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O que vai a "Bidenomics" significar para a economia dos EUA (e para as outras)? /premium

Joe Biden prometeu baixar impostos para a classe média e garantiu investimentos na saúde, educação e infraestruturas. Mas podem existir, a curto e a longo prazo, "custos" desta "Bidenomics".

Enquanto candidato democrata, Joe Biden prometeu baixar impostos para a classe média, jurou que fará enormes investimentos na saúde, educação e infraestruturas e deixou claro que irá procurar ter uma postura mais construtiva em relação aos principais parceiros comerciais (embora tenha garantido que não descurará a exigência em relação à China). À primeira vista, uma presidência Biden nos EUA significará um maior impulso na economia no médio prazo, sobretudo se se confirmar uma vacina para a Covid-19. Mas, no curto prazo, há quem alerte que Biden torna mais provável uma recessão na maior economia do mundo do que num segundo mandato de Trump – e há, também, quem avise que no longo prazo há um “custo” muito pesado das políticas do Partido Democrata, se forem aplicadas na íntegra.

Numa nota de análise emitida já esta sexta-feira, James Knightley, economista-chefe internacional do banco holandês ING, indicou que vê uma vitória de Biden com “otimismo, a longo prazo” mas “a curto prazo as coisas não parecem tão boas”. “Joe Biden tem prometido enormes aumentos do investimento em áreas como a saúde, a educação e infraestruturas”, diz o economista, salientando, porém, que uma presidência democrata nesta altura também pode implicar, a prazo, “alterações fiscais e regulatórias” que poderão ser menos benéficas para o crescimento económico e para o desempenho dos mercados financeiros. “Contudo, se o Congresso continuar nas mãos dos republicanos, poderemos ver essas iniciativas diluídas”, assinala James Knightley.

Posto de outra forma, “a longo prazo há boas perspetivas para a economia porque, afinal de contas, estamos a antecipar cerca de um bilião de dólares em investimento e despesa pública adicional – 5% do Produto Interno Bruto (PIB) norte-americano”. Mas “no curto prazo”, a expectativa é que Biden seja um Presidente com uma tendência maior (do que Trump) para aplicar medidas restritivas com o objetivo de conter a propagação do novo coronavírus, “o que coloca em cima da mesa um cenário de que a economia dos EUA volte a registar uma contração”.

Cinco dias antes de os norte-americanos irem votar – em rigor, aqueles que foram presencialmente à urna no dia da votação, 3 de novembro – surgiu a informação de que a economia dos EUA tinha disparado mais de 33% no terceiro trimestre (depois de uma quebra de 31,4% no trimestre anterior). Essa foi uma consequência das medidas de desconfinamento que foram aplicadas não só nos EUA mas na generalidade dos países, com graus diferentes, mas, também, das medidas de apoios federais a empresas e famílias, que também estão a beneficiar das taxas de juro cada vez mais baixas nos créditos que contraíram.

"No curto prazo", a expectativa é que Biden seja um Presidente com uma tendência maior (do que Trump) para aplicar medidas restritivas com o objetivo de conter a propagação do novo coronavírus, "o que coloca em cima da mesa um cenário de que a economia dos EUA volte a registar uma contração".
James Knightley, economista-chefe internacional do ING.

Os números do emprego divulgados esta sexta-feira nos EUA, que apontaram para um aumento de 638 mil postos de trabalho não-agrícolas no mês de outubro – um mês onde já houve um aumento substancial do contágio da Covid-19 na generalidade dos países – “demonstram que a recuperação económica nos EUA é bastante robusta“, comentou Christoph Balz, economista do alemão Commerzbank, lembrando que quando se contabilizam os empregos criados só no setor privado, nos últimos três meses, estes atingem cerca de um milhão de novos postos de trabalho. Mesmo sabendo-se que nos EUA e em muitos outros locais “demorará muito tempo até que se volte à situação que existia antes da pandemia“, o Commerzbank olha para os dados recentes como “positivos”.

Mas é preocupante, no entanto, que “tendo em conta a animosidade política entre os dois lados [democratas e republicanos], poderá ser muito difícil chegar a acordo sobre esforços importantes para ajudar o país a ultrapassar este período difícil”, diz James Knightley, do ING. E, aí, Holger Schmieding, economista do Berenberg Bank, sublinha que muito vai depender da forma como se repartir o poder no Congresso, sob uma presidência de Joe Biden.

A “Bidenomics” e as suas consequências, por pontos

Sucintamente, com Biden na Casa Branca e com os republicanos a manterem o controlo do Senado, eis o que significará esta “Bidenomics”, aos olhos deste economista: “Uma mudança no estilo e na substância da governação; potencial para sarar algumas feridas na sociedade norte-americana e entre os EUA e os aliados europeus; um papel mais ativo do governo a par de regulações mais apertadas em áreas como a política laboral, ambiental e industrial; e, eventualmente, um ímpeto no sentido de aumentos de impostos – embora os republicanos no Senado devam travar esse movimento, em certa medida”.

Para Holger Schmieding, também, uma vitória de Biden significa “um impulso orçamental significativo, de curto prazo, já em janeiro – embora não seja tão ambicioso quanto seria caso além da vitória de Biden na corrida à Casa Branca os democratas obtivessem, também, o controlo do Senado” (sendo certo que a Câmara dos Representantes continuará com maioria democrata). Ou seja, é previsível que o Senado controlado pelos republicanos irá opôr-se a um aumento demasiado grande da despesa e do endividamento federal.

Para o que se pode chamar um “médio prazo”, o raciocínio da maioria dos economistas é que, tendo em conta a recuperação notória que a economia norte-americana registou no “desconfinamento” (à imagem do que aconteceu também na Europa, antes da “segunda vaga”), se se confirmarem as esperanças de que podem surgir no início do próximo ano uma ou mais vacinas seguras e eficazes isso poderá desencadear uma “retoma furiosa” na atividade económica – apoiada nas políticas monetárias ultra-expansionistas que a Reserva Federal irá manter pelo menos durante mais algum tempo.

Uma vitória de Biden significa "um impulso orçamental significativo, de curto prazo, já em janeiro – embora não seja tão ambicioso quanto seria caso além da vitória de Biden na corrida à Casa Branca os democratas obtivessem, também, o controlo do Senado".
Holger Schmieding, economista do Berenberg Bank

Onde os economistas tendem a discordar mais é sobre se, longo prazo, a economia norte-americana não terá uma espécie de ressaca provocado pelo inevitável reequilíbrio não só das contas públicas como, também, das políticas do banco central (a Reserva Federal).

Um alerta para esse possível “custo da Bidenomics” surgiu ainda antes das eleições, nas páginas do The Wall Street Journal – citando um estudo do Instituto Hoover onde se antecipa que “se a agenda económica de Biden se cumprir, na íntegra, até 2030 haverá uma redução do número de empregos (full time) de cerca de 3% e uma quebra de 8% no PIB real per capita nos EUA”.

O que é que isso significa? Como alerta o The Wall Street Journal, com base nesse estudo, “neste cenário até 2030 isso significa que haverá menos 4,9 milhões de norte-americanos empregados, menos 2,6 biliões em riqueza produzida anualmente nos EUA e, também, uma descida de 6.500 dólares na mediana dos rendimentos das famílias”.

"Se a agenda económica de Biden se cumprir, na íntegra, até 2030 haverá uma redução do número de empregos (full time) de cerca de 3% e uma quebra de 8% no PIB real per capita nos EUA".
The Wall Street Journal, com base em estudo do Instituto Hoover

Em termos simples, estas são estimativas que se baseiam, sobretudo, nas perspetivas de aumento dos impostos sobre as empresas e num aumento dos custos unitários do trabalho sobretudo nos rendimentos mais elevados (o programa prevê, por exemplo, uma contribuição adicional de 12,4% para a Segurança Social nos rendimentos anuais acima de 400 mil dólares – uma fasquia que não é ajustada à inflação, portanto tendencialmente haverá, a cada ano, mais americanos a terem de pagar essa contribuição).

“O risco das políticas de Joe Biden não é que coloquem a economia a cair já. O problema é que terão um impacto corrosivo a longo prazo com um aumento do custo do capital, com a redução dos incentivos para trabalhar e investir e com a redução da produtividade em várias áreas da economia”, escreveu o The Wall Street Journal, acrescentando: “Os americanos vão pagar o preço com um padrão de vida menor do que teriam de outra forma – e um padrão de vida menor do que aquele que merecem”.

Entre o fatalismo do Instituto Hoover e o otimismo de alguns economistas, pelo menos no médio prazo, há quem desvalorize toda esta discussão e desdramatize a importância que uma eleição presidencial pode ter. “Falando de forma realista, os Presidentes recebem demasiados aplausos quando as coisas correm bem e recebem demasiadas críticas quando as coisas correm mal”, comenta Darrell Spence, economista do Capital Group – “Na maior parte das ocasiões, as dinâmicas que contribuem para o crescimento económico e para a evolução dos mercados financeiros instalam-se muito antes de uma eleição e prolongam-se muito depois disso“.

Biden vai colocar ponto final às “guerras comerciais”?

E o que pode significar uma presidência Biden nas relações dos EUA com as outras economias, designadamente a Europa? Depois de um primeiro mandato marcado pelas tensões comerciais não só com a China mas, também, com o aumento das taxas alfandegárias com a Europa, “num eventual segundo mandato de Trump provavelmente iria intensificar-se a atual política cética e até hostil em relação à União Europeia”, escreveram os economistas Guntram Wolff e Uri Dadush, do think tank Bruegel, em Bruxelas.

Em contraste, “há poucas dúvidas de que uma presidência Biden marcaria uma normalização das tensões entre a União Europeia e os EUA, além de um regresso à civilidade“.

"Há poucas dúvidas de que uma presidência Biden marcaria uma normalização das tensões entre a União Europeia e os EUA, além de um regresso à civilidade".
Guntram Wolff e Uri Dadush, do think tank Bruegel

Porém, “mesmo com Biden vai manter-se o dilema da UE de gerir as suas relações comerciais com dois players geopolíticos que são adversários”, diz o Bruegel, referindo-se aos EUA e à China. Aí, é “provável que persista uma tendência para afastamento da China no que diz respeito à área tecnológica, pelo menos até que lá (na China) existam avanços estruturais enormes, que parecem improváveis para o futuro próximo”, diz o Bruegel.

Já no que diz respeito à relação entre os EUA e a Europa, muito depende da forma como a UE reagir, sublinha o think tank: “À medida que os EUA adotarem uma postura mais cooperativa e construtiva em temas difíceis como os padrões sanitários, subsídiação, privacidade dos dados, emissões carbónicas e taxação do e-commerce, deverá estar no topo das prioridades para a Europa construir uma posição comum”.

Se isso não acontecer, avisa o Bruegel, “isso poderá contribuir para que a questão das relações comerciais com a Europa cair ainda mais na lista de prioridades da administração Biden”.

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