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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Reforçado mas não maioritário, Montenegro já conta com "sentido de Estado" do novo PS

Cumpriu-se a profecia da AD: Montenegro enterrou a Spinumviva e enterrou Pedro Nuno. A meio da campanha, já se fazia contas ao resultadão do Chega. Agora, a AD espera que o novo PS o deixe trabalhar.

Luís Montenegro havia acabado de discursar no Expoeste das Caldas da Rainha. Apesar da sala cheia, fora recebido com pouco interesse. Antes dele, Margarida Balseiro Lopes tinha sido praticamente ignorada. Nuno Melo queixara-se de como a sala estava “fria”. A notícia de que André Ventura se tinha sentido mal e estava a caminho do hospital piscava nos telemóveis de todos. As televisões passavam em loop as imagens do momento.

Um influente elemento da equipa de Luís Montenegro senta-se então na mesa onde estavam os últimos jornalistas. Não esconde a desilusão enquanto rabisca as próprias projeções da AD para a noite eleitoral. Na toalha de papel deixa a sua própria aposta: 24% para o Chega; 23% para o PS. Perante reação de estupefação, o mesmo elemento da equipa de Montenegro volta a rabiscar e inverte a ordem. O PS ficaria à frente, mas por uma unha negra. Mas alterara a ordem da aposta a contragosto.

Isto aconteceu a 13 de maio, quando faltavam ainda cinco dias para as eleições legislativas. Mas era há muito um tema de conversa entre elementos da caravana da AD. Apesar de nenhuma sondagem apontar para um reforço do Chega nesta ordem de grandeza, nem para uma desaire tão grande do PS, algumas fontes de PSD e CDS iam dizendo que estas eleições poderiam resultar numa hecatombe para os socialistas — falava-se inclusive do exemplo do PS francês e a forma como, em poucos anos, foi varrido do mapa presidencial.

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O palpite — que nunca é apenas e só um palpite, resulta de uma tracking própria que os grandes partidos vão mantendo ao longo da campanha — estava correto. Este domingo, e quando ainda faltam conhecer os resultados dos círculos da emigração, é quase certo que o Chega fique à frente do PS, o que muda drasticamente a arquitetura parlamentar tal como era conhecida até aqui. André Ventura torna-se, a todos os níveis, líder da oposição.

Esta alteração profunda foi sendo percecionada nas reações que se foram sucedendo esta noite. No quartel-general da AD, no Epic Sana Marquês, em Lisboa, nas conversas informais que foi sendo possível manter ao longo da noite, sentia-se isso mesmo: por um lado, a óbvia satisfação pela vitória sobre o PS com números simpáticos; por outro lado, a evidente consternação com o resultado que o Chega alcançou esta noite — até na forma como foi seguido atentamente, em silêncio e sem qualquer regozijo,  o discurso de André Ventura.

Já no final, quando se dirigiu aos simpatizantes e militantes da AD, Luís Montenegro recusou assumir que o resultado ficou obviamente aquém das expectativas iniciais da coligação, vendendo antes o copo meio-cheio. “Esta foi uma grande vitória. Temos hoje mais votos, mais mandatos e multiplicámos por dez a diferença entre o primeiro classificado e o segundo classificado nestas eleições. Esta maioria é uma maioria maior do que aquela que tínhamos há um ano.”

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Montenegro recusou também falar sobre o crescimento do Chega, dizendo e insistindo que estas eleições representam, sim, “um voto de confiança inequívoco no Governo, na AD e no primeiro-ministro”. Nas entrelinhas, ainda assim, Montenegro não deixou de sugerir que os outros partidos devem “tirar ilações dos resultados que tiveram” e respeitar, de vez, a vontade soberana.

Mas também foi evidente outra coisa: desafiado a dizer se mantém o “não é não” a André Ventura (questão que motivou assobios por parte dos simpatizantes e militantes da AD), Luís Montenegro deixou uma resposta relativamente ambígua. “Tudo faremos para assegurar essa estabilidade. Não me parece que haja outra solução de Governo do que aquela que emane da vontade popular. A todos competirá dar sequência àquela que foi a expressão livre e inequívoca. Já mostrámos que temos palavra e que cumprimos a nossa palavra. Dentro do cumprimento dos compromissos que assumi em nome da AD, tenho a certeza de que vai acabar por imperar o sentido de responsabilidade.”

Ao Observador, no entanto, elementos do núcleo duro de Montenegro garantem que nada mudou em relação ao Chega: não é mesmo não. Até porque, no essencial, este quadro parlamentar oferece um quadro de oportunidades de que Luís Montenegro não dispunha até aqui. Em primeiro lugar, acreditam os homens fortes do primeiro-ministro, a nova liderança do PS não terá condições para continuar a criar obstáculos à governação da AD depois deste resultado. Precisará de tempo para se reorganizar o que antecipa uma atitude mais construtiva nos próximos meses.

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E parece ser essa a chave para entender o discurso de Montenegro esta noite. Ao dizer várias vezes que este resultado obriga a que todos “assumam as respetivas responsabilidades”, o primeiro-ministro e líder social-democrata falava diretamente para os socialistas. “[Que] mostrem verdadeiro respeito pela vontade dos portugueses e maturidade política. Ninguém compreenderá se os políticos não souberem respeitar a vontade do povo. O povo português não quer outro governo, nem querem outro primeiro-ministro. Queremos que nos deixem governar e trabalhar. Se o fizerem, ninguém fica mal. Demonstram por essa via, espírito de missão.”

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“As oposições devem respeitar a vontade popular, honrando os seus compromissos, mas adequando-os às circunstâncias nacionais e coletivas. Espera-se sentido de Estado, responsabilidade, respeito pelas pessoas e espírito de convivência na diversidade. O povo quer este Governo e não quer outro. O povo quer este primeiro-ministro e não quer outro. O povo quer que este Governo e primeiro-ministro dialoguem com as oposições; mas o povo também quer que as oposições dialoguem com este Governo e com este primeiro-ministro”, já tinha avisado Montenegro.

A forma como foi recebida a notícia da demissão de Pedro Nuno Santos, através das televisões dispostas para esse mesmo efeito, foi bem reveladora da forma como os dois líderes já não tinham margem para qualquer tipo de entendimento — o socialista foi várias vezes apupado e, assim que anunciou a demissão da liderança do PS, os militantes e simpatizantes da AD aplaudiram fortemente. Na resposta aos jornalistas, Montenegro recusou falar sobre a futura liderança do PS. “Era o que faltava.”

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Ao mesmo tempo, a nova aritmética parlamentar implica uma coisa: uma vez que a AD tem mais deputados do que toda a esquerda junta, o Chega terá necessariamente de votar contra e alinhado com esse bloco de esquerda se quiser inviabilizar instrumentos de governação importantes (como o Programa de Governo e como o Orçamento do Estado). E isso coloca o partido de André Ventura sob uma grande pressão — até aqui, a pergunta sobre viabilização era sempre colocada ao PS e não ao Chega.

Em terceiro lugar, esta foi a vitória de Luís Montenegro contra a bolha onde cabem todo os que, à boleia da Spinumviva, o atacaram de alguma forma — os jornalistas que fazem perguntas, os jornais que fazem manchetes, os comentadores que ditam sentenças e os adversários políticos que usam a família de um primeiro-ministro para o atacar. Esta noite, figuras como Sebastião Bugalho ou Paulo Rangel, por exemplo, apontaram diretamente aos media. Montenegro estava apostado em dar uma lição à bolha. Contados os votos, é caso para dizer que deu. Não foi por acaso que Montenegro se fez rodear da mãe, mulher e filhos quando subiu ao palco para discursar. “Quero saudar, hoje mais do que nunca, a minha família.”

Em contrapartida, estas eleições mostram que houve, de facto, uma alteração profunda na dinâmica eleitoral e sociológica. Na reta final de campanha, quando se antecipava este resultado do partido de André Ventura, tentavam-se encontrar explicações. O Chega transformou-se em definitivo no partido dos antigos abstencionistas; e os antigos abstencionistas quiseram e querem castigar o regime independentemente do que o regime fez e está a fazer por eles.

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“O Chega é um nome e um programa político”, sugeria há dias um destacado influente social-democrata. Nas ruas, do Porto ao Algarve, chegam relatos à volta nacional de Luís Montenegro da forma como eram recebidas as campanhas da AD em vários sítios: ao contrário do que acontecia há um ano, as pessoas já não tinham “vergonha” de dizer que eram do Chega; e não tinham pudor em dizer aos outros que não os queriam a eles. Foi também por isso que rapidamente a AD percebeu que não ia chegar à “maioria maior” que pretendia.

É por tudo isto que se coloca agora uma questão à AD: o que fazer para conter o crescimento do Chega. O ciclo de poder que agora Luís Montenegro tem pela frente será determinante para solidificar o centro-direita no poder e encontrar respostas para alguns dos fatores que alimentam os vários eleitorados que compõem o Chega. Se Montenegro falhar, nada garante que Ventura fique por aqui. Esta noite, o social-democrata mostrou ao que vai:

“Vamos continuar a valorizar o trabalho e os rendimentos dos portugueses. A estimular o investimento. E, com isso, vamos criar mais riqueza para assim combater a pobreza e garantir prosperidade e justiça social. Vamos continuar a investir na juventude. Vamos continuar a valorizar os trabalhadores da Administração Pública. Vamos continuar a salvar o Estado Social. Vamos continuar a levar a cabo mais regulação da imigração. Mais reforço da segurança. Vamos continuar a estimular a produtividade e a cultura de mérito. Não falharemos, como não falhamos, aos nossos reformados e pensionistas”, prometeu Montenegro.

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