empurrar com a barriga este problema, que acaba por atingir uma grande parte desta cidade.
Pouco consensual seria um eufemismo para descrever a reação ao código de conduta aplicado pelo autarca que está agora de saída, José Carlos Rolo, para atenuar os distúrbios na Rua da Oura. O código prevê, por exemplo, restrições ao consumo de álcool na rua e coimas fortes para incumpridores.
Ora, se durante a campanha, neste mesmo local, vários comerciantes diziam que nada tinha mudado, agora há quem defenda o plano e peça ao Chega que não deite para o lixo o progresso feito pelo executivo do PSD. É o caso de Bruno Monteiro, empresário de 43 anos que trabalha num bar da Rua da Oura. “Justiça seja feita, notou-se mais músculo nas ruas, e as noites foram mais descansadas”, explica, defendendo que se Albufeira tem dinamismo, em muito o deve ao setor da noite. “A noite é o coração, mas nos últimos anos descambou. E a solução veio. Foi tarde demais, mas veio”.
Essa é também a perceção de Aldina, que lamenta que Albufeira se tenha tornado um concelho onde “os grandes decidem e negoceiam, e os pequenos ficam esquecidos”. Com “pequenos”, refere-se aos pequenos negócios que saem prejudicados pela indiferença da autarquia. “Se tínhamos um problema, diziam-nos para ligar para a Câmara. Se eu ligasse a semana passada, agora ainda estava a tocar”. Pede agora ao Chega que tenha esse aspeto em consideração: a proximidade aos munícipes para os problemas do dia-a-dia.
▲ Panfletos distribuídos na campanha de Rui Cristina em Albufeira
OBS: Não pude deixar de notar nos cartazes que têm afixados nas ruas. Há uma diferença substancial em relação a cartazes do Chega que se veem noutros concelhos. “Vamos Limpar a Amadora” ou “Tornar Faro Grande Outra Vez”, por exemplo. Aqui é diferente, os cartazes dizem “Vamos Mudar Albufeira” ou “Nós Resolvemos”. Esta diferença de tom foi propositada? É uma diferença que tem em relação aos restantes membros do partido?
RC: Todos os candidatos são pessoas diferentes. Eu tenho a minha maneira de pensar, de fazer política, os outros candidatos têm a maneira deles. E eu personalizei esta candidatura mais com o meu pensamento, com a minha visão relativamente a este concelho. É unicamente devido a isso. Cada um fez a sua análise do concelho a que era candidato, eu conhecendo bem o concelho de Albufeira como conheço, sabendo quais eram as necessidades, adaptei a minha campanha às verdadeiras necessidades das pessoas. Não estou a fazer qualquer crítica aos meus colegas, apenas a dizer que cada um personificou, personalizou a sua campanha. Eu personalizei desta maneira, da maneira que eu achava que era a mais correta.
OBS: O Rui Cristina acabou por vencer. Não foi o caso na maioria dos concelhos do país, para o Chega. Acha que isto pode ter feito diferença?
RC: Não sei. Ainda não pensei sobre o assunto, não refleti. Sei que me dediquei muito a esta campanha. Foram dias intensos, dias de proximidade, falando com as pessoas, ouvindo as carências. Isso é que eu sei. Dei tudo de mim a esta campanha.
Ainda que com um registo diferente dos cartazes do Chega no resto do país, linguagem menos populista e um foco maior em propostas concretas, nem todos estão convencidos. “Há bocadinho vinha para cá e vi ‘Problemas na Habitação: O Chega Resolve’”, diz Rosa. “Se calhar vou pedir uma casa”, ironiza. É uma das muitas jovens adultas a sofrer com a crise no setor.
“Isto é só o primeiro dia”, sublinha, “estou cá para ver”. Lembra que o partido trouxe várias promessas, e passou os últimos anos a criticar quem estava no poder – “mas agora vão ter de fazer”.
Bruno Monteiro, que assume admiração pelo papel desempenhado por André Ventura a nível nacional, não esconde apreço pelo executivo do PSD em Albufeira, liderado até aqui por José Carlos Rolo. Ainda assim, não tem dúvidas: “Se mudou é porque alguma coisa estava mal. É a democracia.” Também desconfia do impacto que o executivo camarário de Rui Cristina pode ter: “Eu antes conhecia-os. Assim fico um bocado desconfortável”. Acredita que a inexperiência pode ser o maior inimigo do Chega nesta nova fase do partido – “não tem unhas para agarrar” – e apela por isso ao diálogo com os sociais-democratas, para impedir bloqueios na Câmara Municipal. “Gostava que eles se entendessem”.
OBS: Já falou com José Carlos Rolo?
RC: O senhor Presidente da Câmara ligou-me logo na noite eleitoral, a parabenizar-me pela vitória, e eu agradeci-lhe.
OBS: E tem disponibilidade para trabalhar com ele ao longo destes próximos 4 anos? O Chega não conseguiu a maioria na Câmara Municipal, há disponibilidade para trabalhar com o PSD, que tem o mesmo número de vereadores?
RC: Não pensei nisso, ainda. Há uma coisa que me move: são as pessoas. Eu quero trabalhar para as pessoas, se vai haver ou não coligação é algo que eu não pensei. O que me move unicamente é assumir os compromissos que enunciei durante a campanha. Relativamente a coligações, é algo que neste momento não me passou pela cabeça. Vou começar a fazer uma análise macro, depois uma radiografia relativamente às maiores necessidades deste concelho e eu quero resolver os problemas das pessoas. É isso que me interessa neste momento.
OBS: O que lhe perguntava é se há disponibilidade no futuro, se põe a hipótese de, por exemplo, oferecer pelouros aos vereadores do PSD.
RC: É algo que ainda não pensei, muito sinceramente. Não equacionei, primeiro tenho de tomar posse, ver realmente em que estado é que se encontra esta Câmara Municipal, pedir para que seja feita uma auditoria financeira, para saber realmente o que foi feito e olhar para a frente. Depois é algo que eu decidirei mais à frente. Eu e a minha equipa.
E essa equipa, avisa Bruno Monteiro, tem de ser boa. “Senão, queimam-se já”. Há quem acredite que a tolerância para eventuais erros do Chega pode ser mais curta do que para as restantes forças políticas tradicionais. O partido pediu uma oportunidade, e tem agora um mandato para provar que a mereceu.
Numa mercearia na Baixa de Albufeira, Maria, de 58 anos, viu os resultados do Chega com surpresa. Como é unânime, espera que a mudança seja melhor. Gosta do autarca José Carlos Rolo (“uma boa pessoa”), mas acredita que os resultados podem servir de “chamada de atenção” para o PSD em Albufeira. “Isto não quer dizer que não voltem para lá daqui a quatro anos”, frisa, “mas alguma coisa tinha de mudar, e até pode ser saudável”.
Rui Cristina, eleito pelo Chega em Albufeira: “Aqui não haverá falhas”
Numa farmácia ali perto, uma funcionária da câmara (que não quis ser identificada) desabafa com a farmacêutica de serviço sobre os resultados da noite anterior. “Alguém tinha de fazer alguma coisa”, suspira. À saída, afirma que “era uma questão de tempo” até o Chega governar no Algarve. “Estava à espera porque nas últimas eleições eles já tinham tido um grande resultado. As pessoas não mostram descontentamento e depois calam-se logo a seguir”.
Ao contrário da maioria das pessoas com quem o Observador falou na segunda-feira – o que indica que as razões da mudança vão bem para lá desta questão em específico – esta mulher destaca os problemas com a imigração como potencial fator de crescimento do Chega em Albufeira. “Somos estrangeiros no nosso próprio concelho”, lamenta. Não sabe de cor o nome de Rui Cristina, mas ouviu-o o suficiente para o poder citar: “Este novo presidente diz que quer uma imigração regulada. E eu concordo”.
OBS: Já falou nos problemas da habitação e da saúde. Muitas pessoas que votaram em si esperam também políticas diferentes em relação à imigração. Como é que vai responder a esses apelos?
RC: Fica aqui bem claro, o Partido Chega não é contra a imigração. Nós queremos uma imigração controlada, regulada. Nós queremos é saber que quem entra neste país vem para trabalhar. Queremos saber qual é o seu cadastro. Não queremos cá criminosos. Queremos pessoas de bem. Como os portugueses também: emigraram nos anos 60, nos anos 70, nos anos 50, para fora de Portugal. Nós íamos para fora do país para trabalhar. É o que nós queremos aqui. Nós sabemos que há falta de mão de obra aqui na hotelaria, na restauração, e sabemos que alguma dessa mão de obra é necessária. Queremos é que venham para trabalhar e que respeitem rigorosamente a nossa cultura, da mesma maneira que os portugueses respeitaram quando foram além-fronteiras.
OBS: Uma última pergunta sobre o Algarve. O Chega vinha conseguindo grandes resultados nesta região. Venceu em Albufeira, mas noutros concelhos não. O que é que foi diferente entre Albufeira e esses outros concelhos?
RC: Cada concelho tem a sua especificidade e nós não podemos esquecer que uma coisa é legislativas – nós temos o líder André Ventura, que é o maior líder político neste momento em exercício de poder – e o poder autárquico é diferente. Tem a ver com quem é candidato, tem a ver com as carências do concelho, tem a ver com a estratégia que foi adotada em cada campanha, e é muito devido a isso. E as equipas que foram formadas também para se candidatar, isto não tem a ver só com o cabeça-de-lista. Eu, aqui em Albufeira, acabei por conseguir montar equipas que eu acho que eram representativas da sociedade e com provas dadas. Se isso foi a diferença, não lhe sei dizer. Mas que nós tentámos fazer o nosso melhor e que nós fizemos, com os pés bem assentes no chão, fizemos. Comparativamente aos outros concelhos, não sei, não estudei essas especificidades.
Agora, há uma coisa que lhe sei dizer, é que este Algarve tem sido esquecido e continua a ser esquecido. Um Algarve que dá cerca de 5% do PIB nacional e depois no orçamento de Estado recebe abaixo de 1%. Este é um Algarve onde o senhor primeiro-ministro veio à festa do Pontal prometer tudo, onde prometeu o Hospital Central do Algarve, e nesta proposta de orçamento de Estado entristece-me que, mais uma vez, não vem nada referenciado relativamente ao novo Hospital. E cabe-nos a nós, autarcas eleitos pelo Algarve, bater o pé e insurgir-nos contra estes senhores que estão lá em Lisboa e que se esquecem de nós aqui como região.
OBS: E vai trabalhar com os outros autarcas da região do Algarve?
RC: Se for em prol dos Algarvios e de interesse de todos nós, trabalharei.