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Tinha passado pouco mais de um mês da tomada de posse do Presidente dos Estados Unidos, quando o primeiro-ministro britânico foi recebido na Casa Branca. Nas mãos, Keir Starmer levava um documento precioso: um convite do Rei Carlos para Donald Trump realizar uma segunda visita de Estado ao Reino Unido. Oito meses depois, o convite ganhou vida esta quarta-feira, quando Carlos recebeu Trump no castelo de Windsor.
O convite e a visita são, como Starmer fez questão de notar em fevereiro deste ano, “históricos” e “sem precedentes”. Isto porque Donald Trump é o primeiro não-monarca a realizar uma segunda visita de Estado ao Reino Unido — o outro único exemplo recente pertence à Rainha Margrethe da Dinamarca que visitou o país a convite da Rainha Isabel II em 1974 e 2000. Realeza à parte, as visitas dos Presidentes norte-americanos a Londres costumam limitar-se, durante um segundo mandato, a uma refeição com o monarca.
Trump já realizou uma visita de Estado, a convite de Isabel II, em junho de 2019, durante o seu primeiro mandato. De regresso à Casa Branca, para um novo mandato não consecutivo, o líder norte-americano terá direito a, como descreveu o próprio, toda a “pompa e circunstância” presente nas receções da família real pela segunda vez: carruagens, revista às tropas, trocas de prendas dispendiosas e um banquete.
▲ Trump e Carlos seguiram de carruagem até ao castelo de Windsor
Getty Images
Porém, o tratamento real marcará apenas o primeiro dia da visita. No segundo, o chefe de Estado norte-americano segue para a residência de verão do primeiro-ministro para se debruçar sobre temas mais difíceis do que a etiqueta real. Na agenda de Trump e Starmer está o acordo económico entre os dois países, que contorna as pesadas tarifas impostas por Washington e um acordo multi-milionário de investimento em serviços digitais. Os dois deverão ainda olhar para o apoio ocidental à Ucrânia, que continua a dividir o eixo transaltântico.
Debaixo de um forte dispositivo policial — Trump não teve nem terá qualquer contacto com o público britânico —, as ameaças a uma visita bem sucedida são de outra ordem. Entre a Casa Branca, o Palácio de Buckingham e Whitehall (a sede do Executivo britânico) paira um nome que assombra todos, ainda que de diferentes formas: Jeffrey Epstein, o empresário acusado de gerir uma rede de tráfico humano e prostituição, e que mantinha amizades com Trump, o príncipe André e o recém-demitido embaixador britânico nos EUA, Peter Mandelson.
Fora dos muros bem vigiados de Windsor, soma-se outra ameaça, que visa principalmente o Governo de Keir Starmer: o descontentamento do público britânico. Em Londres, um protesto organizado pela Coligação “Stop Trump” reuniu milhares de pessoas em frente a Westminster, incluindo os líderes dos partidos mais à esquerda. Sadiq Khan, autarca da capital, também deu voz aos protestos, reacendendo críticas antigas — e fazendo outras novas — ao Presidente dos Estados Unidos
O trunfo de Keir Starmer para manter Trump feliz: a família real
“Eu ainda me lembro da minha mãe, que é escocesa de nascimento, sentada em frente à televisão, pronta para ver a coroação da Rainha Isabel e sem se mexer o dia todo. Ele estava absorvida pela pompa e circunstância, a ideia toda de realeza e glamour.” As palavras foram escritas por Donald Trump, no seu livro “A Arte da Negociação” de 1987. O fascínio pela família real passou de mãe para filho e Trump nunca o escondeu. Em 2019, recebido por Isabel, Trump desdobrou-se em elogios à monarca.
Seria de esperar que a relação com Carlos tivesse mais fricção, dada a posição divergente dos dois homens em relação à maior parte dos temas. O Rei ergue o ambientalismo como uma das suas maiores bandeiras, o Presidente já se referiu às alterações climáticas como uma “fraude” e, ainda que tenha parado de utilizar este termo, retirou os Estados Unidos dos Acordos de Paris. Carlos é veemente na necessidade de apoiar diretamente a Ucrânia, Trump mantém um pé atrás na sua relação com Kiev.
Apesar das diferenças, os dois chefes de Estado, que têm apenas dois anos de diferença, demonstram, publicamente, uma relação afável — que se estende ao sucessor do trono britânico. “É um homem lindo, um homem maravilhoso”, declarou sobre Carlos em fevereiro. “É um bom homem, este”, afirmou sobre William em dezembro, quando os dois se encontraram à margem da inauguração da catedral de Notre Dame. “Mesmo no cenário mais formal, há uma simpatia entre o Presidente e o Rei“, escreveu a correspondente da realeza da BBC, Daniela Relph, esta quarta-feira, notando que os dois trocaram risos e piadas em vários momentos da manhã.
A boa relação entre os dois facilita o papel do Rei como “ponte” não só para os interesses de Londres, mas de outros aliados próximos, em relação a Washington, destaca o canal britânico, elencando dois exemplos. O primeiro, quando Carlos recebeu o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, dias depois da discussão na Sala Oval. O segundo, quando se deslocou ao Canadá depois das declarações de Trump para integrar o país como o 51.º estado. Em ambos os momentos, o Rei fez uma demonstração de solidariedade com aqueles que tinham sido insultados por Trump.
Desta vez, o papel de Carlos deverá ser inverso: manter Trump feliz, na véspera de este discutir acordos delicados com o Executivo. “O Governo tem o poder de convocação do Rei e tem-no utilizado de uma forma muito transacional“, declarou uma fonte da realeza à BBC. Tudo no primeiro dia de visita foi desenhado neste sentido, descrevem as fontes.
▲ Trump também deixou elogios ao príncipe William, que o recebeu à porta do helicóptero
POOL/AFP via Getty Images
A conversa deverá evitar estes temas controversos e focar-se em “temas seguros” — como por exemplo, a ascendência escocesa de Trump ou a História partilhada pelos dois países no passado distante —, a quantidade de tropas destacadas para a receção pretendeu honrar o seu visitante, o discurso de Carlos para o banquete foi aprovado para que não tivesse um pendor fortemente político, os lugares na mesa foram escolhidos de forma a dividir os convidados por áreas de interesse e até a música e o menu foram escolhidos para agradar ao norte-americano. “Houve uma grande pressão do Governo para fazer algo em grande e isso tem sido um desafio”, rematou uma pessoa próxima da família real.
O “medo” que assombra políticos e realeza: as menções a Jeffrey Epstein
Em 2019, para além de pompa e circunstância, o palácio de Buckingham mobilizou também uma “arma secreta” que serviu de guia ao Presidente Trump durante a visita. Hoje, este trunfo acabou afastado dos seus deveres da família real precisamente devido às amizades que o aproximavam de Donald Trump e não será visto publicamente ao lado do irmão ou do Presidente. A arma secreta era o príncipe André, a amizade em comum, Jeffrey Epstein.
Poucas semanas depois dessa visita de Trump, foram tornadas públicas as acusações contra o duque de Iorque e as suas ligações à rede de tráfico sexual de Epstein, que culminaram com o seu afastamento dos seus deveres reais. Mas o tema continua a assombrar a família real.
Do outro lado do Atlântico, as ligações de Donald Trump também têm tido lugar cativo na agenda mediática norte-americana, depois de o Presidente ter recuado na promessa eleitoral de tornar públicos todos os documentos relativos à investigação. Recentemente, foi publicada uma carta de teor explícito que o agora Presidente terá enviado ao amigo por ocasião do seu aniversário, mantendo a polémica acesa.
▲ Melania Trump, o príncipe André e Jeffrey Epstein numa festa em Mar-a-Lago
Davidoff Studios/Getty Images
Porém, nos últimos dias, o fantasma que assombra Buckingham e a Casa Branca chegou a Whitehall. Em causa está o despedimento de Peter Mandelson, nomeado por Keir Starmer para embaixador nos Estados Unidos, depois de terem sido tornados públicos emails em que o diplomata expressou claramente apoio a Jeffrey Epstein depois de ele ter sido condenado por duas acusações de prostituição em 2008. A amizade entre Mandelson e Epstein já era conhecida, mas a gota de água que levou Starmer a retirar finalmente o seu apoio político e a anunciar o seu afastamento foi a prova de que a ligação entre os dois homens se tinha mantido depois da condenação.
Confrontado com o despedimento, o embaixador terá, segundo a BBC, confrontado o Governo com uma questão: como é que o podem despedir pelas suas ligações a Epstein e, ao mesmo tempo, receber um chefe de Estado, que tem exatamente as mesmas ligações. Downing Street terá justificado a decisão notando que Trump já tinha cortado laços com Epstein antes da condenação.
Contudo, pessoas próximas do Executivo admitiram que existe algum “medo” que o tema possa surgir. As projeções na fachada de Windsor na terça-feira à noite, com fotografias de Trump com Epstein, confirma este medo, mas o verdadeiro desafio será que o Presidente seja confrontado com ele, particularmente na conferência de imprensa de quinta-feira. “Se Trump for arrastado para a controvérsia e envergonhado na conferência de imprensa, isso podia azedar o seu humor — e a sua visita“, resume o canal sobre o estado de espírito em Whitehall.
Acordos de tarifas, de tecnologia e apoio à Ucrânia. As vitórias no horizonte de Starmer
Um Trump de humor azedo nas negociações dificultaria o trabalho a Keir Starmer na hora sensível de negociar acordos económicos que parecem ainda não estar selados. Horas antes de Trump iniciar a sua visita de Estado, o Governo britânico recuou numa proposta para reduzir as tarifas sobre a importação de parte do aço britânico para 0%, relatou o The Guardian. Em vez disso, Londres procura garantir um compromisso norte-americano em como não aumentará as importações em toda a indústria acima dos 25% — as tarifas sobre as importações de outros países chegam aos 50%.
A questão do aço não é única que estará em discussão. A tarde de quinta-feira será dedicada a reuniões com líderes de empresas tecnológicas norte-americanas que também viajaram para o Reino Unido de forma a fechar o chamado “Acordo de prosperidade tecnológica”. O acordo prevê investimentos de milhares de milhões de libras de grandes empresas de Silicon Valley, como a Nvidia, a OpenAI ou a Microsoft no Reino Unido e a inauguração de uma “zona de crescimento” de Inteligência Artificial — ou seja, centros de dados — no nordeste inglês.
O plano foi apresentado pelo Governo britânico como ideal para criar empregos e estimular a economia interna. Contudo, os críticos temem que o acordo possa conduzir ao fim do “Imposto sobre Serviços Digitais” — também conhecido como “Imposto Google” —, um imposto que taxa os lucros das empresas internacionais que operam em território britânico e que é fortemente criticado por Washington. O fim deste imposto significaria perdas no valor de 5 mil milhões de libras. No entanto, o Executivo garantiu que este irá manter-se no futuro próximo.
Para além das questões económicas, impõe-se ainda a questão da guerra da Ucrânia. Como um dos líderes da Coligação das Vontades, é esperado que Starmer aproveite o encontro para tentar convencer Trump a manter o seu apoio militar a Kiev e aos aliados europeus. Apesar de o Presidente não recusar este apoio, a sua posição não sido particularmente firme e tem sofrido mudanças rápidas e frequentes que parecem, em muitos casos, depender do seu humor e do seu interlocutor. Neste aspeto, o apoio do Rei Carlos à Ucrânia deverá ser novamente útil, como nota o Politico.
Sophia Gaston, académica na King’s College de Londres, declarou à BBC que, se correr bem ao Reino Unido, a visita pode ser um momento-chave na relação com os Estados Unidos de Donald Trump. “Estamos a entrar numa nova fase. Esta visita de Estado é realmente importante. Trata-se de garantir a nossa posição como o principal aliado simbólico e estratégico dos Estados Unidos”, elaborou.
▲ Uma visita com bons resultados pode melhorar a posição estratégica do Reino Unido
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Protestos e críticas em Londres e à esquerda visam Trump — mas ameaçam Starmer
A visita de Trump ao Reino Unido não passou pelo centro de Londres: com o palácio de Buckingham a ser alvo de renovações e o Parlamento ainda a usufruir da interrupção de verão, os eventos concentram-se em Windsor, outra das residências oficiais da monarquia, e Chequers, onde fica a residência de verão do primeiro-ministro e onde se irão realizar as reuniões de quinta-feira. Contudo, é no centro de Londres que o descontentamento britânico se faz sentir.
À hora marcada para o início do protesto organizado pela Coligação “Stop Trump”, reuniam-se em frente ao palácio de Westminster, casa do Parlamento britânico, pelo menos cinco mil pessoas. O presidente da câmara de Londres, Sadiq Khan, apresentou este protesto como um contraponto a um outro, contra a imigração, que levou às ruas da capital britânica 100 mil pessoas (segundo dados da polícia) no passado fim de semana. Na visão de Khan, os londrinos pintam uma imagem de união apesar da diversidade que desafia as políticas fraturantes que Trump promove e que resultaram nos protestos “organizados pela extrema-direita”.
As críticas a Trump, deixadas numa coluna de opinião no The Guardian, são um eco de outras que deixou por ocasião da primeira visita de Estado, no mesmo jornal. À data, o Presidente norte-americano respondeu acusando o autarca de ser um “falhado”. Contudo, uma das organizadoras da manifestação declarou que o momento atual é “mais sério e muito mais catastrófico” do que o “carnaval da resistência” que ocupou as ruas em 2019, com memoráveis balões gigantes em forma de um bebé Trump.
Agora, as palavras de Khan não criticam apenas Trump, mas o Governo de Starmer por ter feito o convite, em vez de ser “o amigo honesto”, que argumenta que os Estados Unidos devem ter em Londres. Entre os temas sublinhados por Khan, há um que se repete nas críticas que também foram feitas pelos líderes dos partidos à esquerda do Labour de Starmer: a da ofensiva israelita em Gaza.
▲ Manifestantes nas ruas de Londres esta quarta-feira
dpa/picture alliance via Getty I
Zack Polanski, líder dos Verdes, declarou que “o país tem uma tradição orgulhosa de ficar do lado dos desfavorecidos” e que, neste caso, isso significa “ficar ao lado de todas as crianças de Gaza”, mas também “fazer frente ao bully Donald Trump e ao seu poodle, Nigel Farage”. Ed Davey, dos Liberais Democratas, recusou marcar presença no banquete de quarta-feira, de forma a “mandar uma mensagem” a Trump sobre a crise humanitária em Gaza.
Já Jeremy Corbyn, antigo líder do Labour que acaba de fundar um novo partido, criticou a resposta “sinistra” aos protestos no Reino Unido, mencionando diretamente o facto de manifestantes com imagens de Epstein e Trump em Windsor terem sido mandados parar pela polícia e o facto de “protestos pacíficos se terem tornado terrorismo”, numa referência aos protestos pacíficos organizados pelo grupo Palestine Action, declarado uma organização terrorista no país, que têm resultado em centenas de detidos.
As críticas acumuladas à ação de Donald Trump devem ter pouco efeito no Presidente dos Estados Unidos. Porém, para Starmer, a lisonja a Trump pode estar a prejudicar ainda mais a sua posição interna — um inquérito da empresa YouGov, da semana passada, mostra que o líder do Labour atingiu um novo mínimo histórico de popularidade e outro, da mesma empresa, que quase metade dos britânicos se opõe à visita e mais de metade acha que não fará qualquer diferença na relação entre os dois países. Até quinta-feira à noite, Starmer e Trump serão ambos alvo das críticas. Mas depois de o chefe de Estado norte-americano embarcar no Air Force One de regresso a Washington, o chefe do Executivo britânico passará a carregar os custos políticos da visita sozinho.