Nem sempre a semiótica é suficiente para retirar todo o significado das coisas. Às vezes os simbolismos não bastam e é preciso ouvir mesmo, de viva voz, aquilo que as coisas realmente significam. A noite eleitoral do Partido Livre — que teve base no Teatro Thalia, em Lisboa — é um reflexo dessa mesma disparidade entre os sinais e a realidade. Faltavam dez minutos para as oito da noite quando se acenderam quatro retângulos num enorme ecrã no palco da sede de campanha. Nessas quatro formas, apareciam projetados quatro canais de televisão, com a contagem decrescente até ao grande momento da divulgação das projeções. Análise para aqui, análise para ali, os militantes presentes na sala foram assistindo, com alguma ansiedade.
Dez minutos depois, os primeiros resultados preliminares: o Livre tinha, na média de todas as projeções, entre 2,9% e 6,2% e conquistaria entre 4 a 10 lugares do Parlamento, o que criou o primeiro momento de celebração. E a partir daí, não mais os quatro ecrãs se voltaram a desligar. Os primeiros números foram mostrados. As primeiras análises ouvidas. As primeiras informações recebidas. Todos os que estavam na sala assistiam atentos aos quatro canais projetados na tela. Até que um Nissan parou à porta de um hotel. De lá, mostrado nas imagens, saiu André Ventura, acabado de chegar de uma missa. O presidente do Chega fazia aí a primeira declaração. Até que… fim de transmissão. As imagens que até agora tinham sido transmitidas, em quase 1h30 de projeção, eram agora substituídas pelo vídeo de fundo do palco, com o logótipo do Livre e o lema da campanha. Minutos depois, já Ventura tinha saído de cena, os canais de televisão voltaram ao palco do Teatro Thalia.
Jorge Pinto, número 1 pelo Porto, no momento em que foi eleito, em videochamada com Lisboa
Era este o sinal. A semiótica a falar a quem estava na sala. Do gesto, simbólico, podia retirar-se a interpretação: André Ventura não iria pôr os pés no quartel-geral do Livre, quer fosse fisicamente — o que seria improvável –, quer fosse à distância, pela televisão. Era isso que a semiótica poderia dizer. Mas não disse. A noite mais bonita, feliz e doce da história do Livre ganhou sempre um prefixo neste último adjetivo. “Agridoce” foi uma das palavras mais usadas da noite, em que a vitória do Chega e da direita, afinal, estiveram sempre presentes. E desde a primeira reação.
Isabel Mendes Lopes, a número 2 por Lisboa — que na altura ainda não tinha recebido a boa notícia da eleição — foi quem deu voz à primeira reação às projeções. A líder parlamentar na última legislatura começou por deixar uma bicada ao Chega: “A todas as pessoas que votaram em nós, o Livre nunca vos vai envergonhar no Parlamento”. No fecho da declaração admitia: “A direita radicalizada continua em maré alta, o que é uma grande preocupação do Livre. Um país não cresce nem é feliz com o ódio”.
A partir daí, em cada reação feliz, havia sempre uma admissão de uma noite manchava pelo crescimento da bancada à direita. Jorge Pinto — número 1 pelo Porto — foi o primeiro a conseguir a eleição e apareceu nos ecrãs da sede de campanha do Livre através de videochamada. Explicou que foi um dia “muito feliz para o partido”, mas um dia “muito triste para Portugal”, com o crescimento do Chega. Uma mensagem que se foi repetindo por várias palavras pelos vários candidatos eleitos, até mesmo quando se bateu o recorde.
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Paulo Muacho fez história e foi o quinto deputado eleito pela primeira vez na história do partido. Foi o maior momento de festa numa noite longa e que apelou ao orgulho da papoila ao peito: “A nossa forma de fazer política é a correta. Temos de mostrar ao país como é que podemos continuar a fazer política desta forma, em todos os bairros e vilas de Portugal”. Mas mesmo aí, a mancha da noite manteve-se: “Esta é uma noite que vai ser difícil para a esquerda, mas o Livre está a crescer e a ganhar força”, disse Paulo Muacho.
Mas não foi só o Chega a tentar fazer sombra à distância na noite de festa do Livre. Também a Iniciativa Liberal “apareceu”, de quando em vez, nas palavras de quem falou no Teatro Thalia. E aí foi o porta-voz Rui Tavares a assumir o desafio. De sorriso de orelha a orelha, não demorou a subir a palco, apenas segundos depois de serem conhecidos os resultados finais. Obviamente, e de forma justa, as primeiras palavras foram para a conquista do partido. Seis. Seis deputados do Livre no Parlamento, com o co-fundador do Livre a deixar a garantia: “Com o grupo parlamentar do Livre, quem votou em nós só vai sentir orgulho e nunca se vai arrepender no nosso voto”. E lançou uma missão: “Nós vamos dinamizar um grande movimento democrático e progressista no nosso país. Este é o início da reviravolta, nós vamos a todos os cantos deste país!”, apelou a cara do partido.
Rui Tavares, no discurso final, no Teatro Thalia
E como? O foco está num dos trunfos do partido Chega: “Eu não faço intenções de ficar em casa a refletir. Quero estar nas ruas. Temos de agir. Temos de formar lideranças locais e jovens, nas redes sociais, é virar o jogo, com vontade de vencer e mudar”. E com uma missão tão bem definida, é porque o objetivo está também identificado. E é aí que entra a IL. Durante a campanha, Rui Tavares não tinha sido parco em metas: queria mais 100 mil votos, ser a quarta força política e duplicar o número de deputados. Não conseguiu nenhum dos três — apesar dos resultados positivos — e muito por culpa dos liberais, que ficaram com o quarto posto. Mas não é isso que faz demover o historiador, que quer escrever outra história no futuro. “O nosso destino não é ser um partido de nicho. Desengane-se quem o acha. O Livre é um partido de formação de maiorias. E é por isso que olhamos para a frente e para cima e temos esse objetivo político. Não teria de ser já, mas seria melhor. Mas queremos ficar à frente da Iniciativa Liberal. Não lhes queremos, necessariamente, mal por isso, mas queremos ficar à frente deles para depois esvaziar o Chega. […] E se é verdade que a Iniciativa Liberal está com mais deputados que o Livre, a última vez que eu vi não estava assim tão longe. Não perdem pela demora”, atirou Rui Tavares.
E a verdade é que não ficou mesmo assim tão longe. Ainda com “apenas” os votos do território nacional apurados, o Livre só consegue menos três deputados do que a IL, numa distância de 80 mil votos. Face a 2024, ganhou a confiança de mais 50.763 portugueses e a seguir à AD e ao Chega foi quem conseguiu maior aumento de votos em termos absolutos. Sinais de esperança para o partido, que na noite mais bonita — e agridoce — da sua história quer ter mais noites bonitas, mas sem o prefixo antes dos adjetivos. E esse futuro é — quer Rui Tavares — já a seguir: “A reviravolta que temos de fazer vai acontecer já nas eleições autárquicas”.