O que falta em Portugal para termos mais filhos? /premium

14 Julho 2018919

O que leva a adiar o segundo nascimento? Que fatores pesam na decisão dos casais? E quais as vantagens e inconvenientes de ter filhos únicos? Fomos ouvir pais, investigadores e especialistas.

Maria tem onze anos. Filha de Vânia e Frederico Alexandre, sente-se privilegiada por não ter irmãos. “Sinto-me muito bem. Na semana passada, na aula de matemática, fez-se um gráfico sobre o número de irmãos dos alunos e os colegas que têm irmãos comentaram: ‘Que sorte’.” Já Beatriz, um ano mais velha, filha de Tatiana Rodrigues e Sérgio Silva, acha aborrecido ser filha única porque não tem irmãos para brincar.

A filha de Paula Magalhães e João Neves [que também se chama Maria], de quatro anos, por vezes deixa escapar que gostaria de ter uma “mana”. Pelo contrário, Tomás Rodrigues, de sete anos, filho de Fernanda Jacinto e Luís Rodrigues, sente-se bem sem irmãos. “Costuma comentar que os colegas da escola dizem que os irmãos mais novos lhes estragam as coisas e mexem em tudo. O Tomás danificou dois brinquedos até hoje. Já lhe explicámos que nem todos os irmãos são assim, mas não adianta”, explica a mãe.

Portugal é um país de casais com apenas um filho? Existem ou não condições para apostar na natalidade? O que dizem as estatísticas? Segundo os resultados de “Determinantes da Fecundidade em Portugal”, estudo realizado pelo Laboratório de Demografia do Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades (CIDEHUS) da Universidade de Évora (UÉ), e financiado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), com base nos dados do Inquérito à Fecundidade 2013 [uma parceria do Instituto Nacional de Estatística igualmente com a FFMS], conclui-se que “29% dos residentes em Portugal têm apenas um filho”. No entanto, apenas 10% revelam desejar estar nesta situação e somente 3% consideram que uma criança é o número ideal de filhos para uma família.

“Apesar disso, 25% dos portugueses esperam, no final da sua vida fértil, permanecer com um único filho”, explica Maria Filomena Mendes, coordenadora do Laboratório de Demografia CIDEHUS, professora associada da UÉ e presidente da direção da Associação Portuguesa de Demografia (APD). A predominância do filho único regista-se nomeadamente entre os que, no seu agregado parental, têm, pelo menos, um enteado ou consideram que o número ideal de filhos é inferior a dois.

“A nível laboral, por muito que as entidades patronais defendam que não, sente-se sempre uma ligeira discriminação por quem ainda é novo e pode ter filhos, não se investindo muito nas mulheres porque a qualquer momento podem ter de ir de baixa”
Tatiana Rodrigues, 37 anos, mãe de Beatriz

Ainda de acordo com o inquérito, o número médio de filhos das mulheres com idades entre os 18 e os 49 anos e os homens dos 18 aos 54, residentes em Portugal, era igual a 1,03. Segundo a presidente da APD, “a natalidade de um país em cada ano é o resultado de muitas tomadas de decisão individual ou por casal que afetam, no seu conjunto, a fecundidade”.

Um problema de saúde cardiovascular de Beatriz [dupla saída do ventrículo direito] deixou os pais receosos. A mãe Tatiana, hoje com 37 anos, teve de deixar de trabalhar até a menina ser operada, uma semana antes de fazer 12 meses. Regressou ao trabalho no final da licença de assistência à filha, mas, como não tinha um vencimento confortável e as despesas familiares aumentaram, foi difícil arranjar uma alternativa de trabalho. “Decidimos ficar com um filho para dar uma melhor qualidade de vida à Beatriz, mas sempre desejei ter mais”, explica.

Tatiana considera que os abonos de família não são propriamente uma ajuda, nem um incentivo à natalidade. “Recebi-o apenas no primeiro ano de vida da Beatriz, tendo perdido o apoio logo em seguida. Os infantários privados ou os que pertencem ao Estado têm valores elevados; e a nível laboral, por muito que as entidades patronais defendam que não, sente-se sempre uma ligeira discriminação por quem ainda é novo e pode ter filhos, não se investindo muito nas mulheres porque a qualquer momento podem ter de ir de baixa”, lamenta. A trabalhar na área de seguros, Tatiana afirma ainda que as licenças parentais têm um prazo muito curto.

“Ter mais um filho exige uma série de compromissos financeiros, e não é fácil. Prefiro dar à Maria uma vida melhor”
Paula Magalhães, 40 anos, mãe de Maria

Foram as exigências profissionais a ditar a decisão de Paula e João não terem mais filhos. Mas não só. “Sempre tentámos equilibrar a vida profissional e pessoal. Adoro ser mãe e amo incondicionalmente a minha filha, mas gosto igualmente da minha profissão [Paula tem 40 anos e é digital marketing manager]. Quero ter tempo para ser mãe, mas também para ser a profissional que ambiciono”, explica ao OBSERVADOR. O marido é piloto de linha área, o que implica estar várias vezes longe de casa. “Quando estou sozinha, sou eu que asseguro toda a logística. Se não é fácil com um filho, com mais seria impossível”, desabafa. Para João, a questão económica tem o seu peso. “Ter um filho exige uma série de compromissos financeiros e não é fácil. Prefiro dar à Maria uma vida melhor”, acrescenta. No entanto, e apesar de todos os argumentos, ambos confessam que gostariam de dar um irmão à filha.

“Com o passar dos anos e com o crescimento da Maria, foi algo que assumimos que não iria acontecer [ter mais filhos]. A preocupação com a estabilidade financeira e o tempo que muitas vezes não tinha levou-me a pensar que se tivéssemos outro filho não conseguiríamos acompanhá-lo como gostaríamos”
Frederico Alexandre, 38 anos, pai de Maria

Vânia tem 39 anos e é gestora de processos no ramo imobiliário. Frederico tem 38 e é responsável de setor na área financeira. Sempre pensaram em ter filhos, mas nunca falaram naquele que seria um número ideal. “Depois veio a Maria, senti-me tão feliz e aliviada por tudo ter corrido tão bem [apesar de ter sido seguida nas consultas de alto risco por ser portadora de doença renal poliquística e ter hipertensão] que cheguei a temer que, ao segundo filho, não teria a mesma sorte. Por outro lado, e apesar de ter sido uma bebé que não dava más noites ou outras preocupações, sempre nos consumiu a atenção e a energia, e confesso que soube bem quando começou a ganhar autonomia e conseguimos voltar a ter um pouco mais de tempo para nós, em vez de estarmos a passar por tudo outra vez. Admito que também foi uma escolha por egoísmo”, explica Vânia. O facto de ser filho único não teve influência na decisão de não ter mais filhos, garante o marido. Considerando o tempo e a atenção que a filha tomava, Frederico assume que nunca se pôs verdadeiramente a hipótese de ter outro filho. “Com o passar dos anos e com o crescimento da Maria, foi algo que assumimos que não iria acontecer. A preocupação com a estabilidade financeira e o tempo que muitas vezes não tinha levou-me a pensar que, se tivéssemos outro filho, não conseguiríamos acompanhá-lo como gostaríamos”, explica.

Fernanda foi mãe aos 36 anos [tem atualmente 44]. “Ser mãe nunca foi uma prioridade. Sempre disse que, se não fosse, não iria ficar infeliz, mas que, se tivesse um filho, iria ser muito bem recebido. Mas assumi desde cedo que não teria mais do que um bebé”, explica. Uma gravidez um pouco atribulada, com dores desde os quatro meses até ao dia do parto, acabaria por reforçar a decisão. “Mesmo correndo o risco de ser muito criticada, confesso que não gostei de estar grávida e que não gostaria de passar pelo mesmo novamente. Talvez seja uma atitude egoísta, mas acho que estamos muito bem os três e não imagino a nossa família de outra forma”, sublinha. Por sua vez, Luís confessa que ambicionava ter mais filhos, mas o facto de ter 50 anos não iria permitir “desfrutar e dar a atenção que o Tomás merece, caso outra criança nascesse”.

Vida profissional exigente

Vanessa Cunha é socióloga e investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-ULisboa) e estuda este tema há cerca de 20 anos. Nos anos 90, ficou de imediato entusiasmada com a possibilidade de investigar a fecundidade das famílias portuguesas. “Já nessa época era um tema premente e notava-se uma emergência de filhos únicos nos agregados familiares portugueses”, explica. Esta realidade foi identificada na sua tese de doutoramento, graças ao “Inquérito às Famílias no Portugal Contemporâneo”, de âmbito nacional, realizado em 1999 por uma equipa do ICS-ULisboa, liderada por Karin Wall, no qual participou.

“Considerando todas as idades, conclui-se que 85% daqueles que têm atualmente um único filho desejariam ter mais, sendo intenção de 32% vir a ter, pelo menos, um segundo filho”
Maria Filomena Mendes, presidente da Associação Portuguesa de Demografia

Dez anos mais tarde, entre 2009 e 2010, o inquérito “Trajetórias Familiares e Redes Sociais”, também de uma equipa do instituto, voltou a analisar as questões da fecundidade e das trajetórias reprodutivas dos portugueses. Os resultados identificaram, sobretudo, dois tipos de motivos que condicionam a passagem para um segundo filho. “Por um lado, razões económicas ligadas à perceção de que não se tem rendimento adequado para ter mais – o que não é difícil de entender no contexto português –, mas também causas associadas aos custos económicos relacionados com a educação das crianças. Por outro lado, o sentimento de instabilidade profissional e o facto de os inquiridos não se sentirem seguros, mesmo quando têm trabalho. Ainda podemos focar o facto de a geração em idade ativa ser composta por pessoas completamente envolvidas no mercado de trabalho, altamente cilindradas pelas exigências profissionais e pelo tempo que a profissão consome aos homens e às mulheres”, explica Vanessa Cunha.

O peso da insegurança no mercado de trabalho tem um grande impacto na decisão de um casal não apostar mais na natalidade. Relativamente aos comentários que se ouvem de que as pessoas hoje são mais egoístas, preferem viver a sua vida e apostar na carreira em detrimento dos filhos, a investigadora nota que, em gerações anteriores, os casais não desejavam necessariamente mais filhos do que nas gerações atuais. “O inquérito dos anos 90 mostra que havia muitos nascimentos não planeados na sociedade portuguesa, sobretudo a partir do terceiro filho.”

O que aconteceu entre os anos 2010 e 2014, no período em que a crise económica mais atingiu o país, foi uma “verdadeira hecatombe”, na opinião de Vanessa Cunha, muito devido à perda de nascimentos na sociedade portuguesa. “Alguns casais colocaram os seus projetos em suspenso, nestes anos que foram muito difíceis para os portugueses, e assim que houve um clima social mais favorável ou uma perceção de melhoria, perceberam que não podiam adiar mais, porque estes nascimentos ocorreram em idades mais tardias. Quando o clima se tornou menos inóspito, decidiram avançar. Houve uma ligeira inversão de tendência durante dois anos, mas a taxa de natalidade já voltou a diminuir”, esclarece Vanessa Cunha. Segundo as estimativas do Eurostat, Portugal registou, em 2016, a segunda taxa de natalidade mais baixa entre os 28 Estados-membros da União Europeia. Dados da Pordata mostram que a taxa bruta de natalidade [número de bebés nascidos por 1000 habitantes] foi de 8,6%, no mesmo ano [em 1960, foi de 24,1%].

E em matéria de incentivos à natalidade? O que pensam os casais portugueses? O Inquérito à Fecundidade 2013 mostra que os mais valorizados nesta matéria pelos inquiridos são “o aumento dos rendimentos das famílias e a possibilidade de beneficiarem de condições de trabalho mais compatíveis com as responsabilidades familiares”.

Sara Falcão Casaca, investigadora e professora associada com agregação do Departamento de Ciências Sociais do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa (ISEG-ULisboa), considera que, do ponto de vista da dinâmica do trabalho, “faltaram (e faltam) condições objetivas e subjetivas favoráveis a projetos de maternidade e de paternidade, ou seja, de parentalidade. Além da precariedade laboral e dos baixos salários (situação que atinge, sobretudo, as mulheres), os modelos de organização do trabalho e as culturas organizacionais dominantes não ajudam… Tende-se a privilegiar e a reproduzir uma cultura dominante que tem como referência o tradicional modelo male breadwinner, ou seja, o trabalhador do sexo masculino isento de responsabilidades familiares. Os contextos organizacionais em geral não são amigos das pessoas com responsabilidades familiares”.

Para a investigadora, os atuais modelos de organização do trabalho emagrecem os custos laborais e levam as empresas a contratar e prescindir de mão de obra num registo just in time, ajustando o número de trabalhadores/as às necessidades produtivas ditadas pelo mercado/procura. “Destas práticas, resulta o aumento de formas flexíveis de emprego, frequentemente precárias. Neste quadro, quando é praticada a flexibilidade de tempo de trabalho, esta é muitas vezes ditada unilateralmente pelas empresas, não sendo negociada. Em geral, neste modelo assente no emagrecimento organizacional, são muito elevados os níveis de intensidade de trabalho e de stress. Subordina-se a esfera familiar e pessoal às exigências da produtividade e da competitividade, e marginaliza-se quem não obedece a esta norma ideal de dedicação e compromisso total. Não surpreende, assim, que as mulheres – fundamentalmente as que são mães [ou mães eventuais] – sejam discriminadas, tal como sucede com os homens que exercem as suas responsabilidades parentais e familiares”, alerta Sara Falcão Casaca.

Aumento da idade média ao primeiro nascimento

A idade ao nascimento do primeiro filho acaba por também ser um fator primordial na decisão de aumentar a família. Segundo o já citado estudo “Determinantes da Fecundidade em Portugal”, realizado pelo CIDEHUS, a idade tardia ao nascimento do primeiro filho tem impacto na ponderação de tentar um segundo nascimento. “A idade ao nascimento do primeiro filho é uma das determinantes mais importantes na explicação para a fecundidade realizada de filho único, sendo que quanto maior for a idade ao nascimento do primeiro filho, maiores são as possibilidades de não se ter prosseguido para um segundo”, explica Maria Filomena Mendes.

Revela o estudo que o aumento da idade em que, em média, as mulheres têm filhos resulta da conjugação de dois fenómenos: o incremento da idade em que se tem o primeiro e também daquela em que se têm todos os outros filhos. Ambas as situações estão cada vez mais aproximadas, o que evidencia que atualmente, em Portugal, se esteja a ter apenas um filho [em média].

Esta proximidade é um nítido reflexo do adiamento da fecundidade e da concentração dos nascimentos em torno da idade ao primeiro nascimento, ou seja, muitos casais optam por ter um filho único e, os que decidem ter mais,  concentram os nascimentos num curto período de tempo, logo a seguir ao primeiro”, avança a professora.

Para os residentes em Portugal com menos de 40 anos, existem fatores que ajudam a contextualizar a tendência de se ter “apenas” um filho: a ausência de uma relação conjugal; a permanência em casa dos pais até mais tarde; a presença de filhos de um relacionamento anterior; ser filho único ou ter apenas um irmão; possuir um nível de instrução mais baixo (até ao 3.º ciclo do ensino básico). “As mulheres revelam maior intenção, mas nota-se uma concordância com a necessidade de uma maior presença paterna, bem como no respeitante à compensação quantidade versus qualidade, acrescenta.

Segundo as respostas de mulheres e homens no referido estudo, a fecundidade desejada não é propriamente idêntica à realizada. “Considerando todas as idades, conclui-se que 85% daqueles que têm atualmente um único filho desejariam ter mais, sendo intenção de 32% vir a ter, pelo menos, um segundo filho”, explica a professora da UÉ.

As razões indicadas nesta investigação estão em conformidade com as verificadas pelos estudos do ICS-ULisboa e resumem-se a “restrições de ordem financeira impostas maioritariamente pelos baixos níveis do rendimento auferido, pelo desemprego e pela precariedade laboral, em conjugação com custos crescentes devido a maiores exigências, sobretudo no que respeita à educação e à saúde dos filhos, crescendo a importância das restrições em tempo, quer da mãe, quer do pai”, sublinha Maria Filomena Mendes.

Existe ainda um dado interessante que indica que as mulheres transitam para a maternidade mais cedo do que os homens para a paternidade, sendo que, em ambos os sexos, aqueles que o fazem mais tardiamente revelam o desejo de não progredir para um segundo filho. No grupo de indivíduos com idades entre os 30 e os 39, verifica-se que “as mulheres são mais suscetíveis de terem apenas um filho, apresentando ainda maiores possibilidades de findar o seu período reprodutivo com apenas esse filho”.

Ao perderem-se segundos nascimentos, as taxas de fecundidade acabam por ressentir-se. “Portugal é dos países com as mais baixas fecundidades do mundo e com uma grande incidência de filhos únicos, mas esta não é a situação maioritária. Por outro lado, somos também um dos países no contexto europeu com uma das proporções mais reduzidas de mulheres que não tiveram nenhum filho”, esclarece Vanessa Cunha.

Para a investigadora, a questão que se põe não é tanto a idade ao nascimento do primeiro filho, mas sim o adiamento do primeiro para o segundo. “Todos os inquéritos mostram que o ideal dos casais não passa por ter muitos filhos. As pessoas ficam demasiado imersas no primeiro nascimento e naquele primeiro filho que têm em casa, seguindo-se uma ponderação de dificuldades que se coloca no momento da entrada na creche, pelo facto de a criança adoecer, as pessoas terem de faltar ao trabalho para dar assistência, e toda uma avaliação de custos económicos associados a esta realidade.” O nascimento de um bebé implica ainda repensar uma relação conjugal que passa a ser uma relação parental. Há que reorganizar a família, mas também o tempo.

“Nos vários inquéritos realizados, os inquiridos revelam que ter dois filhos é a conta certa. Nos anos 90, havia ainda uma reflexão relacionada com a mortalidade infantil que influenciava as opções reprodutivas. Era uma questão muito valorizada e constituía uma espécie de ‘fantasma’ na cabeça das pessoas, uma herança cultural dos tempos (não tão distantes assim) em que a mortalidade infantil marcava presença na vida das famílias. Por isso pesava na decisão de ter um segundo filho o medo da morte de uma criança. Era uma salvaguarda de que a parentalidade não cessava”, explica Vanessa Cunha.

No estudo realizado dez anos depois, a nota dominante é a importância de proporcionar uma relação entre irmãos. “Esta relação fraternal, que é para a vida, é uma das razões principais para as pessoas avançarem para um segundo filho. Atualmente, a questão da qualidade da infância é fundamental. Ou seja, tem-se menos filhos ,mas há a preocupação de lhes proporcionar maior qualidade de vida. Note-se que há uma vigilância social sobre a parentalidade que tem um grande peso nesta questão da fecundidade”, acrescenta a investigadora.

Nos dados compilados por Maria Filomena Mendes, a professora considera interessante o seguinte aspeto: “Entre os que deverão ficar pelo filho único, apenas uma fração muito reduzida considera que esta é a descendência ideal para uma família, sendo que cerca de três em cada quatro indivíduos referem que o modelo familiar é ter dois filhos”, o que acaba por conferir continuidade à realidade já investigada em gerações anteriores.

Vantagens de filhos únicos

Se, por um lado, ter um filho torna a vida financeira mais folgada e a gestão do tempo acaba por ser mais facilitada, o facto de os pais se concentrarem demasiado numa só criança pode “elevar demasiado as expectativas”, afirma Paula. “Temos uma melhor qualidade de vida mas a Maria cresce sozinha, sem irmãos”, reforça João.

Frederico sente que consegue acompanhar melhor a filha Maria mas que essa realidade também pode implicar um excesso de proteção. “Por um lado, pensa que o mundo gira em torno dela, embora com o crescimento vá ganhando consciência de que há vida para além de si própria, e isso é algo que lhe custa aceitar. Por outro, a pressão/exigência que fazemos não é dividida com outro irmão. Existindo mais do que um, as dores de cabeça são a dobrar, mas acredito que os bons momentos também o sejam. Tendo apenas uma, é mais fácil gerir o dia a dia e o futuro.”

A mãe Vânia orgulha-se de a filha não ser uma criança egoísta ao ponto de não partilhar os seus objetos. “Gosta de ter visitas dos primos e das amigas e adora dias de brincadeira, mas, no final, aprecia o momento em que voltamos a ser três, e recupera a nossa atenção. Acho que ter um filho é menos exigente a todos os níveis, e é muito mais fácil de gerir. Quando o número de filhos duplica, multiplicam-se as preocupações, as necessidades afetivas ou financeiras, o tempo que necessitam e as faltas ao trabalho. Quando não se tem família por perto, sejam avós ou tios que possam salvar o dia quando nos atrasamos, ter um filho é uma escolha mais racional”, afirma.

“Portugal é dos países com as mais baixas fecundidades do mundo e com uma grande incidência de filhos únicos, mas esta não é a situação maioritária. Por outro lado, somos também um dos países no contexto europeu com uma das proporções mais reduzidas de mulheres que não tiveram nenhum filho”
Vanessa Cunha, socióloga e investigadora do Instituto de Ciências Sociais

Para Fernanda e Luís, as vantagens económicas de ter apenas um filho são óbvias, mas não foi esse o fator que pesou na decisão. “Despendemos mais a nossa atenção só com o Tomás e podemos proporcionar-lhe uma vivência diferente, que seria mais complicada se tivéssemos mais filhos. Julgo que as desvantagens de não ter irmãos vão notar-se mais no futuro, porque não terá com quem dividir problemas e opiniões, sobretudo quando eu e o pai formos velhinhos ou quando adoecermos”, defende a mãe.

Também Tatiana sente que a atenção sobre Beatriz pode ser excessiva. “Sabemos, no entanto, que nada lhe falta, apesar de fazermos tudo para que ela perceba que a vida não é fácil. Impomos muitas regras. Mas nós, que temos irmãos, sabemos e sentimos o que é ter com quem partilhar. Falta isso à Beatriz”, assegura.

O Inquérito à Fecundidade 2013 revela que os inquiridos preferem ter um só filho com mais oportunidades e menos restrições em detrimento de terem mais filhos. Esta é, aliás, “uma das características que mais distinguem os que almejam ter uma descendência de filho único daqueles que pretendem ter dois ou mais”, explica Maria Filomena Mendes. É o chamado “efeito de compensação”, refletido nos grupos estudados. “Os que concordam que é preferível ter apenas um filho com menos restrições e mais oportunidades apresentam mais possibilidades de não terem avançado para o segundo filho”, sublinha a professora.

E, por outro lado, quem revela intenção de ter, pelo menos, dois filhos? O estudo também traça o perfil respetivo. São pessoas com “um grau de instrução superior, nomeadamente no caso das mulheres. Por outro lado, os contextos de origem, em particular o facto de a mãe possuir também um nível de educação superior, e ter nascido e crescido numa família numerosa, mas também o ter tido o primeiro filho antes dos 23 anos, e de se reconhecer a importância da presença paterna enquanto os filhos são pequenos”.

A falta de apoio aos jovens casais é um problema do país. O mercado de trabalho exige-lhes muito. “Muitas pessoas lutam diariamente para terem um emprego, alguma estabilidade e um salário minimamente condigno. Outras estão inseridas num tipo de cultura profissional que existe na sociedade portuguesa e que é muito distinta da que se vive nos países nórdicos, que são um exemplo do que se pode fazer em termos da relação dos homens e das mulheres com o mercado de trabalho e do respeito pela sua vida privada. Em Portugal, as pessoas sentem na pele os custos que o nascimento de um filho acarreta e a difícil conciliação tendo em conta um mercado de trabalho que exige às pessoas que tenham um tipo de dedicação desmesurada e desajustada relativamente à vida familiar”, defende Vanessa Cunha.

Para Paula e João, a falta de apoio é notória, começando logo pelo período de licença parental. “Acho que devemos ter o direito de estar mais tempo com os nossos filhos, sem grandes penalizações financeiras. Depois, há imensas pressões no trabalho que impedem mães e pais de atingir o equilíbrio. Em Portugal, falta ‘tempo’ para sermos pais”, defende Paula. Frederico concorda: “Hoje em dia, a licença já pode ser dividida entre o casal, mas o período da mesma e a retribuição correspondente ainda estão longe daquilo que é praticado em alguns países, em especial no norte da Europa”. João acrescenta que “as entidades patronais têm pouca sensibilidade para as exigências da paternidade, o que faz com que muitos deem prioridade à vida profissional”.

Também Vânia e Frederico sentem a pressão da estabilidade financeira e profissional. “Não há entidade patronal que aprecie que os funcionários faltem porque os filhos estão doentes, porque têm de ir a uma consulta, porque há reunião de pais, porque há espetáculo de final de Natal, de final de ano e por aí fora”, explica Vânia. Frederico, por sua vez, recorda o velho ditado “onde come um, comem dois ou três”, que remonta a uma altura em que Portugal era “um país rural onde as crianças viviam com o que havia, mesmo que fosse uma sardinha ou um carapau a dividir por três, como me contaram alguns tios mais velhos. Hoje o país está muito diferente, a sociedade mudou, e não é fácil possibilitarmos o que é importante e necessário às nossas crianças se não tivermos algumas condições. Alguns conseguem-no, certamente, mas ter mais filhos é uma decisão pessoal”.

A questão das creches também é um entrave para os casais. “Pagar 500 euros por uma creche é difícil”, defende Luís. Há ainda um caminho a percorrer sobretudo no que respeita à rede de infantários ou creches com comparticipação do Estado, na opinião de Frederico. “Quem não tem família próxima onde deixar as crianças fica sujeito a prestações elevadas no privado, nem sempre acessíveis”, sustenta.

Gerir a esfera profissional e a vida familiar/pessoal e alterar as políticas de gestão e os modelos de organização do trabalho são aspetos essenciais para trazer ao debate desta questão, urgente e necessário, na opinião de Sara Falcão Casaca. “O conflito entre os dois domínios, hoje tão evidente, não é alheio às novas opções reprodutivas e à queda dos índices sintéticos de fecundidade. A centralidade crescentemente conferida à responsabilidade social das empresas tem de assentar no compromisso com a sustentabilidade das sociedades contemporâneas. Proteger/valorizar a maternidade, a paternidade, promover a conciliação com a vida familiar e integrar essa valorização na gestão interna, na cultura e na organização do trabalho são dimensões fundamentais… Importa, ainda, contrariar a precariedade laboral por via das políticas orientadas para o mercado de trabalho e em sede de concertação social, que tanto atinge a população jovem e os grupos etários em que se poderiam consolidar projetos de parentalidade”, conclui.

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