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Inés Arrimadas assumiu a liderança do Ciudadanos em março de 2020 e desde então tem defendido uma política ao centro

Europa Press via Getty Images

Inés Arrimadas assumiu a liderança do Ciudadanos em março de 2020 e desde então tem defendido uma política ao centro

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O que se passa com o Ciudadanos? A debandada e o risco de cair na irrelevância política /premium

Partido sai do poder em Múrcia e Madrid, vê a representação parlamentar diminuir e fica sem grupo no Senado. Desaires eleitorais e sedução do PP explicam saídas num partido que luta para sobreviver.

Depois de um desastre eleitoral nas eleições catalãs de fevereiro e de uma fracassada moção de censura em Múrcia, começou uma debandada no Ciudadanos, com a saída de vários membros, aprofundando-se uma crise interna que arrisca atirar o partido para a irrelevância no tabuleiro político espanhol. Durante esta semana, deputados e senadores do Cs foram batendo com a porta em catadupa, muitos mudando-se para o Partido Popular (PP) e outros aderindo ao grupo misto (que junta os representantes que não cumprem os requisitos para terem um grupo parlamentar próprio), tanto no Congresso dos Deputados, como no Senado.

Como principal consequência da debandada em curso, que levou à saída de mais de dez senadores e congressistas, quer a nível nacional, quer regional, o Ciudadanos perdeu o seu lugar nos governos de Múrcia e Madrid, viu a sua representação no parlamento diminuir e perdeu o seu grupo parlamentar no Senado. E é uma incógnita se a as coisas ficam ou não por aqui.

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Fundado em 2006 para conter as aspirações independentistas na Catalunha, o Ciudadanos foi crescendo ao longo dos anos e atingiu o seu pico nas eleições legislativas de abril de 2019, quando conseguiu eleger 57 deputados, atingindo uma posição que lhe permitiu sonhar com a possibilidade de vir a ultrapassar o PP e tornar-se mesmo na principal força de direita em Espanha. As expetativas, no entanto, acabaram por esfumar-se nas eleições legislativas seguintes, em novembro do mesmo ano, quando o partido baixou de 57 para dez deputados. A queda abrupta confirmou-se nas eleições regionais catalãs do último mês de fevereiro, quando o Cs — vencedor das eleições de dezembro de 2017, apesar de não ter conseguido formar governo — caiu de 36 para apenas seis deputados.

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Invocando o que consideram uma “mudança ideológica” no partido — mais ao centro desde que Inés Arrimadas sucedeu a Albert Rivera em março de 2020 — vários deputados e senadores bateram com a porta, denunciando uma “deriva sanchista”

“Era uma questão de tempo até que as últimas eleições marcassem a tendência de declínio do Ciudadanos”, afirma ao Observador Juan Rodríguez Teruel, professor de Ciência Política na Universidade de Valência. “Mais do que a moção de censura fracassada em Múrcia ou os acordos com o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE)”, é a “crise eleitoral que dura desde as eleições de novembro de 2019” que explica a crise interna no partido, diz.

Moção falhada em Múrcia acelerou saídas

Se as eleições regionais na Catalunha puseram a nu a crise no Ciudadanos, é inegável que a moção de censura fracassada em Múrcia revelou-se um tremendo erro político que precipitou o caos no interior do partido. Invocando a necessidade de combater a corrupção, depois dos escândalos com a vacinação irregular em Múrcina região e os acordos entre PP e Vox na educação, o Ciudadanos, que estava no governo regional, decidiu rasgar o acordo com os PP. Mais: aliou-se ao PSOE para apresentar uma moção de censura — em Espanha, caso uma moção de censura seja aprovada, o partido que a apresentou tem de ter um projeto para formar um novo governo.

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As contas, no entanto, saíram furadas a Inês Arrimadas (a líder do partido depois da demissão de Albert Rivera, que já tinha sucumbido ao desaire das eleições de dezembro), já que os deputados regionais Isabel Franco, Valle Miguélez e Francisco Álvarez anunciaram a sua saída do partido para se juntarem ao PP. Graças a outros três deputados expulsos do Vox, que votaram ao lado do PP, e dos dissidentes do Ciudadanos, a moção de censura foi rejeitada na quinta-feira por uma diferença de apenas dois votos: 23 contra e 21 a favor. Uma importante (mas tangencial) vitória para o presidente regional Fernando López Miras e para o seu Partido Popular.

Mas a jogada política em Múrcia teve consequências para lá daquela região no sudeste de Espanha. E, para piorar ainda mais a situação, o Ciudadanos perdeu o seu lugar no governo da comunidade de Madrid. Antevendo uma aliança semelhante entre Ciudadanos e PSOE, Isabel Díaz Ayuso, presidente da comunidade de Madrid, antecipou-se, rasgou o acordo com o seu parceiro de coligação e marcou eleições antecipadas para 4 de maio. Logo de seguida, três deputados do Cs no parlamento regional madrileno abandonaram o partido, juntando-se ao grupo misto.

“A crise eleitoral do partido na Catalunha e o erro tático da moção de censura em Múrcia foram aproveitados para pôr em marcha um plano de assalto ao Ciudadanos, através de um Cavalo de Tróia, que foi Fran Hervías”
Juan Rodríguez Teruel, politólogo

O jogo de cadeiras, no entanto, não se ficou apenas por Múrcia e Madrid. Os últimos dias foram de grande movimentação nas hostes laranjas do Ciudadanos, com dissidências também em Valência e Castela e Leão (onde uma moção de censura apresentada pelo PSOE é votada na segunda-feira, apesar de, nesta, o Ciudadanos já ter garantido que vai votar contra), mas, principalmente, a nível nacional.

Cada vez mais à direita, o partido espanhol Ciudadanos vive crise de identidade

Invocando o que consideram uma “mudança ideológica” no partido — mais ao centro desde que Arrimadas sucedeu a Rivera em março de 2020 — vários deputados e senadores bateram com a porta, denunciando uma “deriva sanchista”. Estão contra o que consideram uma aproximação ao PSOE, do presidente do governo Pedro Sánchez, sendo que, uma parte significativa do Ciudadanos é defensora de pactos apenas com o PP.

As saídas dos senadores Fran Hervías (para o PP, o que permite a substituição), e Ruth Goñi e Emilio Argüeso (ambos para o grupo misto) deixaram o Ciudadanos com apenas quatro senadores, o que faz com que o partido perca o direito a ter o seu próprio grupo na câmara alta do Congresso espanhol, onde são precisos pelo menos seis representantes. E além da menor visibilidade, o partido perde também dinheiro, financiamento, uma vez que fica sem a subvenção anual de 387.600 euros.

Por fim, também no Congresso dos Deputados o partido viu a sua representação diminuir de dez para nove deputados — Pablo Cambronero mudou-se para o grupo misto e Marta Martín decidiu abandonar a vida política. Não, as contas não estão mal, por no caso da saída de Martín, isso permitirá que Arrimadas a substitua, pelo que o partido perde apenas um deputado.

O “Cavalo de Tróia” do PP

A dança de cadeiras, principalmente de dissidentes do Ciudadanos que estão a rumar ao PP, veio colocar a política espanhola ainda em maior reboliço. Tanto o líder dos populares, Pablo Casado, como o chefe do governo espanhol, Pedro Sanchéz, trocaram acusações sobre compra de votos e deputados nos parlamentos regionais. O PP, aliás, parece mesmo apostado em conseguir trazer para as suas hostes o maior número possível de membros do Ciudadanos desiludidos, algo visto dentro do partido com uma aproximação à esquerda.

De acordo com o El Mundo, o partido de Casado está a levar a cabo uma campanha a nível nacional. E haverá, inclusive, um grupo de Whatsapp, em que dirigentes do PP de Madrid estão a convidar diretamente membros do Ciudadanos para mudarem de partido.

O Ciudadanos “corre o risco de desaparecer dos parlamentos a nível nacional e regional”, diz o politólogoJuan Rodríguez Teruel. Está em curso “uma luta pelo voto ao centro, com PP e PSOE a disputarem os restos do Ciudadanos”

Nesta estratégia em curso, que visa tornar o PP o partido dominante no centro-direita espanhol, há uma figura central. Fran Hervías, outrora braço-direito de Albert Rivera, que abandonou o Ciudadanos no último fim de semana para rumar ao PP e que tem feito com que outros membros do partido lhe sigam as pisadas.

“Fran Hervías, em conjunto com Rivera, anteviram que o futuro do Ciudadanos passava apor uma integração no PP. Durante todos estes meses, estiveram a preparar este plano”, afirma Juan Rodríguez Teruel. “A crise eleitoral do partido na Catalunha e o erro tático da moção de censura em Múrcia foram aproveitados para pôr em marcha um plano de assalto ao Ciudadanos, através de um Cavalo de Tróia, que foi Fran Hervías”, reitera o politólogo.

A implosão do Ciudadanos levaria a uma reconfiguração da direita espanhola, em que o PP conquistaria o centro e manteria a hegemonia à direita, enquanto o Vox, de extrema-direita, cimentaria a sua posição enquanto partido mais radical.

Após a moção de censura chumbada em Múrcia, Pablo Casado garantiu exatamente isso, que começou a “reunificação do centro-direita no PP”.  Mas Inés Arrimadas, líder do Ciudadanos, não parece querer abdicar da sua estratégia de centrar o partido, mantendo em aberto a possibilidade de coligações tanto com o PP como com o PSOE, dependendo do momento político, e foi essa a mensagem que transmitiu ao partido na quinta-feira, segundo o El País.

Futuro do partido começa a decidir-se em Madrid

Perante a incerteza quanto ao futuro, o fantasma da irrelevância política atormenta o Ciudadanos, que, segundo Juan Rodríguez Teruel, no futuro, “corre o risco de desaparecer dos parlamentos a nível nacional e regional”. O primeiro grande teste do partido vai ser já nas antecipadas eleições autonómicas em Madrid, a 4 de maio. E o cenário não é nada favorável neste fase, uma vez que, segundo as sondagens, a formação política de Arrimadas corre o risco de perder a representação parlamentar (é necessário atingir um mínimo de 5%).

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Com o rasgar do acordo entre PP e Ciudadanos na capital espanhola, a relação entre Isabel Díaz Ayuso e Ignacio Aguado, vice-presidente regional e coordenador dos laranjas em Madrid, tornou-se praticamente impossível. O Ciudadanos a decidir afastar Aguado e a avançar com Edmundo Bal, porta-voz adjunto do partido no Congresso dos Deputados, que se apresentou como candidato para impedir que “em Madrid governem os extremos”, reafirmando a importância da “moderação”.

Não é certo que o Ciudadanos consiga chegar aos 5% necessários para garantir representação parlamentar. Mas, caso o consiga, o partido assegura imediatamente seis ou sete deputados, que poderão ser decisivos para desbloquear as contas pós-eleitorais. “Esses lugares podem decidir se Ayuso consegue ou não uma maioria absoluta. Se o Ciudadanos conseguir entrar no parlamento regional, há muitas probabilidades de que Ayuso precise do partido para ter a maioria absoluta. E isso muda tudo”, sublinha Juan Rodríguez Teruel.

Iglesias avança em Madrid para tentar salvar o Podemos e aliviar tensão com Sánchez

A saída de Pablo Iglesias do governo espanhol para concorrer a Madrid, além de subir a parada para as eleições autonómicas, parece ter contribuído para uma certa pacificação no Palácio da Moncloa há muito em guerra com o seu parceiro Unidas Podemos. Embora não seja certo até quando é que o executivo de Pedro Sánchez vai continuar no poder, pode dar tempo ao Ciudadanos para se reconfigurar. Rodríguez Teruel antevê que, “a curto prazo, não haja maiorias absolutas” em Espanha, e isso pode vir a beneficiar o Ciudadanos, dependendo, claro, da representação parlamentar que o partido venha a conseguir no futuro.

“Enquanto conseguir manter representação parlamentar e enquanto continuar a fragmentação parlamentar que dura há seis anos em Espanha, o Ciudadanos pode ter um papel relevante, como têm os partidos de centro/liberais noutras democracias europeias”, sublinha o professor de Ciência Política na Universidade de Valência. Alerta, no entanto, que está em curso “uma luta pelo voto ao centro, com PP e PSOE a disputarem os restos do Ciudadanos”.

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