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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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O trunfo "Ferreira Leite" no grande ensaio de Montenegro para a campanha eleitoral

Ao lado da convidada de honra, Manuela Ferreira Leite, que roubou o palco do Conselho Nacional, Montenegro lançou as bases para a próxima campanha eleitoral. Figuras do PSD arrasam Pedro Nuno Santos.

Por Luís Montenegro, pelo PSD, pelo país. Na noite em que Luís Montenegro procurou no Conselho Nacional, o órgão máximo entre congressos, a sua relegitimação como candidato do partido a primeiro-ministro, foi Manuela Ferreira Leite a roubar todas as atenções. Afastada destas reuniões desde que deixou a liderança do partido, há mais de 15 anos, a antiga ministra das Finanças apareceu ao lado de Montenegro para fazer uma inequívoca demonstração de apoio, num discurso em que, além da defesa em toda a linha do atual primeiro-ministro, fez ainda duras críticas a Pedro Nuno Santos.

Segundo apurou o Observador, Ferreira Leite tinha dado indicações de que não queria que a sua intervenção fosse filmada. No meio de alguma confusão, e já depois de os jornalistas e repórteres televisivos terem sido convidados a sair, houve novas indicações do staff de Luís Montenegro para permitir que os jornalistas assistissem, sem captar imagens, às palavras da antiga presidente do partido. Não havia margem para dúvidas: o PSD e Montenegro queriam mesmo que as palavras de Ferreira Leite passassem para fora das paredes do Hotel Sana, em Lisboa.

Numa intervenção muito aplaudida, Ferreira Leite enumerou as tais três razões que a levaram a marcar presença neste Conselho Nacional: Luís Montenegro, o PSD e o país. “Não tendo os homens a estaleca de uma mulher pensei que pudesse de alguma forma abanar. [Então], vinha cá pedir-lhe que não desistisse. O país precisa de si”, começou por atirar a social-democrata.

Em segundo lugar, Ferreira Leite disse que decidiu marcar presença nesta reunião do órgão máximo do partido entre congressos para avisar o PSD: não era tempo para aventuras. “Tive algum receio de que pudesse haver alguma movimentação e pensei que tinha de vir cá dizer que o PSD nunca poderia alinhar numa decisão que não fosse a recondução de Luís Montenegro.” Era um claro recado para todos aqueles que conspiram na sombra contra Montenegro e que vão suspirando por Pedro Passos Coelho — que Ferreira Leite sempre combateu politicamente.

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Em terceiro lugar, continuou a social-democrata, o país. Nesta parte do discurso, Manuela Ferreira Leite atirou diretamente a Pedro Nuno Santos. “Não acredito que Mário Soares e Jorge Sampaio fizessem uma campanha com base na suspeição. Nunca vi nada de tão baixo na política. Isto é o caminho para a ditadura”, rematou a antiga líder social-democrata. Acabou aplaudida de pé e, com alguma ironia, alguns sociais-democratas iam comentando baixinho que tivesse Montenegro metade do rasgo discursivo de Ferreira Leite e talvez as coisas tivessem corrido melhor. Às 00h02, a antiga ministra era acompanhada até ao carro por Paulo Cavaleiro, secretário-geral adjunto do PSD. Tinha cumprido o seu papel.

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As seis bases da estratégia de Luís Montenegro

Antes de Manuela Ferreira Leite, palco para o líder social-democrata e candidato a primeiro-ministro. Num discurso de 40 minutos, Luís Montenegro desenhou as bases da estratégia discursiva que vai levar para a campanha eleitoral, tentando recuperar um capital que mesmo os seus indefetíveis reconhecem que saiu muito beliscado depois desta crise política — se é que a crise política já acabou de facto (no partido, ninguém esconde que há um enorme receio sobre que novos casos poderão ser desenterrados pelos jornais nos próximas dias e semanas).

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Primeira base: pôr-se acima dos “políticos”. Tal como Aníbal Cavaco Silva, figura que tenta sem reservas emular, Luís Montenegro apresentou-se neste Conselho Nacional como “não-político”. Demarcando-se várias vezes do “eles”, os “políticos”, Montenegro tentou provar que, ao contrário “deles”, os “políticos”, olha de facto para as reais necessidades do país, não tem “vistas curtas”, conhece a “realidade” em que vivem os portugueses. Os outros, “os políticos”, estão, na verdade, a “trair o interesse nacional” e o “futuro” do país.

Segunda base: a Europa aprecia o Governo e a Europa não percebe a crise. Segundo Montenegro, os parceiros europeus estão impressionados com o “exemplo” da governação portuguesa e têm uma impressão muito positiva da situação do país. O líder social-democrata aproveitou, de resto, a presença da nova coqueluche do partido, Sebastião Bugalho, para validar a tese de que Bruxelas admira muito o Governo português e não quer acreditar naquilo que está a acontecer.

Para reforçar esta ideia, Luís Montenegro repetiria uma história que já contou no passado: há parceiros europeus que já mostraram muito interesse nas políticas focadas nos jovens, dos descontos no IRS às isenções de impostos na compra da primeira casa. Por tudo isto, insistiu Montenegro, a Europa assiste agora “atónita” àquilo que “está a acontecer a Portugal”. E a mesma Europa está solidária com o seu Governo, assegurou Montenegro. “Devo dizer-vos que está expectante para ver quão reforçado vai sair o Governo face à situação criada.”

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Terceira base: atacar a oposição. Boa parte do discurso do primeiro-ministro foi passada a criticar o PS, mesmo que o nome de Pedro Nuno Santos nem sequer tenha chegado a ser mencionado. Montenegro retratou-se como o único protagonista que quer “discutir o país” e que enfrenta com coragem os que só querem deitá-lo abaixo recorrendo a jogadas e golpes. O tal jogo político baixo, disse Montenegro, é “a última esperança a que os mais fracos se lançaram” e estão a tentar quebrar a Aliança Democrática “cortando a cabeça ao Governo”.

Montenegro quis sempre mostrar-se como alguém que está acima desse tipo de política “baixa”, numa tentativa de deixar o caso Spinumviva para trás. Já depois de ter acusado a oposição de usar “abusivamente” a exigência de escrutínio, prometeu “não se deixar enredar nesse jogo”. Para o primeiro-ministro demissionário, o esforço passa por fazer esquecer o caso e partir “à conquista do povo”.

Quarta base: defender a honra. Por esta altura do seu discurso, Luís Montenegro voltava a mimetizar Aníbal Cavaco Silva com uma frase muito idêntica àquela que o ex-Presidente da República ajudou a celebrizar. Se há uns anos Cavaco Silva disse que “para serem mais honestos” do que ele “tinham que nascer duas vezes”, hoje, quarta-feira, Luís Montenegro sugeriu: “Tomara eu que a política estivesse preenchida com tantos agentes com a independência que sempre tive”, atirou o primeiro-ministro.

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Apesar de se ter afastado progressivamente de Pedro Passos Coelho, de quem foi líder parlamentar durante os exigentes anos da troika, ao ponto de Passos ser, hoje, o grande papão para a atual direção do partido, Montenegro não deixou de reeditar uma frase que o antigo primeiro-ministro chegou a usar para valer os seus argumentos. Em 2013, durante a crise do irrevogável, Passos falou ao país para dizer que não se demitia, nem abandonava o país; mais de dez anos depois, Montenegro declarou: “Não, eu não vou desistir de Portugal. Não me deixo intimidar, mesmo quando todos os limites são ultrapassados. Estou aqui para dar e durar”. Por muito que a distância tenha crescido entre os dois — Montenegro e Pedro Nuno — há coisas que não se esquecem.

Quinta base: defender o legado de 12 meses. Num momento que já é de pré-campanha importa ensaiar o discurso dirigido, mais do que ao PSD, aos eleitores – e Montenegro fê-lo, passando em revista as principais bandeiras do seu curto Governo e garantindo que fez muito em pouco tempo. Uma palavra para as empresas (a fabricação do modelo de automóvel elétrico da Volkswagen pela Autoeuropa voltou a ser referida), as medidas dirigidas aos jovens, os apoios aos pensionistas, eleitores com quem Montenegro se tentou reconciliar desde o primeiro minuto, as medidas para a imigração, que acabaram com uma “autêntica bagunça”, e a segurança — ou o risco da insegurança. “É disto que queremos falar”, disparou. Sempre por contraste com os adversários, e sempre de olho no relatório e contas que pode levar para a campanha.

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Sexta e última base: defender que superou as expectativas e agora merece ver renovada a confiança nele. Luís Montenegro, e isso foi sendo reconhecido pelo próprio e mesmo por quem sempre esteve do seu lado desde o primeiro minuto, não tinha uma imagem convincente quando se apresentou como líder do partido, em primeiro lugar, e depois como candidato a primeiro-ministro. De alguma forma, justa ou injustamente, ao longo do seu percurso de político, colou-se-lhe à pele a ideia de que não passava de um tribuno competente e de um tático inconsequente, mais vocacionado para as lutas do aparelho partidário do que para dirigir um país.

Na última campanha eleitoral, aliás, vários socialistas tentaram forçar essa narrativa contra Luís Montenegro. Mas a verdade é que o social-democrata venceu — por pouco, mas venceu — e, durante os 12 meses de governação, conseguiu que as sondagens apontassem sempre duas coisas: bons índices de aprovação (acima dos do próprio Governo) e um grau de confiabilidade superior a todos os outros agentes. Para Montenegro, todos aqueles que o subvalorizaram falharam; e, sem mais argumentos, procuram agora atacar a sua honra. “Não tenham a menor dúvida: têm medo da minha independência”, disparou o líder social-democrata, para um dos maiores aplausos da noite.

O tiro ao boneco Pedro Nuno, um “sem vergonha” e “charlatão”

“Sem vergonha”, “charlatão”, “sem limite moral”. Num Conselho Nacional que pareceu mostrar-se unido à volta do líder, mas também à volta dos ataques ao PS, Pedro Nuno Santos fez o papel de pinhata humana. As críticas, duríssimas, foram variadas e feitas sempre à porta fechada como costuma acontecer em todos os Conselhos Nacionais. Com uma diferença: desta vez, havia uma vontade concertada para que estas intervenções tivessem eco junto da comunicação social.

Começaram logo quando o presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, aqui a falar para o seu partido, acusou Pedro Nuno de “ter feito pior à democracia nos últimos seis dias do que André Ventura nos últimos seis anos”, classificando a comissão de inquérito pedida pelo PS como uma perseguição ao primeiro-ministro – “o Chega inventou a técnica, o PS institucionalizou”.

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Referindo-se ao debate parlamentar de terça-feira, que resultou na queda do Governo, o presidente da Assembleia da República terá dito que foi um ataque ao “regime”. O social-democrata visou ainda alguns comentadores, como Daniel Oliveira ou Pedro Marques Lopes e, claro, Pedro Nuno Santos.

“Quando achamos normal que um deputado se pode substituir à Polícia Judiciária ou a qualquer outra entidade e perseguir um deputado, ministro, ou primeiro ministro. Quando achamos normal termos de esperar por um Daniel Oliveira ou um Pedro Marques Lopes para dizer o que é aceitável ou não. Quando temos um líder de um partido fundador da democracia, a dizer o que alguém pode ou não fazer fora da vida política… Abriu-se esta porta quando se começou a usar as CPIs para atacar as pessoas”, terá lamentado Aguiar-Branco.

Em linha com essa crítica, e já depois de na terça-feira Montenegro ter dito estar “em choque” por ver o PS utilizar técnicas que associaria ao Chega, o Conselho Nacional concordou e seguiu o mesmo guião: Sebastião Bugalho acusou Pedro Nuno de não ter um “limite moral” e de representar um “Chega de esquerda”. O eurodeputado chegou a mesmo a falar num “assalto institucional” promovido por Pedro Nuno Santos.

Luís Campos Ferreira, antigo secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, atual presidente do conselho de fundadores da Casa da Música e uma das figuras mais próximas de Luís Montenegro descreveu o socialista como um “sem vergonha” e o seu partido como uma “corista ordinária do Chega”. Hugo Carneiro, deputado e vice-presidente da bancada parlamentar do PSD, arrumou o desfile de críticas descrevendo o líder do PS como um “charlatão” (Ventura levou o rótulo de “vigarista”).

Houve ainda vários ministros a intervir para se mostrarem alinhados com Montenegro. Foi o caso de Miguel Pinto Luz, que elogiou a capacidade de “convocatória” de Luís Montenegro e declarou que o PSD está unido em torno do seu “general” para percorrer “sem medo” o caminho para a “guerra” das eleições. Também Paulo Rangel defendeu a posição de Montenegro, que disse ter agido, já sem alternativas que travassem a queda do Governo, para evitar o “apodrecimento lento” das instituições. Estava cumprida a noite.

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